Museu do Padre Toledo, Tiradentes (MG) Brasil

Adoro os museus cuja tipologia CASA-MUSEO oferece a possibilidade de descobrir muitas figuras e histórias nos quartos, salões e pátios,  de antigos caseroes. O solar conhecido historicamente como “Casa do Padre Toledo” é um dos bens culturais mais preciosos construídos no século XVIII em Minas Gerais.

A casa onde morou o inconfidente Padre Toledo, hoje Museu Padre Toledo, é uma atração que vale a pena ser visitada em Tiradentes. Sua casa em Tiradentes era considerada uma das melhores da época. São 16 cômodos, um porão, um pátio e uma residência anexa. Além da casa, que por si só já é linda, quem vai ao museu conhece um mobiliário original do século XVIII, imagens sacras, telas, mapas e utensílios domésticos. É possível ainda a preciar 11 forros policromados, com pinturas artísticas ao estilo rococó, datadas do século XVIII.

Durante o processo de restauração, foram descobertas pinturas no forro e nas paredes. Todos os quartos da casa tem o forro pintado brindando um encanto particular a cada ambiente, daquele mesmo tipo de pinturas que achamos nos tetos das igrejas da cidade e a região.

A entrada na primeira sala do museu é reveladora. Um jogo de espelhos foi montado numa mesa de modo que é só olhar ligeiramente para baixo para observar toda a pintura do forro em gamela … de uma proposta diferente, realmente maravilhoso.

Quem foi o Padre Toledo 

Padre Carlos Corrêa de Toledo e Melo nasceu em Taubaté (SP), em 1731, e morreu em Lisboa, Portugal, em 1803. Participou ativamente da Inconfidência Mineira.

Carlos Correia de Toledo e Melo, seu nome completo, foi designado vigário da Matriz de Santo Antônio em 1777 e morou nessa ampla e sofisticada casa (a mais rica da vila) com o requinte que a riqueza das Minas possibilitava a pessoas do seu estado e posição.

Segundo tradição oral, os conjurados se reuniam nesta casa, havendo mesmo um túnel secreto (cuja saída estaria marcada por retângulo de tijolos no assoalho de madeira de um dos corredores), por onde passariam os conspiradores, burlando a fiscalização dos Dragões do Rei. Segundo consta, havia no salão um altar diante do qual os revoltosos juravam fidelidade à causa. Com o fracasso da revolta o Padre Toledo escondeu-se na serra de São José, sendo posteriormente capturado e exilado para Lisboa.

Tinha 59 anos quando foi preso, em 1789, passando a Serra de São José. Foi acusado de convidar para a conjuração o seu irmão, Luís Vaz de Toledo Pisa, sargento-mor da Cavalaria Auxiliar de São João del-Rei, e declarou nos autos da devassa a sua participação na conspiração. Expatriado para Portugal, permaneceu inicialmente encerrado na Fortaleza de São Julião da Barra. Depois, foi levado para a clausura dos franciscanos de Lisboa, onde hoje fica a Academia de Belas-Artes, da Universidade de Lisboa, local de seu falecimento.

O Museu Padre Toledo

O grande solar é um casarão de um só pavimento, apresentando na fachada janelas de guilhotina com ombreiras e vergas curvas em pedra-sabão, molduradas com filete.

A cornija e os cunhais de pedra limitam bem o corpo principal, coroado por telhado em quatro águas. O corpo elevado, agregado à parede do lado direito é acréscimo posterior, mas que não compromete nem desfigura o solar. Verifica-se aí, entretanto, diferença no modelo das janelas, de ombreiras e vergas de madeira e execução menos apurada que as de pedra-sabão. Nesse corpo da casa o beiral no telhado alto é em cachorros.

A casa, erguida no século XVIII, é um solar de andar único, com pequeno torreão de construção posterior. Suas fundações são de pedra, e as paredes de moledo, material local fácil de talhar. Para as vergas e ombreiras das janelas e soleiras das portas foi utilizada a pedra-sabão, esteatita igualmente comum na região. Óleo-bálsamo, pereira, canela-sassafrás, tambu e canela preta foram as madeiras usadas no aparelhamento das vergas e ombreiras das portas internas.

Os forros são quase todos em gamela, e pintados, coisa rara nas residências particulares da época. Vestígios de pintura indicam decoração original nas paredes.

Algumas estratégias foram utilizadas para facilitar a apreciação das pinturas no teto. Na primeira sala há uma mesa interativa que propõe um jogo de imagens refletidas da pintura do forro em gamela.

Na sala dos espelhos, um jogo de espelhos foi montado de modo que é só olhar ligeiramente para baixo para observar toda a pintura do forro em gamela.

Na antiga sala de jantar, a pintura do teto se manifesta com decoração em frutas. Após análises comparativas, elaboradas por técnicos do IEPHA/MG, foi levantada a hipótese da participação de três artistas na decoração da casa, em épocas distintas da segunda metade do século XVIII e de princípios do XIX, pois todos os forros da parte inferior, a exceção de um, apresentam as mesmas características na resolução das rocailles, flores e ramos. Já os forros do andar superior, apesar de estilisticamente se aproximar dos demais do andar inferior, as rocailles, flores e ramos apresentam uma decoração com tratamentos dos ornatos diferenciados.

Internamente a casa possui 18 salas, incluindo os corredores e o salão superior. Os forros são quase todos em gamela, com aba, moldurados e decorados com pinturas diversas e originais, destacando-se a sala dos “Cinco Sentidos” representando olfato, o paladar, o tato, a audição e a visão.

Um grande sofá inclinado foi instalado para que sejam observadas as cinco pinturas que remetem à mitologia greco-romana e representam os sentidos humanos, cada uma delas em uma das cinco partes do teto, também em gamela.

De acordo com os Autos da Devassa, no sequestro dos bens do Vigário Carlos Correia de Toledo e Melo encontravam-se: três dúzias de pratos finos da índia, uma dúzia de copos de vidro, uma dúzia de xícaras e pires de louça da índia, três bules da mesma louça, duas terrinas de louça de Lisboa, além de outros artefatos. De gosto sofisticado, Padre Toledo possuía também muitos móveis pintados, como estantes, catre com cabeceira dourada, além da policromia. Nos sobrecéus das camas, no encosto das cadeiras e nos canapés e almofadas de portas havia damasco carmesim.

Todos os cômodos da casa podem ser visitados e o porão, que parece mais uma prisão, pode ser espiado por uma janelinha. Há visitas guiadas, o que enriquece demais o passeio.

Além de mobiliário do século XVIII, podemos ver imagens sacras, pinturas (telas), mapas e utensílios domésticos.

O pátio traseiro é muito amplo. Uma expografía muito bem realizada convida aos visitantes a percorrer os fundos da casa.

Historia e conservação da casa

Não há documentação sobre a construção desta casa, residência do padre Carlos Correia de Toledo e Melo, presumindo-se que sua construção tenha se iniciado em 1777, imediatamente à sua chegada à paróquia.

O Museu Toledo fica colado da Igreja São João Evangelista

Sua casa em Tiradentes era considerada uma das melhores da época, tendo contratado pintores para decorar os tetos em estilo rococó, com temas mitológicos ao gosto dos poetas árcades mineiros. O mobiliário era igualmente de qualidade, assim como a prataria, quadros, louças de Lisboa e da Ïndia e uma valiosa e extensa coleção de livros de vários autores. Todos os seus pertences ficaram depositados em mãos do capitão Antônio Vidal Riforte, e devem ter sido leiloados, ignorando-se o destino dos mesmos. Em 1892, o imóvel passou a servir de residência ao Juiz de Direito de Tiradentes, Dr. Edmundo Pereira Lins, que ali residiu até 1897. Em 1880, um grupo de republicanos visitou a casa do Pe. Toledo que, à época, acreditava-se ser a casa de Tiradentes, realizando-se ali uma sessão cívica e de propaganda da república e, de acordo com o jornal “A Pátria Mineira”, órgão republicano de São João del Rei, estas “romarias” cívicas se intensificaram no final do Império.

Em 1907 a casa foi comprada pelo capitão Policarpo Rocha, que a doou, em 1917, à municipalidade, através de escritura pública passada em cartório.

Criada a Prefeitura, em 1930, esta passou a funcionar no mesmo prédio. Após ampla reforma, passou a abrigar o Fórum que ali permaneceu até 1959. Com isso, passou novamente por intervenções, algumas delas irregulares, que prejudicaram muito o monumento. Nesta reforma, foram construídos os anexos para cozinha, banheiro, lavanderia e garagens.

Posteriormente o imóvel serviu de sede à Congregação Sacre Coeur de Marie. e, finalmente foi entregue em 1971 pela Câmara Municipal de Tiradentes à Fundação Rodrigo Melo Franco de Andrade, que nele fez instalar o “Museu Padre Toledo”, no número 190 da rua com o mesmo nome.

Em 1973, foi firmado um convênio entre a Fundação e o Patrimônio, no sentido de estabelecer mútua colaboração entre as duas Instituições para a preservação do acervo cultural de Tiradentes. O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico se comprometeu a ceder à Fundação, por empréstimo, peças para figurar na exposição inaugural da Casa, uma vez que os seus bens, arrolados na época da devassa, não puderam ser encontrados.

Esta medida recebeu as colaborações do Museu da Inconfidência e do Museu Regional de São João del-Rei, Casa da Baronesa (Ouro Preto), além de peças doadas por particulares. Cederam móveis e objetos restaurados para a expografia.

A instalação do Museu só se tornou possível após a completa restauração promovida or convênio firmado entre a Fundação Rodrigo Melo Franco, FIAT Automóveis e IEPHA/MG em 1981/82.

Nos anos 1940 e 1980 foram realizadas restaurações no Museu Casa Padre Toledo, que visavam recuperar os traços originais do imóvel e reparar incorreções estruturais. A instalação do Museu só se tornou possível após a completa restauração promovida por convênio firmado entre a Fundação Rodrigo Melo Franco, FIAT Automóveis e IEPHA/MG em 1981/82.

Em 1997, a Universidade Federal de Minas Gerais passou a ser a coordenadora e gestora da Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade. E, a partir do convênio celebrado entre a FRMFA e a UFMG em 2011, cujo objeto é a criação do Campus Cultural, importantes iniciativas foram tomadas em face ao Museu Casa Padre Toledo, como sua restauração e o desenvolvimento e implantação da nova proposta museográfica.

A última restauração aconteceu entre 2010 e 2012, com o apoio financeiro do BNDES. O projeto de R$ 1,8 milhão restaurou totalmente o solar e refez a montagem museográfica. O Museu, em sua forma atual, foi inaugurado em dezembro de 2012.

 

Fonte

  • Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade
  • IPHAN
  • UFMG

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *