RUA FLORIDA – PARTE II: O impacto da crise económica argentina nas Galerias e Lojas de Rua

A Rua Florida é parada obrigatória para os turistas que visitam a cidade de Buenos Aires. Aqui você encontra 785 lojas distribuídas em 17 galerias e 326 lojas de rua que atendem as necessidades de clientes ávidos por comprar roupas de couro, sapatos, joias, etc.

Em geral, quem vem de outros países reserva até um dia para fazer um tour por este histórico calçadão, porque ali encontra a mais variada oferta: do mais moderno à lembrança mais representativa de Buenos Aires.

Rua Florida


A rua Florida foi ocupada em seus primeiros dias por famílias que construíram mansões importantes e isso continuou a ser o caso até meados do século 20, quando a moda urbana mudou a rua Florida e perdeu seu caráter residencial para se tornar uma artéria comercial.

Seu primeiro nome oficial foi o de San José, dado pelo governador Miguel de Salcedo em 1734. No final do século XVIII e início do século XIX era conhecida popularmente como Rua do Correio por estar este localizado na esquina da Rua Peru (continuação da Flórida) e Hipólito Yrigoyen. Também ficou conhecida como Empedrado, pois teve paralelepípedo desde 1789 com cantos rodados (fragmentos de rocas) trazidos de Montevidéu, tornando-se a primeira rua pavimentada da cidade. Após as Invasões Inglesas, em 1808, passou a chamar-se Baltasar Unquera, em homenagem a um ajudante de campo de Santiago de Liniers, que caiu no Convento de Santo Domingo. Em 1821 recebeu o nome de Flórida, em comemoração à batalha da Flórida, travada em 1814 no Alto Peru contra os monarquistas. Em 1837, Juan Manuel de Rosas fez chamar ela de Peru; e em 1857 o nome atual foi restaurado.

O impacto da crise econômica


A procura desta artéria comercial tem sido historicamente uma das mais solicitadas da cidade de Buenos Aires, sempre com uma fila de espera de clientes que procuram alugar um espaço comercial na mítica zona pedonal.

No último ano da presidência de Mauricio Macri, a desvalorização da moeda local afetou fortemente o consumo e as vendas caíram em todos os segmentos. Como consequência, muitas lojas foram forçadas a fechar as portas com um dólar que dobrou de valor em menos de três meses e, portanto, os lojistas não podiam pagar o aluguel cada vez mais alto mês após mês.

Assim, enquanto o poder de compra dos consumidores argentinos caiu, em parte algumas lojas compensaram suas vendas graças ao fluxo de estrangeiros beneficiados pela desvalorização. No entanto, não foi suficiente para aumentar a lucratividade e sustentar os custos fixos.

Nesse cenário, até dezembro de 2018, segundo relatório do grupo Adrián Mercado, das 1.286 lojas que estão na Flórida entre lojas de rua, galerias e shopping, 21%, ou seja, 272 lojas, estavam desocupadas. Sendo a taxa mais alta dos últimos tempos, já que tradicionalmente a vacância não ultrapassava os 10%.

Apenas três passeios conseguem escapar dessa tendência, a Galeria Güemes, que possui apenas um local vazio; a Galeria Jardim, com 53 vagas de um total de 193, ou seja, 27% das instalações; e Galeria da Flor, com 3 desocupados de 29.

A Galeria Pacífico, com 173 lojas, é a única com 100% de ocupação.

A menor demanda, a par do aumento do custo de manutenção das instalações devido ao impacto das tarifas de energia elétrica e impostos; os encargos sociais e os preços dos aluguéis, que, apesar de não sofrerem alterações, dobraram com a alta do dólar, foram um coquetel letal para muitos comerciantes, que tiveram que tomar a pior decisão de fechar as portas.

Tienda Falabella –  Foto: Andrés Pérez Moreno

É o caso da empresa chilena Falabella, que desde 2006 ocupava o prédio anexo da antiga loja Gath & Chaves, na esquina da Flórida e Perón. Devido ao agravamento da pandemia de abril de 2021, a empresa informou que encerraria suas três últimas filiais na Argentina: o shopping Unicenter, outra na cidade de Rosário e a sucursal da rua Florida.

Os itens que ocupam o maior número de espaços correspondem as lojas de roupa, com 19% e informática, com 9%. Além disso, 7% das instalações são dedicadas à gastronomia, o que representa 89 unidades que vão desde bares típicos à os locais de comida rápida e comida saudável, que são tendência na cidade.

As marroquinarias e sapatarias são outros protagonistas que prevalecem com as suas lojas de rua, um clássico da Florida. No primeiro caso representam 5%, com 58 estabelecimentos; seguido por 4% que oferecem apenas calçados, com 52 pontos de venda.

Já caindo o destaque para 3%, aparecem 43 lojas que vendem acessórios que oferecem de tudo, desde joias até maquiagem a preços baixos. Outro 3% da ocupação corresponde a joalherias e relojoarias, com 35 unidades; e o mesmo percentual está nas mãos de farmácias e perfumarias.

Em 2% da ocupação encontram-se setores como Empresas de Turismo, com 29 pontos de venda; Lembranças com 24; Vários Serviços com 23; e Spa com 21 locais; enquanto o 1% é representado por outra grande variedade de propostas como Antiquários, Quiosques, Livrarias, Casas de Câmbio, Eletrônicos, Bancos, Gráficas e Cabeleireiros, que representam entre 10 e 18 lojas cada. Por último, entre 1 e 9 lojas concentram-se em diversos rubros como lojas de brinquedos, sex shops, artesanato, tanguerías, galerias de arte e lojas de discos.

Galerias comerciais, resistência ao passar do tempo


O calçadão da Florida conserva um total de 17 galerias ao longo de toda a sua extensão. As galerias comerciais surgiram no final do século 19, um tipo de negócio que seguia a moda que veio da Europa, especialmente da Itália e França, onde surgiram as grandes construções com este desenho.

Mas o momento de grande evolução veio a partir de 1950, com a promulgação da Lei da Propriedade Horizontal em 1948, que permitiu a construção de um grande número de edifícios e torres. Avenidas tais como Rivadavia (em Caballito), Cabildo (em Belgrano), Santa Fé (no Barrio Norte) ou Corrientes (no Microcentro) foram as artérias onde mais se desenvolveram esses tipos de edificações, como assim também na Rua Flórida, pelo seu caráter comercial. Assim, por volta da década de 1970, nasceu a Galeria Jardín, uma das mais representativas. Projetado pelo estúdio de Mario Roberto Álvarez, este espaço onde ficava a antiga sede do Jockey Club. Depois foi a vez de outros espaços como a Galeria Florida e a Galeria del Caminante.

Pensadas como passadiços pedonais interiores, principalmente de uso comercial, foram forjadas a partir do aproveitamento do espaço em zonas com elevada densidade de edificação. Assim, na Flórida, as galerias tornaram-se uma modalidade prática e útil, que em seus primeiros dias teve o selo de distinção graças a alguns projetos que se aliaram às classes sociais mais abastadas pela oferta de produtos que ofereciam.

Fazendo história, o pontapé inicial para este tipo de formatos na Cidade de Buenos Aires foi o Tiendas Bon Marché, construído por volta de 1888. Era uma loja de departamentos, mas tinha duas passagens internas que no projeto original, seriam cobertas e permitiriam o ingresso de luz natural.

Naquela época, a ideia original de lojas de departamentos nunca se concretizou, e o prédio tornou-se sede do Museu Nacional de Belas Artes em 1896. Somente em 1945 é que seu então proprietário, o Ferrocarril Buenos Aires al Pacífico, contratou o estudo dos arquitetos Aslan e Ezcurra para ativar o setor comercial. Assim surgiu as Galerias Pacífico, hoje considerado um dos principais centros comerciais da cidade.

Outro caso pioneiro é o da Galeria Güemes, projetada por Francesco Gianotti em 1913 e inaugurada em 1915. Com saída de um lado para o tradicional calçadão da Flórida e do outro para a rua San Martín (onde está localizado o centro financeiro de Buenos Aires), este elegante edifício chega a 87 metros de altura. Foi um dos primeiros arranha-céus de Buenos Aires e é considerado uma obra-prima da Art Nouveau.

O edifício Güemes em Buenos Aires, que abriga a Galeria Güemes no andar térreo, é um dos primeiros arranha-céus de Buenos Aires. Primeira construção totalmente em concreto armado na cidade. Esse papel pioneiro da galeria não se reduziu ao técnico, mas também aos usos, reflexo das aspirações arquitetônicas da vida nas metrópoles do início do século XX: tinha teatros, cabaré, escritórios, lojas, banheiros turcos, apartamentos, um restaurante e um mirante de 360 graus no terraço.

O conjunto foi pensado e concebido em 1912, iniciado em 1913 e inaugurado em 1915. Completamente reformado em 2007, é uma das curiosidades a descobrir durante sua estadia em Buenos Aires.

Lojas de Rua: Quais deles sobrevivem na Flórida


São 326 lojas que permanecem na rua da Flórida, um dos formatos mais antigos no segmento comercial, e com uma grande variedade de itens que ainda sobrevivem ao passar do tempo.

Ao contrário do que acontece nas galerias, os itens mais massivos e tradicionais são aqueles que ocupam a maior quantidade de espaços que dão pra rua. A principal oferta concentra-se na venda de roupas. São 97 lojas especializadas na área, mesclando desde marcas de primeira até opções de baixo valor com logotipos “desconhecidos”.

São 30 lojas de acessórios; 26 lojas de calçados; 25 da categoria gastronomia e mais 12 de eletrônicos, o mesmo número do abastecimento de farmácias, perfumarias e quiosques. Em quantidade menor a uma dúzia, as lojas de rua estão distribuídas em bancos, lojas de souvenirs, telefonia, relojoarias e casas de câmbio.

A estes somam-se casos isolados de decoração, hotelaria, ótica, turismo e wine bar. Como resultado, a radiografia geral das lojas da rua Flórida mostra uma multiplicidade de propostas, com opções para todos os gostos e bolsos, com maior ou menor poder aquisitivo, ao alcance da maioria.

Entre as marcas mais reconhecidas que ocupam grandes espaços na Flórida estão Zara, com uma grande loja de vários andares, Adidas e Nike; casas de electrónica e eletrodomésticos como Frávega e Rodó. Na gastronomia, vão desde as tradicionais casas de fast food como McDonalds e Burger King às nova rede de Mostaza, Green Eat e Starbucks.

Em janeiro de 2019, após 24 anos de permanência na esquina da Flórida com Corrientes, a sucursal de Burger King fechou suas portas por conta da desvalorização da moeda local, das taxas dos serviços públicos, do aumento dos aluguéis e da inflação.

O local ocupava um edifício de valor patrimonial com elementos neo-góticos inaugurado em 1880 para que ali vivessem Carlos Maria de Alvear e sua esposa Mercedes de Elortondo.

Na Argentina, a empresa Alsea administra as franquias da Starbucks e Burger Kings e, junto com as duas redes, já somam 15 fechamentos motivados pela crise que se aprofundou com a pandemia de Covid-19 e pelo panorama desfavorável que eles tem na economia argentina.

 

fonte:

  • Calle Florida: Historia y Actualidad, informe especial – Adrián Mercado
  • https://turismo.buenosaires.gob.ar/es/atractivo/calle-florida

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