MUSEU ZANJÓN de GRANADOS: A cidade de Buenos Aires e seus rios – Parte II

Em 1985, Jorge Eckstein, antigo morador do tradicional bairro de San Telmo, em Buenos Aires, comprou a casa abandonada na vizinhança, a qual pretendia transformar num local cultural e gastronómico. Pouco tempo depois de começar a obra, ele descobriu, por acaso, o que se tornaria um dos sítios arqueológicos mais importantes da cidade.

Uma equipe de arqueólogos analisou a fundação do casarão para entender melhor sua história. Sob a casa descobriram uma construção arqueada diferente, que escavações posteriores acabaram revelando ser a cobertura de um túnel subterrâneo. A investigação revelou que a antiga mansão se encontrava em cima de um intrincado sistema de drenagem.

O processo total demorou quase 20 anos para finalmente mudar o velho casearão no atual museu. A iniciativa do desenvolvimento foi privada a cargo do próprio Eckstein, inaugurado em 2003.

Durante o passeio pela casa e nos túneis, a guia (inglês/espanhol) se encarrega de transportar os visitantes ao passado, contando uma interessante história capaz de nos manter intrigados durante todo o percurso.

Os Terceiros

O lote em que o prédio fica tem uma história interessante uma vez que atravessava o riacho chamado Tercero del Sur,  Zanjón del Hospital ou Zanjón de Granados.

Os Terceiros são córregos que no passado marcaram os limites da antiga cidade de Buenos Aires. A área urbana foi traçada entre dois pequenos córregos chamados de terceiros: o Zanjón de Granados, ao sul, e o Zanjón de Matorros, ao norte.

A passagem de Tres Sargentos era o leito do córrego Terceiro do Norte ou Zanjón de Matorros, onde as águas de grande parte da cidade (atualmente nos bairros de Retiro e San Nicolas) desciam para terminar no rio. Observa-se na fotografia o velho sistema de lanternas a gás.

 

O Terceiro do Sul nascia nas proximidades do Mataderos del Sur ou Santo Domingo (atualmente Plaza España) e recebeu dois pequenos cursos de água: uma, na Rua Estados Unidos (entre Bolívar e Defesa), e a outra, na Rua Defesa, (entre Chile e Independência).

O Terceiro do Sul teve grande importância pois foi o riacho característico do bairro de San Telmo, enquanto o Zanjón de Granados foi o primeiro limite natural da cidade colonial de Buenos Aires.

Conta a historia que Granados era o sobrenome de duas irmãs que venderam pasteis e habitaram uma fazenda atravessada pelo Zanjón durante a Revolução de Maio em 1810.

Esse zanjón ou riacho sazonal cortava a rua principal – a atual Defesa – e era até o século 18 o limite sul da cidade. Se olharmos para a topografia da área, veremos que esta no desfiladeiro do rio, mas a uma diferença de altura notável respeito da Plaza de Maio, muito mais baixa. Essa irregularidade que ainda existe, fez com que as águas pluviais da área convergissem no zanjón, que naquela época carregava grandes volumes, especialmente no ponto em que os dois braços se uniram. É fácil verificar nas crônicas os mil e um inconvenientes que isso produziu.

O Cabildo disse no século XVIII que: “os graves danos sofridos no zanjón que divide uma parte da cidade chamada Barrio del Alto e, em particular, as quatro ruas  descem para o referido fosso, eles são intransitáveis para carruagens e carrinhos. Surgiu então até a necessidade de fazer um caminho alternativo para evitar a difícil passagem das carroças pelo local. Daqui resulta que este bloco não foi urbanizado tão rapidamente quanto o resto do traço inicial da cidade. Até o início do século XVIII, era uma área marginal onde não havia ocupação estável.

Museu Zanjón de Granados: Historia da Casa

Os primeiros donos foram uma opulenta família espanhola, que estava formada por cinco membros. Além de contar com os serviços de seis escravos, os proprietários usufruíam o fato de ter só para eles uma enorme cisterna de 18 mil litros: vendiam água potável ao resto dos vizinhos.

As coisas foram mudando e o local se converteu num grande cortiço onde acabaram morando numerosas famílias de imigrantes em condições mais do que precárias. E até compartilhando um único banheiro. Uma cena que resulta bem típica daquela época. Porém, com o passar do tempo o charme original da casa foi se deteriorando. De fato, antes da finalização do século 19 caiu no mesmo abandono que caracterizou o bairro, ferozmente atacado pela febre amarela.

Casa Museu Zanjón de Granados, na Rua Defensa 755 no bairro de San Telmo

Em 1779, o terreno foi comprado pela família Miguens, que em 1830 construiu sua casa. Antigamente, a estrutura das casas se estendia ao longo e apresentava uma distribuição de três pátios: no primeiro, os visitantes eram recebidos, o segundo era para uso privado da família e o terceiro, no pátio de serviço, onde ficava a cozinha, o banheiro e estacionamento das carruagens.

A mansão foi abandonada no fim dos anos 1800, quando os então moradores fugiram da ameaça mortal da febre amarela que se alastrava pela capital argentina. No início do século 20, a propriedade passou a ser usada como cortiço, mas, na década de 1980, foi abandonada mais uma vez.

Saida do Museu é pela Rua Chile

O conventillo surgiu por volta de 1900 e tinha dois andares: no topo da casa havia 23 quartos com dois banheiros e, no fundo, uma loja onde “um sapateiro” trabalhava. Depois funcionou a vinícola Fiorini: é assim que no mesmo local foram encontrados os trilhos onde os barris de vinho eram transportados.

O Interior

Basta atravessar a imponente porta de entrada para descobrir uma construção atraente e ao mesmo tempo intrigante onde foi mantido o original estilo colonial (com inconfundíveis toques da arquitetura italiana) combinado com novos elementos.

Por exemplo, os tijolos que foram utilizados inicialmente ainda estão presentes, junto com as marcas do reboco original que podem ser apreciadas nas altíssimas paredes dos pátios. Contudo, os pisos e a maioria das ferragens (como as grades das janelas e os corrimãos das escadarias) foram renovados e trocados por materiais novos.

No segundo pátio, durante as escavações, apareceu uma enorme cisterna, que foi sem dúvida a descoberta mais impressionante feita nos pátios. Esta cisterna, que mais tarde mostrou dois esgotos – o outro coletava a água do próprio pátio – era semelhante à descoberta no Pátio 3 em um lado do túnel e seu estado de conservação era perfeito.

A descoberta dessa cisterna e da outra anexada ao túnel levou o grupo de arqueólogos a buscar informações sobre esse tipo de construção, mas não foi possível encontrar nenhuma referência a elas, portanto, não se sabe se é um caso excepcional em a cidade. Não existem dados sobre tanques de água da chuva, ou seja um reservatório com dutos do terraço e pátios, mas sim diretamente acima de reservatórios (aljibes).

A importância da descoberta levou à decisão imediata de preservá-la e restaurá-la. As dimensões máximas da cisterna são interior livre de 3,77 m de altura e diâmetro de 3,38 m; o poço interno tem 0,70 m de largura e o acesso é um cilindro de 0,40 m de altura por 0,45 m de largura.

Descendo ao porão podemos visualizar o labirinto formado pelos vários túneis e corredores que eram utilizados, dentre outras coisas, para estocar alimentos e vinhos.

Durante as diversas escavações realizadas foram achados numerosos objetos antigos e relíquias que agora são exibidos em diferentes pontos dos porões. Ou seja, aquilo que começou como uma ambiciosa obra de restruturação acabou virando um importante descobrimento arqueológico; de restaurante cultural a museu privado. Embora o governo de Buenos Aires não tenha intervindo na área, a arquitetura original do edifício foi cuidadosamente respeitada, sendo muitos dos materiais da obra originais da casa (tijolos, esquadrias, algumas barras, vigas de madeira do teto, azulejos).

Uma coisa que chama a atenção é o contraste produzido entre aqueles espaços da enorme mansão que conseguiram manter a estrutura original e os outros que foram visivelmente recondicionados.

O sistema de iluminação combina um efeito de luz e sombra perfeito no ambiente através de spots; luminárias para quadros e arandelas especialmente projetadas. O espaço apresenta uma coleção muito interessante de pinturas que narram diferentes cenas da vida colonial.

Carro aguateiro na Buenos Aires colonial

Em 1856, o primeiro projeto foi realizado para atender a cidade de água potável, que até o momento tinha sido realizada com os três sistemas tradicionais: o aguateiro, os poços na primeira napa e os tanques de cisterna. A partir de meados do século XVII, os aljibes (reservatórios) foram construídos com cisternas que evitavam a água das napas superiores que se filtravam entre os níveis de argila e arenito do subsolo, já que essa água era de baixa qualidade e estava contaminada com os poços cegos. A da água do poço e o aguateiro era uma costume comum na época, por seu baixo custo, que foi arrancado para 1780 e proibido em 1895.

Os Tuneis

O túnel tem o formato de uma caixa retangular com os lados horizontais mais longos e é coberto por uma abóbada de cañón corrido de tijolo comum. O piso tem uma inclinação dos lados para o centro, onde corre uma pequena calha feita de uma mistura de cal e cimento de grande dureza.

As paredes verticais também são revogadas com a terra romana, que era na verdade o cimento tipo Portland que chegou em pequenas quantidades da Inglaterra. Naqueles anos, The Wouldham Cement and Co. importava mais do que ninguém, e a partir de 1880 o fez Burham and Co., a um preço de cinquenta xelins por tonelada.

O cofre que o cobre é uma verdadeira exibição construtiva para a época. Sabemos que foi feito com cimbra, em algumas partes surpreendem os locais em que se apoiava, como nas extremidades do túnel onde o cofre muda de direção, quebrando ângulos bastante acentuados para acompanhar o curso sinuoso do córrego.

Jorge Eckstein: O homem que fez possível preservar esta joia antropológica

Jorge Eckstein é filho de imigrantes, nascido em San Telmo. Ele se formou no Colégio Nacional de Buenos Aires e como Químico em Ciências Exatas (UBA 1962). Autodidata em Arquitetura e Design, Economia e Sociedade, Tecnologia e Literatura. Pesquisador, poeta e contadora de emoções. Apaixonado pela integração do conhecimento exemplificado em sua criação: El Zanjón de Granado.

Jorge Eckstein: O proprietário e promotor do projeto do Zanjón de Granados

Em 1985, Jorge Eckstein, antigo morador do tradicional bairro de San Telmo, em Buenos Aires, comprou a mansão abandonada na vizinhança, a qual pretendia transformar num local cultural e gastronómico.

Construída em 1830, a propriedade era imponente, mas estava em péssimo estado. Era o que os argentinos chamam de casa chorizo nome que remete à disposição dos cômodos – todos enfileirados e conectados (como salsichas amarradas umas às outras), voltados para pátios laterais.

Pouco tempo depois de começar a obra, ele notou algo diferente na fundação da casa – e não demorou muito para que um dos pátios afundasse. Foi então que Eckstein descobriu, por acaso, o que se tornaria um dos sítios arqueológicos mais importantes da capital argentina: um portal para um labirinto subterrâneo.

Após Eckstein se deparar com o pátio afundando, uma equipe de arqueólogos da Universidade de Buenos Aires analisou a fundação do casarão para entender melhor sua história. Sob a casa, a equipe de arqueólogos descobriu uma construção arqueada diferente, que escavações posteriores acabaram revelando ser a cobertura de um túnel subterrâneo.

A investigação revelou que a antiga mansão se encontrava em cima de um intrincado sistema de drenagem. Tudo indica que os moradores do bairro construíram os túneis por volta de 1780 para redirecionar um córrego que provocava inundações na região quando chovia, trazendo um fluxo de água suja – incluindo resíduos animais de fazendas próximas – para as ruas da cidade.

Sob a direção do próprio Eckstein e do arquiteto Alejandro Vaca Bononatto, responsável pelas obras de arquitetura e restauração do edifício existente, tiveram a iniciativa de financiar uma escavação arqueológica por profissionais fornecidos pelo Instituto Nacional de Antropologia. Mas, para sua surpresa, depois de gastar todos os fundos e suas respectivas taxas, ele recebeu os itens recuperados sem nenhum estudo ao lado de um texto que dizia que tudo poderia ser demolido, pois nem mesmo o enorme túnel existente tinha valor.

Fachada do local em 1986

Para a arqueologia argentina, a ideia da existência de um patrimônio histórico, ou um bairro histórico, eram assuntos que em 1986 nem sequer eram considerados como algo que poderia ter a ver com eles como profissionais. Foi preciso esperar muitos anos para que esses compromissos atrasados começassem a ser assumidos. Eckstein estava ciente de que o imóvel precisaria passar por uma série de reformas. As paredes estavam desmoronando, e o primeiro andar estava coberto de entulho.

Juntamente com o Programa de Arqueologia Urbana da UBA (Universidade de Buenos Aires) e um grupo de arquitetos, os mais de 12.000 objetos foram inventariados por dois anos. O projeto ao tudo demorou quase 20 anos e contou com a direção do arquiteto Daniel Schávelzon. o arquiteto Marcelo Magadán, Santiago Aguirre Saravia e o arqueólogo Sergio Caviglia.

Grupo de arqueólogos e arquitetos que participaram das escavações

Graças a esse enorme conjunto de materiais, levou a um longo processo de busca de publicações. Lentamente, a equipe passou o ano todo classificando, namorando e dando origem e função a cada coisa, organizando contextos e vendo sua congruência cronológica ou a falta dela. Esses estudos preliminares, parciais, de universos cortados, terminaram em um primeiro livro sobre identificação dos materiais culturais.

Somente no primeiro túnel, 135 caminhões de lixo foram necessários com cuidado suficiente para resgatar esses pedaços da história urbana. O planejamento e execução do sistema de ventilação (que funciona através dos ductos de arejamento dos elevadores) demandou quinze longos anos.

Até que finalmente em 2003 o Zanjón de San Telmo abriu as suas portas pela primeira vez. Embora faça parte do circuito turístico e tenha sido declarado de interesse pelo GCBA, não é tão difundido quanto outros locais do bairro. O paradoxo deste caso é que, apesar de constituir um patrimônio cultural de alto valor patrimonial, ele não foi declarado monumento histórico nacional.

Atualmente, o casarão é um museu – El Zanjón de Granados – que, além de ser a porta de entrada para os túneis renovados, abriga exposições que mostram objetos encontrados durante as escavações no casearão vizinho da esquina Pje. San Lorenzo e Rua Defensa, também adquirido por Jorge Eckstein.

A descoberta pode ter surpreendido Eckstein, mas não foi novidade para alguns moradores mais antigos de San Telmo. Vários vizinhos dele tinham lembrança de quando segmentos dos túneis, já secos, ainda estavam abertos. Ninguém parece saber, no entanto, quando e por que eles foram fechados.

Até recentemente, o conhecimento sobre as passagens subterrâneas da cidade era baseado na memória popular e no boca a boca. Quando os túneis sob o Zanjón de Granados foram descobertos, um morador idoso da região, chamado Anastasio, expressou contentamento, mas não surpresa. Ele disse que sempre soube da existência dos túneis – e costumava brincar neles quando era criança.

“Finalmente encontraram”, exclamou.

 

O Zanjón de Granados é uma iniciativa privada, o local foi restaurado e reabilitado com grandes investimentos feitos por Eckstein. Cabe mencionar que é um dos passeios turísticos mais caros do circuito de San Telmo. O Zanjón de Granados pode ser alugado para a realização de eventos empresariais e festas particulares.

 

fonte:

  • EXCAVACIONES ARQUEOLOGICAS EN SAN TELMO Defensa 751-55, el Zanjón de Granados: Informe Preliminar (1987) – Daniel Schávelzon, Sergio Caviglia, Marcelo Magadán, Santiago Aguirre Saravia (1)
  • La construcción de espacios turísticos en el barrio de San Telmo: el caso del Zanjón de Granados – María Cecilia Dinardi y Ana  Sofía Stamponi Rallis (2)
  • O Zanjón de Granados: O amadurecimento do tempo – Jorge Eckstein (3)
  • http://www.elzanjon.com.ar/es

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *