JARDIM JAPONÊS de BUENOS AIRES – Parte II: Yasuo Inomata, o Mestre sem discípulo

Em cada cidade, o jardim japonês se torna uma ferramenta importante para expandir a consciência ambiental. As atividades educacionais, de lazer e de conscientização que ali são geradas também fazem parte da identificação cidadã, pois em muitos casos se torna um marco urbano de emoção coletiva e um sentimento de enraizamento para os imigrantes japoneses no Brasil e na Argentina.

Neste post vamos conhecer o engenheiro paisagista Yasuo Inomata, autor do Jardim Japonês de Buenos Aires mundialmente conhecido como o maior jardim japonês fora do Japão.

Jardim Japonês de Buenos Aires


O jardim japonês está localizado dentro do Parque Três de Febrero, que é o pulmão verde da cidade. O Jardim foi construído pela Associação Japonesa Argentina em 1967 por ocasião da visita dos então príncipes e depois imperadores do Japão: Akihito e Michiko. Desde 1º de maio de 2019, após a abdicação de seu pai, o filho mais velho do casal Naruhito assumiu como novo imperador.

Desde 2008 é declarado “Bem de Interesse Histórico Artístico Nacional”

Yasuo Inomata


Yasuo Inomata em 1966, aos 27 anos, deixou o Japão para vir para a Argentina. Mesmo como engenheiro paisagista empregado em um reconhecido estúdio de Sapporo, ele escolheu trabalhar em uma fazenda de cultivo de  rosas em Escobar. Inomata tem 80 anos, criou os jardins japoneses mais emblemáticos do país: em 1969 fundou o Escobar e em 1979 reformulou o de Palermo. Ele fez dezenas de jardins em casas particulares, recriando uma tradição que em seu país é comum em muitas propriedades históricas, de famílias ricas ou templos budistas.

De corpo pequeno, com apenas 1,60 de altura, ele tem o vigor de um homem ainda ativo. Desde sua casa em Escobar, ele continua administrando um estúdio de paisagismo inaugurado em 1970. Ele nunca fez registros dos jardins que fazia. Apenas fotos; mantém imagens de pelo menos vinte jardins. Preserva retratos de cachoeiras, caminhos de pedra, pontes curvas ou em zigue-zague sobre lagoas pintadas com plantas aquáticas e barracas coloridas.

Todos os elementos decorativos buscam harmonia e equilíbrio. As pontes são símbolos. Há uma muito curva e extremamente difícil de atravessar, chamada Puente de Dios, que representa o caminho para o paraíso. Outro chamado Puente Truncado que leva à ilha dos remédios milagrosos. E a ponte Zig Zag, ou também conhecida como ponte das decisões.

Existem planos e esboços, feitos à mão livre ou em escala. Pelo menos cinco desses planos são da reforma e ampliação que Yasuo Inomata fez do jardim de Palermo, quando após a inauguração de 1967, há 53 anos, o local que havia sido concebido como um parque aberto ficou abandonado e destruído.

“Tinha ficado uma porcaria. Eu tirei tudo, quebrei tudo”, ele diz e desdobra uma pasta com anotações em jornais e revistas. Um do jornal La Prensa, de 5 de julho de 1978, relata as obras de 10.000 metros quadrados: a restauração da ilha e a construção de cachoeiras, uma nova entrada, pontes, uma rotatória, lanternas de pedra e monumentos esculpidos à mão . O trabalho demorou um ano. Mil toneladas de pedras foram trazidas do estado de Córdoba para recriar diferentes paisagens, e outras pedras esculpidas em linhas retas por prisioneiros da Serra Chica foram usadas para formar caminhos sobre o lago.

O jardim localizado em Escobar foi o primeiro que ele fez. Possui 5.000 metros quadrados, 430 árvores de 80 espécies, uma superfície de água de 1.000 metros quadrados e 60 toneladas de pedras. As carpas koi – vermelhas, brancas e manchadas – foram trazidas por um deputado japonês que visitou a Argentina no final dos anos 1960. Os jardins japoneses que ele projetou em Escobar e Palermo foram doados pela comunidade japonesa ao município de Escobar e ao governo de Buenos Aires.

Na verdade, Inomata pegou de Escobar os peixes que hoje estão em Palermo. Ele diz que os jardins são projetados para que as pessoas encontrem paisagens em miniatura ao percorrer um caminho. Daí as pequenas montanhas, pontes que cruzam um lago, cachoeiras, jardins planos e floridos, e pequenos bosques de pinheiros, salgueiros, paus borrachos, entre quase uma centena de espécies.

O desabrochar da cerejeira é tão importante entre os japoneses que desde as redes sociais se encarregam de avisar aos portenhos para que venham curtir o show que representa o Caminho de los Sakura.

Além do jardim, no recinto existe um edifício que contém um centro de atividades culturais japonesas, uma sala de exposição sobre a cultura japonesa (quimono, pintura, origami, artesanatos japoneses), um restaurante e um viveiro donde se pode comprar bonsai e outras plantas especiarias como sakura e orquídeas.

O Salon Tokyo é um espaço de exposição e transmissão da arte japonesa onde cada obra revela e descobre perseverança, harmonia, qualidade de vida e disciplina, podendo assim gerar sensações maravilhosas em cada espectador.

A varanda panorâmica permite que você aprecie a paisagem e a tranquilidade que só o Jardim Japonês pode lhe oferecer.

O viveiro localizado nos fundos assessora e participa junto com os jardineiros no cuidado e manutenção do Jardim Japonês. Ele é provedor de todos os insumos e variedades de plantas que compõem a bela paisagem do jardim japonês, como bonsai, azaléias, kokedama, orquídeas e lanternas de cimento entre outras. Há também uma loja que vende diversos itens, onde você pode obter o seu nome, escrito em japonês.

Yasuo Inomata é especialista no transplante de árvores de até 60 toneladas e 20 metros de altura. Ele experimentou isso nos jardins japoneses e, em 2013, quando a Av. General Paz foi ampliada ele foi o encarregado de transplantar 1.000 árvores, um trabalho que ele fez com uma taxa de sobrevivência de 95%.

A primeira vez que Inomata se sentiu próximo da Argentina foi em meados do século passado, quando seu pai, que era metalúrgico, carregou trilhos de trem em um navio que saía do porto de Kamaishi com destino a Buenos Aires. Inomata estava na adolescência e evitou qualquer possibilidade de ingressar na indústria do aço, que empregava a maioria dos jovens de sua cidade. Quando um camponês residente em Escobar, Suejiro Hisaki, o ofereceu para trabalhar em seu viveiro de rosas, ele embarcou em um barco em busca de “aventura”, viagem que agora comemora e da qual só encontra uma pena: “Na Argentina: Eu não tenho discípulo”.

Jardim Japonês em América Latina


Entre jardins japoneses mais notáveis ​​do mundo estão os de países que conseguiram aproveitar as peculiaridades de um clima semelhante e os que têm uma relação estreita com o Japão. O maior da Europa é o Jardim Japonês de 2,5 hectares em Hasselt, Bélgica (1992), hoje uma grande atração turística nacional. Na África, destaca-se o Jardim Japonês de Durban (1963) e na Austrália, o Jardim Japonês de Cowra (1979) de 5 hectares, o maior do Hemisfério Sul e criado em memória dos prisioneiros mortos durante a Segunda Guerra Mundial.

América Latina é a região que recebeu a maior migração japonesa da história. A modernização do Japão durante o período Meiji gerou mudanças por meio de uma reforma agrária que modificou as relações socioeconômicas entre camponeses e latifundiários que, por não conseguirem sustentar suas propriedades devido aos impostos e desvantagens competitivas, provocaram um êxodo populacional massivo.

Lista dos Jardins Japoneses em Argentina e Brasil

As primeiras ondas de migração ocorreram para o Havaí e depois para os Estados Unidos e Canadá sob um plano ordenado de longo prazo que também buscou expandir a influência política e econômica no Ocidente, o que levou a uma reação a desses países que impuseram restrições. Dessa forma, a América Latina passou a se destacar como região de interesse, principalmente países como México, Peru e Brasil, que estavam em rápido crescimento econômico e necessitavam de mão de obra barata. No entanto, o do México foi desacelerado após um acordo com os Estados Unidos que buscava prevenir a migração transregional para seu país. Começou então a do Peru (1899) e do Brasil (1908), para os quais o governo japonês estabeleceu um eficiente aparato administrativo e consultivo para atender seus emigrantes. Essa migração foi então interrompida com a Segunda Guerra Mundial e a situação do Japão piorou quando ele perdeu a guerra e recebeu uma migração reversa em massa de suas ex-colônias na Ásia.

Jardim Japonês no Brasil


Tratado de São Francisco

O Tratado de São Francisco ou Tratado de paz com o Japão entre as forças aliadas e o Japão, foi assinado oficialmente em 1949. O Tratado serviu para finalizar oficialmente a Segunda Guerra Mundial, formalizar a posição do poder imperial, e especificar as compensações aos civis aliados feitos prisioneiros de guerra que tinham sofrido crimes de guerra por parte das forças imperiais japonesas.

Ao se tornar independente após o Tratado de São Francisco e por sua delicada condição de carência de recursos naturais, o Japão buscou estabelecer uma maior aproximação com o continente latino-americano por meio de acordos governamentais que favorecessem o desenvolvimento agrícola de seus países. Recomeçou-se então a migração para o Brasil e o Peru (1952), bem como o envio de novos migrantes para o Paraguai (1954), Argentina (1955), República Dominicana (1956) e Bolívia (1957). Ao receber a maior migração japonesa, não é de estranhar que o Brasil tenha uma grande concentração desses espaços publicos. O jardim mais antigo fica dentro do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1935), que foi criado por Dom João VI, é o principal e maior Jardim Botânico do Brasil, a partir de uma doação oficial de 65 espécies japonesas no que hoje é um típico recanto japonês definido por um mirante e uma ponte crescente vermelha (tsutenkyo) sobre um lago de flores de lótus.

Jardim Japonês fica dentro do Jardim Botânico de Rio de Janeiro

Por sua vez, São Paulo insere sue jardim no monumental Parque do Ibirapuera, em comemoração dos seus quatrocentos anos. Projetado pelo professor Sutemi Hiroguchi, da Universidade de Tóquio, quem concebeu edifícios típicos que foram desmontados e transportados em barco junto com voluntários migrantes que ajudaram o corpo técnico vindo do Japão, hoje são sedes da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social que administra o jardim, cuida dele e presta valiosa ajuda à comunidade.

Jardim Japonês em Sao Paulo, Parque do Ibirapuera

A Praça do Japão em Curitiba é a terceira mais antiga. Localizado em uma cidade densa, esse oásis possui seis lagos artificiais, um pórtico japonês, a Biblioteca Municipal e a Casa da Cultura que é a sede da Sociedade Nipon-Brasileira de Cultura que atende a comunidade e instituições como o Centro Zen Budista de Curitiba e o adjacente Centro Cultural Tomodachi.

Os jardins de Maringá, Caldas Novas e Belo Horizonte foram inaugurados em 2008 para marcar o centenário da imigração japonesa. Destes, este último se encuentra localizado dentro do zoo e destaca pelo desenho artístico executado por Haruho Ieda, paisagista japonês radicado no país que destacou suas pequenas dimensões com uma pequena ponte que ziguezagueia em direção a uma típica casa de chá.

Desde então, a popularidade desses espaços se espalhou para as cidades mais remotas ao norte. Fortaleza acaba de inaugurar uma em sua principal rodovia em um ato comemorativo de solidariedade ao povo japonês, apenas um mês após o devastador terremoto e tsunami ocorrido em 11 de março de 2011.

 

fonte:

  • https://jardinjapones.org.ar/
  • Construcción y aporte del Jardín Japonés en Latinoamérica – Ignacio Aristimuño
  • https://www.buenosairesturismo.com.br/passeios/jardim-japones.php
  • https://www.lanacion.com.ar
  • http://estudioinomata.com.ar/quien-soy/

 

 

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