Museu de Sant’Ana, Tiradentes (MG) – Parte II: Historia e Fachada

Instalado na antiga Cadeia Pública da cidade de Tiradentes, o museu abriga 291 imagens de Sant’Ana, a santa protetora dos lares e da família, bem como dos mineradores. São obras brasileiras, de várias regiões do país, eruditas e populares, dos mais variados estilos e técnicas, produzidas em sua maioria por artistas anônimos, entre os séculos XVII e XIX.

O Museu de Sant’Ana, bem como o Museu do Oratório, em Ouro Preto e o Museu de Artes e Ofícios em Belo Horizonte estão vinculados ao Instituto Cultural Flávio Gutierrez – ICFG, fundado em 1998 e presidido por Angela Gutierrez.

Largo do Rosário, Tiradentes (MG)


Arquitetura_Barroca _ Minas Gerais_Patrimônio_ Homens Pretos_Misterios_ Irmandade_Estrada Real
A Igreja e a Antiga Cadeia no Largo do Rosário, Tiradentes (MG)

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário é considerada a mais antiga da cidade, sua área externa é muito agradável. La igreja se encontra com seu frente retraído gerando um amplo átrio de aceso repleto de árvores, na direita um restaurante ganhou espaço oferecendo um point imperdível para aqueles turistas que querem jantar ou descansar bebendo um cafezinho. La visual oferece um incessante trafego de turistas e muitos fotógrafos, pois a Igreja e o Museu de Sant’Ana esta no centro do miolo, a meio caminho da Matriz do Santo Antônio e a Praça principal.

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A Fachada


A implantação da edificação obedece ao alinhamento do lote nas duas ruas e afasta-se da lateral que faz divisa com o vizinho, e da divisa de fundos, onde se desenvolve um largo trecho de terreno em declive. O desnível entre o pavimento térreo e a rua é vencido por quatro degraus executados em blocos de pedra.

Na antiga Cadeia de Tiradentes funciona o Museu de Sant’Ana

A estrutura básica foi edificada com enormes blocos de pedra arenítica, com pedras de xisto e arenito incrustadas. São paredes largas, com mais de 1,60 cm, imprimindo à construção ares de fortaleza. Todo embasamento da edificação foi feito em blocos de pedra de xisto verde, aparelhados, retirados do sopé da Serra de São José. Os marcos de janelas e portas, também feitos com a mesma pedra, foram fechados com fortes grades feitas pelo ferreiro Manoel Luiz Santana.

O volume é marcado pelos cunhais das quinas, executados em massa sobre socos de pedra com acabamento em ressaltos escalonados, e pelo forte ritmo de distribuição das aberturas das janelas. Estas apresentam enquadramento em pedra e verga abatida, fechadas por grades de ferro. Nos cunhais, mãos francesas trabalhadas em ferro batido serviriam de apoio aos lampiões. Sob as janelas, mantendo sempre uma altura constante, uma diminuta abertura no nível do porão, inserida no pano de alvenaria de pedra, deveria servir à função de ventilação.

A cobertura é resolvida em quatro águas, e os beirais são arrematados em caprichoso e marcante trabalho de cimalha, mais ao gosto neoclássico do século XIX, época em que o prédio foi reformado após o incêndio que sofreu em 1829. Os panos do telhado acusam a presença de galbos, recurso largamente utilizado naquele período para a proteção da base das paredes contra as águas da chuva.

A divisão interna reflete a organização gerada pelo partido rígido, simétrico. Quatro grandes salas dispõem-se, duas a duas, articuladas pelo eixo do corredor central que, de um lado abre-se como acesso à edificação, através de uma porta almofadada, e do outro apresenta uma abertura de janela com vista para o exterior. Em cada sala, duas aberturas de janelas e uma larga e pesada porta dupla – uma em madeira maciça, outra vazada em gradeado de ferro -, ligando-a ao corredor, compõem o ambiente que servia de cela. Nas duas salas posteriores, verifica-se a existência de acessos para o subsolo, dividido em dois espaços correspondentes à localização das paredes de pedra que sustentam o edifício.

Uma das celas era usada como sala para a Delegacia de Polícia e a Polícia Militar. Um dos delegados mais interessantes da história da cadeia foi o artista popular Antônio Ferreira Gomes (1895-1978), santeiro, pintor, restaurador, fogueteiro e sapateiro, que residia na casa ao lado da cadeia, número 111.

Historia da antiga Cadeia


A Guerra dos Emboabas (1708 e 1709) culminou com a fuga dos paulistas e uma reconfiguração territorial ordenada pelo poder lusitano, com a criação da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. A partir de então, vilas foram criadas para impor a ordem, a administração e, especialmente, para assegurar a parte dos lucros que cabia à Coroa.

As três primeiras vilas foram Ouro Preto, Ribeirão do Carmo e  Sabará, instaladas em 1711

Na área do Rio das Mortes (chamava-se “das Mortes” pelo perigo na travessia do rio, quando muitas vidas se perdiam durante as cheias), por volta de 1702, os desbravadores instalaram o Arraial de Santo Antônio do Rio das Mortes, que cresceu e prosperou economicamente, principalmente com a enorme produção de ouro e as atividades de agropecuária. Em 1718 a localidade foi elevada à categoria de vila, recebendo a denominação de São José del-Rei, atual cidade de Tiradentes.

Serra e cidade de São José, 1828

O Auto de Criação da Vila de São José del-Rei veio autorizar a instalação do Pelourinho, como reconhecimento real do lugar. Para a implantação de uma vila, além de se instalar o pelourinho, era necessário a delimitação de um terreno para a edificação da casa da câmara e cadeia, consideradas fundamentais para garantir a ordem, a segurança e a economia ali estabelecidas.

Nas vilas mineiras da época, uma só edificação abrigava as duas, a cadeia era no piso térreo e a câmara no segundo piso. Excepcionalmente, no caso de São José del-Rei, a Câmara foi instalada em uma edificação na Rua da Câmara, próxima à Matriz de Santo Antônio, e a Cadeia na Rua Direita.

A Cadeia Pública, foi construída numa situação atípica para a época, ou seja, separada da Casa da Câmara

O prédio da Cadeia é construído por volta de 1730, sendo que em 1829 é atingido por um incêndio, tendo sido restaurado entre 1833 e 1835, conservando estrutura, portais e grades originais. No entanto, suas fachadas foram reconstruídas segundo os padrões neoclássicos que predominavam nos prédios públicos do século XIX.

A Casa de Câmara e Cadeia representou, no Brasil colonial, a sede da administração e da justiça. Sua importância é avaliada pelo registro das ordens reais que em primeiro lugar eram determinadas nas casas de Câmara, Cadeia e na casa de audiência pública. À Câmara cabia o atendimento dos serviços camarários, administrativos e judiciais. À parte da Cadeia, competiam os serviços prisionais e carcerários.

A instituição da Cadeia, lugar representativo das forças controladoras e repressoras da época, pode ser considerada como um dos elementos organizadores da estrutura administrativa do regime colonial, baseada na aplicação de penalidades pecuniárias e corporais. No período imperial, a partir da Constituição de 1824, as casas de câmara e cadeia tornam-se objeto de modificações visando adaptar-se às tendências mais liberais da época, separam-se os poderes administrativo-judiciais dos penitenciários.

Em 1940, por um breve período, a cadeia foi transformada em presídio estadual feminino. Ainda na década de 40, passou a funcionar como cadeia mista e depois se tornou apenas masculina.

A partir da República, ocorreram diversas mudanças e a cadeia de Tiradentes foi cedida ao Governo do Estado, que passou a administrá-la, tendo funcionado até 1984, quando os presos foram transferidos para São João del-Rei. Nesse mesmo ano o imóvel foi doado pelo Estado de Minas Gerais à Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade.

Cadeia restaurada


Em 1940, para a instalação do presídio feminino da Comarca de São João del-Rei, foi feita uma grande intervenção, que alterou muitas características originais. O edifício ganhou um anexo com banheiros e depósito, as folhas das janelas foram substituídas por venezianas e o assoalho do corredor recebeu ladrilhos hidráulicos.

A construção tinha apenas uma porta de acesso, com duas folhas

Em 1984, após ser doada à Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, a antiga cadeia passou por uma restauração financiada pela mineradora MBR. O muro e o anexo construídos em 1940 foram demolidos, os forros e o assoalho, substituídos, e o telhado e as portas, restaurados. As janelas que haviam sido transformadas em porta voltaram à feição original e ganharam grades e peitorais em cimento. O prédio deveria servir como Museu da Prata, o que não aconteceu por falta de acervo.

As belas paredes internas de pedra lavrada e duas fortes fileiras de grades nas janelas adequavam-na como espaço de museu, com boa luz e boa ventilação. Uma vez restaurado o prédio, a Fundação decide instalar ali o Museu de Arte Sacra Presidente Tancredo Neves, sendo inaugurado em 1989 com peças doadas por particulares. teve suas portas abertas de 1986 a 2005.

Ao longo do tempo a Cadeia recebeu pinturas em diferentes cores: branca, verde, rosa, azul e amarela
Finalmente, entre 2011 e 2012, a antiga cadeia foi novamente restaurada e adaptada para o Museu de Sant’Ana, que abriu as portas em 2014. De acordo com o diretor-superintendente do ICFG, Paulo de Tarso Barbosa Passos, o projeto do Museu de Sant’Ana é fruto de parceria da Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade (FRMFA), vinculada à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o Instituto Cultural Flávio Gutierrez (ICFG). As obras de restauração do prédio que sedia o museu foram financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio das leis de incentivo do Programa Nacional de Cultura (Pronac).

Segundo Angela Gutierrez, foi um desafio enorme adequar o espaço protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) às regras impostas pelo órgão federal. “É muito complexa a implantação de um museu. Tem de ser um trabalho cuidadoso e muito criterioso, principalmente por ser em um prédio com quase 300 anos de existência”, afirma a colecionadora.

De acordo com o arquiteto responsável pelo projeto museógrafo do Museu de Sant’Ana, Pedro Mendes da Rocha, as salas para a exibição das imagens sacras tem estantes metálicas, para não influenciarem a madeira das peças, ou seja, não atraírem cupins, fungos ou bactérias.

Além disso, o projeto contempla uma iluminação distribuída uniformemente pelas esculturas, e como parte da identidade do museu, cada sala terá uma estante de cor diferente. “Fazer a expografia é um grande desafio, pois tem de ser extremamente eficiente. O objetivo é mostrar da melhor forma possível as imagens de Sant’Ana, e, claro, de forma didática. Nosso trabalho teve como meta a economia de recursos, para evitar qualquer floreio”, explica o arquiteto.

Com total acessibilidade, incluindo elevador no acesso, além das salas de exposição, o museu conta com o espaço Largo de Sant’Ana, aberto para convivência e adequado para recepção de eventos.

Durante as obras algumas surpresas aconteceram, como um calabouço que não constava da planta e foi descoberto. O espaço ganhou um projeto especial e iluminação para que passasse a integrar o arranjo museográfico. “Foi uma obra muito delicada, realizada em um prédio tombado com muito cuidado e acompanhamento do Iphan. Buscamos colocar o que existe de mais moderno, que facilitasse a visitação, mas sem agredir a singeleza das peças e da própria edificação”, ressalta a diretora do museu Angela Gutierrez.

 

fonte:

  • https://museudesantana.org.br/
  • http://revistasagarana.com.br/
  • http://www.cultura.mg.gov.br/

 

 

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