OURO PRETO (MG): Igreja N S das Mercês e Misericórdia – Parte II: A Mercês de Cima e interior do Templo

O altar-mor é ocupado pela imagem da padroeira Nossa Senhora das Mercês e os nichos laterais pelos santos fundadores da Ordem Mercedária, São Pedro Nolasco e São Raimundo Nonato, do mesmo modo que acontece na “Mercês de Baixo” (cujo nome correto é Nossa Senhora das Mercês e Perdões), situada nas baixadas do bairro dos Paulistas e vinculada á Matriz Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias.

A decoração interna é de grande simplicidade, mas uma grande lista de artistas experientes contribuíram na construção e acabamento desta singular igreja de torre única.

Ë o passo obligado para quem vem ou vai pra rodoviária, próxima da Praça Tiradentes, ele é um dos primeiros templos que o visitante encontra ao chegar a Ouro Preto. O seu adro conforma um mirante com uma vista impressionante da cidade.

Irmandade de Nossa Senhora das Mercês


A Igreja de Nossa Senhora das Mercês foi instituída em Vila Rica entre os anos de 1740 e 1754 e funcionou primeiramente na Arquiconfraria da Igreja São José, onde permaneceu por cerca de 20 anos.

A irmandade de Nossa Senhora das Mercês em Ouro Preto, oriunda a partir da Arquiconfraria da Igreja São José, era uma associação de pardos e crioulos, representante de segmentos que buscaram afirmação social na antiga Vila Rica, sobretudo, a partir da década de 1740, quando os pardos começaram a adquirir presença na estrutura social da época.

Igreja de São José, Ouro Preto (MG)

A Arquiconfraria de São José de Ouro acolhia outras associações de leigos, dentre elas a do Cordão de São Francisco, a de Santa Cecília, a de Nossa Senhora do Parto, a das Mercês e a de Nossa Senhora de Guadalupe.

Como o caso de tantas outras igrejas em Ouro Preto, muitas delas estabeleciam em primeiro lugar sua cofradía a partir de uma igreja Matriz, para depois estabelecer sua própria igreja uma vez reunidos os recursos económicos para afrontar a obra.

A devoção a Nossa Senhora da Misericórdia em Ouro Preto existem duas igrejas onde ela é a padroeira.  Os nativos diferenciam de modo peculiar, baseados na topografia da montanhosa cidade: uma é a “Mercês de baixo” (cujo nome correto é Nossa Senhora das Mercês e Perdões), situada nas baixadas do bairro dos Paulistas, a caminho da Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias, e a outra é a “Mercês de cima” (situada acima da cidade e bem próxima do Hospital da Irmandade da Misericórdia).

Igreja Nossa Senhora da Mercês e Misericórdia


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Em função da licença eclesiástica obtida em 8 de outubro de 1771, iniciando-se no ano seguinte as obras de construção.  Arrematadas por Henrique Gomes de Brito e embora tivessem evoluído rapidamente, apenas pequena parte da igreja encontrava-se concluída por ocasião da trasladação da imagem de Nossa Senhora das Mercês da Igreja de São José para a nova capela, em fins de 1773. 

A partir do momento em que a Irmandade conseguia a licença para a construção de sua igreja, era posta em praça pública a “arrematação”, quando aparecia a figura do mestre-de-obras, ou seja, a pessoa que ficava oficialmente responsável pela construção. Eram realizadas “arrematações separadas” para cada etapa da edificação.

O processo de Arrematação era oferecido em praça pública onde era apresentada a obra que deveria ser realizada. Cada concorrente fazia a sua oferta para realizá-la. Vencia aquele que oferecia menor preço. A seguir, o contrato era descrito e registrado em documento denominado de Auto de Arrematação. Este, era um documento jurídico e nele deveriam constar informações relativas a valores, prazos de pagamento, prazo para a execução da obra, os materiais usados, as técnicas construtivas empregadas e a forma como o arrematante deveria proceder durante a edificação da obra, além de constar o nome do fiador. O fiador era uma espécie de avalista que se comprometia a conduzir a obra na ausência do arrematante. O fiador obrigava-se a arcar com os custos e os danos financeiros envolvidos no contrato em caso de ausência ou impedimento do arrematante, comprometendo sua pessoa e seus bens. As relações estabelecidas entre arrematantes e fiadores expandiam-se, muitas vezes, para além do mundo dos negócios, “estendendo os vínculos para o campo do parentesco, da amizade e da solidariedade”. E muitos casamentos, claro.

As obras se iniciavam primeiramente pela alvenaria e cantaria, seguida das obras dos pedreiros, canteiros, marcenaria, serralheria, talha, pintura e escultura.

É importante então ressaltar que para atender às solicitações e exigências das Ordens Terceiras eram contratados, inúmeros profissionais, de ofícios variados para levarem a cabo as construções  religiosas.  Os  mestres,  os pedreiros,  os  canteiros  e  os  entalhadores começaram a ter oportunidades de trabalho em obras civis e religiosas.

Dessa forma, podemos afirmar que os canteiros de obras das igrejas integravam inúmeras pessoas, desde os renomados mestres-de-obras aos mais simples aprendizes e obreiros (serventes). Neste momento os Mestres comprovavam serem homens de fábrica, ao demonstrarem que possuíam uma estrutura tanto material (como guindastes, andaimes, ferramentas, juntas de bois, escravos, dentre outros elementos). Com  a  estrutura adquirida e o canteiro de obras montado dava-se então o início das obras.

As igrejas erguidas pelas poderosas Ordens Terceiras do Carmo e de São Francisco, se tornaram  referências para diversas associações de leigos, inclusive para a Ordem Terceira das Mercês e Misericórdia de Ouro Preto, resultando no aprimoramento de mão-de-obra e na divulgação de artistas.

Citemos, para exemplificar tal situação  artistas que se destacaram na produção arquitetônica do Ciclo do Ouro em Minas Gerais.  Os nomes dos entalhadores Manoel Gonçalves Bragança, nomeado louvado no recebimento da obra de pintura e douramento da capela da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto (1810); Justino Ferreira de Andrade, contratado para os serviços nas Igrejas de Nossa Senhora do Carmo (1812-1821) e de São Francisco de Assis dessa mesma cidade (1821-1822); e do pintor João Batista de Figueiredo, arrematante de obras na Igreja de São Francisco de Assis (1773-1775)45.

Tais artistas estiveram envolvidos na construção da Igreja das Mercês e Misericórdia. No caso de Manoel Gonçalves Bragança, realizou a talha da portada dessa igreja entre os anos de 1810 e 1812. Com relação a Justino Ferreira de Andrade, tido como discípulo do Aleijadinho, foi contratado para o acréscimo das armas de Nossa Senhora das Mercês na fachada (1812). No tocante a João Batista de Figueiredo, trabalhou na arrematação e no douramento da capela-mor (1787), obra não identificada na atualidade.

Nave


Embora construída na segunda metade do século XVIII, a Igreja de Nossa Senhora das Mercês assemelha-se às construções do início do século, pela rígida marcação de seu volume arquitetônico, dividido em dois blocos quadrangulares compostos pela nave e capela-mor, porém aqui sem a inserção das torres laterais, pois aqui aparece uma única torre central.

Internamente, a ornamentação Rococó é bastante simplificada, sendo composta por quatro retábulos laterais, com a predominância de tons neutros, e o retábulo-mor um pouco mais elaborado.

Altar-mor


Nossa Senhora das Mercês é representada de pé, vestindo uma túnica branca, presa à cintura por um cinto, trazendo, no peito, o símbolo da Ordem Mercedária. Os braços estão abertos em sinal acolhimento aos fiéis. É comum aparecer a seus pés dois cativos em posição de oração, acorrentados pelos pulsos. Como atributo, pode trazer um escapulário.

O altar-mor é ocupado pela imagem da padroeira Nossa Senhora das Mercês e os nichos laterais pelos santos fundadores da Ordem Mercedária, São Pedro Nolasco e São Raimundo Nonato. As duas últimas imagens merecem atenção especial,  pois poderiam pertencer à fase inicial do Aleijadinho, como os dois outros santos de mesma invocação na Igreja das Mercês de Baixo.

Alguns mestres carpinteiros do período, também conhecedores da arte da marcenaria, reuniam qualidades técnicas para traçar riscos de plantas e alçados de edificações, habilidades tão bem desenvolvidas que praticamente eram considerados arquitetos. Tratando-se do mestre carpinteiro Manuel Francisco de Araújo, apurou-se sua contribuição em Ouro Preto nas obras do Palácio dos Governadores (1771, 1781), da Igreja de Nossa Senhora do Carmo em três períodos diferentes (1771-1773, 1782-1785, 1794-1796), da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia.

Destacamos que Manuel de Araújo detinha habilidade de arquiteto, sendo a ele atribuído um dos riscos da capela das Mercês e Misericórdia (1793) e o desenho da empena e do frontispício da Igreja de Santa Efigênia (1784-1785) em Ouro Preto.

Com relação ao Sargento-mor, José Bento Soares, comerciante abastado, grande proprietário, além de participante do Governo Provisório da Província (1821- 1822) e integrante da melhor sociedade de Vila Rica, segundo o Cônego Raymundo Trindade (1959), atuou como arrematante de obras públicas; e, dentre elas, a da Casa de Câmara e Cadeia (1831-1840) e a da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia (1826). Sabe-se que o referido empreiteiro fora dono de grande oficina e empregador do mestre pedreiro Antônio José de Lima. No caso específico desse mestre pedreiro, seu nome está associado à construção da Igreja das Mercês, inclusive quando foi ajustado contrato com outro empreiteiro da referida obra, o Tenente Gregório Mendes Coelho.

Quanto ao carpinteiro Inácio Pinto Lima, destacamos o fato de ter sido louvado, juntamente com Manoel Francisco Lisboa, para a obra da Matriz de Nossa Senhora do Pilar em Ouro Preto (1751), além de ter sido eleito segundo juiz do ofício de carapina (1757). Foi ainda irmão professo da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis. Participou também da construção das Igrejas de Nossa Senhora do Carmo (1769-1770), de São Francisco de Assis (1778-1779) e de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia (1782) nessa mesma cidade.

 

Ainda com relação ao montante de artistas e artífices envolvidos na execução da Igreja das Mercês e Misericórdias de Ouro Preto é fato notório que muitos deles também participaram de obras em outras igrejas, como as Igrejas do Rosário, de São José, de Santa Efigênia, de São Francisco de Assis, das Mercês e Perdões, da Matriz do Pilar e do Carmo, em Ouro Preto, e as Igrejas da Sé, de São Francisco de Assis e do Carmo, em Mariana.

Trata-se da existência de grande número de obreiros especializados na região de Ouro Preto e Mariana. Alguns deles considerados mestres e diretamente envolvidos na construção de igrejas, como o canteiro e pedreiro José da Silva Pereira (1782-1785), os carpinteiros Antônio Bonifácio (1782), José de Araújo Costa (1782), José Carvalho Fontes (1782), o entalhador Manoel Gonçalves Bragança (1810-[1812]) e o pintor João Batista de Figueiredo (1787).

Altares Laterais


Manuel Francisco de Araújo foi o responsável pelos quatro singelos altares laterais. As imagens são de boa qualidade, vendo-se a partir da entrada Santo Antão em frente a Santa Catarina de Alexandria e em seguida São Lourenço e Nossa Senhora dos Remédios (ou da Saúde). As três primeiras são imagens de vestir, técnica que também caracteriza as imagens do altar-mor.

Os altares laterais são peças de grande simplicidade, assim como os dois púlpitos de madeira. Os quatro retábulos da nave, de madeira recortada, têm como única decoração alguns ornatos pintados, como os pequenos brasões floridos do coroamento. Os remates rigidamente triangulares são de gosto neoclássico.

Ainda  no que tange às subcontratações,  os arrematantes  lançavam  mão  das  mesmas sempre que necessário, pois eram a partir delas que os profissionais oportunizavam a inserção nas oficinas dos aprendizes, ou até mesmo de artífices já profissionalizados no ramo em que estava sendo preciso no período em questão, mas que por algum motivo não estavam inseridos no canteiro.

Os canteiros de obras das igrejas de Vila Rica e toda Minas Gerais, funcionavam como uma oficina onde eram forjados aprendizes e também por onde circularam inúmeros trabalhadores de variados ramos, tais como mestres de obras, canteiros, entalhadores, pedreiros, dentre outros.

No caso do portuense Henrique Gomes de Brito, considerado mestre pedreiro, destacou-se por sua atuação em um grande número de obras em Ouro Preto, como: no chafariz do Alto da Cruz do Padre Faria (1757), no Palácio dos Governadores (1760-1780), na Igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz (1762, 1767), na Casa dos Contos (1766), na Casa da Fundição (1770-1772), na Igreja de Nossa Senhora do Carmo (1771, 1780), na Igreja de São Francisco de Assis (1771-1779), na Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia (1773-1774), na residência do Desembargador (1776).

O cemitério anexo foi construído em 1828

O Coronel José Veloso do Carmo, era outro comerciante abastado do período vereador no ano de 1790, que também fora arrematante de obras públicas. Mesmo que o citado coronel não tenha participado da construção da Igreja das Mercês e Misericórdia de Ouro Preto, a sua atuação ilustra a importância das oficinas ou “fábricas” do períodopromovendo a divulgação do treinamento do recurso humano disponível no mercado artístico de trabalho daquela época.

Isso nos leva a atentar para a importância das oficinas ou das “fábricas”, acima mencionadas, que se mantiveram em função da demanda existente, tanto no segmento de obras públicas e civis, quanto no setor da construção religiosa; especialmente na segunda metade do século XVIII, quando diversos grupos sociais buscaram visibilidade na estrutura de poder da época, e socialmente buscando posiciones de destaque dentro das variadas irmandades religiosas presentes na antiga Vila Rica.

 

 

fonte:

  • Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia em Ouro Preto: religiosidade e rivalidade nas Minas Setecentistas – Marcelo Almeida Oliveira (1)
  •  Fé e Cultura Barroca sob o Manto Mercedário: Hierarquias, devoções e sociabilidade a partir da irmandade de Nossa Senhora das Mercês de Mariana – Vanessa Cerqueira Teixeira (2)
  • A Irmandade Mercês dos Perdões e a formação de identidades em sodalícios negros: Minas Gerais, 1763 a 1810 – ANA ALVARENGA DE SOUZA (3)
  • http://portal.iphan.gov.br/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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