IGREJA NOSSA SENHORA da MERCED – Parte V: Retábulos do mestre entalhador Tomás Saravia

Gabriela Braccio / Gustavo H. Tudisco investigam os retábulos relacionados ao mestre entalhador Tomás Saravia, permitindo não só aproximar mais detalhadamente suas obras, mas também seguir a trajetória de um artista da época colonial, situada entre duas igrejas-convento em Buenos Aires Aires no final do século XVIII.

A comparação e o levantamento documental se estabelecem entre duas obras deste autor realizadas na Igreja da Merced e quatro anos depois na Igreja de San Juan Bautista. A investigação revelou algumas particularidades da prática retábular em Buenos Aires no final do século XVIII, como custos, desenhos e clientes.

Tomás Saravia: Dois Retábulos do mesmo autor


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Igreja da Merced

Por um lado, o retábulo de San Serapio foi feito para a igreja de Los Mercedarios lar de inúmeras irmandades, localizada “Catedral ao Norte” e junto à igreja, um convento que, em em seu processo de construção e reformas, tinha para então cerca de cem membros, entre frades e noviços.

Por outro lado, o retábulo de Nossa Senhora de Belém foi feito para a igreja das freiras Capuchinhas, cujo convento era destinado a nobres pobres donzelas, instalado há mais de trinta anos, embora a igreja só tivesse o retábulo-mor no início de o século 19.

Em La Merced, a obra de Tomás Saravia desenvolve uma linguagem visual rococó que busca mostrar o crescimento da Ordem e de sua comunidade de fiéis, composta em sua maioria pela elite portenha.

Já na igreja das Capuchinhas, a vontade de Lerdo de Tejada impõe uma linha clássica, que vai determinar o estilo dos restantes retábulos também.

Igreja Nossa Señora da Merced


Por volta de 1604 já existia uma Igreja da Merced, com o Convento San Ramón Nonato anexado, na sua localização atual, mas na segunda metade do século XVII esse templo teria sido substituído por outro. A terceira igreja é aquela que atingiu os nossos dias. Algumas fontes indicam que seu autor foi o arquiteto Andrés Blanqui, com a provável colaboração do arquiteto Juan Bautista Prímoli, ambos jesuítas. A primeira pedra foi lançada nas festividades da padroeira de 1721. Em 1733 grande parte do templo foi habilitada, mas sua construção só foi concluída por volta de 1779.

Os altares, excelentes exemplos dos estilos barroco e rococó, apresentam valiosas imagens religiosas, entre as quais se destaca o Cristo da Humildade e da Paciência do século XVIII.

Entre 1894 e 1900 a igreja foi totalmente restaurada, cabendo ao engenheiro arquiteto Juan Antonio Buschiazzo a remodelação da fachada. As pinturas neo-renascentistas no interior são devidas a Luigi Rossi e os anjos na cúpula a Ernesto Belliandi.

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Na fachada, cujo topo curvo coroado por pináculos caracteriza o edifício, foi acrescentado nele um conjunto escultórico representando a Manuel Belgrano oferecendo o “bastón de mando” do Exército do Norte à Virgem da Merced.

Igreja San Juan Bautista


A igreja original foi construída em 1719 graças à doação do Mestre de Campo da Milícia Don Juan de San Martín. Foi totalmente reconstruída a partir de 1769, e concluída em 1797. Inicialmente funcionou como igreja para curato de indios, mas depois passou a fazer parte do convento das freiras capuchinhas, que chegaram a Buenos Aires em 1747.

Na composição da fachada, feita em 1895 por J. M. Belgrano em linhas neo-românicas, e posteriormente refeita por Rómulo Ayerza, sobressai o grande arco central com rosácea e vitrais, coroado por uma fachada com pequenos arcos de pênsil. É ladeado por torres assimétricas, de diferentes tamanhos, formas e alturas.

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Convento das freiras Capuchinhas da Ordem das Clarissas Capuchinhas, um ramo feminino dos franciscanos

As irmãs da congregação viveram no claustro até 1982, hoje pertence à congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus de Betharram.

Tomás Saravia: o Artista dos Retábulos


Antiga Fachada da Igreja São Joao Batista

Em 21 de outubro de 1789, o mestre entalhador Dom Tomás Saravia comprometeu-se, perante cartório, a trabalhar e concluir em oito meses um retábulo de Nossa Senhora de Belém para a igreja do convento dos capuchinhos, declarando já ter recebido a soma de oitocentos pesos das mãos de Dom Eugenio Lerdo de Tejada.

Vista de Buenos Aires, desde o bairro de San Telmo, 1794

Eugenio Lerdo de Tejada era um rico comerciante casado com Dona María Josefa de Cevallos, que era devota de Nossa Senhora de Belén, tendo herdado a devoção de seus pais e que, por muito tempo, ele também tinha adotado. Lerdo de Tejada, falecido em 1791, havia redigido seu testamento em 1787 e modificado no início de 1790, com um codicilo que introduzia modificações ao primeiro testamento. É precisamente neste documento que se encontra a referência à escritura do retábulo.

Por sua vez, entre os quadros que figuram no seu inventário de bens, são mencionadas duas telas pintadas de Nossa Senhora de Belém. No entanto, o que reforça o sentimento de devoção é que o sogro de Lerdo de Tejada, Ignacio Bustillo y Cevallos, foi quem doou o terreno para a fundação de uma casa da Companhia de Jesus em 1738, dotando-o de um quadro de Nossa Senhora de Belém trazida por ele mesmo da Espanha.

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O retábulo dedicado a Nossa Senhora de Belém na igreja de San Juan Bautista corresponde ao mestre entalhador Tomás Saravia, realizado em 1789

O documento de Lerdo de Tejada especifica que o retábulo deve ser feito “de madeira de cedro de três a quatro anos do Paraguai, com sua mesa de altar de três varas de comprimento e a plataforma correspondente”. O uso do cedro do Paraguai, também chamado das Missões, era comum para a confecção de retábulos não só em nosso território, mas em várias regiões da Espanha, onde era precisamente chamado de cedro das Índias.

Bairrro_Monserrat_Buenos_Aires_Argentina_Iglesia_Patrimonio_Cultural_Religioso_ San_Telmo_Historico_Clarisas_Capuchinas_Clarissas_Capuchinhas_Betharram_Assis_Bayoneses_Convento_Mosteiro_Invasões _Inglesas_ InteriorTomás Saravia é, segundo o cadastro de artesãos estabelecido em 1780, o único mestre nascido em Buenos Aires. É também o entalhador que mais trabalhou para a igreja do convento dos frades mercedários, sendo o púlpito, o retábulo-mor e o retábulo dedicado a San Serapio, todas obras de Saravia nas quais começou a trabalhar em junho de 1793.

Ambos os retábulos, no que diz respeito à época, são contemporâneos, uma vez que decorrem apenas quatro anos entre o início de um e do outro.

Quanto ao custo, embora seja semelhante nos dois retábulos, enquanto Saravia recebeu a soma total ao aceitar a ordem de Lerdo de Tejada, o convento de Mercedarios acabou pagando-lhe dois anos depois de terminada a obra, mas não podemos esquecer que foi o convento que lhe deu a lenha.

Por fim, quanto ao retábulo de Belém, vimos que Saravia se comprometeu a executá-lo em oito meses, embora não saibamos quando foi efetivamente concluído, ao passo que inferimos que o retábulo de San Serapio foi executado em sete meses, pois sabemos que em janeiro de 1794 a capela foi caiada e o vidro foi comprado para a urna em que a imagem foi colocada.

A imagem em exposição é de autoria local e do final do século XVIII, mas não é possível atribuí-la a Tomás Saravia porque até ao momento não são conhecidas imagens da sua autoria. A de San Serapio foi trazida da Espanha em 1768.

Retábulo de San Serapio


Quanto ao desenho, o retábulo de San Serapio revela a interpretação crioula da relação de estilos Barroco e Rococó. Da mistura desses estilos que dá vida aos retábulos, conferem maior liberdade de linhas e formas, acentua-se na decoração.

Possivelmente por tudo isto, para além de ter um corpo único, diz-se no inventário de 1795 que foi concluído “no estilo moderno”, o que significa que tem uma linguagem diferente da do retábulo barroco. A simultaneidade de estilos no mesmo âmbito marcou processos de transição claros. Por este motivo, considera-se que as obras realizadas por Tomás Saravia na Igreja da Merced no final do século XVIII, inferindo ter sido ele próprio a projetar, são representações de um tardo-rococó ainda impregnado de espiritualidade barroca.

Dois retábulos do mesmo autor


Poderíamos então acreditar que o rococó do retábulo de San Serapio se deva ao fato de Tomás Saravia, natural de Buenos Aires, ter sido formado por mestres de meados do século XVIII. Da mesma forma, podemos acreditar que o classicismo do retábulo de Nossa Senhora de Belén se deve ao fato de Lerdo de Tejada, sendo um comerciante peninsular, estar atento às novas tendências.

O coroamento é uma concessão final ao estilo rococó, já que é encimado por uma tarja de roleos e volutas. Estas formas móveis contradizem a resolução geométrica dos dois emblemas principais do retábulo: os raios divergentes do Espírito Santo no frontão do sótão e a Estrela de Belém no frontis.

A imagem da Virgem destaca-se pela pequena dimensão em relação ao retábulo, ao qual foi acrescentada uma base. Embora tenha sida repintada, além de ter perdido o Menino, ela dialoga perfeitamente com as imagens feitas para a mesma igreja pelo entalhador Juan Antonio Gaspar Hernández.

Embora não saibamos se o desenho entregue a Saravia considerava a presença dos anjos na cornija, podemos dizer que são figuras quase obrigatórias nos retábulos rococó de Buenos Aires e que, neste caso, foram atribuídos a Manuel Díaz, um entalhador de origem portuguesa.

 

fonte:

  • O retábulo de Nossa Senhora de Belén: Regra e exceção do retábulo de Buenos Aires de finais do século XVIII – Gabriela Braccio / Gustavo H. Tudisco (1)
  • Los Monumentos y Lugares Históricos de Argentina Carlos Vigil -Edit. Atlántida (2)
  • https://historiaybiografias.com/historia_basilica_merced/home

 

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