SEMANA SANTA em OURO PRETO (MG): Dia 7 – Quinta Feira Santa: Cerimônia do Lava-Pés e a Procissão do Fogaréu

A Quinta-Feira Santa lembra a última ceia de Jesus com os doze apóstolos e revive a Cerimônia do Lava-Pés, na qual Jesus lava os pês de sues fies seguidores em demonstração de humildade e purificação divina. A encenação é realizada no adro da Igreja São Francisco de Assis (nos anos impares) e no adro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (nos anos pares), onde um imponente palco esta sendo montado para a celebração do dia seguinte, a mais importante da Semana Sena Santa: Sexta-feira da Paixão.

Um importante resgate na tradição da Semana Santa em Ouro Preto é a Procissão do Fogaréu, que foi novamente incluída nos ritos em 2019, após cerca de um século sem ser realizada na cidade.

A última ceia


Na Quinta-Feira Santa os fiéis são lembrados do início da Paixão de Cristo e das lições deixadas por Jesus na última ceia com os doze apóstolos, na véspera de sua Paixão e Morte, em Jerusalém. Nessa ceia eles ouviram como Jesus de Nazaré lhes disse que seria traído por um deles. Acredita-se popularmente que Judas Iscariotes derramou sal durante a ceia e, além disso, a pintura de Leonardo Da Vinci reflete isso.

Enquanto Jesus ainda estava sentado à mesa com os Doze, ele tomou um pedaço de pão e, tendo reverentemente dado graças, santificou-o com uma bênção e deu uma porção a cada um dos apóstolos, dizendo: “Tomai, comei; Esse é o meu corpo”. Então, tomando um copo de vinho, deu graças, abençoou-o e deu-lhes esta ordem: “Bebam dele todos; pois este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado por muitos para remissão de pecados. E digo-vos que de agora em diante não beberei mais deste fruto da videira, até aquele dia em que o beberei novamente convosco no reino de meu Pai”. Desta forma simples, mas impressionante, a ordenança foi instituída desde então é conhecido como o Sacramento da Ceia do Senhor. Pão e vinho, devidamente consagrados pela oração.

Algumas fontes asseveram que é o Santo Cáliz da Catedral Valencia, Espanha

O Santo Graal é um dos objetos mais relevantes da história. O copo que Jesus Cristo usou na Última Ceia. As histórias sobre ele dizem que ele tem propriedades curativas ou que pode alimentar um exército inteiro. Celtas, cátaros ou templários contaram inúmeras histórias ao seu redor e até mesmo o Terceiro Reich insistiu em sua busca.

Antes da ceia, um dos mais ousados gestos de Jesus foi o de lavar os pés dos apóstolos. Com isso, ele se coloca como servidor de todos e quebra, totalmente, as convenções sociais de sua época e as de hoje. Com este ato, ele quis ensinar que a pureza e a humildade são duas virtudes essenciais.

No final da última ceia aproximava-se a hora da despedida, as palavras pronunciadas por Jesus encomendava um novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Cerimônia do Lava-Pés


A Quinta-Feira Santa é conhecida por ser o dia em que foi realizada a Última Ceia. Juntamente com seus 12 apóstolos, Cristo, já sabendo da traição de Judas e que sua hora estava por vir, fez a refeição com seus companheiros e, logo após repartir o pão e o vinho, que simbolizavam seu corpo e sangue, o Filho de Deus pegou uma bacia, a encheu com água e, com uma toalha em seu ombro, começou a lavar o pé de cada apóstolo, como demonstração de humildade e purificação divina.

Atualmente, como manda a tradição do Lava-pés, sacerdotes de todo mundo costumam escolher uma dúzia de fiéis no dia da missa da Quinta-Feira Santa, oferecendo o corpo e o sangue de Cristo na Eucaristia e, logo depois, lavando os pés dos doze escolhidos, como forma de repetir o ato de humildade de Jesus para com seus apóstolos.

Cerimônia Lava-pés, Matriz de Antônio Dias


Nos anos impares, quando a freguesia de Antônio Dias assume a organização das celebrações, a cerimônia de Lava-pés acontece no adro da Igreja São Francisco de Assis, onde já está montado o palco que será cenário do grande evento da Sexta da Paixão.

A imagem do Cristo lavando os pés dos apóstolos é encenada, nesse dia, por um sacerdote que fica sobre um palanque erigido fora da igreja, diante de uma multidão que lhe observa e de canais de TV que transmitem a cerimônia, lavando os pés de doze meninos (geralmente vinculados ao catecismo das paróquias locais).

Quando se encerra a cerimônia e o público se dispersa, inicia-se um movimento de concentração daqueles que vão interpretar as figuras bíblicas e os outros personagens que compõem as celebrações do dia seguinte. Os membros do grupo se reúnem, a pedido das organizadoras, para fazer o único ensaio geral antes de sua apresentação.

Cerimônia Lava-pés, Matriz do Pilar


Nos anos impares, quando a freguesia do Pilar assume a organização das celebrações, a cerimônia de Lava-pés acontece no Largo do Rosário, no adro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, onde também já esta tudo disposto para os eventos que caracterizam a Sexta da Paixão: o Descendimento da Cruz e a Procissão do Enterro.

Procissão do Fogaréu


Figuras encapuzadas, de preto da cabeça aos pés, levando tochas que iluminam as estreitas ruas de paralelepípedos. A cena poderia facilmente ser de uma série de TV, mas, para quem estiver em Ouro Preto (MG) no dia 9 de abril, Quinta-feira Santa, será realidade. Trata-se da Procissão do Fogaréu, tradição retomada em 2019, após mais de 100 anos sem registros na cidade.

O cortejo recorda o momento da prisão de Cristo no Monte das Oliveiras

Após a cerimônia do Lava-pés e da Santa Ceia, os fiéis deixaram o adro da Igreja de São Francisco e seguiram até a Igreja de Nossa Senhora das Mercês, onde houve a encenação com o confisco da imagem do Senhor Bom Jesus flagelado, simbolizando a prisão. Em seguida, a procissão foi até a Igreja de Nossa Senhora das Dores.

De acordo com pesquisas, há referência sobre a procissão do Fogaréu na documentação de algumas irmandades e alguns relatos citam o cortejo como de responsabilidade principal das extintas irmandades do Bonfim, dos Passos e das Santas Almas. A irmandade do Bonfim, inteiramente formada por militares, foi extinta por ordem do comandante dos dragões das milícias, em 1801, coronel Pedro Afonso Galvão de São Martinho, substituto do tenente-coronel Francisco de Paula Freire Andrade, um dos inconfidentes de Vila Rica. Outra hipótese é que a procissão do Fogaréu também se realizasse na capela de São Miguel e Almas.

Seus trajes são de origem medieval e representam os soldados romanos conhecidos como Farricocos, que prenderam Jesus na noite da Santa Ceia

Em seus últimos anos, no início do século 20, a procissão era realizada quase que inteiramente pelos Irmãos de Sant’Ana, da Santa Casa de Misericórdia, de onde saía, na quinta feira, descendo a ladeira de São Francisco de Paula, após as 22h, ficando as igrejas abertas à visitação madrugada adentro. À frente ia o estandarte com a insígnia SPQR (O Senado e o Povo Romano) e, numa parada na Matriz do Pilar, era encenada a prisão de Cristo.

Cerca de 40 fiéis, com vestimentas de origem medieval, representaram os soldados romanos conhecidos como Farricocos responsáveis pela prisão de Jesus, logo após a Santa Ceia, de acordo com a tradição cristã. Pelas ladeiras da cidade histórica, homens e mulheres, usando capuzes e vestes negras, carregaram tochas em uma encenação carregada de simbolismo, mistério e horror. O objetivo das roupas era reparar os pecados sem a necessidade de revelar a identidade em público.

A Procissão do Fogaréu percorreu aproximadamente três quilômetros. Com início no adro da igreja de São Francisco de Assis, chegou ao fim na igreja de Nossa Senhora das Dores

Vem da Espanha o formato tradicional das procissões noturnas iluminadas por tochas e velas que, desde o período colonial, sobrevive em diversas cidades do Brasil. Já é nacionalmente famosa é a Semana Santa de Goiás Velho, onde, à meia-noite da Quinta para a Sexta-Feira Santa, as lâmpadas do centro histórico são apagadas e, ao som de tambores e à luz de tochas, começa a Procissão do Fogaréu. Enquanto o coro entoa cantos tradicionais em latim, cerca de 10 mil pessoas acompanham a procissão, guardando em vários momentos um silêncio impactante. A também colonial cidade fluminense de Paraty é outro palco célebre da Procissão do Fogaréu à meia-noite da Quinta-Feira Santa, com seu centro histórico à beira-mar iluminado apenas pelas tochas, tal como acontece em Goiás Velho.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Na Quinta-feira Santa da versão 2020, quando a freguesia da Matriz do Pilar conduz as celebrações, após a Cerimônia do Lava-pés, os fiéis sairão da igreja de Nossa Senhora do Carmo, em cortejo até a Igreja de São Francisco de Assis, onde tomarão consigo a imagem do Senhor Bom Jesus Flagelado, simbolizando sua prisão no Horto das Oliveiras. O cortejo seguiu pelo bairro Antônio Dias até a igreja de Nossa Senhora das Dores.

Celebrações da Quinta – Feira Santa


  • Pela manhã, acontece a Missa do Crisma, também chamada de Missa da Unidade ou dos Santos Óleos, concelebrada pelo Senhor Bispo. Os sacerdotes renovam os seus compromissos, faz-se a benção dos óleos.
  • No período vespertino acontece a celebração da Missa da Ceia do Senhor (Missa in Cœna Domini) com o “Sermão da Eucaristia”, Transladação do Santíssimo Sacramento e Desnudação dos Altares.
  • Depois da homilia se faz a Cerimonia de Lava-pés
  • Procissão do Fogaréu

A Transladação do Santíssimo Sacramento


Durante a missa “In Coena Domini”, da ceia do Senhor, na igreja de São Francisco de Assis são consagradas hóstias suficientes para a comunhão do dia e da Sexta-feira Santa e o Sábado Santo (vale lembrar que na Sexta-feira e no Sábado não há Missa). As hóstias já consagradas são levadas para um outro sacrário e o Santíssimo Sacramento é levado em procissão, debaixo de um pálio e com a maior pompa, até a capela devidamente ornada.

Do outro lado da cidade tem missa Solene Cantada na Basílica de Nossa Senhora do Pilar. Em seguida, Transladação do Santíssimo Sacramento para a Capela do Senhor do Bom Fim e Agonia.

A desnudação dos altares


Logo após o término da celebração da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, acontece o ritual de desnudamento do altar, ou seja, todas as toalhas, flores, cruzes e quaisquer ornamentos são retirados, as imagens são cobertas e as luzes são apagadas. É um sinal de dor, porque no próximo dia já não haverá mais missa: o Senhor está preso, e em breve será morto. As flores, os adornos e tudo que possa manifestar alegria são retirados do presbitério. As velas são apagadas, enquanto o crucifixo, coberto, é reclinado sobre o altar.

A Desnudação dos Altares, entende-se como um sinal de luto da Igreja, significando também o momento em que Cristo foi despojado de suas vestes para ser crucificado. Durante o canto do hino do “Glória” tocam-se os sinos (da torre e do altar). Concluído o canto eles ficarão silenciosos até o “Glória” da Vigília Pascal. Os sinais litúrgicos passam a ser dados na matraca, instrumento triangular de madeira com aldrabas de ferro, único instrumento que será ouvido a partir desse momento.

Toda a ornamentação e as luzes da Igreja voltam a ser acesas na Vigília Pascal, quando se celebre a Ressurreição de Jesus Cristo.

 

fonte:

  • PEREIRA, Edilson Sandro. O Teatro da Religião: A Semana Santa em Ouro Preto vista a partir de seus personagens. 326 f. Tese (Doutorado). UFRJ/ Museu Nacional/ Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, 2014 (1)
  • http://portal.iphan.gov.br/
  • https://pilarouropreto.com.br/artigos/
  • https://jornalvozativa.com/
  • Fotos créditos: Ane Souz – Eduardo Tropia

 

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