SEMANA SANTA em OURO PRETO (MG): Dia 8 – Sexta Feira da Paixão: Descimento da Cruz e a Procissão do Enterro

O mesmo palco o dia de ontem foi usado para representar a Cerimonia dos Lava-pés, hoje serve como palco para a representação mais importante da Semana Santa. A Sexta da Paixão que relembra a crucifixão e morte de Jesus Cristo.

Cabe lembrar que hoje Sexta-Santa, é feriado também, por tento milhares de turistas acodem a Ouro Preto, a primeira cidade brasileira em ser nomeada Patrimônio da Humanidade.

Além das Irmandades e Ordens Terceiras, a guarda romana, a Verônica, as bandas de música, há também outros atores que participam da procissão e que ajudam a completar o cenário nessa data especial do calendário cristão e local. Eles são os personagens bíblicos que oferecem um marco colorido pleno de religiosidade.

Sexta-Feira Santa ou da Paixão


Assim como as imagens do Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores foram as protagonistas do primeiro fim de semana na emotiva procissão do Encontro que tem lugar na praça principal de Ouro Preto, a Praça Tiradentes, nesta Sexta da Paixão a imagem protagonista e o Senhor Morto é a que vai dar continuidade à dramatização ritual da paixão, iniciada dias antes, pois hoje é o dia no qual se relembra a crucifixão e morte de Jesus Cristo. Da procissão do Encontro no domingo de Ramos, passamos a procissão de hoje, conhecida como “procissão do Enterro”, na qual a Senhora das Dores e seu filho voltam a participar.

Museu de Arte Sacra na Matriz do Pilar

Tanto o Pilar quanto o Antônio Dias têm uma imagem do Senhor Morto, como ocorre também em relação às imagens de Nossa Senhora das Dores. Na primeira paróquia, aquela imagem fica no Museu de Arte Sacra na Matriz do Pilar. No segundo caso, ela permanece na sacristia da igreja de São Francisco de Assis, de onde ele só sai para a Semana Santa, sob os cuidados dos irmãos da Ordem Terceira daquela igreja.

Quando chega a sexta-feira santa, momento em que se celebra a morte de Cristo, uma série de atividades passam a dar o tom fúnebre que caracteriza o dia. O clima de luto é expressado pelas várias toalhas de cor roxa ou vermelha que enfeitavam casas e edifícios das ruas por onde passam as procissões. Cores que remetem ao sofrimento e à dor.

Toalhas vermelhas em sinal de luto

Este dia é marcado pela ausência de missa, porem dentro da matriz que sedia a Semana Santa começa, às 9h, o Sermão das Sete Palavras, que teriam sido ditas por Jesus na cruz. Já na noite, a apresentação das figuras bíblicas durante a montagem da cena do Calvário (onde Cristo morreu), que será sucedida, ao seu final, pela procissão do Enterro.

 

Guarda romana

A atuação do Senhor Morto será marcada pela coparticipação da guarda romana (que sempre acompanha o Cristo, independentemente da forma/imagem através da qual ele apareça).

Eles constituem o primeiro grupo de personagens a despontar na região central da cidade na tarde da sexta-feira santa. Pouco antes das 15h, momento que corresponderia ao instante exato da morte de Cristo, segundo a tradição cristã, a guarda romana da paróquia que sedia a festa sai de seu local de troca de roupa e vai marchando, como um batalhão militar, até o palanque onde será crucificada a imagem do Senhor Morto.

Encenação da Crucifixão


Diferentemente da noite anterior (quando se realizou a cerimônia do Lava-pés), hoje há três cruzes de madeira erigidas no adro da igreja, sendo a do centro maior que as da lateral: ao centro fica a imagem do Senhor Morto e, ao seu lado, as figuras do Bom e do Mau Ladrão (bem mais simples do que a primeira, feitas em papel machê, pintado, mas também com cabelos).

Os guardas ficam ao lado e atrás das cruzes, parados como estátuas, numa posição que será mantida ao longo de várias horas. Conforme a noite aproxima-se o palco ganha realce pela iluminação especial utilizada para a festa, destacando o Cristo e a fachada da igreja nos fundos.

Em relação às imagens, especificamente, há um trabalho de preparação que envolve a sua retirada de altares/sacristias, a troca de suas vestes, de suas perucas, o cuidado com seus andores etc. Assim como ocorre em relação ao figurado, elas precisam ser adequadamente vestidas para a festa, como que encobertas por um figurino específico.

Personagens bíblicos


Neste dia de intensa atividade ritual e turística também, pois a cidade está cheia de gente que chegou para o feriado, os ajustes finais necessários para a preparação dos personagens bíblicos que participam da cerimônia se concentra nos ateliers de costura. Antes de sua apresentação, é grande a agitação para finalizar a caracterização dos personagens.

Após as suas provas nos ateliers, as costureiras fazem os últimos ajustes do figurino enquanto os intérpretes do figurado aproveitam esse mesmo espaço, que se torna um ponto de encontro de parte do grupo, para, em conjunto, vestirem-se e saírem juntos dali em direção local onde será montada a cena do Calvário.

No Pilar, os homens das guardas romanas se vestem no salão paroquial. No Antônio Dias, eles o fazem dentro da igreja matriz.

A preparação final avança até pouco antes das 19h. Ao seu término, todos começam a se organizar em uma fila única (estruturada segundo a ordem ensaiada na noite anterior). Há um sentimento de expectativa e de excitação pela iminente aparição pública de todo o grupo. Uma vez que todos estão corretamente encadeados, eles caminham em direção ao fundo do palco onde estão as imagens e os guardas. Fazem o contorno até chegar a uma das rampas frontais que dá acesso ao seu topo.

Nesse momento, as ruas do entorno estão lotadas. Sobre o palanque, os personagens que acompanhamos acima dividem o tablado com a imagem de Nossa Senhora das Dores (a mesma que participou da procissão do Encontro). Quando tudo está pronto, as organizadoras dão um sinal de positivo para o locutor e, então, ele começa a narrativa que inicia a celebração.

Quando os membros desse primeiro grupo de personagens e alegorias religiosas (como as Virtudes) tomam os seus lugares, inicia-se a chamada daqueles que fazem parte do Antigo Testamento. Depois, o mesmo se repete com as figuras do Novo Testamento. A apresentação de cada uma delas segue a ordem cronológica de sua aparição na história bíblica, indo das mais antigas às mais recentes. Nesse encadeamento, as personagens do Gênesis são sucedidas por várias outras até chegar àquelas que foram contemporâneas ao Cristo, como Maria Madalena, João Evangelista, as Carpideiras e a Verônica.

Quando finda a narração do locutor, o último conjunto de atores a se destacar no quadro da morte de Cristo é o dos sacerdotes. Será um entre eles que tomará a palavra a partir desse momento, para proferir o sermão do descendimento.

O Descimento da Cruz


Conforme o sermão avança rumo ao seu fim e a imagem do Senhor Morto começa a ser retirada da cruz, justamente de onde deriva o nome da cerimônia “do Descendimento”. Graças à articulação dos braços da imagem, ela acaba reproduzindo um comovedor movimento humano.

Antes que seu corpo seja completamente deitado sobre o esquife, os mesmos homens que lhe tiraram da cruz viram-no agora em direção à Nossa Senhora das Dores. Assim como ocorreu na procissão do Encontro, ela interage com a imagem do filho e direciona o seu olhar lacrimejante em direção seu filho morto.

Em seguida, realiza-se o canto da Verônica, que será acompanhada pelas Heús, todas sobre o palco. Quando termina o Ó vos omnes, os mesmos homens que cuidavam da imagem do Cristo colocam o seu caixão sobre seus ombros e iniciam a descida rumo às ruas da cidade.

Assim como os cortejos anteriores, o trajeto da procissão do Enterro do Senhor Morto cruza a cidade de um lado a outro, indo de uma igreja no Pilar à matriz do Antônio Dias (quando a festa é sediada na primeira paróquia) ou, ao contrário, de uma igreja no Antônio Dias à matriz do Pilar (quando a Semana Santa fica sob o encargo dessa última).

A partir desse momento, todos os personagens começam a se movimentar para descer também (desde o Antigo até o Novo Testamento), acompanhando as imagens dos santos. De um modo geral, o figurado costuma ser sucedido pelos Anjos de prata (ou das doze tribos), por parte dos sacerdotes, pela Maria Madalena com João Evangelista e pela Verônica com as carpideiras. Depois desses personagens, vêm os coroinhas (crianças) e as Virtudes.

O silêncio solene só é quebrado pelo som dos passos na calçada e a batida das lanças dos soldados romanos, que ladeiam o esquife do Senhor morto, nas pedras da calçada ou na voz da Verônica.

A banda de música entona marchas fúnebres e a procissão segue noite adentro solene e comovedora. Toda a população acompanhava esta procissão com velas acesas.

Na procissão as Irmandades se organizam de acordo com o seu tempo de existência. Elas se sucedem na seguinte ordem:

Irmandades de São Cristóvão, São Sebastião, Sr. Bom Jesus de Matozinhos, São José, Nossa Senhora da Conceição, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, Santana e a de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia. Elas são imediatamente seguidas pela Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula, Ordem Terceira de São Francisco de Assis, Ordem Terceira de Nossa Senhora das Dores, um grupo de devotas de Nossa Senhora das Dores (do Pilar), um grupo com a cruz que acompanha o Sr. dos Passos (Pilar) e a Irmandade do Santíssimo Sacramento (da paróquia do Antônio Dias).

Logo após, há uma concentração de homens sempre com a imagem do santo no centro. Nesse grupo estão o Centurião da paróquia que sedia a festa e a sua guarda, que permanece nas bordas do cortejo. Na parte interior ficam aqueles que carregam o esquife, acompanhados por outros homens, vestidos de terno e gravata, que carregam as varas do pálio que cobre a imagem.

Subindo e descendo as ladeiras da cidade, o cortejo faz algumas paradas em pontos determinados do trajeto para que a Verônica interprete seu canto.

Boa parte dos que acompanharam a procissão acompanham as figuras bíblicas e as imagens até o interior da matriz, o destino final da procissão. Lá dentro, enquanto as figuras caminham até à sacristia, saindo da vista do público presente, ou seja, deixando a cena, cada uma das imagens é levada para uma parte da igreja (onde permanecerão expostas).

Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Nos anos impares, em que a freguesia de Antônio Dias conduz as cerimonias a procissão parte da Igreja de são Francisco de Assis conduzindo as imagens do Senhor Morto e da Virgem Dolorosa até a igreja de Nossa Senhora do Rosário.

Nos anos pares, em que a freguesia do Pilar conduz as cerimonias a procissão parte da igreja de Nossa Senhora do Rosário finalizando na  igreja de Nossa Senhora das Mercês e Perdões (Mercês de Baixo).

Lá, a Verônica entoa novamente o seu canto de luto (o último que ela irá proferir neste ano).

 

fonte:

  • PEREIRA, Edilson Sandro. O Teatro da Religião: A Semana Santa em Ouro Preto vista a partir de seus personagens. 326 f. Tese (Doutorado). UFRJ/ Museu Nacional/ Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, 2014 (1)
  • Crédito foto: Ane Souz/PMOP – Maic Costa/Mais Minas – Stenio Lima
  • http://portal.iphan.gov.br/
  • https://pilarouropreto.com.br/artigos/
  • https://jornalvozativa.com/

 

 

 

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