MUSEU INHOTIM – PARTE II: A Formação do Acervo de Arte Contemporânea

Em Brumadinho, estado de Minas Gerais, o Centro de Arte Contemporânea Inhotim é um museu com conceito arquitetônico diferenciado. Em vez de agregar todas as suas instalações em um único edifício, divide-se em diversas galerias espalhadas.

Ao colaborar com artistas na encomenda de novas obras e na adaptação das existentes a novos espaços, os projetos artísticos de Inhotim lidaram com a paisagem e a natureza e acumularam um impressionante grupo de obras de grande escala. Tendo surgido de um jardim privado, o Inhotim desenvolveu uma intensa linha de trabalho voltada à preservação e desenvolvimento da vegetação e à pesquisa botânica, buscando novas formas de preservar a biodiversidade da região e do Brasil.

Doug Aitken

Sonic Pavilion, 2009

Redondo Beach, Estados Unidos, 1968; vive em Los Angeles, USA


Galeria circular minimalista onde o espectador ouve uma transmissão continua dos barulhos que vêm da terra. Captados por um furo de 200  metros de profundidade no solo. Tem instalados uma série de microfones para captar o som da Terra.

O Pavilhão  sônico é uma obra site-specific desenvolvida a partir de uma ideia pré-existente e resultado de um processo de cinco anos, entre pesquisa, projeto e construção. A obra se fundamenta num princípio bastante simples, embora ambicioso e de complexa realização. Trata-se de abrir um furo de 200  metros de profundidade no solo, para nele instalar uma série de microfones e captar o som da Terra. Este som é transmitido em tempo real, por meio de um sofisticado sistema de equalização e amplificação, no interior de um pavilhão de vidro, vazio e circular,  que busca uma equivalência entre a experiência auditiva e aquela com o espaço.

Doug Aitken encontrou em Inhotim não apenas as condições técnicas para o desenvolvimento da obra, mas também um contexto onde o trabalho fizesse sentido. Ao trabalhar em relação com a natureza e na escala da  paisagem, a  obra  se  torna  herdeira  dos  Earthworksdos  anos 1960 e 1970.  No entanto, aqui esta afinidade é renovada ao introduzir elementos sonoros e de tecnologia.

Definir o que de  fato escutamos  no interior de Sonic Pavilion  não é  simples. Micro ruídos são gerados no interior da Terra, mas a enorme cavidade também cria um espaço de  reverberação  contínua, cujo som  é  transformado  pelo  trabalho  de  equalização. Ouvimos um padrão  nunca  repetitivo, rico em  frequências e  texturas, que  remete  à música minimalista de Terry Riley e Steve Reich. O que Reich disse sobre sua peça parece servir como uma definição para o processo sempre contínuo, vivo  aberto  de  Sonic Pavilion: “uma vez que o processo é estabelecido e iniciado, ele funciona por si mesmo”.

Tunga

True Rouge (1997)


Em 2002, Tunga foi o primeiro artista a receber uma galeria projetada especialmente para receber uma de suas obras: True Rouge (1997).

Falecido em 06/06/2016, o artista foi decisivo na criação do Instituto, ao incentivar o idealizador Bernardo Paz a colecionar arte contemporânea. Tanto que, ao se manifestar na data, por meio das redes sociais do Instituto, Paz afirmou que Tunga foi um grande amigo dele, “talvez o melhor. Foi quem mais me ajudou a fazer o Inhotim. Ele queria muito que desse certo.”

O Inhotim abriga uma das maiores coleções do artista com obras desde o início da década de 80 até os anos 2000. Os trabalhos estão nas Galerias True Rouge e Psicoativa Tunga, ambas compreendendo um espaço de cerca de 2500 m² no Instituto. Outra obra, uma das primeiras incorporadas ao acervo, é Deleite (1999), em meio aos jardins.

Dez anos depois, era inaugurada a maior galeria do Inhotim: a Psicoativa Tunga, com 2200 m², com a presença de autoridades, curadores e amantes da arte. Performances (ou instaurações, como o artista definiu) foram realizadas para inaugurar as obras. O pavilhão abriga 21 obras do artista, entre elas, À la lumière des deux Mondes, (2005), que já ocupou a pirâmide do Louvre, em Paris, e Ão (1980), presente no acervo do MoMa (Metropolitan Museum of Art), de Nova York.

O projeto de todo o espaço, de autoria do Escritório Rizoma Arquitetura, permite ao visitante ver as obras por vários ângulos, na medida em que se percorre o espaço expositivo; ao mesmo tempo, é possível ver a natureza ao redor em 360 graus. Na época da inauguração, em depoimento ao Inhotim, Tunga afirmou: “Inhotim é um somatório de experiências. Proporcionar esse tipo de experiência do que acontece no mundo, hoje, na visão de diversos artistas, essa visão plural, termina nos dando o que é o núcleo central que a gente procura, o núcleo central dessa vida contemporânea, tão ligada àquilo o que ainda há de mais arcaico no sujeito, quanto aquilo o que há de vir no ser humano.”

Galeria Adriana Varejão

Tacoa Arquitetos Associados


A Galeria Adriana Varejão, projetada pelo escritório Tacoa Arquitetos Associados, desde o início nasceu para acomodar dois trabalhos da artista adquiridos pelo museu e exibidos na fundação Cartier. O projeto deu tão certo que durante o seu desenvolvimento, a artista integrou outras quatro peças no edifício, duas delas especialmente concebidas para ele.

O espelho d’água guia o caminho da entrada e ainda mostra-se uma forte referência da arquitetura moderna brasileira

A topografia original do terreno, um monte típico mineiro, parcialmente rodeado pela mata nativa da região, utilizado até então como depósito de containers, foi modificada para adaptar-se à construção. Um grande corte criou um plano horizontal necessário ao armazenamento.

Assim, a estrutura é composta por um muro de arrimo irregular que conquista o espaço do térreo e recebe as cargas do bloco em sua parte mais profunda, por meio de duas vigas. No meio o apoio vem das quatro colunas integradas ao muro. A construção também foi concebida como um percurso em espiral que conecta os dois níveis diferentes do parque, alternando os espaços.

Com basicamente concreto e vidro em toda sua estrutura e seus fechamentos, a Galeria Adriana Varejão concentra esses poucos elementos na construção de toda a obra.

Para ter um condicionamento eficaz, há uma pele externa, que recebe insolação, e uma camada interna protegida do sol. Rodrigo Cerviño Lopez, o autor do prédio, explica que quando foram realizados os primeiros estudos, os projetistas pediram uma porta rotatória. “Eles receavam que uma porta normal possibilitasse muita troca de ar, mas no final acabamos optando pelo acesso simples e não tivemos problemas.”

Museu Arte Contemporânea Inhotim


No ano de 2005, Bernardo Paz convida como curadores a JochenVolz, Alan Schwartzman e Rodrigo Moura para juntos “estabelecerem a identidade institucional e definição de um acervo que viesse a contribuir para o debate cultural e artístico, em caráter internacional”. Estas contratações sugerem uma verdadeira vontade de direcionar o centro para um museu de Arte contemporânea.

Alan Schwartzman, historiador de arte formado no VassarCollege, membro fundador do Novo Museu de Arte Contemporânea em Nova Iorque, onde atura como curador, escrevera vários artigos sobre arte para o The New Yorker e The New York Times e também vários livros, dos quais um publicado em 1985 sobre Street Art.Fundador e presidente da ArtAgency, 63 Partnersand Chairman e diretor do setor de Arte da Sotheby’s.

Jochen Volz, com formação de historiador de arte, comunicação e pedagogia em Munique e Berlim, trabalhara nesta última cidade, de janeiro 1997 até fevereiro de 2001, como assistente numa galeria de arte contemporânea, e de 2001 a 2004, curador das exposições da Portikus em Frankfurt.

Finalmente o trio de curadores foi completado pelo mineiro Rodrigo Moura, que havia sido curador assistente do Museu de Arte da Pampulha, de 2001 a 2003.

Eles partiram do legado conceitual de Burle Marx, na visão do paisagismo como arte e na proposta inicial dos lagos em torno da casa-sede e na criação de um museu em constante transformação e a abordagem em sua coleção de temas como: paisagem, caminho, labirinto, ambiente, natureza, tempo e lugar.

A aquisição de novas obras a cada ano estendeu o parque tropical de 35 para 1.200 hectares, totalizaram em 2015 o número de 7 jardins temáticos, 23 galerias e 23 obras expostas a céu aberto.

Paralelamente, a formação de um departamento independente de botânica e estudos ambientais fomentou a aquisição, o manejo e o desenvolvimento de experiências no paisagismo, incluindo diversas espécies de todo o mundo. Estas medidas conferiram, em 2010, o título de jardim botânico ao museu.

A Formação do Acervo Contemporâneo


Bernardo Paz

Há 20 anos Bernardo Paz começou a descartar sua valiosa coleção de arte modernista, que incluía obras de Portinari, Guignard e Di Cavalcanti, para formar a coleção de arte contemporânea que agora se encontra em Inhotim.

Em relação à curadoria, sabemos que inicialmente, a partir dos contatos com Tunga, Miguel Rio Branco e posteriormente com Cildo Meireles, Bernardo Paz decidiu pela mudança de foco da coleção, de arte moderna para arte contemporânea, adquirindo para seu acervo pessoal obras destes artistas, de grande importância para a história da arte brasileira, e expressividade em escala internacional.

Jochen Volz

Jochen Volz acrescenta que a principal motivação de Bernardo Paz para a mudança de caminho da coleção, nesses encontros com artistas, foi pensar a arte como projeto, o que lhe pareceu muito mais interessante do que como uma coleção de objetos. Com um recorte a partir do gosto pessoal e da afetividade de Bernardo Paz com alguns artistas, em suas viagens e trabalhando com o curador Ricardo Sardenberg, foi adquirindo para seu acervo pessoal obras de outros artistas brasileiros, tais como Vik Muniz, Ernesto Neto, Iran do Espírito Santo, Jarbas Lopes, José Damasceno, Marepe, e artistas estrangeiros, como Olafur Eliasson e Dan Graham, cuja obra, segundo Volz, teria sido uma das ‘oportunidades de aquisição’.

Rodrigo Moura

Entre o final de 2003 e início de 2004, Schwartzman juntamente com Rodrigo Moura e Ricardo Sardenberg, este como curador chefe, haviam iniciado um trabalho curatorial junto a Bernardo Paz. Jochen Volz integra a equipe em 2004, momento de preparação para a primeira apresentação da coleção como Centro de Arte Contemporânea Inhotim – CACI e da formação do Instituto Cultural Inhotim. A partir desse momento, as obras passam a ser adquiridas por um viés curatorial, a partir da identificação do espaço e de suas peculiaridades, com contribuições de diversos curadores, sempre em conjunto com as pesquisas dos artistas, em projetos comissionados ou propostas recebidas para avaliação. Inicia-se a partir de 2004 uma discussão para pensar uma diretriz, formar um plano curatorial e pensar sistematicamente o que seria a coleção e que tipo de museu Inhotim desejaria ser no futuro.

Três condições particulares identificam Inhotim: a diversidade da paisagem, enquanto mata, montanha, campo aberto, diferentes atitudes, proximidade com os lagos e etc.; a possibilidade do espaço em si, sendo possível exibir projetos de grande escala, que em escalas urbanas eram impossíveis e a questão do tempo dos processos, a possibilidade de trabalhar em longo prazo para realização dos projetos que, em alguns casos demoravam anos para serem desenvolvidos, entre a pesquisa e os recursos, a exemplo do trabalho de Dominique Gonzalez-Foerster ‘Desert Park’, que levou seis anos entre a primeira visita da artista, em 2004 e a inauguração em 2010.

Allan Schwartzman

O curador Allan Schwartzman (2016) relata que havia em Bernardo Paz a percepção da interface entre arte e espaço como ‘identidade e vocação de Inhotim’, que coincidiu com a oportunidade de aquisição de grandes extensões de terra das fazendas contíguas, e pelo desejo de realizar uma visão, ainda que iniciada como um impulso.

Com o passar do tempo, enquanto o número de obras aumentava, criar uma série de rotas diferentes e distintamente variadas tornou-se uma prioridade cada vez maior.

Tendo em vista a linha curatorial de formação da coleção de arte, o espaço de Inhotim se conforma de artistas brasileiros e estrangeiros, somado a um planejamento museográfico para uma experiência de percurso.

Segundo Jochen Volz, a esse eixo condutor foi somado um outro processo. Explica que como a coleção tinha origem privada, não havia preocupações no sentido “museológico” de formar uma coleção a partir de uma linha cronológica, enciclopédica ou que tivesse ampla representatividade nacional ou local. Porque: “Inhotim nunca teve pretensões de ser completo”.

 

fonte:

  • https://www.galeriadaarquitetura.com.br/projeto/tacoa-arquitetos-associados_/galeria-adriana-varejao/1618
  • Entre conceber e construir experiência da arte site specific em Inhotim – Natállia da Silva Azevêdo (2)

Acervos

 

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