Museu e Academia Nacional do Tango, Buenos Aires, Argentina

O museu cobre uma ampla área do Palácio Carlos Gardel, onde funciona desde 1993 a sede da Academia Nacional de Tango, no mesmo edifício onde funciona o emblemático Café Tortoni, o bar mais antigo da cidade de Buenos Aires.

O Museu do Tango faz um tour pela história do tango desde 1850 até o presente através de uma série de vitrines que são pouco atraentes e confusas quando se refere a  sua expografía. O edifício é um velho casarão, com três salões de dança, tetos ornamentados e lustres antigos; no entanto, o museu não está integrado ao espaço, é necessário fazer um projeto que descreva e guie os visitantes de maneira clara e atraente, acerca da origem e evolução do tango.

Por outra parte, dizem que a Avenida de Maio foi projetada pelos franceses, construída pelos italianos e onde finalmente moravam os espanhóis. Talvez a maneira mais certa de descrever a europeização da cidade no final do século XIX. Veremos como este fenômeno afetou as cidades de Rio de Janeiro e Buenos Aires, para descobrir finalmente que entre a historia do Tango e a historia do Samba, existem muitas coincidências para destacar.

Academia Nacional de Tango 

O Museu Mundial do Tango tem o seu lar na Academia Nacional do Tango, na charmosa Av. de Mayo. A porta de acesso fica do lado do famoso Café Tortoni, o café mais antigo de Buenos Aires fundado em 1858, que já fez 150 anos de história e ainda continua aberto e funcionando … um verdadeiro ponto turístico que todo mundo quer visitar.

O edifício tem acesso principal pela A. de Mayo, embora o Google Maps indique ingresso pela Rua Rivadavia (atualmente fechado). O museu fica no piso superior é relativamente novo (a sua inauguração foi em dezembro de 2003).

O museu cobre uma ampla área do Palácio Carlos Gardel dentro da sede da Academia Nacional do Tango

A Academia Nacional do Tango foi fundada em 28 de junho de 1990, graças a um decreto do então presidente Carlos Menem. Em novembro de 1993, o Touring Club Argentino deu à Academia o primeiro, o segundo e o terceiro andar do antigo Palácio Unzué, localizado na Avenida de Mayo 833, desde então chamado Palácio Carlos Gardel.
Graças a um subsídio extraordinário aprovado pelo Congresso Nacional no orçamento de 2000, a Academia conseguiu adquirir a propriedade do Palácio Carlos Gardel. Depende do Ministério da Educação e do Ministério da Cultura e é a décima sexta na história das Academias Nacionais.

A Academia possui uma grande biblioteca e realiza regularmente seminários, plenárias, cursos e exposições

Expografia do museu

Escultura do poeta Horacio Ferrer, presidente fundador de la entidad

Ninguém pode negar a importância que tem as instituições como esse Museu Mundial do Tango para a memória do tango, mais essa é uma memória que não está exposta em forma completa. A amostra do museu está distribuída seguindo um critério cronológico que pretende mostrar o desenvolvimento desse estilo musical desde sues começos e suas diferentes vertentes.

A informação é abundante mais não é clara. A exposição é carregada de informações, e objetos mas, os visitantes podem se perder e distrair facilmente ante a abundancia tão eclética que compõe o acervo.

Acho que a cidade de Buenos Aires, mundialmente conhecida pelo Tango, por sua música e dança, merece uma apresentação diferente,  é impossível resumir em seis vitrines a historia dos artistas, músicos e orquestras que deram origem a este estilo musical.

La escultura de “Polemica em el Bar” (famoso programa de TV argentino cuja figura principal, “Minguito”, representava a estirpe de um típico tanguero mundano. Duvido muito que um turista consiga entender de que se trata este assunto sem um suporte audiovisual correspondente.

Representação do programa de TV: “Polemica no bar”

O acervo é interessante só que o museu carece de um projeto museológico que permita um entendimento claro da historia, origem, e dos principais protagonistas que são os cantores, orquestras e dançarinos.

O Tango é uma historia muito rica que pode ser abordada a través de elementos que resultam essenciais para construir um relato amigável para o turista, como seriam os infinitos registros cinematográficos e discográficos existentes.

A expografía definitivamente deve ser modificada e integrada ao espaço, um velho casarão de fim de século XIX.  A minha crítica não é para a Academia Nacional do Tango, que desde sua fundação fez mais que ninguém no âmbito da música, dança e literatura ligada ao Tango.

Tal vez meu mal-estar parta do fato que não consigo entender como Buenos Aires não tem (salvando o Museu de Gardel) um lugar onde confluíam todas as artes relacionadas ao Tango, para mostrar aos milhares de turistas que visitam nossa cidade: … A Historia do Tango.

Ali, as possibilidades ficam reduzidas ao pago de uma caríssima cena com show incluso ou, ao circuito de locais chamados; “milongas”, para dançar.

Dentro do Museu

A mansão de 1880 na Avenida de Maio lembra a Belle Époque de Buenos Aires, com detalhes como elevador de ferro forjado, tetos ornamentados e lustres antigos.

Composto por apenas algumas salas, o museu pode ser separado em três seções distintas: O Hall de Entrada, sala do Olimpo das Glórias, o Salão das Figuras Lendárias do Tango.

O Hall Principal contém armários de vidro cronologicamente organizados que explicam a evolução do tango desde suas raízes primitivas na década de 1850 até hoje.

Hall Central, comunica com tres salas para dançar tango

Após a jornada pela história do tango, os visitantes podem entrar no salão das figuras lendárias do tango. Esta sala do museu serve como uma homenagem aos criadores do tango, incluindo cantores famosos, dançarinos e letristas. As relíquias incluem registros, fotografias e roupas. Grandes pôsteres em preto e branco exibem os maiores expoentes do tango.

Vitrines: O mais interessante, sem dúvida, são os objetos que exibem-se dentro das vitrines: verdadeiras relíquias tangueiras. Desde um chapéu de Gardel, passando por distintas partituras manuscritas, o piano de Agustín Bardi, rolos de filmes velhos, discos originais, máquinas de escrever, tudo o que teve a ver com aquelas glórias do tango.

Também  encontramos tudo aquilo que constituiu a glória do tango: o seu surgimento, a nova guarda, as diferentes gerações que vão desde De Caro, Gardel e Contursi, passando por Discépolo, Pugliese, Goyeneche, Mores, Piazzolla e a vanguarda até os nossos dias.

Mas o tango é mais do que música e o museu mostra também uma série de pinturas, esculturas e diferentes obras de arte que inspiraram-se no tango e os seus personagens.

Na sala do Olimpo das Glórias Tangueiras encontramos uma série de gigantografias, retratos que rendem tributo às figuras que fizeram brilhar essa música. Esse mesmo salão, equipado com cadeiras e um palco, serve como marco para diferentes espetáculos e atividades.

Para aqueles que procuram uma maneira mais prática de aprender sobre o tango, a Academia Nacional de Tango oferece aulas de dança para estudantes de todos os níveis. Para isso, conta com três salas de baile e um grupo de professores de dança muito destacados. Ali, aficionados de todo mundo tomam aulas durante sua estadia em Buenos Aires, para conseguir com um pouco de sorte, os secretos básicos e destrezas que requere-se para bailar tango. Não é fácil, não … mais depois de algumas aulas, ate pode tomar coragem para encarar uma “milonga” (locais de baile espalhados por toda a cidade). Os professores dominam vários idiomas, inglês, francês, português, realmente muito profissionais.

A seção final do museu de tango é uma homenagem à influência do tango em outras artes, como poesia, teatro e cinema. Aqui, os visitantes podem ver uma variedade de objetos que variam de pinturas coloridas, esculturas e desenhos a instrumentos antigos,

 

BRASIL e ARGENTINA: Na procura da identidade nacional

Devido as duas guerras mundiais, a recuperação europeia no pós-guerra, aconteceram grandes correntes migratórias européias no começo do século XX. Entre 1890 e 1914, a Argentina tornou-se uma das grandes nações de imigrantes do mundo moderno. Em 1914, cerca de um terço de seus quase oito milhões de habitantes havia nascido no exterior, a maioria na Itália (39,4%) e na Espanha (35,2%). Os imigrantes russos, principalmente judeus que haviam fugido da perseguição étnica e política no Império Russo, formavam o terceiro maior grupo (4,1%).  Havia ainda imigrantes da França, da Alemanha, da Dinamarca e da Áustria-Hungria mais os britânicos formavam uma minoria poderosa que detinham cerca de 80% do sistema ferroviário argentino, grandes extensões de terras no país, a maioria das linhas de bonde e das empresas urbanas de serviço público, e algumas das mais importantes fábricas e indústrias de enlatados.

Navios que trouxeram imigrantes espanhóis para Buenos Aires

Por longos períodos da história de Buenos Aires, a população masculina foi largamente majoritária, particularmente entre a população mais jovem, devido à menor imigração feminina.

A capital tornou-se uma espécie de babel cultural, onde o inglês era a língua do comércio e da indústria, o francês, a da cultura, e as da vida cotidiana eram uma mistura do espanhol (e do galego), do italiano (vários dialetos) e de outras línguas da Europa do Leste e do Oeste.

A vida urbana em Buenos Aires transformou-se rapidamente durante as duas primeiras décadas do século XX. Hotéis luxuosos, restaurantes, bistrôs, centenas de cafés, teatros e uma ópera famosa foram construídos por arquitetos europeus. Tal quadro levou a mudanças no uso das horas de lazer e produziu novos ambientes de participação pública e divertimento. A Reforma Universitária (1918), havia em certa medida, democratizado o acesso ao ensino e, por outro, criado mais espaços de liberdade para os intelectuais.

A Viagem de Navio entre a Itália e o Brasil

De 1890 a 1900 entraram no Brasil mais de 1,4 milhão de imigrantes,  ou seja, em apenas dez anos o dobro do número de entradas nos oitenta anos anteriores (1808-1888). No começo do século, por exemplo, assinalou-se em São Paulo uma saída de imigrantes, sobretudo italianos, para a Argentina.

GAUCHO ARGENTINO

As grandes levas de imigrantes estrangeiros alteraram drasticamente o perfil populacional do país, a figura do gaucho foi empregada como aquela que representava o verdadeiro argentino, associado ao campo, visto como o essencialmente criollo.

A poesia “gaucha” é formada a partir da língua espanhola, mas com uma série de palavras criadas na América, ou como gírias ou extraídas das línguas nativas. O lunfardo, a gíria portenha, e, conseqüentemente, as letras de tango, tiveram uma grande influência destas palavras “gauchas”e lunfardas nas letras dos tangos.

Nas cidades e nas áreas rurais, as campanhas de alfabetização facilitaram a difusão do livro que se tornou marco fundamental na construção da identidade nacional Argentina: “El gaúcho Martín Fierro”, de José Hernandez, publicado em 1872. Dado o sucesso do livro, cuja primeira edição foi esgotada em vendagens nos dois primeiros meses, desenvolveu-se uma série de produções literárias nesta perspectiva de valorização da figura do “gaucho” associada à identidade argentina.

Uma das figuras sociais do arrabal era o “compadre”, personagem masculino com raízes nas áreas rurais, geralmente empregado dos saladeiros e matadouros que lá proliferavam. Livre e nômade o mundo do gaucho havia mais ou menos desaparecido nos anos 1880, embora o compadre suburbano tenha talvez herdado certos valores gaúchos: orgulho, independência, masculinidade ostentosa, propensão para resolver problemas de honra à faca.

Mais numerosos que os compadres eram os jovens de origem pobre que procuravam imitá-los e que eram conhecidos como “compadritos”, valentões de rua bem representados na literatura da época e facilmente identificáveis por seus contemporâneos a partir de seu vestuário padrão: chapéu mole, lenço de seda folgado amarrado no pescoço, faca discretamente embainhada no cinto, botas de salto.

Ou seja, esses personagens tão “tangueiros” são em realidade uma espécie de versão do gaucho pampeiro nascida nos subúrbios de Buenos Aires que, naquele momento, ainda não tinham bem definidas as fronteiras entre o rural e o urbano.

Outro elemento de diversão, educação e negociação das  identidades, presente especialmente entre os segmentos populares a partir do final do século XIX, foi o “Circo Criollo”. O show era dividido em duas partes; na primeira parte do espetáculo o tradicional: malabaristas, animais, palhaços e, no segundo estágio, payadores e danças folclóricas e dramas gauchescos,

O desenvolvimento do “Circo Criollo” deu-se, especialmente, a partir das duas últimas décadas do século XIX. Aproveitando-se da popularidade da figura do “gaucho”, já construída anteriormente, na década de 1870, com “Martín Fierro”, inclusive no meio urbano, diversos circos utilizaram este personagem em suas apresentações, inicialmente em mímica, depois, com texto.

Outra figura utilizada no “circo criollo” foi a do “Payador”, considerado uma das bases de onde teria se originado o tango-canção.

 

Outros elementos da cultura argentina que tiveram influência sobre o tango. são os jogos, as festas cívicas e religiosas, o carnaval, as corridas de touros e de cavalos, os esportes, as comidas (com ênfase no mate), os lugares de reunião (“pulperías” e “cafés”).

Gardel utilizou-se largamente da imagem do “gaucho” na construção da sua própria imagem, o que foi, certamente, um dos elementos que o consagrou como um mito, através da união com a imagem já consagrada no imaginário argentino.

O samba e o tango

Tal como o tango de Buenos Aires tornou-se signo da Argentina, o samba tornou-se signo do Brasil. A integração dos imigrantes às identidades nacionais brasileira e argentina ocorreu através de um processo de lutas simbólicas, sendo o contexto em que se desenvolveu a trajetória artística de Carmen Miranda e Carlos Gardel um marco na transformação das identidades nacionais no Brasil e na Argentina.

O samba nascido das práticas e hábitos musicais dos grupos pobres, negros e mestiços do Rio de Janeiro e, logo vira em forma de canção, e inicia-se um processo de apropriação e nacionalização, via rádio, ao longo dos anos 1930.

Assim como, no Brasil, o samba desceu os morros, o espaço dos excluídos da capital, para tornar-se símbolo nacional, na Argentina, o tango saiu das “orillas”, o espaço dos excluídos desta outra capital, com o mesmo fim.

Quando nos debruçamos sobre as letras de samba e tango compostas entre 1917 e 1945, notamos a reiterada presença nos sambas do personagem chamado “Malandro”, uma figura bastante similar aos “Compadritos” do tango porteño.

A figura do “malandro” surgiu em Rio de Janeiro a começo dos anos de 1900

Na década de 1920, a figura do malandro começou a caminhar lado a lado com o samba, já que ambos eram apontados como representantes da singularidade carioca.  Cada um dono de sua própria “estratégia de sedução”, terno na moda, chapéu, perfume, no seu andar de viés, e no seu samba.

A aceitação do samba e do tango como representações nacionais não foi algo simples ou apenas obra da propaganda de algum governo, mas resultado de um amplo processo de negociação, de lutas simbólicas e de afirmação de algumas das identidades mais destacadas em cada país.

A chegada dos meios de comunicação de massa; a grande imprensa, o rádio e o cinema, mudaram tudo, pois garantiam a um único emissor a possibilidade de atingir simultaneamente uma audiência enorme, numa escala até então desconhecida.

As lutas simbólicas em torno da construção da identidade nacional dos dois países tiveram os meios de comunicação de massas, emergentes no Brasil e na Argentina exatamente no mesmo período, como espaço privilegiado. Estes meios de comunicação têm uma grande importância no sentido de tornar as representações sobre a nação não mais restritas a um público letrado, mas difundidas pela totalidade da população.

 

fonte:

  • Entre pátrias, pandeiros e bandoneonesO embate entre vozes marginais e disciplinadoras em composições de samba e tango (1917 – 1945) – ANDREIA DOS SANTOS MENEZES. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (1).
  • REPRESENTAÇÕES DAS IDENTIDADES NACIONAIS ARGENTINA E BRASILEIRA NAS CANÇÕES INTERPRETADAS POR CARLOS GARDEL E CARMEN MIRANDA (1917-1940) – ALESSANDER KERBER, UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL (2)
  • O gaucho, o tango, primitivismo e poder na formação da identidade nacional argentina – Eduardo P. Archetti, Professor de antropologia social na University of Oslo, Noruega (4)
  •  www.wander-argentina.com/world-tango-museum/
  • www.aaademayo.com
  • www.facebook.com/academianacionaldeltango/

 

 

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