MUSEU INHOTIM – PARTE IV: A controvertida vida de Bernardo de Mello Paz, o fundador do Museu Inhotim

O Museu Inhotim é considerado um dos maiores museus de Arte Contemporânea a céu aberto do mundo, inserido num majestoso jardim botânico que apresenta uma das maiores coleções de palmeiras da América do Sul. Inaugurado em 2006, o Inhotim hoje é conhecido internacionalmente pelas obras de Arte Contemporânea, que estão em completa harmonia com a natureza e dialogando com o meio ambiente.

Neste post vamos conhecer alguns detalhes da controvertida vida do fundador: Bernardo de Mello Paz.

Bernardo de Mello Paz


Bernardo de Mello Paz, o idealizador do Museu Inhotim, comprou uma quantidade de terras nas proximidades da área urbana de Brumadinho, a 60 Km de Belo Horizonte. Ali passava os finais de semana, comprando, posteriormente, uma quantidade maior de terras, já com o objetivo de criar o museu. Com auxílio de artistas de Arte Contemporânea e paisagistas, projetou um espaço extenso com exuberantes jardins que dialogam com as obras de arte, com a natureza e com a arquitetura das galerias.

Resquícios de uma fazenda, adquirida pelo empresário Bernardo Paz para casa de campo e refúgio de fins de semana, o nome do Instituto seria oriundo do seu antigo proprietário inglês, um tal Tim, de onde vem om o nome atual “Senhor Tim” ou “Inhô Tim”, em meados de 1980.

Em primeira pessoa, Bernardo relata a história de sua família: “A forma como somos educados é muito determinante. Eu tive duas grandes influências na minha formação: meu pai e minha mãe. Meu pai era descendente de militar e era um disciplinador. Ele ninava a gente com os hinos nacionais, que são imponentes, falam em liberdade e transformam as pessoas em heróis. Minha mãe era apaixonada pela vida e pelos filhos, era extremamente sensível, muito emotiva, mas não era pragmática. Ela era desorganizada, fazia poesia, pintava e tinha um senso de humor fora do comum.  Essa combinação de rigidez e sensibilidade criou limites para a mediocridade, não permite que você seja medíocre. A ideia era crescer, crescer, crescer e vencer. Quis muito vencer na vida em busca de uma causa maior. Trabalhei demais e tive muitos acertos e erros”.

“Em uma viagem a Acapulco (México), vi um muro enorme. Subi nesse muro para descobrir o que havia do outro lado e me deparei com um jardim extraordinariamente lindo, uma orquestra tocando, um lago enorme e um monte de gente dançando em volta daquele jardim iluminado. Essa experiência marcou o resto da minha vida. Depois disso, trabalhei, viajei, conheci quase o mundo todo. Um dia tive a nítida impressão de que tudo aquilo que eu havia construído e que, em um primeiro momento, parecia estar cumprindo a minha tarefa estava sendo dilapidado”, lembra Bernardo.

“Em um determinado período resolvi me afastar um pouco das empresas e coloquei profissionais à frente da condução dos negócios. Eu já tinha adquirido a fazenda Inhotim e resolvi fazer um jardim maravilhoso, provavelmente influenciado pela beleza que minha mãe expressava na pintura, na poesia e na sensibilidade, pela glória que meu pai apregoava e por aquela imagem do jardim no México. Tornei-me amigo de Roberto Burle Marx imediatamente. Ele tinha bom gosto e era muito inteligente. O jardim cresceu e eu passei a me interessar por arte. A partir de uma conversa com um artista brasileiro, o Tunga, percebi que a arte tem que ser política, instrutiva e interativa. E para isso precisava de espaços grandes. Não é possível construir obras enormes e interativas em museus dentro da cidade. Intuitivamente fui construindo os pavilhões, colocando as obras, trouxe artistas para escolher onde queriam colocar as obras”, relata Bernardo.

Um dia, a Mary Goldman, dona de uma importante galeria em Nova Iorque, veio me conhecer. Na despedida ela me disse que eu não podia errar. Então me aconselhou a procurar pessoas que estudassem arte contemporânea para buscar orientação. Mas ressaltou que eu não deixasse nunca de ter meu próprio olhar sobre a arte. Depois de um tempo percebi que, apenas como museu e jardim botânico, o Inhotim era um lugar muito elitista. Então constatei que precisava introduzir conhecimento e fui buscar pessoas para ampliar as ações do Inhotim nas áreas das artes, meio ambiente, inclusão e cidadania e produção de conhecimento. Ao respeito do futuro Bernardo Paz diz: “Não sei qual vai ser o próximo passo. Isto aqui não se acaba. Aqui sempre será”.

Para muitos a figura de Bernardo de Mello Paz e controvertida. Casou 6 vezes, a quinta esposa foi a artista plástica Adriana Varejão, uma das mais importantes e bem-sucedidas artistas plásticas de sua geração: já participou de importantes Bienais e teve trabalhos mostrados no Moma, em Nova York, na Fundação Cartier, em Paris, Hara Museum em Tóquio etc. Ela tem sua própria galería em Inhotim que pronto tornou-se a mais reconhecida do Instituto. Depois do divórcio de Adriana Varejão, voltou a casar pela sexta vez com Arystela Rosa.

Entrevista à revista Trip (2013)


Nesta entrevista, Paz explica como se tornou um grande empresário do ramo de mineração, por influência de seu ex-sogro João do Nascimento Pires, dono do antigo Banco Mineiro do Oeste, e os percursos pelos quais passou até construir o Instituto Inhotim:

– Mas como é que você virou dono de mineradora, milionário, e chegou onde está hoje?

– Eu tinha um percentual na mineradora. Quando comprei, era quebrada.

– Mas de onde veio essa mineradora?

– Quando me casei, acabei indo trabalhar no banco que era do pai da minha primeira mulher (o Banco Mineiro do Oeste, de João do Nascimento Pires, primeiro sogro de Bernardo). Ele quebrou e perdeu tudo o que tinha. Eu já tinha saído para cuidar da mineração, que tinha sido dele, mas estava quebrada. Ele tinha perdido a cabeça. A história dele foi dramática, porqueele era um homem extraordinário que nos últimos anos da vida estava na macumba, cortava pescoço de carneiro para tomar sangue. Eu tinha que correr atrás para ele não ser roubado. Pus ele na mineração na época e foi uma tragédia, porque, na hora de pagar os transportadores e pessoal, ele pegava o dinheiro para pagar esses videntes. Então eu passei dez anos segurando greves, acordava às quatro da manhã, chegava em casa à meia-noite. Mas aí esse homem morreu, foi uma complicação.

– Isso foi durante os anos 70, quando teve o milagre econômico?

– Para mim não teve. Eu vivia com duplicatas, dívidas, tinha mais de 2 mil cheques sem fundo. Eu não dormia. Às vezes pra dormir tinha que tomar uma garrafa de uísque, porque não tomava tranquilizante na época. Hoje tomo. Dormia 2 horas e acordava com dor de cabeça, mas ia trabalhar. Minha vida passou como uma ventania. Descobri uma fórmula de resolver esse problema, que era comprar outras empresas falidas, recuperá-las e fazer um monte maior pra sair lá na frente. Chegou um ponto em que a jazida não pertencia à mineração, era arrendada. Aí tive de fazer uma empresa às pressas, para fazer o arrendamento, continuar trabalhando, conseguir pagar toda a dívida e liberar todo o patrimônio. Foi o maior sufoco da minha vida. Minha mulher e eu nos separamos. Fiquei sem nada, criei uma holding e a partir daí eu vi que não tinha saída: a dívida era grande demais. Fui para a China e fiquei amigo de uns ministros chineses. Tive a primeira reunião com o Deng Xiaoping, o secretário-geral do Partido Comunista Chinês.

– Você foi o primeiro empresário brasileiro a ir para a China comunista?

– Ninguém nunca tinha ido à China. Quando eu fui, só os judeus estavam lá. O Deng Xiaoping foi o motor dessa história toda, mas por trás tinha um grupo de pessoas brilhantes. Eles botaram US$ 10 milhões na siderurgia. Comprei outras minas também e virei uma empresa de 10 mil funcionários. Uma correria… Tinha que viajar 300 quilômetros por dia, indo e vindo, correndo atrás. Eu estava bêbado quando comprei a primeira usina siderúrgica. Fiz um discurso que ninguém entendeu.

– Mas foi nessa época que sua história de empresário melhorou.

– Não, o Brasil ficou uma loucura. Teve Plano Cruzado, Plano Collor, Plano Real, e depois o Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco Central entre 2003 e 2011), que acabou com as indústrias botando o câmbio lá embaixo.

– E você estava onde nessa altura?

– Na mineração. O que aconteceu? O minério subiu de US$ 10 para US$ 180. Então, mesmo com o câmbio caindo 100%, o minério subiu 1.800%. Com isso consegui pagar a dívida de bancos, adequar a dívida fiscal, parcelar com o fisco. E consegui triplicar, quadruplicar a produção de minério.

– Quer dizer, aí foi surgindo esse dinheirão. E você ainda vendeu uma mina para os alemães.

– Surgiu o dinheiro e construí Inhotim. A mina eu doei, é uma história longa. Mas acabou dando dinheiro e os alemães retribuíram botando dinheiro no Inhotim. Depois larguei tudo, porque tive um problema de saúde em Paris, em 95, que me fez pensar em fazer algo maior, para a comunidade.

“De lama lâmina”, Matthew Barney, 2009

Assim, o dinheiro investido em Inhotim teria vindo de urna única fonte, pelo menos na versão de Paz. Foi assim: nos tempos das vacas magras, ele costuma contar que tinha urna mina de minério que achava que não valia nada. Um alemão amigo seu, diretor da Thyssen, ofereceu-se para geri-la. Um dia, a mina amanheceu valendo muito, a jazida valorizou-se, o alemão disse que tinha urna oferta por ela e perguntou se ele queria vendê-la, Topou. A mina foi vendida, rendeu cerca de USS 480 milhões, metade para cada um. Ele recebeu a metade, mas a dinheirama dele foi paga na Alemanha, e aí começou o problema. Para repatriar o dinheiro, ele teria de pagar de novo o Imposto de Renda, perderia aí nessa operação uns US$ 100 milhões. Como ele não tinha a menor intenção de perder essa grana, teria criado então urna empresa, a Horizontes Ltda, cuja única intenção seria estabelecer o grande centro de arte contemporânea na região, e a capitalizou com o dinheiro alemão (via offshores em paraísos fiscais). Ele admite a operação, mas, quando lhe perguntam sobre o caso, disque não considera a ação como sonegação, entre amigos, pondera que poderia ter gastado o dinheiro na Alemanha, mas o trouxe de volta e investiu em arte, em um projeto de cunho sociocultural inédito no mundo.

Bernardo de Mello Paz: Juízo e Condena


Ainda que Inhotim seja um lugar paradisíaco para quem gosta de arte, com gigantescos pavilhões que rivalizam em tamanho com os maiores museus do Brasil, apesar da versão açucarada de Bernardo de Mello Paz também é certo que alguns acordos foram feitos entre o governo mineiro pelo Instituto Cultural para a realização de projetos de seu centro cultural.

Entre 2008 e 2015 são evidenciados os processos de criação da RPPN Inhotim, qualificação como OSCIP em nível estadual e federal, e criação oficial do Jardim Botânico Inhotim – JBI, nas categorias ‘provisória’, depois ‘categoria C’ e em seguida ‘categoria B’.

O reconhecimento oficial como organização de interesse público e reconhecimento científico como jardim botânico foram considerados como conquistas, posto que a partir dos títulos obtidos, a instituição se torna apta a pleitear recursos públicos nas instâncias cabíveis, tais como Ministério do Meio Ambiente ou Ministério da Cultura, conforme legislação vigente.

 

Em 2009, o empresário Bernardo Paz foi acusado de participar de um esquema de fraudes que teria resultado num prejuízo de R$ 74,7 milhões ao governo mineiro. O Ministério Público excluiu posteriormente a imputação do crime de formação de quadrilha, mas as investigações seguiram até a sentença judicial sucedida em novembro de 2017, em que Bernardo de Mello Paz foi condenado a nove anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro em regime fechado, ao igual que a irmã dele, Virgínia Paz, a cinco anos e três meses de prisão, em regime semiaberto, pelo mesmo crime.

Entre 2007 e 2008, de acordo com o MPF, a Horizontes recebeu o valor total de US$ 98,5 milhões de um fundo denominado Flamingo Investment Fund, sediado nas Ilhas Cayman, tendo sido constatados diversos saques em espécie nas contas do grupo sem que se pudesse identificar o destino final dos valores’.

“Desvio para o vermelho”, Cildo Meireles

De acordo com denúncia do Ministério Público Federal (MPF), entre 2007 e 2008, o fundo de investimentos Flamingo Investment Fund, sediado nas Ilhas Cayman, repassou US$ 98,5 milhões para BMP Ltd. (que era a controladora de todas as empresas que compunham o grupo Itaminas) e para a empresa Horizonte, criada por Paz, para manter o Inhotim a partir de doações de suas outras empresas. Aconteceu que a maior acionista da Horizontes, a Vine Hill Financial Corp, com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, era uma empresa cujo endereço é o mesmo de diversas pessoas físicas e jurídicas acusadas de cometer crimes de lavagem de dinheiro”.

Esses valores foram recebidos a título de doações e/ou empréstimos para o Instituto Cultural Inhotim, mas logo depois foram repassados, de diversas formas, para o pagamento dos mais variados compromissos de empresas de propriedade de Bernardo de Mello Paz.

Conforme sentença da juíza Camila Velano, ficou demonstrado que “a conta da Horizontes não visava unicamente à manutenção do Instituto Cultural Inhotim, mas também servia de conta intermediária para diversos repasses às empresas do Grupo Itaminas”.

Condenado pela Justiça Federal, o criador do Inhotim, se afastou como presidente do Conselho de Administração da instituição. Em seu lugar assumiu o economista Ricardo Gazel, quem fora diretor-executivo do Inhotim de setembro de 2012 a novembro de 2013.

A partir da condenação, a intenção de Paz foi tentar repassar obras de seu acervo que estão expostas em regime de comodato no Inhotim em troca de quitação do passivo com o governo de Minas (dívida de R$ 500 milhões), relacionada a empresas que possuía na área de mineração. Porém, a dívida original foi reduzida a R$ 150 milhões por participação do grupo em programa de regularização de débitos fiscais. O Ministério Público se manifestou contra o acordo, que ainda está em tramitação.

Em janeiro de 2020, o Tribunal Federal declarou inocente o empresário Bernardo Paz. A decisão de absolver o empresário foi unânime entre os três juízes de uma das cortes do TRF-1. A irmã de Bernardo Paz, Virgínia de Mello Paz, também foi inocentada.

Em sua linha de defesa, o advogado Sânzio Baioneta Nogueira, do renomado escritório que leva seu nome, alegou em recurso que não houve prática criminosa e que as provas eram insuficientes à condenação. A decisão pela absolvição de Paz foi unânime entre os três juízes do TRF-1., no entanto, ainda cabe outros recursos a tribunais superiores desta decisão.

 

fonte:

  • www.inhotim.org.br/home/Galeria
  • Instituto Inhotim: A experiência de um complexo museológico e suas relações com a arte contemporânea, o meio ambiente e o desenvolvimento humano – Cynthia Elias Taboada (1)
  • Entre conceber e construir experiência da arte site specific em Inhotim – Natállia da Silva Azevêdo (2)

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