OURO PRETO (MG): Igreja do Bom Jesus de Matozinhos e São Miguel e Almas – Parte I: Analise da belíssima portada do Mestre Aleijadinho

Como em outras localidades de Minas e de Portugal, nesta igreja o culto ao Bom Jesus de Matosinhos está associado à devoção a São Miguel e Almas. Sua locação no afastado bairro de Cabeças, longe do circuito turístico ouro-pretano, não chama a atenção dos turistas que apenas dão conta da inúmera oferta de igrejas, museus e lazer que oferece o centro da cidade histórica agrupada entorno à Praça Tiradentes.

Você precisa saber que esta igreja está fechada por restauração desde 2014. Também é preciso destacar que a belíssima portada é obra do famoso Mestre Aleijadinho executada por volta de 1778. Neste post conheceremos as origens desta igreja e veremos com precisão os detalhes desta magnifica escultura autoria do grande mestre do Barroco Mineiro.

Igreja do Bom Jesus de Matozinhos e São Miguel e Almas


Em função da maior ou menor pujança das lavras sobre as quais se assentaram os primeiros aglomerados populacionais, os arraiais resultantes tiveram seu desenvolvimento favorecido em maior ou menor grau. Os dois principais, Antônio Dias e Fundo do Ouro Preto, logo se diferenciaram dos outros, por sua maior população e poderio econômico, alcançando ambos o direito de possuir Igreja Matriz, fato inusitado para a época.

 

Arraiais do nascente: Paulistas, Taquaral, Padre Faria, Itapanhuacanga (Piedade, Santana, São João e Morro da Queimada), Ouro Bueno (Morro da Queimada) e Alto da Cruz ... todas elas se tornaram freguesias da Matriz de Nossa Senhora do Antônio Dias.

Arraiais do poente: Caquende (Rosário), Passadez de Cima (Cabeças), e Passadez de Baixo (Passadez) … todas elas se tornaram freguesias da Matriz de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto.

Do ponto de vista do traçado, Vila Rica consistia em uma única rua, que principiava na principal entrada da cidade (Passadez). Daí subia-se a ladeira até o Passadez de cima, descendo novamente até o Caquende (Rosário). Entrava-se pela Ponte Seca, seguindo até o largo da Matriz, que tinha sua porta principal de frente para a ladeira do Pilar, a antiga Rua Direita do Ouro Preto. Subia-se esta ladeira, continuando pela ladeirinha íngreme até o alto do Morro de Santa Quitéria, onde está hoje a praça Tiradentes.

Antigamente, no local onde hoje está situada a atual igreja do Bom Jesus de Matozinhos e São Miguel e Almas, existia uma pequena “igrejinha” dedicada aos Sagrados Corações e São Miguel e Almas. A capela no Alto das Cabeças, com duas invocações em um só templo, não surgiu de cisão da irmandade de São Miguel da Matriz do Pilar. Foi resultado de uma doação feita no ano de 1771 pelo português José Simões Borges, morador em Congonhas, com a exigência de celebração de missa no dia de São João Nepomuceno. A partir da constituição do patrimônio, Manoel de Jesus Fortes edificou a ermida primitiva através de peditórios.

Em 1771, os moradores de Passa Dez obtiveram licença da Mesa Capitular do Bispado de Mariana para erigir uma capela sob a invocação do Santíssimo Coração de Jesus e São Miguel e Almas. As obras foram iniciadas no mesmo ano e em 1778 encontravam-se bastante adiantadas, quando se ajustou com o Mestre Pedro Francisco Rodrigues Lajes, a edificação do frontispício, que incluía, entre outras obras, a confecção do óculo, janelas e cruz.

Em 1783, foi feito novo contrato com o pedreiro Pedro Miguel Moreira Gomes para a obra das torres para a obra das torres, com cúpulas bulbosas e coruchéus. Ele permaneceu no canteiro de obras até 1793, responsabilizando-se também pela edificação da sacristia e calçadas de pedra.

Assim, em 1793 a igreja estava praticamente concluída

A igreja faz parte da Irmandade de São Miguel e Almas, conhecida até hoje com o título de Bom Jesus de Matozinhos das Cabeças (tal nome porque a igreja se localiza na extremidade da cidade, no bairro Cabeças), ela também é consagrada aos três sagrados corações: Jesus, Maria e José.

Em 1867, devotos da irmandade do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, anexaram uma terceira invocação, o Bom Jesus de Matosinhos, possivelmente por influência do Santuário de Congonhas, em construção naquele momento.

Embora construída em fins do século XVIII, a Igreja do Bom Jesus de Matozinhos das Cabeças assemelha-se às construções religiosas da primeira metade do século, sobretudo no que diz respeito à fachada, que pertence ao tipo clássico, caracterizado pelo corpo central coroado por rígido frontão triangular, encaixado entre duas torres de secção quadrada e elevação moderada.

A planta segue o partido tradicional das igrejas da segunda metade do século, com divisão em nave, capela-mor e sacristia, colocada transversalmente no fundo do edifício, com acesso franqueado por corredores ao longo das paredes da nave.

Durante o século XIX, a edificação foi contemplada com sucessivos auxílios para obras, como indicam os Relatórios do Presidente da Província relativos aos anos de 1855, 1874 e 1879. Já no século XX, sabe-se somente que a igreja estava incluída no Plano de Obras do IPHAN para o ano de 1954.

As duas torres com suas sineiras são encimadas por cúpulas bulbosas, arrematadas por coruchéus, motivo esse barroco, que não deve ter sofrido alteração.

O frontispício é simples, plano, de traço neoclássico, comas quatro pilastras do costume, entablamento e duas torres, entre as quais insere-se um frontão triangular, com óculo circular envidraçado ao centro. Sobre ele ergue- se a cruz de pedra.

Apresenta fendas na pedra da verga da porta, e o bloco de pedra está se deslocando. Para a segurança da portada foi feita uma intervenção, um reforço estrutural utilizando peças de madeira no escoramento da porta para que ela não chegue a cair. Essa patologia foi ocasionada devido ao desnivelamento do terreno onde a igreja está inserida, e também pelas tensões solicitantes, conforme as funções estruturais que esse elemento esteja sujeito.

O Mestre Aleijadinho


Já a portada da igreja do Bom Jesus de Matosinhos e São Miguel e Almas foi executada por um mestre muito famoso e talentoso, o Aleijadinho, um dos maiores artistas do barroco mineiro.

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), foi um grande artista da arquitetura mineira, é filho de Manuel Francisco Lisboa com uma escrava. Ainda jovem Aleijadinho foi atacado por uma doença estranha que lhe fez carcomia os pés e as mãos, mas mesmo com a doença ele não abandou o trabalho e o exerceu até a sua morte. Ele exercia seu trabalho com o buril e o martelo amarrado as mãos e subia os andaimes de joelhos.

Artista muito reconhecido, Aleijadinho executou grandes obras nas regiões de Minas, sendo as principais:

  • Portada igreja de São Francisco de Assis – Ouro Preto
  • Portada da igreja de São Francisco de Assis – São João Del Rei
  • Portada de igreja do Bom Jesus de Matozinhos e São Miguel e Almas – Ouro Preto
  • Portada da igreja de Nossa Senhora do Carmo – Ouro Preto
  • Portada da igreja de Nossa Senhora do Carmo – Sabará
  • Risco da fachada da Matriz de Santo Antonio – Tiradentes
  • Portada, púlpito, coro, imagem de São Simão Stock e São João da Cruz da igreja de Nossa Senhora do Carmo – Sabará.
  • Santuário do Bom Jesus de Matozinhos (Conjunto dos Profetas e Passos da Paixão de Congonhas).

A portada, encimada por nicho, constitui o elemento de maior interesse: segundo Myriam R. de Oliveira, este é o único caso de retorno ao “esquema tradicional do nicho com estátua”, que foi bastante utilizado em meados do século em Minas, e já era obsoleto no final da década de 1770. A estátua do Arcanjo São Miguel esculpida em pedra-sabão e a representação das cenas do purgatório num nicho semicircular conformam uma portada belíssima.

A portada é composta por um nicho semicircular, onde fica a imagem do padroeiro da igreja São Miguel Arcanjo coroado com um belo penacho

A execução da portada é atribuída ao Aleijadinho, embora não existam elementos documentais que comprovem a autoria como acontece com muitas das obras dele. Na opinião de pesquisadores e historiadores se deduze que:

Para Germain Bazin, as características do Mestre são evidentes nessa obra, particularmente o buquê de três cabeças de querubins arrematando o arco, idêntico ao de São Francisco, de Ouro Preto e ao de São Francisco, de São João del Rei.

Rodrigo José Freitas Bretas menciona o Aleijadinho como o autor da magnífica portada, anotações no livro da Irmandade (1778), fazem referência à preparação da pedra lavrada para o frontispício: “lavrar a cantaria”. Em 1778, foi preparada a pedra talhada para as esculturas, que devem datar aproximadamente deste período.

A portada


A portada é severamente dividida em registros que representam etapas específicas da rota espiritual, do menos para o mais sagrado do impuro para o sublime. Abaixo a representação do purgatório e acima de todo o Divino Espírito Santo ladeado de raios.

Essa estátua é incontestavelmente obra trabalhada pela mão de Aleijadinho, enquanto o “Purgatório” deve ter sido execução de colaboradores

De cada lado das ombreiras descem volutas, prolongadas acima da cimalha por ornatos que fazem a ligação da base do painel retangular onde estão representadas as almas do purgatório; acima desse painel corre uma moldura na qual se apoia o nicho semicircular.

Representação das Almas no Purgatório


Abaixo do nicho está presente um painel retangular todo moldurado contendo as cenas do purgatório. São representações de seres humanos sobre as chamas à espera da purificação de seus pecados; em todas as tradições, a chama (flama) é um símbolo de purificação, de iluminação e de amor espirituais. É a imagem do espírito e da transcendência, a alma do fogo. Por ser rica em desenhos e ornatos, a cena do purgatório em alto relevo abaixo do nicho dá uma beleza maior à portada. Suas ombreiras são molduradas, as vergas de curva movimentada, com a presença de cabeças de Serafins na chave e ornatos conchoidais.

De cada lado das ombreiras descem volutas, prolongadas acima da cimalha, com ornatos que se ligam a base do painel retangular, neste estão representadas as Almas do Purgatório. A novidade desse painel é a inteira face da peanha ocupada pelos relevos do purgatório com almas entre chamas: figuras curtas com formas arredondadas. As chamas influenciaram a interpretação dos concheados que ficaram miudamente dobrados. Encimando este painel, passa-se uma moldura que é o apoio para o nicho semicircular.

O Purgatório tal representado, tal como o de Dante Alighieri, situa-se em uma montanha, símbolo da ascensão espiritual, obtida finalmente através da suave ondulação da sobreporta. Nele, homens e mulheres, com feições tranquilas e suaves, purificam-se sem manifestar aflição ou sofrimento. Trata-se sem dúvida do cárcere divino, em que o fogo pune, purifica e santifica. Ao contrário dos modelos tradicionais, o artista descobre o peito de algumas almas, enquanto destaca ao centro, representada de corpo inteiro, uma figura masculina inteiramente nua, o que é uma raridade na iconografia mineira.

Segundo Vasconcelos, apesar de referir- se a castigo, aflição e sofrimento, o tratamento que Antônio Francisco dá ao tema, no modelado e atitude das figuras, revela antes sensualismo do que dor. Os corpos nus, masculinos e femininos, são juvenis, insinuantes, quase lúbricos. Neste sentido são bem diferentes de representações similares da época, de igual referência, onde os corpos normalmente se apresentam retorcidos e com fisionomias sofridas ou mesmo grotescas. Antônio Francisco esculpe as figuras como imunes às chamas, de onde se elevam redimidas pelo amor divino. Não é a punição ou a condenação que enfatizam, senão o perdão.

Representação da imagem de São Miguel Arcanjo


O fundo do nicho é um grande concheado em três quartos de esfera. A figura do Arcanjo São Miguel sustenta a balança, mas não traz espada. Existem duas pilastras do nicho molduradas com motivos fitomórficos; folhas que participa do simbolismo geral do reino vegetal, símbolos da felicidade e da prosperidade. Estas pilastras estão ligadas a um quarto de esferas que arremata o nicho, cheio de feixes na parte interna do nicho que dão a impressão de estarem ligados aos penachos do capacete do anjo Miguel.

Dentro do nicho está a imagem de São Miguel Arcanjo. As suas vestes são romanas e traz um manto sobre o corpo. Na cabeça um capacete com penacho de plumas, o que o caracteriza como um guerreiro. Essa imagem porta uma balança no braço esquerda e um estandarte na mão direita com as inscrições I H S, que significa Jesus Homem do Salvatório, e com um M entrelaçado com a letra A que significa Ave Maria. As representações de São Miguel arcanjo também portam uma espada, mas no caso dessa igreja do Bom Jesus de Matosinhos e São Miguel e Almas, é representada somente com uma balança e um estandarte.

Na iconografia cristã, a balança é segurada por São Miguel, o Arcanjo do julgamento. A balança é o símbolo da justiça divina, pois é o Arcanjo Miguel que julga os pecados humanos para ver fazer a absorção das almas no purgatório. A balança como símbolo do julgamento é, apenas uma extensão a aceitação precedente da justiça divina.

A portada da igreja do Bom Jesus de Matosinhos e São Miguel e Almas apresenta em estado de conservação crítico. Um exemplo que mostra isso é a escultura de São Miguel em pedra-sabão que teve a mão quebrada. Se fosse cantaria, não ia quebrar, pela resistência que o material apresenta. A pedra sabão é muito frágil comparada à pedra do quartzito, ela tende a durar menos. Claro que todos os materiais expostos a agentes causadores de degradação, vão sofrer a causa, mas a pedra sabão irá deteriorar mais rápido do que uma rocha.

Três Sagrados Corações


Coroando o nicho, a presença dos Três Sagrados Corações, circundados por coroa de espinhos e por chama irradiante. Entre dois querubins estão presentes três corações entre nuvens e em volta muitos raios. Esses corações podem representar o Coração de Maria, Jesus e José (mãe, filho e pai).

Interpretamos claramente como Coração de Maria, Jesus e José pelo fato do primeiro coração estar com uma coroa de rosas e uma espada, símbolo de Nossa Senhora das Dores. (representando Maria, mãe de Jesus); o do meio ter uma coroa de espinhos, uma cruz em cima e um furo no coração (significando Jesus, pois Ele geralmente é representado com a coroa de espinhos e a cruz) e o outro o de José que está representado com o coração flamejante e um lírio que é o símbolo de José.

Divino Espírito Santo


Os raios simbolizam uma emanação luminosa que se propaga a partir de um centro sobre outros seres

Em uma armação ornamental que encima o nicho está presente uma ave, que foi interpretada por possivelmente serem duas aves: uma águia e também poderá ser a pomba do Divino Espírito Santo. Outras interpretações também são atribuídas a essa ave, como um Fênix que simboliza o fogo, renovação e a ressurreição, e também como um pelicano que simboliza o amor paternal. O Espírito Santo representa o símbolo de paz. Nessa portada pode significar paz às almas do purgatório. As duas interpretações fazem sentido tanto para a águia quanto para a pomba.

Cabeças de serafins na portada


A igreja é propriedade da cúria de Mariana e foi tombada no dia 08 de setembro de 1939

Abaixo de todo, na chave da verga da porta, bem ao centro, a presença de três cabeças serafins arrematando a portada. Essa representação é uma marca registrada que Aleijadinho deixava em suas obras, é um artifício comum do barroco.

Adro


O adro da igreja é uma ampla área cercada pelo edifício do Colégio Arquidiocesano de Ouro Preto e o longo paredão que contem o Chafariz do Alto das Cabeças.

Localizado na Rua Alvarenga, antiga Rua das Cabeças, o Chafariz do Alto das Cabeças fica junto ao muro esquerdo do adro da Igreja de São Miguel e Almas (ou Bom Jesus do Matozinhos), de cara pra frente do edifício do Colégio Arquidiocesano. A obra foi elaborada por Francisco Lima, em 1763. Possui a imagem de dois peixes entrelaçados.

O Colégio Arquidiocesano de Ouro Preto é um dos mais tradicionais estabelecimentos de ensino de Minas Gerais e oferece aulas de Educação infantil, Ensino fundamental I, Ensino fundamental II, Ensino médio.

Fundado em Mariana em 1926, cidade primaz do Estado, Dom Helvécio Gomes de Oliveira, então arcebispo de Mariana, percebendo a necessidade de um estabelecimento de ensino oficializado nesta região, cada vez mais rica e populosa, fundou o Ginásio Municipal Arquidiocesano de Mariana.

A transferência do Ginásio Arquidiocesano para o prédio em Ouro Preto se deu em 1934.

 

fonte:

  • Análise comparativa e iconográfica: Portada das Igrejas do Bom Jesus de Matozinhos e São Miguel e Almas (Ouro Preto) e Santo Antônio (Glaura – Ouro Preto) – Liliane Aparecida Fernandes (1)
  • http://portal.iphan.gov.br/
  • https://www.turismo.ouropreto.mg.gov.br/atrativo/1210
  • https://hpip.org/pt/heritage/details/781
  • https://jornalvozativa.com/

 

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