Teatro Municipal de Ouro Preto – Parte II: Restauração da Casa da Ópera

Em estilo barroco, possui três andares laterais, camarote central e plateia em forma de Lira para 300 lugares no total. É um dos mais belos do Brasil e ainda é palco de muitas apresentações artísticas e culturais em Ouro Preto.

Em 2015 uma das joias mais refinadas da arquitetura colonial mineira voltou a brilhar aos olhos do público e recuperou a função de palco barroco das artes cênicas. Fechado quase dois anos, após interdição pelos bombeiros, a Casa da Ópera de Ouro Preto, tem novamente programação regular e “segurança” para atores, plateia e funcionários, conforme garantem as autoridades locais.

Teatro Municipal de Ouro Preto


A Casa da Ópera de Vila Rica, hoje Teatro Municipal de Ouro Preto, é o mais antigo teatro em funcionamento das Américas. Foi construído em 1769 e inaugurado em 6 de junho de 1770 homenageando o aniversário do Rei Don José I. O teatro foi construído pelo coronel João de Souza Lisboa, com provável projeto arquitetônico de Mateus Garcia, seguindo as linhas do barroco italiano desaparecidas na mudança da fachada em 1861.

O Teatro Municipal de Ouro Preto é o mais antigo da América do Sul

Estudos da cantora lírica Rosana Marreco Brescia, que fez doutorado sobre o tema na Universidade de Sorbonne, em Paris (França), mostram que, no Brasil, os teatros de Chica da Silva, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e o da Praia, em Salvador (BA), foram pioneiros, mas saíram de cena e do mapa. O Brasil conta ainda com dois importantes teatros dos tempos coloniais, o Teatro Arthur Azevedo, de São Luiz do Maranhão (1815) e o Teatro Municipal de Sabará (1819).

O Teatro de Vila Rica era um edifício significativo por estar na capital de Minas, mas também havia importantes teatros em Sabará, São João del Rei, Paracatu e também no antigo Arraial do Tejuco. Contudo a Casa da Ópera de Ouro Preto é o único teatro setecentista ainda preservado e em atividade, sendo ainda mais antigo que o principal teatro de Lisboa ainda existente, o Teatro São Carlos, inaugurado em 1793.

O teatro de Vila Rica com 250 anos de historia teve uma atividade quase ininterrupta, salvo pelos momentos em que esteve fechado para obras de restauração ou manutenção.

Historia das Restaurações


Ao longo de sua história, inúmeras reformas aconteceram, sendo a mais significativa em 1882, quando a estrutura das quatro ordens de camarotes foi também alterada, adquirindo a forma de ferradura e recebendo piso em declive. Todas essas modificações visaram a adaptá- lo às exigências de conforto dos usuários do século XIX.

Vista atual do Municipal de Ouro Preto desde o palco

Durante o século XX outras modificações foram feitas até que em 1960 o prédio foi parcialmente reconstruído e a entrada principal restaurada. Em 1963, a viga principal do telhado partiu-se, e mais um conserto foi feito mas toda a estrutura do prédio estava muito enfraquecida, assim como condenadas as instalações elétricas, os camarins sem condições de uso e as infiltrações comprometiam todas as madeiras da casa.

Durante os anos 70 foram feitos novos restauros mas não foram suficientes para restaurar a segurança do teatro. Mas na frente, outras reformas se deram e a mais importante foi em 1985. Em cima da boca de cena e no camarote real foram descobertas antigas pinturas, de autoria desconhecida, provavelmente realizada entre 1854 e 1862, inspiradas nos temas da Tragédia, da Comédia e da Música.

Em cima da boca de cena antigas pinturas foram descobertas

No decorrer de 1993, a Casa da Ópera teve reformada sua estrutura de camarins e banheiros, com o rebaixamento do piso das instalações internas e criação de uma sala de aquecimento e ensaio dos artistas. O projeto de reforma, assinado pelo arquiteto e cenógrafo Raul Belém Machado, incluiu a modernização de todo o equipamento de som, luz e vestimentas do palco, além da mudança na localização das cabines técnicas. Foi feito o restauro dos adornos em madeira no foyer de entrada e também o sistema elétrico foi substituído. O Teatro foi inteiramente pintado de acordo com a descrição feita pelo explorador inglês Richard Burton, que visitou Ouro Preto no século XIX.

Em 1998, foi dada uma concreta valorização do Teatro, tanto histórica quanto social, ressaltando o fato de que o Teatro, apesar de ser uma obra de extrema importância, não tinha tombamento individualizado e exclusivo.

Restauração do Teatro


Em 2006 toda a estrutura do teatro foi revalorizada. O teto, o piso de madeira e o mobiliário do prédio foram inteiramente restaurados pela Prefeitura do Ouro Preto, em parceria com o IPHAN.

A Prefeitura Municipal de Ouro Preto informou que as obras custaram R$ 950 mil, sendo que uma parte do dinheiro é do Programa Monumenta/ BID, do Ministério da Cultura (MinC), e a outra provém de contrapartidas do município. O Monumenta/BID é uma parceria entre o MinC e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que financia os projetos do programa.

São três andares, com 300 lugares divididos entre plateia, frisas, galerias e camarotes

As obras envolveram, segundo Paulo Hermínio, que além de arquiteto responsável pela restauração do teatro era coordenador do Monumenta/BID “uma ampla restauração, não apenas física, mas da iluminação e sistemas de som e luz”.

Para incrementar as produções no palco, o teatro ganhou sistemas de varas de cenário e de iluminação (barras usadas para suspender elementos cenográficos e de luz). Foram implantadas também novas instalações elétricas da iluminação cênica, implantação de sonorização no teatro.

As instalações  hidráulicas e proteção contra incêndio, deterioradas pelo tempo, foram refeitas. Para prevenir incêndios, houve instalação de um sistema de sensores óticos para detecção de fogo. Alias, o teatro recebeu um anexo. Um terreno vizinho foi desapropriado pela prefeitura para funcionamento de bilheteria, administração, toaletes e café.

Durante o processo de intervenção, foram, também, realizadas análises laboratoriais da argamassa encontrada

Ao ser iniciado o tratamento da fachada principal, foi observado que a maior parte do revestimento era composto por cimento. Tal revestimento apresentava-se em péssimo estado, devido a areia empregada ser de má qualidade e por não ser adequada à construção. Optou-se, então, por se remover totalmente esse revestimento, e retornar a técnica antiga utilizando cal e areia.

Sobre o frontão, há um lajeado de pedra, local de infiltrações. O rejuntamento foi refeito e aplicado silicone para se evitarem futuras infiltrações.

Nas diferentes etapas de execução no projeto de restauração foram reavaliados os critérios éticos e técnicos de conservação para devolver a edificação às características originais. Todo o madeiramento recebeu tratamento contra insetos xilófagos. Alteraram- se o produto especificado e a técnica por produto de maior efeito residual e eficácia.

As cadeiras da platéia foram todas mapeadas antes da remoção para seu tratamento

No remanejamento e substituição do tabuado de piso, observou-se a necessidade de substituição do barroteamento, que, pela proximidade das paredes, se deteriorou. O novo barroteamento recebeu aplicação de manta asfáltica, junto às paredes, para proteção contra umidade. Os tabuados de pisos da platéia e frisas, substituídos em intervenção anterior por tábuas de 10 cm, não seriam substituídos, mas, devido a existência de tabuado não uniforme (tábuas com largura e tamanho diferentes), decidiu-se pela substituição total, seguindo as dimensões encontradas.

O barroteamento da platéia estava deteriorado pela proximidade do solo. Nesse caso, foi aumentado o espaçamento para maior ventilação. Definiu-se a criação de câmara de ventilação para conservação do tabuado de piso e do barroteamento da sala de aquecimento.

O nível das salas de aquecimento e o nível do piso dos camarins foram rebaixados em intervenção anterior, ficando como registro desse nível as bases dos pilares existentes, sendo em pedra revestidos com madeira. Em avaliação da fiscalização e IPHAN, definiu-se a remoção de duas bases deixando uma como registro.

No tratamento do suporte do fechamento sob o palco, foram realizados pequenos enxertos, consolidações, contenção de rachaduras e colocação de molduras para sua fixação junto ao piso, evitando a utilização de pregos. Para a realização dos serviços, as tábuas foram mapeadas e foram tomados os cuidados com a policromia.

O telhado ganhou uma manta de alumínio anti-fogo sob as telhas. o telhado foi todo refeito e recebeu uma proteção de lona impermeável. No tratamento do telhado, foram encontrados vestígios do forro original, sendo liso e, aproximadamente, 15 cm acima do forro tipo saia e camisa existente.

Antes da execução dos rebocos foram realizados testes laboratoriais para determinação do traço da argamassa original. As prospecções foram realizadas em 4 pontos distintos. As pinturas das paredes internas apresentam várias camadas de repinturas. O projeto decidiu-se pela utilização de tinta à base de resina PVA (acetado de vinila), continuando o que existia. No entanto, o processo será alterado de modo que toda a pintura à base de resina PVA existente será removida e se retornará à técnica original utilizando-se caiação.

Nos elementos como tabiques, escadas, guarda-corpos e colunas, foram realizadas novas prospecções resultando em alterações das cores.

Na recuperação e/ou restauração de edificações antigas, de importância histórica, deve-se fazer um planejamento detalhado para que o processo de intervenção não venha a comprometer a edificação original. Na intervenção realizada, foram observadas as diretrizes do Comitê Internacional para Análise e Restauração de Imóveis do Patrimônio Arquitetônico como referências básicas e adequadas em intervenções históricas.

Para a intervenção e/ou execução da restauração no Teatro Municipal da cidade de Ouro Preto, fez-se um levantamento sobre a história da edificação e analisaram-se os documentos sobre intervenções anteriores já realizadas, além de um minucioso levantamento fotográfico.

Em 2014, vítima do descaso, com problemas estruturais e de segurança, a Casa da Ópera de Ouro Preto foi obrigada a fechar novamente suas portas. A casa foi fechada por questão de segurança, já que havia gambiarras na parte elétrica, feitas para ligação de equipamentos, e outras inadequações na iluminação que poderiam causar curto-circuito.

Devido à falta de extintores de incêndio, graves problemas na estrutura e danificação do sistema elétrico e madeiramento, em janeiro de 2014 o teatro foi interditado pelo Corpo de Bombeiros. Eles explicaram que o local estava com extintores vazios e fora do local, problemas na distribuição elétrica, avaria na estrutura, cupins, entre outros.

A Prefeitura, responsável pela administração via Secretaria Municipal de Cultura e Patrimônio, publicou então uma nota em que explicava que o local seria fechado para reformas na rede elétrica e para adequação às normas de segurança. A reabertura da Casa da Ópera de Ouro Preto só aconteceu em outubro de 2015.

 

fonte:

  • A restauração do Teatro Municipal de Ouro Preto(MG)Elisângela Rodrigues da Silva Araújo, Klaydson D. Lopes França, Ernani Carlos de Araújo, Henor Artur de Souza (1)
  • https://www.otempo.com.br – entrevista Rosana Marreco Brescia, pesquisadora e musicista (2)
  • https://www.ouropreto.mg.gov.br/
  • http://portal.iphan.gov.br/

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