OURO PRETO (MG): Igreja de São Francisco de Paula – Parte II: A imagem do Santo atribuída ao Aleijadinho

São Francisco de Paula é um dos templos mais recentes da cidade, ela foi a última a ser construída no período colonial. Construção iniciada em 1804 e terminada em 1878, ficou inteiramente concluída em 1904. A imagem de São Francisco de Paula que pertence à igreja é atribuída a Aleijadinho.

Miguel Antônio Tregellas era um respeitado marceneiro que possuía uma das maiores oficinas de marcenaria de toda a Província. Seus trabalhos, principalmente castiçais e oratórios, ornamentavam algumas das mais importantes Igrejas de Ouro Preto e outras cidades da região. Ele foi fundador do Liceu de Artes e Ofícios em Ouro Preto e autor dos retábulos laterais desta igreja.

Igreja São Francisco de Paula


A igreja mantém os padrões arquitetônicos das construções religiosas do século XVIII, sua planta obedece a tradicional divisão em nave, apresentando grandes proporções, a capela-mor e a sacristia encimada pelo consistório, com corredores e tribunas ao longo das paredes, inspirando-se nas igrejas Mercês de Baixo e Matriz de Antônio Dias, em Ouro Preto.

Internamente, o conjunto de talhas é de boa qualidade e bastante homogêneo. Constitui exemplo do padrão de rococó mineiro (estilo marcado por uso abundante de curvas e elementos decorativos, como conchas, laços e flores) já tardio, por ser fim do século 18, provavelmente inspirado nos trabalhos feitos na Igreja do Carmo da mesma cidade.

O interesse maior está na magnífica imagem de São Francisco de Paula, atribuída ao Aleijadinho pelos técnicos do SPHAN.

Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula


Na primeira parte deste post fizemos menção em várias ocasiões ao termo “ordem terceira mínima”, poco habitual em nos textos que se referem a historia das irmandades no Brasil. Habitualmente acostumados aos termos de Confraria, Arquiconfraria e Ordens Terceiras, considero oportuno aclarar este termo antes do começo deste segundo post que tratará o interior do templo e sua imaginaria.

Francisco de Paula nasceu com o nome de Francisco d’Alessio na cidade de Paula, na Calábria, em 1416. Recebeu este nome devido a devoção de seus pais a São Francisco de Assis, que vivera dois séculos antes. Ele fundou a Ordem dos Mínimos, uma fraternidade que exige do interessado em nela ingressar uma única condição: que se considere um “mínimo”, pois Jesus dissera que se alguém quer ser o primeiro, que seja o último e o servo de todos. Conforme reflete seu nome, seus membros se consideram os menores dentre as ordens religiosas.  Em 1474, a Santa Sede reconheceu a Congregação de Eremitas de San Francisco de Assís no Território de Pádua, depois chamada de Ordem dos Mínimos, os últimos de todos os religiosos.

Ao contrário de outros fundadores de ordens religiosas, ele nunca foi ordenado sacerdote. Por incrível que pareça, São Francisco de Paula era analfabeto. As duras penitências não lhe abreviaram a vida: 91 anos. Morreu na sexta-feira santa, 2 de abril de 1507. Foi canonizado em 1519, apenas a doze anos da morte.

Nave


Em 1857 o mestre José da Silva Coelho começou a obra da nave, que levou mais de duas décadas para ser concluída.

Os forros planos e lisos podem se apresentar com pintura artística ou monocromáticos e estão presentes unanimemente nas sacristias nos corredores laterais, nártex e em algumas naves das edificações religiosas de Ouro Preto. Observa-se que a utilização destes tipos de forro se deu principalmente nos forros das naves e capelas-mores das igrejas de arquitetura mais simplificada. O forro da nave plano em tabulas de largura media em madeira é pintado de color azul claro. Arremata em frisco perimetral uma linha da cor azul escuro.

Altar-mor


A edificação da capela‐mor foi inicialmente contratada com o mestre Felipe Eugénio e, em 1834, houve novo ajuste com o capitão‐mor Francisco Machado da Cruz, que foi também o autor do risco. A conclusão da capela-mor ocorreu em 1835, anexada à primitiva ermida de Nossa Senhora da Piedade.  Somente nas duas últimas décadas então foram feitos os retábulos, a cargo da oficina de Miguel Antônio Treguellas.

O altar-mor tem lateralmente as imagens de roca de São Francisco de Assis, atribuída ao Padre Félix Lisboa, em frente à de Santa Mônica. Na base do trono figura a bela imagem de São Francisco de Paula, do Aleijadinho.

O topo do trono é ocupado por uma expressiva imagem de Nossa Senhora da Piedade, originária da capela anterior.

A proximidade das duas imagens: São Francisco de Paula e São Francisco de Assis do altar-mor é uma boa oportunidade para comparação dos estilos individuais do Aleijadinho e seu meio-irmão, o Padre Félix Lisboa, ambos já falecidos quando o altar-mor foi completado em fins do século XIX. É possível que essas imagens ficassem em altares laterais da primitiva Capela de Nossa Senhora da Piedade.

Seu hábito típico consiste em uma túnica negra, com capuz e um pequeno escapular. São cingidos por uma corda, como os franciscanos, mas com quatro nós, representando os quatro votos. Os mínimos fazem votos de castidade, pobreza e obediência. Porém, o que distingue os mínimos é voto de adesão às regras da vida em quaresma, em termos práticos, tradicionalmente seguiam uma dieta vegetariana estrita. Um dos votos da Ordem dos Mínimos era mesmo a abstenção de carne, peixe, ovos, manteiga, queijo e leite. Como na tradição carmelita e franciscana, os mínimos adotam a prática de serem descalços em sinal de humildade. Veste hábito semelhante ao dos franciscanos, porém, provido do escapulário contendo, ao centro, o sol e a palavra “Charitas” ou “Humilitas” (menos comum); na mão leva o cajado de peregrino.

No forro da capela-mor podemos observar em painéis duas obras do pintor italiano Ângelo Clerice que retratam as passagens bíblicas em que Jesus curou o cego e seu encontro com a Samaritana, a mulher que conversou com Cristo no deserto e divulgou o encontro com o Messias.

Obras artística do pintor italiano Ângelo Clerice

Nas capelas e igrejas de Ouro Preto, a predominância maior é de forros em abóbadas de berço, feitas de madeira, frisos “a encher”, com mata-junta por cima, ou frisos à meia madeira, pregados contra cambotas apoiadas nas paredes e sustentadas (por meios tirantes) pelas tesouras ou pelos caibros armados (conforme fosse o tipo de madeiramento). Nos autos de arrematação são identificados alguns tipos de madeira utilizados para a feitura dos forros de Ouro Preto, sendo elas: Canela Parda, Cedro e Vinhático.

O douramento do retábulo-mor foi executado em 1898 autoria do artista Henrique Bource. A capela-mor foi concluída em 1834 e a nave em 1878. Somente então foram feitos os retábulos da nave, a cargo da oficina de Miguel Antônio Tregellas entre 1901 à 1908.

O Mestre Miguel Antônio Treguellas


Em Minas Gerais foram criados Liceus de Artes e Ofícios nas cidades de Serro (1879), na então capital Ouro Preto (1886) e em São João Del Rei (1888). Estas escolas, guardadas algumas especificidades, tinham os mesmos objetivos das suas congêneres: ensinar as primeiras letras, o desenho e os princípios básicos de um ofício às crianças pobres, filhas de pais trabalhadores.

Os Liceu de Artes e Ofícios, dessa forma, traziam a realidade os interesses das elites em estabelecer um projeto de instrução popular, que aliado ao ensino dos ofícios e da ética do trabalho, poderia conduzir Minas Gerais e o Brasil aos patamares de progresso material das nações “civilizadas”. O investimento no ensino profissional poderia significar a possibilidade de a educação cumprir dois papéis fundamentais no projeto de constituição de uma nação moderna e desenvolvida.

Liceu de Artes e Ofícios em Ouro Preto, 1897

Após nove anos de construção no dia 25 de março de 1897 foi inaugurado o Liceu de Artes e Ofícios em Ouro Preto, fundado por Miguel Antônio Tregellas. Ele era um respeitado marceneiro, que possuía uma das maiores oficinas de marcenaria de toda a Província. Seus trabalhos, principalmente castiçais e oratórios, ornamentavam algumas das mais importantes Igrejas de Ouro Preto e outras cidades da região.

O artista radicado em Ouro Preto no século XIX, foi casado com Augusta Medeiros Treguellas e pai de 8 filhos. Sabe-se que Treguellas se habilitou nas melhores escolas da “corte”. E teve sua primeira oficina no bairro da Barra, onde possuía diversas máquinas de marcenaria oriundas da Europa. Sua oficina era composta de um grande número de pessoas, o que lhe dava agilidade para entregar suas encomendas nos prazos estabelecidos. O escultor vendia seu trabalho destacando a qualidade do serviço, sua habilitação para o serviço e os preços acessíveis.

Anúncio da oficina de Miguel Treguellas (1885)

O hábil entalhador fazia uma diversidade de objetos, de instrumentos musicais a camas, guarda roupas, mesas e até castiçais. Seu ofício, porém, não se limitou a pequenos serviços para particulares. O artista trabalhou em grandes obras das mais importantes igrejas de Ouro Preto. São de sua autoria o retábulo do consistório da Basílica de Nossa Senhora do Pilar, retábulo da Capela de Santana no Paço da Misericórdia, retábulos na Igreja de São Francisco de Paula e dois retábulos laterais na Igreja de São Francisco de Assis, além dos púlpitos da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões desenhado pelo Engenheiro Dr. João Victor de Magalhães Gomes e entalhado por Miguel Treguellas.

O Liceu de Artes e Ofícios de Ouro Preto começou a funcionar com aulas noturnas do primário, português, aritmética, caligrafia, desenho e música. Tinha oficinas de Encadernação, Tipografa e Marcenaria. Durante os primeiros 21 anos de existência do Liceu, ele foi frequentado por 3.200 alunos pobres, e destes cerca de 100 alunos tem sido “restituído à sociedade e a pátria como cidadãos instruídos e honrados”. Mas, ao longo dos anos, foi se tornando cada vez mais difícil manter o Liceu de Artes e Ofícios, o que fez com que ele fechasse as portas em 26 de abril de 1953.

Em 1887 Miguel Treguellas se tornou comendador. Foi agraciado com o grau de Cavalheiro da Ordem da Rosa. Essa distinção honorifica só era atribuída em reconhecimento aos serviços relevantes prestados à nação. Deste modo, observa-se o quão admirável Treguellas era para o povo ouro-pretano.

Nota-se que Miguel Treguellas ele viveu em um período onde o estilo predominante era o neoclássico, ou seja, o estilo que resgatava a arte clássica antiga, apresentando colunas, frisos, estátuas e etc. Porém o que se observou através de suas obras é que Treguellas resgatou e valorizou a arte luso brasileira, pois apresentou em suas obras características do estilo anterior, o Rococó. Testemunha disso é o conjunto escultórico do retábulo da capela-mor da Igreja de São Francisco de Assis, como destaca Oliveira e Campos, “obra máxima da talha rococó da região mineira e quiçá do mundo luso-brasileiro”.

A antiga fachada neoclássica foi tristemente intervinda pelas autoridades do SPHAN, retrocedendo para o estilo barroco que vemos atualmente

Treguellas viveu em Ouro Preto num período em que a cidade deixava de ser Capital do Estado, em 1897. Como tantos brasileiros que vivenciaram as últimas décadas do século XIX e as primeiras décadas do século XX no Brasil assistiu a um momento em que a monarquia foi desfeita ao passo que o projeto republicano era pensado, vindo se consolidar com a proclamação da república em 1889. Em 25 de junho de 1909, Miguel Antônio Treguellas encerrou sua história falecendo em Belo Horizonte.

O que aconteceu com o prédio Liceu de Artes e Ofícios? … Ele foi adquirido pelo senhor Vicente Tropia, quem criou neste local o famoso Cinema Vila Rica, o primeiro cinema de Ouro Preto inaugurado em 1958, exibindo o filme rodado em Ouro Preto: “Rebelião em Vila Rica”.

Altares Laterais


  • Nossa Senhora da Consolação
  • São Geraldo
  • Santo Antônio
  • São Miguel Arcanjo
  • Nossa Senhora da Conceição
  • São Francisco de Sales

Chama atenção o fato de que o trabalho de marcenaria ser, desde o século XVIII, atividade tipicamente feita por um conjunto de artistas, reunidos em oficinas. Cite-se, por exemplo, o aclamado artista Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que desenvolveu suas obras deste modo, junto de seus aprendizes. Tal foi o caso do artista Miguel Antônio Tregellas realizador, junto a seu equipe, dos retábulos desta nave entre 1901 à 1908.

Da comparação dos retábulos é possível perceber que possuíam o mesmo desenho a ser seguido. No entanto, é notável a disparidade entre eles, às vezes por possuir maior profusão de elementos, ou mesmo, pela diferença na talha, divergência vista através do coroamento dos retábulos. Provavelmente tal distinção deve-se a execução pelos aprendizes de Treguellas.

O templo apresenta seis retábulos laterais, três do lado da epístola (com dedicações à Nossa Senhora da Consolação, São Geraldo e Santo Antônio).

… e três do lado do evangelho (com dedicações à São Miguel Arcanjo, Nossa Senhora da Conceição e São Francisco de Sales).

Internamente, o conjunto de retábulos é de boa qualidade e homogéneo do ponto de vista estilístico

Provavelmente essa é a primeira obra retabulística de Miguel Treguellas. O que se observou ao analisá-la é que o artista, para elaboração dos retábulos, resgata um dos estilos mais imponentes de Ouro Preto: o Rococó.

Sendo essas obras do final do século XIX o que se nota é que o artista valorizou um estilo que já havia sido deixado de lado, usando da sua liberdade de expressão para resgatar componentes do estilo Luiz XV, quando a arte já havia avançado para o estilo neoclássico.

No período de execução dessas obras o estilo vigente era o neoclássico. Deste modo, o que se nota nesta igreja é uma roupagem clássica nos retábulos próximos ao tapa vento e ao arco do cruzeiro. Percebe-se uma redução de elementos decorativos, as colunas são mais lisas e o coroamento já não é tão carregado. Mas é nítida a inserção de sanefas e rocalhas, elementos marcantes do estilo Luiz XV. Os retábulos centrais, por sua vez, apresentam uma característica extremamente rococó, com colunas caneladas e presença de dossel, nota-se, até mesmo, uma semelhança com os retábulos elaborados por Aleijadinho.

Altares Laterais Centrais


Os retábulos da nave apresentam tipologias diferentes entre si, de modo que os centrais de Nossa Senhora da Conceição e de São Geraldo (FIG.14 e 15) são os que mais se destacam, pois eles apresentam muitos elementos vindos do estilo rococó e até mesmo do longínquo joanino. É comum encontrar elementos do estilo joanino nos retábulos rococós, uma vez que eles são estilos que se interpenetraram reiteradas vezes.

O coroamento se assemelha aos retábulos do estilo joanino. Há a inserção de anjos sobre os fragmentos de arco, como também volutas e ornamentos em “C” e “S” acima do entablamento das colunas, próximos do dossel e do baldaquino. O dossel apresenta uma proposta formal mais cenográfica com o uso de cortinas elaborados em talha. Arrematando o coroamento, estão as sanefas e a ornamentação com rocalhas, demarcando, realmente, que essas obras têm influências nitidamente rococó.

O corpo é composto de colunas caneladas e com bracelete demarcando o terço inferior, arrematadas por capitéis borromínicos (com volutas invertidas). As colunas sobressaem de maneira a criar uma perspectiva em relação ao camarim, o que é enfatizado pela presença dos quartelões, que enquadram o camarim central. Essa disposição é caracteristicamente marcada nos retábulos mineiros, como se vê nas igrejas de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto.

Os capiteis com volutas invertidas era uma adaptação rococó do capitel borromínico, muito frequente nas igrejas da Baviera e já utilizada anteriormente em retábulos da região mineira, provavelmente por influência das gravuras germânicas.

Retábulos próximos ao coro


Quatro retábulos dessa igreja são praticamente iguais aos retábulos da Igreja do Carmo. Isso reforça a ideia de que Treguellas não estava somente se inspirando nessas obras, provavelmente, ele tinha em mãos o risco desses retábulos.

 

Retábulos próximos do arco do cruzeiro


A base de todos os retábulos é composta de supedâneo, mesa do altar levemente abaulada com decoração de volutas e tarja central com símbolos do Sagrado Coração de Jesus (cruz, coração flamejante e âncora) e Sagrado Coração de Maria (coração flamejante e letra M).

Atrás do altar, o primeiro nível da base se compõe de pedestais ornados com elementos fitomorfos. No segundo nível da base estão as mísulas decoradas com folha de acanto, cartelas decoradas com rocalhas, girassóis e elementos fitomorfos e tabernáculo decorado com elementos eucarísticos.

Ao analisar as mesas dos altares desta igreja, se encontrou muita dificuldade. A tarja central não condizia com o santo de devoção do retábulo, e apesar de conter símbolos do Sagrado Coração de Jesus e de Maria, não há nenhuma imagem dessa devoção no interior da igreja. O que se observa, é que no século XIX, não era tão necessário o reforço simbólico da dedicação retabular. As imagens poderiam mudar de seus respectivos altares.

É importante destacar o retábulo de Nossa Senhora da Consolação (FIG. 32), o qual apresenta banqueta ornada com o brasão de armas do império e um cravo pregado pelo imperador Dom Pedro II. Conforme o jornal A Actualidade (1881), Treguellas recebeu a visita imperial ao tempo do trabalho na Igreja de São Francisco de Paula. O monarca atendeu ao pedido de Treguellas e se dispôs trazer a Imperatriz, para juntos assentarem umas das peças nos altares.

Arco cruzeiro


Pulpitos


Coro


Manuel Bandeira inclui o tapa-vento desta igreja (espécie de biombo de madeira colocado diante das portas para proteger o ambiente) entre os mais belos de Ouro Preto.

 

fonte:

  • O tardo Rococó de Miguel Treguellas – Clara Assunção Ferreira (1)
  • A escultura dourada e policromada de São Francisco de Paula – Sandra Teles dos Santos (2)
  • https://www.ouropreto.com.br/secao/artigo/festividades-em-honra-a-sao-francisco-de-paula-ouro-preto-2017
  • http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/30

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