FIEMG – Parte I: História do incêndio do “Antigo Hotel Pilão”

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) localiza-se no centro histórico, ocupando um dos prédios do entorno da Praça Tiradentes. O edifício abriga o Centro Turístico e de Informações sede da FIEMG, cujo objetivo é prestar atendimento aos turistas que chegam à cidade.

Neste local, havia o antigo “Hotel Pilão” que foi completamente destruído e arrasado por um incêndio na noite de 14 de abril de 2003. Três anos depois, em 2006, a FIEMG juntamente com a Prefeitura Municipal de Ouro Preto uniu forças para efetivar o processo de restauração do casario no complexo de prédios arquitetônicos da Praça.

A Praça Tiradentes


A Praça Tiradentes, Patrimônio Cultural da Humanidade representa um conjunto urbano tal vez o mais importante do barroco brasileiro. O Casarão do Pilão, hoje Centro Cultural e Turístico do Sistema FIEMG, traz de volta sua presença arquitetônica e devolve ao patrimônio brasileiro um de seus mais preciosos monumentos.

Na fachada lateral direita, seguindo a Rua do Ouvidor ao descer da ladeira, rumo ao bairro Antônio Dias, achamos a Casa Museu de Tomaz Amônio Gonzaga e a esquina da Pousada do Mondengo, onde se acha um dos mais belos cartões postais de Ouro Preto: Igreja São Francisco de Assis e a Feira de Pedra Sabão.

História do “Antigo Hotel Pilão”


Localizado na esquina da Praça Tiradentes com a rua Cláudio Manoel, o antigo casarão de arquitetura colonial era uma referência para os moradores que o denominavam “O Pilão”, graças ao serviço de hotelaria que por décadas ocupou todo o segundo pavimento: o Hotel Pilão. Além do hotel, comércios existiam no térreo e subsolo: lojas de móveis e eletrodomésticos, de artesanato e de pedras preciosas e jóias; uma farmácia; e um café tipo lan-house.

Existiam no local três casas de posse da mineradora Ana de Menezes. Seu neto, o Padre José Joaquim Viegas de Menezes, teria herdado as propriedades. Nascido em 1778, filho de mãe solteira, Ana Caetana Josefa, teria cuidado da avó, Ana Menezes, até o falecimento desta. Teria estudado filosofia na Universidade de Coimbra. O Padre Viegas é um nome notório na história de Minas Gerais, junto com o seringueiro Manoel José Barbosa Pimenta, teria fundado a primeira tipografia de Minas Gerais, em um tempo em que essa atividade não era permitida (1807).

Por esse feito é chamado o “pai da imprensa mineira”. Faleceu em Ouro Preto em julho de 1841, tendo sido enterrado na Igreja de São Francisco de Assis. Infelizmente sua obra não foi devidamente catalogada, assim, não podemos mensurar em totalidade seus feitos artísticos, mas o pouco que se conhece é o suficiente para o colocar em destaque na historiografia das artes gráficas brasileiras. Desta forma, os poucos estudos que abordam esse tema, dão ao Padre Viegas os títulos de precursor da imprensa e de primeiro gravador em metal no Brasil. 

Os herdeiros de suas casas foram os jovens que criou, dentre ele Mariano Augusto Viegas de Menezes (filho do referido padre), autor da biografia, publicada originalmente em 1859.

Após o incêndio, escavações realizadas revelaram estruturas de alvenaria de pedra do século XVIII. Durante a reconstrução, os trabalhos de arqueologia realizados nas ruínas revelaram as fundações de três casas datadas de 1812. Há também indícios de que, em 1868, no local das três casas, existiam apenas duas e, em 1894, uma única residência.

Nos últimos anos, o hotel teria funcionado no andar superior do casarão, enquanto nos inferiores funcionavam comércios: uma loja de pedras preciosas e jóias, uma loja de móveis, uma loja de artesanato, uma farmácia e um caféinternet. Poucos meses antes do incêndio o casarão foi vendido a um empresário do setor hoteleiro não estabelecido em Ouro Preto. O hotel ficou fechado e as lojas permaneceram em funcionamento.

O Incêndio


Em 14 de abril de 2003, um incêndio destrói o casarão, além de ameaçar edificações históricas vizinhas ao hotel como o prédio da Câmara de Ouro Preto e a Casa da Baronesa, sendo necessário para apagar o fogo Batalhões de Bombeiros de cidades vizinhas.

O desfecho poderia ter sido muito pior, se não fosse a ação rápida do Corpo de Bombeiros e a proximidade do pelotão que fica a menos de 600 metros da Praça Tiradentes.

O jornalista Eduardo Kattah (Jornal Estado de São Paulo) colheu o depoimento do farmacêutico Rone Fortes, de 75 anos, ex-proprietário do Hotel Pilão: “Foi muita tristeza. Por mais de 40 anos nossa família se dedicou ao hotel. Era um prédio velho e a gente tinha de ter muito cuidado.” A reportagem conta ainda que vários ouro-pretanos, em manifestação de luto, estenderam panos pretos nas janelas de suas casas na manhã seguinte. Kattah descreveu o sentimento: “A imagem do imóvel histórico consumido pelo fogo abriu uma ferida na praça que mais representa o passado colonial mineiro”.

Vizinhos ao casarão funciovam duas Joalherias, uma Cachaçaria e residência que não foram afetados pelo fogo

FIEMG: Projeto de Reconstrução


O prédio, adquirido pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais em dezembro de 2004, do empresário Omar Perez, foi transformado em centro cultural e de informações turísticas, com a capacidade para a realização de eventos para até 600 pessoas.

A restauração da edificação manteve em exposição em seu interior as fundações das três casas coloniais, datadas de 1812 e bases da edificação unificada. O edifício de três andares conta com cafeteria, livraria, galeria para exposições e centro de atendimento ao turista, sob a administração do Instituto Estrada Real.

O projeto arquitetônico veio reparar aquela tremenda perdida ocasionada por um incêndio brutal

Em casos semelhantes de destruição por incêndios ou danos de guerra são admitidas três opções: deixar o lote livre, urbanizando-o; inserir uma edificação notadamente moderna e contrastante com o entorno; ou projetar uma edificação reinterpretando a edificação perdida;  sendo a última opção a escolhida para o caso em Ouro Preto.

A reconstrução realizada promoveu uma releitura da volumetria da edificação antiga e dos elementos compositivos das fachadas, todos similares aos da edificação destruída. O que se temia era que a arquitetura reconstruída levasse a um falseamento da realidade o quando se imita uma obra anterior ou original.

Com recursos de R$ 4,5 milhões, o casarão foi reformado pela FIEMG para tornar-se um dos principais espaços de referência ao atendimento turístico no Estado. Depois de três anos de obras, a reinauguração do casarão foi comemorada com um show gratuito do cantor e compositor Milton Nascimento, na Praça Tiradentes.

 

fonte:

  • PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E MERCADORIA: uma reconstrução arquitetônica em Ouro Preto, Minas Gerais – Vanessa Regina Freitas da Silva (1)
  •  RECONSTRUÇÃO DE EDIFÍCIOS HISTÓRICOS: Estudo de Caso do “Antigo Hotel Pilão” em Ouro Preto/MG – Marco Antônio de Próspero (2)
  • https://www7.fiemg.com.br/fiemg
  • http://www.institutoestradareal.com.br/notic/index.asp

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