SEMANA SANTA em OURO PRETO (MG): Dia 9 – Sábado Santo: Os Tapetes de Serragem

Após a Sexta-Feira da Paixão (cume da rememoração das dores se faz desfilar o féretro simbólico de Jesus pelas ruas da cidade à noite), o sábado tem sabor de interlúdio para meditação. O Sábado Santo é um dia de luto, pois é um dia de silêncio onde a comunidade cristã vigia junto ao túmulo de Jesus. Não há celebração eucarística. Calam os sinos e os instrumentos musicais. O altar está despojado. O sacrário aberto e vazio. As portas da igreja continuam abertas, mas as luzes não estão acesas.

É na madrugada entre o sábado e o domingo, quando as intenções da comunidade se voltarão para, num ato de fé, esperar pela ressurreição do Senhor até o amanhecer, dedicando a noite à execução dos tapetes.

Em Minas Gerais, a religiosidade popular é vivida intensamente nas celebrações da Semana Santa. Em Ouro Preto, os tapetes feitos com serragem, borra de café e cal branco enfeitam as ladeiras históricas e a cidade se transformam em um palco vivo da religião.

A tradição dos Tapetes


Trazida pelos portugueses durante o Brasil Colônia, a tradição foi difundida junto ao estilo barroco, que domina a arquitetura das casas e igrejas de diversas cidades mineiras. Em Ouro Preto, a prática existe desde 1733, quando a matriz do Pilar foi reinaugurada com a festa do Triunfo Eucarístico. Na procissão do Triunfo, junto aos sacerdotes, seguiam os fiéis pertencentes a irmandades da cidade, todos com trajes de gala. As ruas entre a Igreja do Rosário e a Matriz do Pilar foram cobertas de flores e folhagens, enquanto as janelas das casas receberam sedas e tecidos adamascados, além de adornos de ouro e de prata.

Em 1963, quando Nossa Senhora do Pilar foi escolhida a padroeira de Ouro Preto, os tapetes voltaram a ser feitos. A população abraçou o ato e os tapetes passaram a ser confeccionados anualmente, na noite do Sábado Santo, para agasalhar a procissão do Domingo da Ressurreição.

A rivalidade entre os antigos arraiais


O tapete de serragem realiza-se alternadamente pelas duas paróquias matrizes, de Antônio Dias e do Pilar, entre anos pares e ímpares. A sua confecção revezada recupera ritualmente, da história de Ouro Preto, a herança da rivalidade entre os antigos arraiais em torno à precedência de direitos sobre a celebração da festa e sobre o desenho de tapetes para a procissão do dia domingo realizada na cidade.

Segundo a tradição, são colocadas toalhas coloridas e flores nas janelas. As toalhas vermelhas ou roxas são para os dias mais solenes, sendo substituídas por tecidos brancos ou coloridos para o Domingo da Ressurreição. A Paróquia do Pilar (anos pares) ou a paroquia de Antônio Dias (anos impares) pedem que moradores e comerciantes enfeitem as casas e janelas no trajeto das procissões e que mantenham acesas as luzes das fachadas para facilitar a confecção dos tapetes.

Bairro de Matriz de Antônio Dias

Sua prática tem recebido uma série de adições resinificadas, e em Ouro Preto, é particularmente importante a dinâmica que envolve as duas paróquias das Igrejas Matrizes, do Pilar e da Conceição, “rivais” na execução do tapete, que indicam por meio dessas obras gráficas quilométricas seus territórios de influência, delineados no urbano.

A cidade (à época Vila Rica) foi criada da união de dois povoados, à força de lei – o Auto de ereção de Vila Rica– mas suas comunidades mantiveram-se desunidas como herdeiras dos conflitos históricos dos antigos moradores dos povoados de Antônio Dias do homônimo Ouro Preto. Os dois arraiais fundiram-se em uma única malha urbana, mas cujas comunidades mantiveram-se em desavença. Os motivos originais dessa desavença desbotaram com tempo, mas o fato é que seus sentimentos foram muito mais resistentes e a rivalidade ainda persiste. Hoje coexistem na cidade as duas igrejas matrizes, mas na construção do tapete como obra plástica de escala urbana elas continuam rivalizando, pois, a alternância na condução das celebrações de Semana Santa faz com que elas não se misturem, representando cada ano o lugar que cabe a cada uma.

Largo do Rosário e Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

A cada ano o percurso da procissão, e, portanto, o desenho do tapete se orienta a partir dos lados opostos da cidade, separados pela colina em que hoje se espraia a Praça Tiradentes, em suposta consequência natural da localização das duas paróquias. Poderia ser percorrido, por exemplo, por um percurso que ligasse as duas Igrejas Matrizes, como é feito na festa de Corpus Christi. Curiosamente, no Domingo da Ressurreição (a procissão do tapete), os seus trajetos partem de uma matriz sem intenção de realizar o que seria um ato de união simbólica; antes descrevem trajetos que parecem indicar a intenção de afirmação territorial, nos cortejos em que suas paróquias preparam seus próprios tapetes.

Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar

Seus fiéis procuram se superar na realização de tapetes mais bonitos a cada ano, mas dependem de uma estrutura logística de provisão da matéria prima que caracteriza a escala da cidade da iniciativa organizacional do município através da Secretaria da Cultura e Turismo (Prefeitura de Ouro Preto). Os materiais (a serragem colorida, majoritariamente) são fornecidos em quantidade e variedade determinada, e seu uso racionado demonstra que, conquanto seja enorme o volume produzido, às vezes ainda beira a escassez, dada a monumentalidade dos tapetes.

Um trabalho comunitário


Os tapetes são o resultado de um comportamento coletivo espetacular organizado da comunidade, mesmo antes da procissão; onde muitos são os artistas populares que o compõem, e muitos são os figurantes que participarão do ato de fé teatralizado e popular, a procissão de encerramento do ciclo de celebrações da Semana Santa onde os tapetes são parte fundamental como decoração urbana.

A Procissão da Ressurreição parte no último domingo da Semana Santa, às 8h, da Basílica do Pilar (anos pares), logo após a missa festiva. O trajeto segue pela Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Rua Getúlio Vargas, Rua São José, Rua Direita, Praça Tiradentes, Rua Cláudio Manoel, Rua São Francisco e termina em frente à Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões, mais conhecida como Igreja de Mercês de Baixo.

A procissão começa cedo, e sua passagem sobre o tapete torna impossível distinguir os desenhos com clareza. Os temas são variados, desde figuras do imaginário religioso católico (cruzes, cálices, cordeiros, pombos, velas, rostos de Cristo, anjos etc.) ao lado de mensagens de conteúdo e gosto pessoal.

A evolução dos materiais


Nem sempre o tapete foi realizado com serragem. Consta que o uso sistemático desse material se deu a aproximados 40 anos, com a criação da FAOP (Fundação de Arte de Ouro Preto). Até então os materiais eram mais variados, entre os quais se empregavam folhagens, flores e areias. Também papéis picados multicoloridos, raspa de couro, cal, casca de arroz, borra de café e outros subprodutos da cozinha. Esse trabalho de preparação dos materiais era lento e decorria do esforço individual articulado em torno de um objetivo comum dos paroquianos.

Com o passar do tempo o uso da serragem representou uma evolução no uso de materiais. O vibrante colorido se deve à presença ainda mais recente de anilinas sintéticas, outro avanço rapidamente incorporado em substituição à parca paleta obtida antes pelo uso do pó Xadrez.

A introdução de serragem pigmentada se intensificou no final da década de 1960. Nessa época, a FAOP, assumiu a responsabilidade de revitalizar a tradição enfraquecida da festa e do tapete em Ouro Preto. Passou a preparar, com auxílio da prefeitura, uma grande quantidade de serragem que era pigmentada e entregue pronta, em grandes sacos, por trechos de rua, cujo intervalo permitisse calcular a quantidade necessária de sacos para cobrir a área pela camada de serragem.

Se antes o tapete, como obra integral, poderia ser admitido como a simples justaposição de partes componentes, provenientes do esforço de cada casa/família residente no percurso, e que resultava no somatório de esforços populares convocados por um sentido religioso-memorial, o tapete “moderno” é antes de mais nada pensado como uma obra total, do percurso para as partes, na escala da cidade, o que requer competente ação logística e planejamento prévio.

Desde então houve a interferência de uma organização gestora, amparado por investimento do poder municipal. Mas a garantia de sua realização exitosa dependia do respeito ao rito processional do Domingo de Ressurreição, do respeito às tradições. Atualmente o percurso definido é protegido pela intervenção da polícia, proporcionando as interrupções do trânsito, no intervalo que se entende do início da confecção do tapete (Igreja Matriz) até o fim do cortejo; bem como a limpeza das ruas é programada para ação das equipes de garis, para devolver o espaço às suas funcionalidades ordinárias cotidianas após o rito. Tudo isso ocorre entre as 22:00h de Sábado de Aleluia até aproximadamente ao meio dia do Domingo de Páscoa, incluindo a confecção e o desmanchamento do tapete.

Hoje convivem vários materiais, aqueles que foram armazenados, nas semanas anteriores, pelos moradores (como borra de café, papel picado, pó de gesso, raspas de couro), bem como pela serragem colorida que é distribuída pela Prefeitura Municipal no próprio sábado. Com esses itens em mãos, todos aqueles que se dispõem a participar da produção dos tapetes começam então a traçar desenhos sobre os paralelepípedos das ruas. Pouco a pouco, vai se formando na cidade um longo caminho por onde passará, no dia seguinte, a procissão da Ressurreição.

A dinâmica familiar da construção


O volume de material de serragem se calcula em mais de 2000 sacas, aproximadamente. São mais de dois quilômetros separam os extremos dessa obra de grafismo ininterrupto, a uma largura média de três metros, o que resulta numa tela gigante de mais de 6000m2.

A dinâmica da construção leva os vizinhos a permutarem entre si punhados de serragem de cores diversas. Isso decorre basicamente do fato de que, ao preparar as toneladas de serragem para serem deixadas por caminhões às portas das casas, os operários depositam-na calculando, por experiência, de quantos em quantos metros ficarão conjuntos de dez a vinte sacos, segundo a variação da largura das ruas.

Nesse ponto começa um interessante jogo de consultas, favores e barganhas entre os vizinhos e turistas que trabalham em grupos na confecção dos designs. Não só da deposição da serragem de alguma cor em particular, que constitui a alma da confecção, mas também o vai-e-vem de algumas gabaritos ou moldes, que ajudam a repetir com mais exatidão os desenhos apropriados como padrões.

O tapete, habitualmente, espraia-se no chão da rua na projeção frontal da casa, como um rebatimento da fachada no plano horizontal do pavimento. Assim, os habitantes da casa se articulam entre si para fazer do tapete uma projeção pública da identidade particular da família.

Alguns desenhos, quando não predestinados à repetição pelos gabaritos, são escolhidos de última hora. Mas normalmente o tapete representa oportunidade de se escolher em família, e com alguma antecedência, algum assunto que pode ter natureza relacionada à imaginária religiosa: uma pomba, uma cruz, uvas, flores, custódias e hóstias, um sagrado coração, um cordeiro etc. É possível ainda encontrar flâmulas com inscrições, cuja mensagem pode ter conteúdo religioso, de bons desígnios ou mesmo de crítica política.

Durante a execução do tapete, outras funções revelam uma destinação de papéis quase natural. Os homens adultos carregam os sacos pesados, cheios de serragem úmida, aos pontos de onde serão distribuídas. As mulheres muitas vezes lideram as atividades tanto quanto participam, e as crianças, orientadas, se ocupam de detalhes dos desenhos. Todos, em um momento ou outro, deitam a serragem no chão, ato essencial da confecção do tapete. A importância da integração familiar na escala do segmento no tapete se mostra também em que, com o envolvimento de gerações nessa atividade, se dá a transferência da tradição e das técnicas, em meio a um ato prático de educação religiosa com sentimento de devoção familiar.

 

fonte:

  • Tapete de serragem da Semana Santa em Ouro Preto: desenhos, escalas e significados – Esequias Souza de Freitas  (1)
  • PEREIRA, Edilson Sandro. O Teatro da Religião: A Semana Santa em Ouro Preto vista a partir de seus personagens. 326 f. Tese (Doutorado). UFRJ/ Museu Nacional/ Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, 2014 (1)
  • Tapete de serragem da semana santa: Aspectos desenhísticos de uma tradição da cidade de Ouro Preto
  • Crédito foto: Ane Souz – Eduardo Tropia – Tino Ansaloni
  • http://portal.iphan.gov.br/
  • https://pilarouropreto.com.br/artigos/

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *