DIAMANTINA (MG): Igreja Nossa Senhora do Amparo – Parte II: O Cortejo do Imperador na Festa do Divino

Ainda na época do império, a igreja ganhou o título de Capela Imperial e hoje é conhecida por sediar a famosa Festa do Divino, reconhecida como Bem Imaterial de Diamantina.

A Festa do Divino acontece depois da Semana Santa, uma das maiores festas religiosas de Minas Gerais. Os fiéis que integram o Cortejo do Império desfilam fantasiados com incríveis vestimentas da época colonial. A corte imperial é acompanhada por grupos de Congado e Pastorinhas, simbolizando a escolta do Imperador até a Igreja de Nossa Senhora do Amparo.

Há registros de que a Festa do Divino, acontece no antigo Arraial do Tijuco pelo menos desde o século XVIII, sempre vinculada à Capela de Nossa Senhora do Amparo.

O Arraial do Tijuco


Na segunda metade do século, quando diversos arraiais almejam sua emancipação e o título de vila, eles pedem, ao mesmo tempo, que sejam rebatizados com nomes que evoquem a família real: o Arraial do Tijuco queria-se tornar Vila Carlotina.

A primeira solicitação do título de vila enviada pelo Tijuco data de 1800. Isto parece surpreendente quando se sabe que, na segunda metade do século XVIII, outros arraiais bem menos desenvolvidos do que o Tijuco haviam enviado a Lisboa solicitações deste tipo.

Tratava-se de uma das aglomerações mais importantes de Minas Gerais. Não obstante, em razão de sua posição geográfica, o Tijuco situava-se no centro do distrito dos diamantes, zona estratégica e fortemente controlada, não se admitia ali nenhuma autoridade capaz de rivalizar com o poder dos intendentes.

Provavelmente, não se quis promover o Tijuco a sede de paróquia a fim de evitar que o clero adquirisse demasiada importância dentro do Distrito Diamantino. O arraial tornar-se-ia sede de paróquia somente em 1819. Apesar disso, como as famílias mais ricas e prestigiosas da região viviam no Tijuco, diversas irmandades foram ali constituídas durante o século XVIII, muitas delas contando com templo e capelão próprios.

Em 1831, o Tijuco foi elevado à categoria de vila, com o nome de Diamantina e, em 1838, à cidade com o mesmo nome.

Irmandade dos Homens Pardos


A Irmandade dos Pardos do Arraial do Tijuco, em 1756 foi autorizada a erigir sua própria capela, dedicada à Nossa Senhora do Amparo. As obras estendidas até 1776, teve seus ornamentos executados aproximadamente neste período.

Construída na segunda metade do século XVIII a Capela de Nossa Senhora do Amparo apresenta partido arquitetônico que a difere das outras igrejas diamantinenses: torre única e em posição central, ausência de anexos laterais. Ao longo do século XIX passou por várias reformas, como a demolição da primitiva torre em 1813 que, por ser de pedra, causou danos à estrutura do edifício, sendo reedificada cinco anos depois.

O Livro de Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Amparo em Diamantina é datado de 1782. Segundo registro desses documentos, os escribas são pardos e, como tais, de perfil socioeconômico baixo.

Nossa Senhora do Amparo

Conta-se que Constantino l, nascido no ano de 274, na véspera de uma batalha da luta pela sucessão, teve um sonho em  que viu um escudo com uma cruz e ouviu uma voz que dizia, com este sinal, vencerás. Mandou, então, pintar todos os escudos com a cruz e realmente venceu a batalha, tornando-se Imperador no ano de 306. No ano de 313, ele tornou o Cristianismo a religião oficial do império romano. Referindo-se aos cuidados maternos de Maria, todos queriam se colocar sob o seu Manto Protetor, sob o Amparo de Nossa Senhora. Assim, propagou-se ainda mais o título de Nossa Senhora do Amparo.

No Brasil existem três municípios fundados e dedicados a Nossa Senhora do Amparo. Em São Paulo, a cidade de Amparo, em Minas Gerais a cidade de Amparo da Serra e em Sergipe a cidade de Amparo de São Francisco.

Nas Minas Gerais, as devoções dos pretos mineiros concentravam-se em torno das figuras de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora das Mercês. Os pardos comumente se congregavam em torno das figuras de Nossa Senhora da Conceição e do Amparo.

Os pardos apoiavam a restrição ao acesso à irmandade a outros pardos e brancos e não permitiam a entrada de “africanos puros”. Imagens e irmandades com uma orientação voltada para os pardos surgiram no Rio de Janeiro e em Salvador como as de Nosso Senhor Jesus da Cruz, Nossa Senhora da Conceição, São Francisco de Paula, e São José. Sapateiros e alfaiates pardos eram devotos de São Crispim e São Bom Homem na igreja carioca da Candelária. Outros irmãos, praticantes de vários ofícios mecânicos, também se organizavam em confrarias e irmandades. Uma das mais notáveis irmandades no Rio de Janeiro era dedicada a São Jorge, cujos membros incluíam os ferreiros da cidade; era aberta aos negros que trabalhavam com ferro, latão e cobre. Em Vila Rica, os artistas se congregaram em torno da irmandade de São José dos Homens Pardos e Bem Casados, que teve seu inícios na Matriz ade Antônio Dias passando logo para a outra Matriz da cidade, na Igreja do Pilar, para finalmente construir capela própria na atual Igreja de São José.

São Gonçalo Garcia

Assim como os pretos tiveram os santos de sua cor, também os pardos foram hábeis em “morenizar” algumas imagens e trazer para o quadro devocional brasileiro, santos que pudessem ser associados diretamente à sua condição de mestiços. É o caso de São Gonçalo Garcia, o primeiro santo pardo a integrar as devoções religiosas no Brasil. Seu culto no Brasil rapidamente se espalhou por Pernambuco, Alagoas e Minas Gerais por volta de 1710, antes mesmo de sua canonização, que só ocorreria muitos anos depois, em 1862. As irmandades e igrejas dedicadas a São Gonçalo Garcia eram bastante significativas para os pardos. Uma das maiores igrejas coloniais dedicadas ao Santo foi construída no Rio de Janeiro, no século XVIII.

O santo, era um homem de cor nascido em um assentamento português em Baçaim (Bassein), uma cidade ao norte de Mumbai, na Índia. Filho de pai português e mãe canarese. Educado pelos jesuítas, seguiu-os para o Japão, onde aprendeu a língua. Nesse momento de sua vida, trabalhou como mercador, viajando para as ilhas Filipinas, onde se juntou aos franciscanos como irmão terceiro. Após retornar para o Japão com os missionários católicos em 1592 foi crucificado e trespassado por lanças numa colina de Nagasaki, juntamente com vinte e cinco outros cristãos igualmente também conhecidos por isso como “Os 26 Mártires do Japão”, a 5 de Fevereiro de 1597.

Ligado a esta história e bom lembrar do filme Silencio, do diretor Martin Scorsese, a se inspira na vida real de Cristóvão Ferreira, um padre jesuíta que viveu entre 1580 e 1650 sendo torturado durante a perseguição aos cristãos no Japão.

 

A partir de meados dos setecentos, concomitantemente ao crescimento da população, surgiram devoções associadas aos pardos, como as de Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora do Livramento e das “virgens morenas” de Guadalupe e Amparo.

Um caso ocorrido na vila do Tijuco ilustra bem a rivalidade entre irmandades. No ano de 1771 os “crioulos naturais do Brasil”, instauraram irmandade própria sob a proteção da Senhora das Mercês, separando-se dos irmãos do Rosário, por ser esta uma confraria formada por pretos. Acerca das motivações desses crioulos, possivelmente seriam mulatos em sua maioria, talvez parte pretos forros, embora o fato de ofenderem os negros os devesse colocar ante na posição de pardos. Segundo algumas fontes, a possibilidade de que a desavença seja fruto da disputa pelo comando da organização, supostamente liderada por africanos, mas que tinha nos crioulos “de espírito muito mais avançado e reivindicatório”, um grupo rival.

Os crioulos e pardos do Distrito Diamantino enviavam constantemente petições e correspondências ao governo da Metrópole em Portugal. Entre as petições se encontravam: ora solicitando terem como procurador alguém de “sua categoria” que representasse seus interesses em cada vila ou arraial; ora endereçando apelos à majestade para que fossem tratados com mais dignidade. Exemplo desse fato ocorreu no ano de 1756, quando irmãos crioulos e pardos das quatro comarcas das Minas Gerais, enviaram à corte portuguesa uma representação na qual exigiam que a lealdade e presteza com que serviam à sua Majestade, fossem reconhecidas em detrimento dos brancos, aos quais acusavam de ser contumazes “desviadores” das riquezas produzidas na região. Agiram nesse caso, como um grupo coeso, distante dos africanos “por sua elevada condição” … Essa união entre crioulos e pardos seria temporária.

A partir da segunda metade do século XVIII o crescimento da população mestiça contribuiria sobremaneira para o afastamento desses grupos; como reflexo temos o aumento sucessivo das irmandades formadas somente por pardos.

As diferenças dos términos: pardo, mulato e mestiço


A miscigenação ocorrida em território brasileiro gerou grande preocupação por parte da administração colonial, especialmente a partir de meados do século XVIII, quando há um processo de recrudescimento do tráfico escravo africano.

Havia uma evidente diferença de conotação entre os epítetos: “mulato” e “pardo”. O primeiro comumente era utilizado como xingamento ou em termos e documentos oficiais que restringiam o acesso dos mestiços, nos quais se distinguiam os “mulatos” ou o “mulatismo”. De outra parte, o termo pardo seria apropriado por filhos bastardos que solicitavam  privilégios, ordens militares como o Terço dos Henriques e principalmente pelas irmandades de homens pardos.

Além da alcunha de mulatos, os descendentes de brancos e negros recebiam a denominação de pardos.  De certa forma os termos pardo, mulato e mestiço são sinônimos segundo o dicionário. No Brasil correntemente prevalecia o termo pardo em documentações oficiais, embora seus usos variassem de região para região, como por exemplo no Centro-Sul, onde o adjetivo “pardo” era aplicado ao indígena escravizado no século XVII. Realidade crescente no Brasil o processo de miscigenação forçou a metrópole a repensar as relações jurídicas entre a população da colônia e a determinar o status e o lugar social de cada um. Dessa forma, a sociedade colonial tentaria de maneira contumaz, tanto no Brasil quanto no ultramar, resguardar seus espaços frente ao avanço mestiço, criando mecanismos de contenção, que, muito embora não fossem legalmente estabelecidos, pautavam-se nos estatutos de “pureza de sangue”.

As irmandades dos brancos eram freqüentemente discriminadoras em suas patentes, restringindo o acesso a associação apenas para os homens brancos legítimos e suas esposas. O registro de admissão das irmandades brancas proibia-se o ingresso de quem fosse infamado de “cristão novo” ou de infecta nação ou pardo. Aos irmãos era concedido o direito de expulsar qualquer branco que se casasse com uma parda. Os estatutos eram pré-requisitos fundamentais para a distribuição de cargos públicos, títulos de nobreza, filiação em entidades religiosas ou ordens terceiras, bem como para o exercício do sacerdócio.

Encontramos as origens dessa discriminação entre os ibéricos, imposta aos “cristãos-novos” (judeus ou muçulmanos recém-convertidos ao cristianismo), mas especialmente aos de “sangue mouro”, alvo preferencial de tais estatutos. Face ao evidente avanço da mestiçagem incluir-se-ia agora, ao rol dos impuros, o mestiço, incorporando-se o “sangue mulato” também como estigma, criando-se ao longo dos séculos XVII e XVIII, barreiras para o acesso a cargos da administração pública, sacerdócio, exército e todas as áreas que pudessem ser restringidas.

Intentaram-se outras tentativas de contenção dos mulatos. Como por exemplo, o estabelecimento de leis que os proibiam de utilizar vestimentas e acessórios que denotassem ascensão social ou riqueza, proibição extensiva aos negros forros. Marcadores sociais típicos da sociedade européia, essas roupas não deveriam ser utilizadas por aqueles homens e mulheres impuras de sangue. Tais tentativas foram infrutíferas e geraram protestos por parte de uma população já bastante significativa em meados dos séculos XVIII e XIX. Era preciso controlar os mestiços, mas, havia uma divergência constante entre o pensamento e as práticas coloniais no que tange à presença da população liberta. Em localidades afastadas dos grandes centros ou de ocupação mais recente, não raro as funções públicas eram exercidas por indivíduos não brancos.

Nesse contexto de hibridismo e tensões sociais, surgem as primeiras irmandades de pardos, inseridas num quadro social em que a realidade crescente de uma paisagem cada vez mais “mestiça”, tornava-se impossível de ignorar. Criou-se em torno desses irmãos uma espécie de “identidade parda”.  O termo “pardo” foi assimilado pelas irmandades, possivelmente como um arranjo social que configuraria uma alternativa simbólica à idéia de “impureza” do “sangue mulato”, circunscrita no âmbito maior do processo de valorização da mestiçagem.

No que diz respeito ao acesso, ou não, à escolarização dos indivíduos apesar de o ensino ser restrito à elite da época, é sabido que membros das camadas populares da sociedade tiveram acesso às práticas de leitura e de escrita, mesmo que de maneira precária, provavelmente estes indivíduos tenham sido alfabetizados nas próprias irmandades.

Em Minas Gerais, no ano de 1835, os escravos são legalmente proibidos de freqüentar as escolas públicas. Essa medida pode ser considerada fruto do temor das elites quanto ao acesso à instrução por parte da população cativa, uma vez que o aprendizado das tecnologias de leitura/escrita por parte dos escravos poderia gerar uma perda de controle das “massas perigosas”.

Festa do Divino


Com mais de 200 anos de tradição em Minas Gerais, a cidade histórica de Diamantina, no Alto Jequitinhonha, a 292 km de Belo Horizonte, revive todos os anos a tradição da Festa do Imperador do Divino Espírito Santo, vividas durante os três dias de duração da festa, que acontece geralmente no mês de junho.

Reconhecidos como Bens Imateriais de Diamantina, a “Festa do Divino” e o “modo de fazer o Bolo de Arroz” fazem parte do Património Cultural da cidade

O festejo do Divino foi registrado no antigo Arraial do Tijuco no século XVIII e com o passar do tempo se tornou uma das festas mais importantes do gênero e sempre esteve vinculada à Capela de Nossa Senhora do Amparo, como local preferencial, onde se a comunidade se reunia para a sua realização. A igreja católica com os devotos do Divino cuidam dos aspectos litúrgicos da festa e outros grupos da sociedade cuidam dos aspectos que são oriundos da religiosidade popular e de outros tidos como profanos.

Ainda na época do império, a igreja recebe o título de Capela Imperial também conhecida como Igreja do Divino

Segundo o ritual, uma pessoa era escolhida como imperador do Divino, passando a ter as bênçãos do Espírito Santo, tornando-se pura e bondosa como uma criança, distribuindo alimentos, soltando presos políticos, trazendo fartura, paz e perdão ao mundo. Após a Proclamação da Independência, em 1822, Dom Pedro I, ao invés do título de Rei, como era normal na época, optou pelo título de Imperador, por orientação de José Bonifácio de Andrada, justamente inspirado no significado e na forte popularidade que o Imperador do Divino despertava em todo povo brasileiro.

A festa chegou ao Brasil no século 17, nos primórdios da colonização do Brasil. Foto credito: Giselle Oliveira

A Festa do Divino Espírito Santo é depois da Semana Santa. A Festa, em si, além da distribuição do famoso bolo de arroz, tem alvorada, procissão da bandeira para o levantamento do mastro, banda de música e a procissão dos milagres.

Uma das maiores festas religiosas de Minas Gerais, sendo também uma das mais antigas tradições folclóricas e religiosas brasileiras, comemorada e preservada em Minas Gerais, replica da mesma forma que na época do Brasil Colonial e Imperial.

Domingo é o dia em que, logo pela manhã, os e as fiéis integram o Cortejo do Império, com a participação de grupos folclóricos como os Caboclinhos. Durante o Cortejo, o imperador e sua família são levados de sua residência para a celebração festiva na igreja de Nossa Senhora do Amparo.

 

fonte:

  • O Órgão Setecentista de Diamantina: em busca da identidade deste instrumento – Handel Cecílio Pinto da Silva (1)
  • Arraiais e vilas d’el reI: Espaço e poder nas minas setecentistas – Maria Juliana Gambogi Teixeira – Cláudia Damasceno Fonseca (2)
  • Caminho da Piedade, caminhos de devoção: as irmandades de pretos no Vale do Paraíba Paulista – século XIX – Fábia Barbosa Ribeiro (3)
  • https://www.xapuri.info/news/diamantina-tem-festa-do-divino/
  • http://portal.iphan.gov.br/

 

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