Ruinas Jesuitas no Brasil: Os Sete Povos das Missões

Durante a era colonial, portugueses e espanhóis disputavam áreas de influências para definir seus objetivos políticos e religiosos. Após o Tratado de Madri, de 1750, as reduções ficaram com os portugueses em troca da Colônia do Sacramento para os espanhóis.

Os Sete Povos das Missões foram assentamentos criados por padres jesuítas espanhóis no sul do Brasil com o objetivo de espalhar a fé católica catequizando os indígenas. A tarefa não foi fácil, entre os desafios dos padres jesuítas estavam os de convencer os índios de que precisavam ser sedentários e monogâmicos, enquanto o povo originário guarani, eles eram nômades, poligâmicos e politeístas.

Missões Jesuitas na America

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, o território do atual Rio Grande do Sul foi palco de acirrada disputa entre as Coroas de Espanha e de Portugal. Os espanhóis, que de acordo com o Tratado de Tordesilhas eram proprietários da região, tentaram garantir sua posse por meio da conversão das populações indígenas ao catolicismo, projeto que asseguraria também, a difusão da fé cristã, enquanto os portugueses faziam incursões temporárias em busca de minas de ouro / prata e escravos.

Sete Povos das Missões Jesuitas

Por determinação de Felipe II, rei de Espanha, o trabalho de catequese iniciou em 1610, em terras paraguaias, alcançando o atual Rio Grande do Sul a partir de 1626. Nessa extensa região, também composta pelos atuais territórios da Argentina e Uruguai, os padres jesuítas fundaram, com os índios Guarani, 30 aldeamentos conhecidos como “reduções“, 7 dos quais em solo hoje brasileiro, posteriormente chamados Sete Povos das Missões.

A decadência das missões iniciou com o acordo entre as coroas de Portugal e Espanha (Tratado de Madri, 1750), que previa a entrega dos Sete Povos das Missões aos portugueses e da Colônia de Sacramento (território do Uruguai) aos espanhóis. Os Guarani missioneiros se revoltaram, porém foram derrotados pelo exército formado pelas duas coroas (Guerra Guaranítica, 1753-1756). Após a expulsão dos jesuítas, em 1767, as reduções foram ocupadas por moradores locais. Em outras localidades não houve guerras, apenas o abandono por parte dos jesuítas.

Os Sete Povos das Missões

Reunia grupos catequizados jesuítico-guaranis situados no nordeste do atual Estado do Rio Grande do Sul, em território brasileiro, às margens do rio Uruguai.

  • São Miguel Arcanjo (1632)
  • São Borja (1682)
  • São Nicolau (1687)
  • São Luiz Gonzaga (1687)
  • São Lourenço (1691)
  • São João Batista (1697)
  • Santo Ângelo (1706)

As reduções permaneceram habitadas até o final do século XIX, porém sem a manutenção de suas estruturas, e sendo constantemente pilhadas para se erguerem outras edificações nas proximidades.

Três das sete antigas reduções tiveram seus vestígios pilhados e encobertos pelas novas cidades: Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga e São Borja.

Quatro apresentam remanescentes protegidos como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional:

  • São Miguel Arcanjo 
  • São Lourenço Mártir
  • São João Batista
  • São Nicolau

A riqueza deste passado, refletido na monumentalidade das Ruínas da Igreja de São Miguel – que vêm sendo consolidadas pela SPHAN (hoje IPHAN) desde 1937 e que em 1983 foram declaradas pela UNESCO como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, é hoje um monumento que atrai turistas de vários pontos do Brasil e do Mundo.

O Parque Histórico Nacional das Missões foi criado em 2009, por meio do Decreto nº 6.844, reunindo os sítios arqueológicos missioneiros de São Miguel Arcanjo tombado em 1938 (localizado no município de São Miguel das Missões), de São Lourenço Mártir (em São Luiz Gonzaga), de São Nicolau (em São Nicolau), e o de São João Batista (em Entre-Ijuís), tombados em 1970.

São Miguel Arcanjo

(município de São Miguel das Missões)

São Miguel das Missões, RS

A instalação de São Miguel das Missões no local atual data de 1687, mas teve origem em 1632, com um aldeamento de catequizados que os padres jesuítas fundaram em Itaiacecó, na margem direita do rio Ibicui, aos pés da serra de São Pedro. Sua fundação é atribuída aos padres missionários Cristobal de Mendoza e Paulo Benevides. A partir de 1637, os ataques dos caçadores paulistas de índios aos aldeamentos de catequizados dos jesuítas se intensificaram o que provocou o deslocamento do Povo de São Miguel Arcanjo para as terras de Concepción.

O novo lugar mostrou-se pouco favorável para um grupo numeroso, o que levou os padres a buscar outro local para a missão. A escolha final recaiu sobre um sítio às margens do Rio Piratini onde o novo aldeamento de São Miguel foi fundado, quando já contava com quase quatro mil índios alojados e cristianizados. As condições econômicas da redução melhoraram nesse novo local devido à qualidade do pasto para o significativo rebanho (bovino, equino, caprino) necessário à subsistência e à terra que se mostrou favorável à agricultura.

No centro da redução e em frente à igreja, estava uma praça quadrangular. O colégio, a igreja e o cemitério ocupavam o lado norte e nos outros três lados restantes erguiam-se as casas dos índios, das quais restam apenas as ruínas das fundações construídas em blocos com telhados de quatro águas e rodeadas por alpendres. Havia, ainda, uma quinta, inteiramente cercada por pedras com jardim, pomar e horta.

Projeto da Igreja de São Miguel, em 1756, do padre Giovanni Battista Primoli

A construção da Igreja de São Miguel durou dez anos e seu projeto foi inspirado na Igreja de Gesú em Roma, principal templo jesuítico, atribuído ao arquiteto jesuíta Gian Battista Primolli, concluída em 1745, no final do período barroco.

Erguida com pedra de cantaria, branqueado com um tipo de argila chamada tabatinga, o edifício possuía características diferentes das demais construções missioneiras da época: a estrutura era definida por paredes de pedra, ao invés dos comuns esqueletos de madeira. Na falta da cal, não disponível na região, o barro era o material ligante das alvenarias. Pintada de branco, tinha seus espaços interiores ornamentados por pinturas e esculturas de madeira policromada.

Seguindo a tradição da época, a Igreja de São Miguel apresentava uma rica e colorida ornamentação interna, formada por entalhes, pinturas e esculturas com motivos sacros. Algumas imagens, feitas em arenito, compõem o acervo do Museu das Missões. Ao longo dos anos, muitas peças desapareceram. Além dos saques ocorridos durante a Campanha Cisplatina, em 1828, a igreja foi vítima da ação dos aventureiros que buscavam o tesouro dos jesuítas e retiraram material para uso em outras construções. Em 1886, a os telhados ruíram e o pórtico desabou. O grande período de abandono levou ao crescimento de grandes árvores no interior da nave da Igreja.

Desde 1978, o espetáculo de luz e som conta com uma trilha sonora e o apagar e acender de luzes coloridas projetadas na fachada das ruínas. Embora a gravação continue a mesma há 38 anos, com texto e roteiro de Henrique Grazziotin Gazzana e narração dramática dos atores Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Paulo Grancindo, Juca de Oliveira, Rolando Boldrin, Maria Fernanda e Armando Bógus, a atração teve toda a parte técnica renovada em 2016.

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A tecnologia analógica foi substituída pela digital e os amplificadores foram trocados. Além disso, a trilha passou por uma remasterização. O som também ficou mais envolvente, com a instalação de quatro caixas de som atrás da plateia, além das oito à frente.

Os novos sistemas de iluminação com projetores RGB e refletores com luzes de LED também possibilitam uma multiplicidade maior na coloração do espetáculo, gerando novos tons e reduzindo o gasto de energia elétrica.

A vila de São Miguel surgiu em 1926, quando foi efetuado um loteamento urbano em torno dos remanescentes do antigo povo jesuítico-guarani.

Em 29 de abril de 1988, a vila de São Miguel emancipou-se de Santo Ângelo, tornando-se um município responsável, portanto, pela estruturação de condições administrativas e fiscais para seu desenvolvimento urbano e rural.

Sitio Histórico São Lourenço Mártir 

(município de São Luiz Gonzaga)

A Missão de São Lourenço Mártir foi fundada pelo padre jesuíta Bernardo de La Veja em 1690, entre São Luiz Gonzaga e São Miguel das Missões, com mais de dois mil indígenas catequizados na redução de Santa Maria La Mayor (Argentina). Destacou-se nas praticas da agricultura, criação de gado, cavalos, ovelhas e cultivo da erva mate. Sua população ultrapassou os 6.400 habitantes, em 1731.

Na praça aconteciam todos os eventos de importância cívica e cultural, como comemorações, procissões, jogos, teatro

A Igreja era o principal prédio do complexo jesuítico, e recebia os principais cuidados estéticos e arquitetônicos. Os materiais utilizados eram os encontrados na região; pedras, para as paredes dos principais prédios dentro da redução, e argila; para os tijolos, telhas e piso. As edificações missioneiras possuíam grandes alpendres e pátios internos.

Hoje o Sítio Arqueológico de São Lourenço Mártir é tombado como Patrimônio Histórico Nacional protegido pelo IPHAN. No local, é possível visitar remanescentes da igreja, da adega, e da escola, também são criadas as ovelhas da raça crioula Lanada, raça introduzida pelos jesuítas nas Missões e no RS.

As ovelhas que correm soltas pelo Sítio Arquelógico de São Lourenço das Missões também ajudam a contar a história que se passou no lugar. São em torno de 30 animais da raça conhecida como missioneira, criada na época da antiga redução jesuítico-guarani. As ovelhas estão aqui há 14 anos através de um projeto criado numa parceria entre a prefeitura de São Luiz Gonzaga e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan. Hoje fazem parte da paisagem junto com o que restou das construções.

Sítio Histórico São João Batista

(município de Entre-ijuís)

A redução de São João Batista foi fundada em 1697 pelo padre tirolês Antônio Sepp, com famílias indígenas provenientes da redução de São Miguel Arcanjo. Com grandes conhecimentos científicos e artísticos, o Padre Sepp iniciou a metalurgia nas missões, extraindo o ferro pelo aquecimento da pedra itacurú, abundante na região. Entre o povo de São João Batista, havia  artistas locais de todas as profissões (arquitetura, produção de variados instrumentos musicais e corais).

Redução de São João Batista fundada em 1697

Hoje, no local, podem ser identificados os remanescentes da igreja, do cemitério e do colégio, além de estruturas complementares como olarias, barragem, estradas. Uma mostra com achados arqueológicos e históricos da redução e uma trilha ecológico-cultural complementam o roteiro de visita.

Sítio Histórico São Nicolau 

(município de São Nicolau)

São Nicolau do Piratini foi a primeira redução, fundada em 1626, antes mesmo da  fase dos Sete Povos das Missões, e refundada em 1687. Segundo relato do escritor e botânico francês, Auguste de Saint Hilaire, que por passou pelo local em 1821, São Nicolau possuía uma das mais bonitas igrejas da região das Missões. Os índios Guarani tinham capacidade para criar e os melhores escultores das Missões estavam nessa redução, onde o povo se desenvolveu na religião, música, cantos, dança teatro, desenhos, pinturas e esculturas.

 

São Nicolau do Piratini foi a primeira Redução Jesuítica da Companhia de Jesus

As ruínas, declaradas Patrimônio Nacional, ficam no meio da cidade. Como não é uma área cercada, a visita pode ser feita a qualquer hora. Restaram partes do piso original, do cabildo, da igreja, da adega e do sistema de esgoto. Nas proximidades, há objetos encontrados nas escavações arqueológicas e informações sobre o local.

A propriedade está parcialmente destruída, mas ainda é possível entrar para apreciar a arquitetura

Duas obras com material da redução são tombadas como Patrimônio Histórico e Cultural do Rio Grande do Sul. Uma delas é a Casa de Pedra, um pequeno imóvel em frente ao sítio histórico. A outra é o Sobrado da Família Silva. A casa de 1903 pertenceu a Inocêncio Silva, coronel da Guarda Nacional e filho de açorianos.

Restauração

Preservar o que restou dos Sete Povos das Missões tem sido uma preocupação constante dos Governos Federal e do Rio Grande do Sul. Já em 1925, a antiga Diretoria de Terras e Colonização gaúcha promovia a limpeza do local onde se erguem as ruínas de São Miguel e o escoramento das partes ameaçadas do monumento. O trabalho foi coordenado pelo engenheiro João Dahne, que para executá-lo utilizou uma grande quantidade de trilhos da ex-viação do Rio Grande do Sul.

A esta intervenção, de resultados estéticos discutíveis, mas fundamental para que as Ruínas se tenham mantido de pé até hoje, seguiram-se várias outras, destacando-se os criteriosos trabalhos de estabilização realizados entre 1938 e 1940 pelo antigo serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sob orientação dos arquitetos Lúcio Costa e Lucas Mayerhoffer. Entre 1969 e 1973, escavações arqueológicas revelaram aspectos até então desconhecidos do aldeamento. Entre 1980 e 1981, a SPHAN/Pró-Memória realizou, com a participação de um técnico da UNESCO, um amplo e detalhado diagnóstico do conjunto, que incluiu até o levantamento fotogramétrico e a análise química e petrográfica dos materiais de alvenaria. Jamais outro monumento brasileiro havia merecido um estudo de tal porte.

Os esforços continuam. Em 1985 foram restauradas a cobertura do Museu, a Casa do Zelador e nove imagens missioneiras localizadas na Igreja matriz de São Luiz Gonzaga. Esse trabalho prossegue em 1986 com a restauração, já iniciada, de toda a imaginária que o museu abriga.

 

fonte:

  • IPHAN
  • https://www.saoluizgonzaga.rs.gov.br/
  • https://www.portaldasmissoes.com.br/

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