Restauração dos elementos Artísticos e Integrados da Matriz de N S da Conceição, Ouro Preto, (MG) Brasil – Parte II

Uma das igrejas mais representativas do conjunto histórico de Ouro Preto, em Minas Gerais, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias esta sendo restaurada. Passei por ali para registrar os trabalhos e técnicas de restauração do interior, conformado por um grupo de artistas/restauradores trabalhando in situ no embelezamento de esta antiga Matriz.

Bora, pois bem … estam todos convidados a revisar os trabalhos de restauração de esta magnífica Matriz de Ouro Preto, construída pelos mestres Manuel Francisco Lisboa (pai) e Aleijadinho (filho), símbolos do barroco mineiro.

Elementos Artísticos e Integrados: A Restauração 

Na cidade de Ouro Preto se encontram em andamento as obras de restauração dos elementos artísticos e integrados da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias em obras conduzidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias
A restauração arquitetônica do templo foi concluída em agosto de 2017 em uma ação que incluiu a substituição das instalações elétricas e de prevenção e combate a incêndio e o resgate das cores originais da igreja, por meio de iconografias históricas, prospecções cromáticas e relatos de antigos moradores da cidade. 
Artistas e restauradores trabalhando na restauração da capela-mor

 

Todo o conjunto de intervenções conta com previsão de investimentos de quase R$8 milhões, advindos do PAC Cidades Históricas, por meio do Iphan. Orçada em R$ 3,6 milhões, a obra atual refere-se à segunda etapa do restauro da matriz que irá resgatar os elementos artísticos da construção secular.

Elementos artísticos e integrados: Talha em Brasil

A riqueza da exploração aurífera atraiu inúmeros mestres e artífices de Portugal que se deslocaram para o Brasil em busca de oportunidades de trabalho. Esses mestres emigrados ensinaram seu ofício a outros futuros mestres nascidos na colônia, que adaptaram o vocabulário artístico europeu às especificidades regionais das áreas em desenvolvimento. O isolamento das regiões auríferas e o impulso econômico dado às capitanias já existentes propiciaram o desenvolvimento de uma arte sacra singular, de grande valor artístico.

O material utilizado para dar suporte à manufatura de imagens sacras variava de acordo com a região, geralmente, eram utilizados barro, pedra, marfim, madeira e, a partir do final do século XVIII, novos materiais, como a porcelana, e o gesso, no século XIX. No Brasil, foram o barro e a madeira os principais materiais utilizados.

O altar-mor foi executado por Jerônimo Félix Teixeira e Felipe Vieira nos anos de 1756 a 1768. Há uma diferença de pelo menos trinta anos entre a confecção da talha da Capela-mor e dos altares laterais. A pintura e policromia foram feitas entre 1770 e 1772.

No início da exploração do território mineiro, já estavam consolidadas no Brasil importantes escolas regionais produtoras de imagens sacras. A imaginária mineira não conheceu a padronização de suas contemporâneas baianas. Em Minas Gerais ocorreu uma ampla diversificação, estimulada pelo isolamento de suas regiões, que eram separadas por grandes distâncias e tortuosos caminhos que ligavam os arraiais e vilas mineiras. Esse isolamento também dificultou a importação ou encomendas de bens sacros de Portugal ou de outras regiões litorâneas. As imagens mineiras são geralmente mais sóbrias que as litorâneas e sua policromia e douramento são mais discretos, com certa uniformidade de cores. Além das imagens de cunho erudito, há a ocorrência de um grande número de imagens sacras de pequena dimensão, elaboradas por santeiros populares. 

A partir da terceira década dos setecentos, há uma grande evolução na talha das imagens sacras. Acompanhando as inovações dos retábulos barrocos, estilo Dom João V, ocorre o que Myriam Ribeiro coloca como um dos momentos mais originais da história da Arte Sacra na colônia. Inicia-se uma grande diferenciação regional, que terá seu apogeu no estilo seguinte, quando cada localidade desenvolve um estilo próprio de talha.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição – Museu do Aleijadinho –

A partir do terceiro quartel do século XVIII, elementos do estilo rococó passam a figurar nas obras em talha. Há um grande desenvolvimento nos regionalismos – como nunca antes fora visto – e o aparecimento de uma geração de mulatos nascidos na colônia, que assimila rapidamente o novo gosto. Dentre esses mestres estão os grandes gênios do “barroco nacional”, como Antonio Francisco Lisboa, Francisco das Chagas e Mestre Valentim. O uso das imagens de vestir se populariza com o crescimento das Ordens Terceiras carmelitas e franciscanas. Devido à regionalização, há uma grande variação entre os aspectos estilísticos na escultura do período.

No século XIX, as imagens de vestir perdem seu prestígio e popularidade, apesar de serem usadas até hoje em procissões. Grande parte é substituída por imagens de gosto neoclássico, inspiradas na arte renascentista de fonte greco-romana. Há uma diminuição no número de profissionais do ramo e uma maciça importação de imagens da Europa, confeccionadas em gesso com utilização de moldes.

Elementos artísticos e integrados: Policromia (pintura)

As imagens sacras são a união de duas artes distintas, a escultura  e a pintura.

Esculturas mineiras. Fotografias de Eduardo Eckenfelds e Juninho Motta

Ao escultor cabia apenas esculpir a imagem, e o policromador as pintava conferindo-lhe um aspecto mais realista. A camada de tinta aparente nas esculturas é denominada policromia, muitas imagens não recebiam sua pintura logo após a sua confecção, podendo demorar alguns meses, ou até mesmo ser aplicada anos depois.

Segundo Myriam Ribeiro, duas técnicas principais foram usadas na policromia (pintura) das imagens coloniais: a encarnação (tinta à base de óleo), para as partes visíveis do corpo, e o estofamento (tinta à base de têmpera), para os panejamentos (roupas) e acessórios da indumentária.

As principais técnicas utilizadas para se trabalhar em imagens com douramento eram o esgrafiado ou “sgrafito”, puncionamento, pastiglia e a pintura a pincel. O esgrafiado consiste na superposição de uma camada de pintura colorida sobre a folha de ouro e depois sua retirada, com um estilete, em determinadas áreas, deixando o ouro à mostra e formando desenhos.

A técnica de puncionamento é realizada com uma espécie de carimbo metálico sobre o douramento já aplicado, deixando marcas em baixo-relevo.

A técnica da pastiglia consiste na confecção de relevos ornamentais, geralmente feitos com gesso ou tecido. São utilizados na base de preparação para, em seguida, ser aplicado o douramento, formando um alto-relevo.

A pintura a pincel é feita diretamente sobre a folha de ouro. Como ornamentos, ainda são aplicados tecidos, cabelos humanos, rendas douradas, pedras, resinas e madrepérola. Na fase de sua policromia, sao colocados os olhos de vidro, lágrimas e gotas de sangue de resina, e tudo mais que contribuía para o realismo das imagens.

Um aspecto peculiar na manufatura das imagens de madeira é a cravação dos olhos.

O uso de olhos de vidro passam a ser usados a partir de 1738.

Estes poderiam ser apenas esculpidos e pintados ou confeccionados em vidro. O objetivo da incrustação dos olhos de vidro também era o de aproximar as representações do realismo do olho humano. Por meio de um corte preciso, o escultor abria a cabeça da escultura em sentido vertical ou em forma de L em direção a nuca, removia-lhe a face, escavava a parte interna na cabeça e as órbitas, onde seriam colocados os olhos. Os olhos eram fixados com cera, em seguida, a face era fixada à cabeça por meio de adesivo de origem animal e cravos. A maioria das imagens possui um pequeno orifício, de formato circular, escavado no alto da cabeça, para a colocação do resplendor ou coroa. Muitas vezes, nas imagens femininas, há perfurações nos lóbulos das orelhas e no pescoço, para o encaixe de brincos e colares.

 

fonte:

  • OLIVEIRA, Myriam Ribeiro de. A Escola mineira de Imaginária e suas Particularidades. In: COELHO, Beatriz (org.) Devoção e Arte: imaginário religioso em Minas gerais.São Paulo:Edusp,2005.p.15-68.
  • Raphael João Hallack Fabrino: “Guia de identificação de Arte Sacra”, IPHAN-RJ.
  • Rogério Vicente da Costa: “Estudo sobre a iconografia de Nossa Senhora da Conceição e inventário das invocações de Nossa Senhora em Ouro Preto – a importância da Virgem Maria no culto católico”. Estudo monografia de pós-graduação.

 

 

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