SEMANA SANTA em OURO PRETO (MG): Dia 5 – Terça Santa: A procissão de Nossa Senhora da Solidade

Durante a terça-feira da Semana Santa realiza-se esta procissão, que relembra o caminho de volta percorrido por Nossa Senhora, do sepulcro, onde deixara o Filho sepultado, até sua casa. A Mãe de Deus caminha sozinha, sentindo no mais profundo do seu coração imaculado a espada de dor que lhe transpassava a alma.

Esta celebração relaciona-se por ocasião também da procissão conhecida como “Triunfo Eucarístico”, em que se procedeu o retorno da imagem do Santíssimo Sacramento da primitiva capela do Rosário, finalizadas as obras de reforma na Matriz do Pilar e remete aos tapetes devocionais que serão confeccionados durante a noite no próximo Sábado de Aleluia.

Origem do título Nossa Senhora da Solidade


Virgem das Dores da Matriz de Antônio Dias

Nos primórdios do cristianismo, quando os cristãos foram libertos e puderam finalmente professar sua fé, surgiram os primeiros crucifixos, que eram considerados símbolos da redenção. Tempos depois, iniciaram a representar a imagem da Virgem junto com a cruz. Nossa Senhora da Solidade era representada olhando para o céu ou para a Cruz com os olhos cheios de lágrimas e segurando um lenço em sua mão.

A devoção a Nossa Senhora da Soledade propagou-se durante os séculos XVII e XVIII, especialmente na Península Ibérica, principalmente na freguesia portuguesa de Arrentela. Após o terremoto de 1755, que levou boa parte de Lisboa às ruinas e destruiu alguns povoados ribeirinhos às margens do rio Tejo, os moradores de Arrentela foram à Igreja buscar a Imagem de Nossa Senhora da Soledade, para leva-la à margem do Rio Judeu onde a imagem, com um movimento em sua mãozinha fez o milagre: fez com que a água começasse a abaixar lentamente.

Procissão da Soledade


Virgem das Dores da Matriz do Pilar

O termo “soledade” significa “solidão” e lembra a profunda tristeza e angústia vivida por Maria de volta do sepulcro, onde depusera o corpo de Jesus. A Mãe de Deus caminha sozinha, sentindo no mais profundo do seu coração imaculado a espada de dor que lhe transpassava a alma.

Nos anos impares em que a Matriz de Antônio Dias assume a organização as 19 hs é realizada missa na Basílica de Nossa Senhora do Pilar. Em seguida acontece a Procissão da Soledade, conduzindo a imagem de Nossa Senhora das Dores e revivendo a tradição de percorrer os Passos da Paixão, até a igreja de São Francisco de Assis. À entrada da imagem à igreja é acompanhada como o canto do “Inflammatus”.

Essa procissão segue o trajeto inverso à Procissão do Encontro, percorrendo os mesmos passos de dor que Mãe e Filho experimentaram. Mas agora a mãe segue o percurso sozinha. No trajeto, ouvem-se os “Motetos de Dores” e passagens bíblicas cantadas em latim, parando em cada Passo da cidade.

A imagem da Virgem das Dores, trajada de manto negro, com espadas ou punhais cravados no seu terno coração e trazendo às mãos um lenço que recorda suas doridas lágrimas derramadas, é conduzida pelo povo às ruas.

A imagem da Virgem das Dores saindo da Basílica de Nossa Senhora do Pilar

Nos anos impares em que a Matriz do Pilar assume a organização a procissão a imagem também parte de sua matriz, esta vez visitando a vizinha Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

As duas vestes de uma mesma Virgem


Enquanto as imagens/corpos de Jesus se alternavam entre o Senhor dos Passos, o Senhor Morto e a eucaristia, a Virgem Maria acompanhou todos os eventos da sua paixão mantendo-se sempre a mesma, das Dores. A constância dessa personagem santa, no entanto, acaba sendo alterada quando chega o momento de festejar a ressurreição. Embora não participe da procissão do domingo de páscoa, a Nossa Senhora das Dores aparece em uma cerimônia ao fim desse dia. Ali, ela aparecerá transformada. No seu caso, porém, essa mudança não corresponde a uma substituição ritual por outro ícone, mas sim pela troca de suas vestes. A mesma imagem que foi carregada nas procissões assume uma nova pele, abandonando as Dores para assumir a de Nossa Senhora da Soledade.

Se as roupas e acessórios mudam, bem como o nome da santa, o seu rosto e os sinais expressivos permanecem os mesmos.

No fundo, as duas imagens em questão remetem à mesma pessoa, porém a última apenas se apresenta publicamente quando as suas sete dores chegam ao fim. Vestida inteiramente de branco, ela não carrega mais os atributos que lhe caracterizavam anteriormente. O diadema com as sete estrelas sobre a cabeça, o lenço que carregava em uma das mãos e o escapulário, que ficava na outra, foram abandonados. Da mesma forma, a adaga que transpassava seu coração não terá mais espaço nessa nova versão da santa. Uma zeladora retirara esse objeto (que remetia à dor) e substitui-lo uma flor (uma palma) de metal.

Como co-protagonista da Semana Santa, ela é a primeira e a última a aparecer na festa (embora, no último dia, sem procissão). O ciclo ritual da Semana Santa se inicia e se encerra com essa santa cuja identidade é marcada pela longa duração de suas dores.

No caso do Pilar, a imagem reassume (logo na segunda-feira seguinte) o seu papel “das Dores”. Sob os cuidados de sua zeladora, ela é recolocada sobre o altar lateral esquerdo da matriz, lugar de onde ela poderá voltar a encarar a imagem do Senhor dos Passos, situado no altar do lado oposto.

E quando a imagem utilizada na festa é a do Antônio Dias, ela não volta imediatamente para o seu lugar de origem (lembremos, a sacristia da Capela das Dores, onde foi efetuado o seu Setenário). Ao invés disso, ela permanecerá, embora não exposta, na matriz do Antônio Dias até a época de celebração do dia das mães. Nesse momento, ela será vestida novamente de branco e, então, seguirá em procissão até a sua Capela própria. Ali, depois que essa outra festa se encerra, ela retomará o lugar na sacristia.

Os tapetes devocionais


Para os cristãos, o costume de produzir tapetes devocionais recorda a chegada de Jesus Cristo à Jerusalém. Em Ouro Preto, a tradição remete ao século XVIII, mais precisamente em 1733, com a reinauguração da matriz do Pilar, festividade que ficou conhecida como Triunfo Eucarístico.

Com o passar dos anos, as pessoas foram se especializando, buscando técnicas cada vez mais aprimoradas para aperfeiçoar o trabalho. Atualmente, a própria Prefeitura distribui a serragem tingida em pontos estratégicos do circuito da procissão, que é utilizada por moradores e turistas. A confecção dos tapetes, portanto, foi absorvida pela população e integrada à cultura popular, representando a devoção e a fé do povo mineiro.

Triunfo Eucarístico


Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos surgiu em 1715, na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, e 1716, já estava instalada em uma capela própria no morro das proximidades, na paragem do Caquende.

Em 1733, para a celebre Procissão do Triunfo Eucarístico, aconteceram os grandes festejos na reabertura da Matriz do Pilar, fechada para obras em 1731 e 1733. A procissão solene para trazer de volta o Santíssimo Sacramento e imagens dos altares, abrigados na Capela do Rosário, foi o ponto culminante das comemorações, promovidas pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, que vinha em situação de destaque no final do cortejo, com luxuosas opas encarnadas. Mas também tiveram participação as outras irmandades das duas freguesias da vila, devidamente incorporadas com suas opas e insígnias e conduzindo andores ricamente decorados com as imagens de seus santos padroeiros.

 

Para a passagem dessa procissão, construíram os irmãos do rosário, à sua custa, a Rua Nova do Sacramento (atual Getúlio Vargas). Em troca desse· benefício, obtiveram do Senado da Câmara, concessão de amplo terreno, próximo à capela primitiva, para a construção de uma nova igreja, concessão essa confirmada no ano de 1761. Neste terreno foi erigida a atual Igreja do Rosário.

Além disso, participaram de maneira efetiva da procissão como se observa no trecho abaixo tirado da descrição que Simão Ferreira Machado fez daquela festa: “Seguia-se a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, numerosa de muitos irmãos, todos em opas de seda branca. No meio dela iam três andores: o primeiro de Santo Antônio de Cataligerona, o segundo de São Benedito, o terceiro de Nossa Senhora do Rosário, nas imagens era multo vistoso o ornato em sedas de ouro, e diamantes; nos andores em sedas galões, e franjas em ouro; e variedade e galantaria de diferentes flores de diversos materiais, e alternadas cores”.

As grandiosas procissões só podiam ocorrer com a participação de muita gente. A participação não se limitava à integração do fiel à procissão, pois a própria produção de uma procissão envolvia muitas pessoas. Para se colocar uma procissão como o Triunfo Eucharistico na rua, teriam sido necessárias pessoas para fazer as roupas usadas pelos figurantes que incluíam figuras míticas, músicos, dançarinos e configurações musicais que participariam do cortejo.

Outras pessoas teriam que ter preparado os diversos andores dos santos das irmandades, tanto os andores dos oragos como os dos santos de devoção; teria sido também necessário organizar os membros das diversas irmandades e botar cada grupo no lugar que ocuparia durante a procissão. Sem dúvida, esse cortejo foi uma grande produção que mobilizou centenas de pessoas; mas vale lembrar que, além da procissão, a festa toda incluiu missas cantadas, um te-deum, touros, cavalhadas, comédias, saraus e festança geral na rua.

Além do mais, a própria festa durou vários dias.

 

fonte:

  • PEREIRA, Edilson Sandro. O Teatro da Religião: A Semana Santa em Ouro Preto vista a partir de seus personagens. 326 f. Tese (Doutorado). UFRJ/ Museu Nacional/ Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, 2014 (1)
  • A experiência barroca e a identidade local na Semana Santa de Campanha, Minas Gerais – Suzel Ana Reily (2)
  • Crédito foto: Ane Souz/PMOP – Christian Dias – Eduardo Tropia
  • https://diocesedebarreiras.org.br/noticias/dia-15-nossa-senhora-da-soledade
  • https://pilarouropreto.com.br/artigos/
  • http://portal.iphan.gov.br/

 

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