SEMANA SANTA em OURO PRETO (MG): Dia 4 – Segunda Santa: A disputa entre a Matriz do Pilar e a Matriz do Antônio Dias

A rivalidade entre os antigos arraiais dos Jacubas o dos Mocotós persistiram mesmo despois que o processo de urbanização chegara a consolidar a união deles no Morro da Quitéria, atual Praça Tiradentes.

As irmandades do Santíssimo Sacramento, presente na Matriz do Pilar e na Matriz de Antônio Dias foram responsáveis pela promoção da festividade socialmente integradora do corpo de Deus (Corpus Christi) e a celebração da Semana Santa.

A rivalidade ficou plasmada desde os tempos da colônia, sendo determinada a alternância na condução dos cerimoniais: nos anos pares, a Paróquia de Nossa Senhora do Pilar fica encarregada de organizar as celebrações; nos anos ímpares, essa função fica a cargo da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, do Antônio Dias.

Os Arraiais dos Jacubas o dos Mocotós


Os primeiros assentamentos do sítio Ouro Preto ocorreram nas margens dos dois principais núcleos que deram origem a cidade: Antônio Dias e Pilar de Ouro Preto. As ocupações nas serras circundantes a esses dois núcleos principais deram-se de forma esparsa, localizadas junto aos córregos de exploração aluvial aurífera. Foram pioneiros os caminhos de cumeada, bem como os de fundo de vale, que constituíram os principais acessos de chegada e ocupação de Ouro Preto, interligando linearmente os núcleos vizinhos configurando a futura malha urbana da cidade.

Antigos arraiais de Vila Rica

As duas matrizes ou zonas principais foram as freguesia de Nossa Senhora do Pilar e a freguesia de Antônio Dias dedicada a Nossa Senhora da Conceição, que leva o nome do bandeirante Antônio Dias, foi ele quem mandou construir a sua primeira capela. A construção da matriz foi iniciada em 1727, por Manuel Francisco Lisboa (pai) e Alejadinho (filho), e concluída 30 anos depois.

Cada paróquia desenvolveu uma feição própria, tanto sob o ponto de vista cultural, quanto sob a ótica da especialização econômica, pois em Antônio Dias predominou a mineração de ouro e, em Pilar de Ouro Preto, a atividade comercial. Fundados por paulistas, os primeiros arraiais foram ocupados por estes, mas após a sua derrota na Guerra dos Emboadas estes buscaram se concentrar preferencialmente em Antônio Dias. Neste arraial e adjacências,  se concentravam ainda as principais e promissoras galerias de exploração de ouro.

A partir da instalação do aparelho administrativo o espaço de Vila Rica passa a ser normatizado pelas “Ordenações do Reino e Posturas Municipais”, quando se iniciam construções mais suntuosas, como templos religiosos, quartéis, palácios, pontes, chafarizes e edificações de maior porte. Visando unificar os arraiais Antônio Dias e Pilar, a Praça Ouro Preto (antigo Morro de Santa Quitéria), posteriormente denominada Praça Tiradentes, busca centralizar os principais edifícios administrativos e de poder.

Antiga visual da Praça Tiradentes, no fundo o Palácio dos Governadores

A distância que separava esses povoados iniciais era grande. O Antônio Dias e o Pilar, crescendo ambos, encontraram-se no morro de Santa Quitéria. A rua principal tomou então, seu sentido longitudinal, ligando as três colinas, Cabeças, morro Santa Quitéria, e no outro extremo, Santa Efigênia”.

A partir de então, uma disputa divide o centro histórico ouro-pretano em dois lados, o dos Jacubas, moradores do Bairro Antônio Dias, e o dos Mocotós, moradores do Bairro Pilar, sendo a Praça Tiradentes a linha imaginária que divide ambos.

A lenda do burrinho que empacou


Embora existam outras versões da história a “lenda” contada remete a uma cisão entre Pilar e Antônio Dias que data da época da própria fundação da cidade. De acordo com a tradição, tudo começou quando um importante teria encomendado, ainda no século XVIII, duas imagens religiosas que viriam da Europa. Uma delas era a de Nossa Senhora das Dores, a outra, completando o cenário da Paixão, era a do Senhor dos Passos. No contexto de divisão entre as vilas, cada uma dessas imagens deveria seguir para uma das matrizes, respectivamente. A de Nossa Senhora das Dores ficaria no Pilar e a do Senhor dos Passos iria para o Antônio Dias.

Um burrinho ficou encarregado de fazer o transporte das figuras do Rio de Janeiro para Ouro Preto. Contudo, depois que o carroceiro parou na frente da igreja do Pilar para a retirada da imagem o animal que puxava a carroça onde estavam as imagens empacou. Em vão, diversos homens tentaram, à força, fazer com que o animal se movesse. Depois de muito esforço, os moradores do Pilar começaram a achar que, talvez, aquela fosse a vontade da imagem, que não deixava de ser também a vontade de Deus. Ela ficar ali, e não ter que ir para o outro lado da cidade.

Nisso, deu-se início a confusão entre os dois lados da cidade de Ouro Preto. O povo do Antônio Dias ficou falando que tinham roubado deles a imagem do santo. Acabaram fazendo um acordo de que, uma vez ao ano, a imagem do Senhor dos Passos iria para a Matriz do Antônio Dias por ocasião da Quaresma, permanecendo por lá uma noite e retornando no dia seguinte à Matriz do Pilar. Caso chovesse por três dias seguidos, enquanto a imagem estivesse sob domínio do Antônio Dias, ela ficaria definitivamente na matriz.

A disputa entre os sineiros


Se faltava uma rixa,  a disputa entre os sineiros de ambos os lados é a manifestação que mais gera brigas, literalmente. Christian Dias, atualmente sineiro na Igreja do Carmo, contou que, quando iniciou no meio, em abril de 2007, havia fortes estranhamentos entre aqueles que tocavam os sinos no Antônio Dias e no Pilar: “Isso de certa forma dava certo, pois cada sineiro tinha seu lado”

Dada essa conjuntura de brigas e desavenças, no ano subsequente, houve a tentativa de criar uma associação dos sineiros de Ouro Preto, porém, por questões burocráticas, o grupo acabou não se concretizando. Em 2013, entretanto, a ideia foi retomada e Arthur Ramos, atual presidente do Zé Pereira, foi o primeiro a presidir a associação. Foram estabelecidas escalas para organizar os sineiros e as reuniões eram regulares, conta Christian. Entretanto, no final de 2014, devido aos desconfortos entre os sineiros jacubas e mocotós, o grupo começou a se dispersar e, em 2015, já estava totalmente desfeito.

As duas irmandades do Santíssimo Sacramento de Vila Rica


O Santíssimo devia ocupar o altar-mor das igrejas matrizes

As vilas de Vila Rica e Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, foram fundadas em 1711. A fundação das irmandades do Santíssimo sediadas nas matrizes de N.S. do Pilar e N.S. da Conceição de Vila Rica e N.S. da Conceição de Ribeirão do Carmo foram realizadas, respectivamente, em 1712, 1724 e 1713.

Por coincidência ou não as matrizes de São João Del Rei, São José, Mariana e as duas de Vila Rica, construídas inicialmente de taipa, foram praticamente reconstruídas no mesmo período, na década de 1730. Havia nesse momento uma expectativa com relação à instalação do bispado na Capitania das Minas, o que, por sua vez, fazia com que as vilas buscassem embelezar os templos na possibilidade de que a matriz pudesse tornar-se catedral da Sé. Todavia, nem todas as vilas eram capazes de receber tal benesse. Em 1745, a Vila de Ribeirão do Carmo receberia à condição de cidade  com o nome de Mariana e se transformaria na sede do primeiro Bispado de Minas Gerais.

Procissão de Corpus Christi, Ouro Preto (1929)

A construção das matrizes, aqueles templos que contribuíam para organização espacial e social das vilas setecentistas, era, de certo modo, compartilhado com Câmara e Coroa, principalmente, por ser uma das edificações mais importantes das vilas, pois representava simultaneamente o poder político e o religioso.

A ereção e manutenção das matrizes esteve a cargo das irmandades do Santíssimo Sacramento que tinham uma relação mais próxima com a monarquia do que outras confrarias, por guardar o símbolo máximo da Igreja Católica: a Hóstia consagrada.

Esta condição se reflete na construção dos templos matriciais como podemos observar nos pedidos feitos pelos Santíssimos de diferentes vilas sobre ajuda financeira para reformas e reconstrução das matrizes, e o pedido do aforamento de terras em seu entorno. A irmandade do Santíssimo Sacramento do Pilar, assim como sua congênere, da freguesia do Antônio Dias, solicitou à Câmara de Vila Rica que lhe passassem os títulos das terras no seu entorno. O pedido foi deferido pelo Senado da Câmara em 1735.

A irmandade do Santíssimo como uma das representantes do poder político e religioso na região, deveria preocupar-se com as celebrações que diziam respeito aos eventos políticos, bem como os festejos religiosos ligados à sua devoção em particular.

Em meados do século passado, procissão de Corpus Christi

A matriz de Nossa Senhora do Pilar destacou-se como Matriz oficial, na sede da Comarca de Vila Rica e da Capitania de Minas Gerais. Dessa maneira, as celebrações referentes ao nascimento, casamento e às exéquias de membros da Família Real, assim como as posses de Governadores da capitania e as festas promovidas pelo Senado da Câmara, como o Corpus Christi, contavam com a participação da irmandade e dos irmãos do Santíssimo.

Todas as irmandades tinham datas festivas marcadas no calendário litúrgico. As festas atribuídas ao santíssimo eram a Semana Santa e o Corpus Christi, uma importante procissão que envolvia toda a vila. A procissão que percorria as vilas expondo o Corpo do Senhor Sacramentado, representava também o poder real em diferentes partes da monarquia cristã portuguesa.

Desse modo, por ser uma festividade não só do calendário festivo das irmandades, mas da monarquia portuguesa, a celebração contava com a organização e o apoio financeiro da Câmara Municipal. Os camaristas tinham lugares privilegiados reservados no cortejo, próximos ao pálio que encimavam o Corpo de Cristo. A Câmara organizava a procissão em seus pormenores, indicava o percurso da procissão, o reparo das ruas, a indicação da data, a convocação dos moradores (os avisos, os bandos), o convite ao cabido da catedral, os custos com velas, sermões, altares e carros.

A rivalidade entre as Matrizes do Pilar e Antônio Dias


Matriz do Pilar, a festa de N S do Pilar se celebra em 06 a 15 de agosto

A festa do Corpus Christi foi uma das celebrações que contou grande periodicidade e pompa em Vila Rica. Cabe novamente reforçar que, na sede da comarca havia duas agremiações do Santíssimo: a do arraial do Antônio Dias e a do Pilar. Ambas buscavam realizar a celebração com todo o decoro e esplendor possível.

A procissão deveria sair da matriz, percorrer o caminho indicado pela Câmara e retornar à matriz. Como havia duas irmandades do Santíssimo na região, havia a dificuldade de que finda a procissão os párocos deveriam ir para as duas matrizes, que eram relativamente distantes, isso acabava por dificultar o encerramento da procissão por parte dos párocos que deviam se deslocar de uma igreja para outra e retornar às duas causava um esvaziamento da procissão e comprometia o seu encerramento.

Somado a isso, as freguesias de N.S. do Pilar e de N.S. da Conceição de Antônio Dias, guardavam certa animosidade desde a fundação de Vila Rica e, além disso, a matriz do Pilar era considerada a matriz oficial em que se realizavam todas as celebrações políticas e religiosas da vila, acirrando assim as disputas entre as duas matrizes.

Matriz Antônio Dias; A festa da Imaculada Conceição, comemora em 8 de dezembro

Nesse sentido, há o registro de um requerimento feito pelos juízes provedores e mais oficiais da irmandade do Santíssimo Sacramento de N.S. da Conceição de Antônio Dias, no intuito de pôr fim aos conflitos com as irmandades da freguesia de N.S. do Pilar com relação à realização da procissão de Corpus Christi (Despacho foi de 22 de janeiro de 1732).

A Câmara de Vila Rica, em 1734, envia uma representação ao Conselho Ultramarino pedindo que as confrarias de Antônio Dias acompanhassem a procissão do Corpo de Cristo em todo o seu trajeto. Levando em consideração a animosidade entre os arraiais de Antônio Dias e do Pilar, é bastante compreensível que as irmandades se recusassem a acompanhar o cortejo e o faziam no intuito de não enaltecer a festividade realizada por uma instituição “rival”.

Sendo designada como a matriz dos atos aficiais, a Matriz do Pilar estava emprazada na área de maior poderio económico de Vila Rica, mas por outro lado a Coroa Portuguesa s encontrava em uma disjuntiva pelo fato de que a devoção popular a Nossa Senhora da Conceição (padroeira da Matriz de Antonio Dias) era muito antiga e interligada com a História de Portugal, sobretudo com os grandes acontecimentos decisivos da independência e identidade nacional de Portugal. Por exemplo, nos primórdios da Nação Portuguesa, foi celebrada em Lisboa uma missa pontifical de ação de graças, em honra da Imaculada Conceição, após Lisboa ter sido conquistada aos mouros, em 1147, pelo primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques.

Com o decorrer do tempo, a devoção popular foi crescendo e criando raízes em Portugal, com a fundação de muitas irmandades de Nossa Senhora da Conceição, sendo a mais antiga a da atual freguesia dos Anjos (Lisboa), que foi instituída em 1589. Após a Restauração da Independência de Portugal (1640) e em plena Guerra da Restauração contra Espanha, o Rei de Portugal, D. João IV jurou e proclamou solenemente, por provisão régia de 25 de Março de 1646, que Nossa Senhora da Conceição seria a Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos.

Assim sendo, a proposta foi para que a procissão saísse de uma matriz e fosse em direção a outra, e que se procedesse desta maneira alternando os anos, num ano sairia de uma matriz e no outro da matriz seguinte, assim sucessivamente.

A disputa com as Ordens Terceiras


Minas Gerais_Irmandade_Unesco_ Patrimônio_Estrada Real_Arquitetur_Bbarroco_Aleijadinho_Humanidade
Igreja São Francisco de Assis

Até a década de 1740 a irmandade do Santíssimo era uma das associações que reunia os homens de maior projeção social da vila. Com a chegada das ordens terceiras que foram fundadas após 1740 as disputas não demoraram em chegar.

Assim como o Corpus Christi, a Semana Santa era uma celebração marcada no calendário festivo da irmandade do Santíssimo. Esta era uma festividade de grande importância para os membros da instituição, pois as eleições da irmandade se davam durante a semana santa, e o resultado dela divulgado no Domingo de Páscoa.

A procissão de Corpus Christi que abrangia todas as irmandades que seguiam o cortejo em ordem de antiguidade e importância. Os membros da irmandade do Santíssimo deveriam ter precedência por serem responsáveis pela devoção e pelo fato da procissão ser dedicada ao sacramento da eucaristia, e por ser a mais antiga da vila. Entretanto, a precedência foi um dos motivos de embates entre a irmandade do Santíssimo com as ordens terceiras.

Igreja Nossa Senhora de Carmo

Por sua vez, a irmandade do Santíssimo sentiu uma certa perda em seus quadros com o deslocamento as irmandades brancas dando preferências os devotos para as ordens terceiras, para a Ordem Terceira de São Francisco, especificamente, pois não dispõe-se de dados sobre a Ordem de Terceira do Carmo.

Cabe salientar que muitos dos irmãos diretores das ordens terceiras eram provenientes dos quadros de direção do Santíssimo da freguesia de N.S. do Pilar, esta talvez seja uma das razões pelas quais os terceiros assumiram alguns espaços reservados aos irmãos devotos da eucaristia na procissão de Corpus Christi. Algumas funções dentro da procissão como segurar as varas do pálio e carregar as tochas eram atribuições dos oficiais da mesa, e eram funções que denotavam prestígio, isto, por sua vez, gerou uma série de conflitos.

Dessa forma, realizar a festividade era também demarcar os espaços e as fronteiras sociais. Por este motivo, os embates com relação à precedência da irmandade mais antiga com relação às mais novas era resguardado, principalmente na procissão de Corpus Christi que era uma celebração não apenas da confraria do Santíssimo, mas uma celebração em que se expunha o símbolo máximo da Igreja Católica – o Corpo de Cristo –, que representava por meio da Hóstia consagrada o poder real. Assim, segurar as varas do pálio, as tochas, o estar próximo ao Santíssimo Sacramento era privilégio de poucos. Por isso, a participação e os lugares ocupados na procissão foram motivos de muitas querelas como as protagonizadas entre as ordens terceiras e a irmandade do Santíssimo.

Os requerimentos ao Conselho Ultramarino/Rei/Rainha cruzavam o oceano em forma continua. Reclamando pelo espaço que havia sido usurpado pelos irmãos das ordens terceiras. Os oficiais do Santíssimo ainda afirmavam que as ordens terceiras recusavam a exposição do Santíssimo Sacramento em suas festividades, pois quando havia a exposição do Senhor Sacramentado, era obrigatória a assistência de pelo menos dois irmãos do Santíssimo que deveriam participar das atividades com as opas da irmandade e tochas acesas até o seu encerramento.

Portanto, é possível perceber a animosidade entre o Santíssimo e as ordens terceiras, primeiramente pelo fato do Santíssimo sentir sua preeminência social diminuída.

 

fonte:

  • Paisagens, transformações e memórias do antigo “Arraial dos Jacubas” em Ouro Preto – Alenice Baeta, Henrique Piló, Fernanda Alves Martins, Francine dos Santos (1)
  • Fé e distinção: um estudo da dinâmica interna e do perfil de irmãos da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto (século XVIII) – Monalisa Pavonne Oliveira (2)
  • http://portal.iphan.gov.br/
  • https://pilarouropreto.com.br/artigos/
  • Foto portada credito: Ane Souz

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