SEMANA SANTA em OURO PRETO (MG): Dia 1 – Sexta-Feira das Dores: O Setenário de Nossa Senhora das Dores

Em Ouro Preto existem duas Igrejas que protagonizam o chamado Setenário de Nossa Senhora das Dores, que explicaremos neste post. Elas são: Igreja de Nossa Senhora das Dores do Calvário e a Igreja Matriz do Pilar.

Ali os fiéis passam a realizam anualmente, nos sete dias que antecedem o início da Semana Santa, o Setenário das Dores, que consta de cânticos barrocos e orações tradicionais, através dos quais venera-se a Mãe de Deus em seus sofrimentos e dores.

Semana Santa em Ouro Preto


Tradicionalmente, a Semana Santa é celebrada de forma alternada: nos anos pares, a Paróquia de Nossa Senhora do Pilar fica encarregada de organizar as celebrações; nos anos ímpares, essa função fica a cargo da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, do Antônio Dias. A cada ano, porém, será apenas uma delas que será levada para fora da igreja, em procissão.

No período imediatamente anterior à Semana Santa, realizam-se no Pilar e no Antônio Dias os Setenários das Dores de Nossa Senhora, que visam consagrar, cada qual, a sua imagem. O Setenário corresponde a uma série (cumulativa e padronizada) de ritos preparatórios para a Semana Santa que se encerram na Sexta das Dores, dia que dá começo a celebração da Semana Santa.

Naquela sexta-feira, as paróquias do Pilar e do Antônio Dias celebravam a última das sete dores de Nossa Senhora, cada uma voltando-se para a sua imagem da santa. As imagens processionais permanecem sobre o andor próxima à saída da igreja, aguardando as portas abrir e dar início assim, a primeira posição da Semana Santa: O Depósito de Nossa Senhora das Dores.

Antes e no dia mesmo de sua ‘montagem’ a cargo das zeladoras com a troca de roupas, o ajuste do cabelo e de seus atributos, a colocação sobre o andor … a santa também se torna objeto de atenção numa sequência de cerimônias que culminam em sua saída em procissão.

Semana Santa: O Setenário das Dores


O culto à Virgem Dolorosa veio de Portugal para o Brasil, sendo primeiramente realizado em Vila Rica, hoje Ouro Preto. Tido como uma das mais belas tradições religiosas de Minas Gerais, ele ocorre durante sete dias na Semana que antecede a Semana Santa.

O tema das Sete Dores de Maria popularizou-se na Igreja Católica desde o século XVI, chegando a Portugal e conseqüentemente ao Brasil no século XVII. A representação das Dores é simbolizada por sete espadas cravadas no coração de Maria, lembrando a profecia de Simeão, que previne Maria do martírio que Jesus irá sofrer.

  • 1ª. Dor – Espada de dor traspassará seu coração
  • 2ª. Dor – A fuga para o Egito
  • 3ª. Dor – Perda e o encontro de Jesus no templo
  • 4ª. Dor – Doloroso encontro com Jesus no caminho do Calvário
  • 5ª. Dor – Aos pés da Cruz
  • 6ª. Dor – Jesus e colocado no colo de sua mãe – Pietá!
  • 7ª. Dor – Jesus é sepultado

No Antônio Dias, elas se concentram em sete noites seguidas. No Pilar, entretanto, o Setenário ocorre ao longo de sete sextas-feiras (de sete semanas), portanto, com o primeiro dia coincidindo com a sexta-feira anterior ao carnaval.

Do ponto de vista de sua organização interna, o Setenário no Pilar é um evento realizado sem ligação com missas, e com uma concentração maior de cânticos em latim (alguns deles produzidos nos idos de Vila Rica). Já no Setenário de Antônio Dias, as orações e cânticos são feitos em sua maior parte (embora não completamente) em português, sendo as dores dos dias anteriores sempre repetidas até chegar à dor daquele dia específico, quando então se avança. Nessa segunda paróquia, o Setenário ocorre sempre depois de uma missa.

Igreja Matriz Antônio Dias


A Capela Nossa Senhora das Dores, famosa por ter sido frequentada por Marília de Dirceu, todos os anos realiza o Setenário das Dores, cerimônia que ocorre na semana previa a Semana Santa.

Situada no bairro de Antônio Dias, a construção de primitiva Capela de Nossa Senhora das Dores do Calvario, em terreno doado pela Irmandade do Santíssimo Sacramento de Antônio Dias, foi iniciativa da Irmandade de Nossa Senhora das Dores do Calvário, constituída em 1768 na Matriz de Antônio Dias, por membros da Irmandade Dolorosa de Braga, que residiam em Vila Rica.

A primitiva capela teve permissão para sua construção em 1775. Erguida no mesmo local da atual, foi construída em 1783 por um arquiteto desconhecido, toda em pau-a-pique. Mas a capela que hoje vemos, tendo toda a sua estrutura em pedra, data de 1835. Confraria até 1863, passa nessa data a ordem terceira, chamada a Ordem Terceira dos Servitas.

A devoção à Nossa Senhora das Dores já se encontra  presente na chegada ao templo; essa expressão se situa no centro de sua parede exterior. Trata-se de um medalhão representando a imagem da Virgem, esculpido em pedra, cuja imagem encontra-se com o coração traspassado por uma lança, e abaixo, os servos de Maria com um rosário, convidando-nos a refletir sobre essa devoção.

A invocação desse símbolo pertencia à Congregação do Oratório, em sua Casa de Braga desde 1761, em Portugal onde se estabelecera uma Confraria de “Servos de Nossa Senhora das Dores”. Tais servos logo passaram a ser denominados de “Servitas” e se transformaram em Irmandade de Nossa Senhora das Dores e Calvário.

É no altar central da capela onde se encontra toda a explicação com a letra e a música do Hino Stabat Mater: trata-se da Imagem de Nossa Senhora das Dores, colocada junto a uma Cruz, onde está crucificado o seu Filho, Jesus Cristo. Em sua simbologia, ela aparece no altar-mor desta igreja com o coração traspassado por sete espadas, cada uma representando uma dor que sofreria enquanto mãe do Messias, sua fisionomia exprime agonia e resignação. Reflete-se, assim, sobre todos os seus sofrimentos, metaforizados como Sete Dores e representadas pelas respectivas espadas.

A música sacra Stabat Mater possui versos de Inocêncio III, e é uma das peças cantada todos os dias no fim do Setenário, quando se incensa o altar, traduzindo o contexto específico do ritual. Sua letra é em latim e possui uma harmonia para com o espaço onde é cantada. Na letra do Hino Stabat Mater reverencia a fortaleza e a paciência (dons do Espírito Santo), as quais foram os instrumentos de Maria.

A música, juntamente com as cores típicas da quaresma e em consonância com as linhas arquitetônicas e plásticas do templo, faz criar em torno da celebração litúrgica o ambiente necessário para o fiel a entrar na atmosfera constrita do rito.

Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar


O Setenário das Dores em Ouro Preto, tem origem na segunda metade do século XVIII, seguindo uma tradição lusitana. Na sexta-feira véspera do Carnaval, o solene e piedoso Setenário das Dores de Nossa Senhora começa a ser celebrado na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, padroeira de Ouro Preto. É uma tradição de três séculos, pela qual a população se prepara para viver a Quaresma e a Semana Santa.

Durante sete sextas-feiras, até a véspera do Domingo de Ramos, junto ao altar lateral de Nossa Senhora das Dores, acontece o ofício do Setenário, acompanhado por numerosos fiéis, a partir das 19:30pm, depois de os grandes sinos da matriz chamarem o povo.

O ritual barroco da cerimônia é conservado também nas músicas executadas pelo Coral e Orquestra Francisco Gomes da Rocha, sob a regência do maestro Alcindo Alves. São ouvidas na ocasião, a antífona “Salve Regina”, do grande músico mineiro José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita.

Os paroquianos do Pilar comentam com orgulho: “Aqui é o único lugar na América Latina que se faz o Setenário usando o texto medieval original o Setenário do XVIII, que vem da Idade Média.”

O ofício do Setenário manifesta a força da fé do povo e enfatiza as dimensões barrocas da cidade de Ouro Preto, na moldura inigualável da talha dourada da Matriz do Pilar. O Setenário das Dores, tema de belos poemas de Alphonsus de Guimaraens, sensibiliza a emoção de toda Ouro Preto.

No início do século XVIII as Irmandades do Santíssimo, em praticamente todas as Vilas das Minas Gerais, tinham a função de promover a Semana Santa, contemplando também atividades religiosas no período da quaresma.

Na Matriz do Pilar, a partir de 1712, encontramos registros de despesas que a Irmandade do Santíssimo faz para a promoção da Semana Maior dividindo o montante dos gastos entre os irmãos e em dezoito partes: três cabiam ao provedor, três rateadas entre o tesoureiro e o escrivão e as restantes entre os doze “mordomos de mesa ou definidores”.  A despesa conforme o grau hierárquico era na verdade um investimento, pois resultava em prestígio para os membros da Mesa Diretora. Os gastos mais comuns eram aplicados para a contratação de músicos, dos sacerdotes para os sermões (Mandato, Paixão, Soledade e Páscoa), para a cera (velas), tochas, turíbulo e naveta, pálio franjado de ouro, armações efêmeras indispensáveis aos ritos e amêndoas para os anjinhos nas procissões.

A Virgem aguarda sobre o andor o memento dedar inicio à posição

A partir de 1715, a responsabilidade para a administração da Quaresma e Semana Santa passou a ser dividida com a Irmandade do Senhor dos Passos que, com seus recursos, contratou a fatura do altar da nave, a imagem dos Passos e a sala do Consistório dos Passos, edificada em frente ao Batistério.

Já no século XIX, sem uma data precisa é autorizada a criação da Irmandade de Nossa Senhora das Dores ocupando com seu altar a Sala do Consistório e para lá é transferida a imagem da Virgem Dolorosa. A inexistência de documentos importantes como o Livro de Termos e Deliberações e o Livro de Compromisso dificultam maiores informações da atuação desta irmandade na igreja Basílica de Nossa Senhora do Pilar ao longo do século XVIII.

Em Ouro Preto, nas duas matrizes mais antigas, esta devoção se consolidou como parte do culto da Semana Santa. Na Matriz de Antônio Dias, a Irmandade surgiu em 1768, obtendo licença para benzer a ermida primitiva em 1777. Em 1785, eles compraram em Braga a imagem da Virgem Dolorosa.

As duas imagens de Ouro Preto são utilizadas alternadamente, a cada ano, nas procissão que da inicio à Semana Santa de Ouro Preto: O Depósito de Nossa Senhora das Dores.

 

fonte:

  • Uma reflexão comparativa entre o hino Stabat Mater e o simbolismo da Capela de Nossa Senhora das Dores do Calvário –  Maria da Consolação Anunciação -Elisabeth Maria de Souza Camilo (1)
  • Augusto de Lima Júnior, “História de Nossa Senhora em Minas Gerais”, Imprensa Oficial, Belo Horizonte 1956
  • http://portal.iphan.gov.br/
  • https://pilarouropreto.com.br/

 

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