MUSEO FOTOGRÁFICO de BUENOS AIRES: A história do bombeiro que virou fotografo e do bar que virou museu

A história deste bar está relacionada a como um bombeiro se encontra com a fotografia, se torna um colecionador e acaba em frente ao maior Museu Fotográfico da Argentina, declarado de Interesse Cultural pelo Legislativo da CABA.

Dono do Bar Palacio, no bairro Chacarita, vamos conhecer a vida de Alexander Simik, um apaixonado colecionista que a partir de seu imenso acervo, ele sonha algum dia fundar o Museu da Fotografia e o Museu do Cinema da cidade de Buenos Aires.

Museu Fotográfico Simik


O Museu Fotográfico Simik está localizado no bairro Chacarita, em Buenos Aires. Seus objetivos são a preservação do patrimônio fotográfico da cidade de Buenos Aires e a organização de atividades relacionadas com a história e a divulgação das expressões artísticas por meio de câmeras fotográficas.

O museu está instalado dentro de um bar com a ideia de que qualquer pessoa pode conhecer a origem e o desenvolvimento da fotografia e seus instrumentos. É privado e gratuito, não é necessário consumir nada para visitá-lo.

Em outubro de 2005, a Assembleia Legislativa da Cidade de Buenos Aires declarou-o um local de interesse cultural por suas contribuições para a preservação do patrimônio nacional

O Museu começou a funcionar como tal em fevereiro de 2002, com a inauguração da sua primeira mostra. Foi criado e dirigido por Alejandro Simik, fotógrafo publicitário que se interessou pela fotografia quando era bombeiro, acompanhando ao fotógrafo que fazia a perícia do fogo. É um exemplo de resiliência, aquela capacidade que temos de nos adaptarmos positivamente às situações adversas, ou seja, no momento em que passou por uma situação econômica angustiante que o levou à depressão, ele decidiu se dedicar ao que sua paixão sempre significou, a Fotografia. E foi assim que, com a colaboração de amigos e conhecidos, passou a colecionar objetos relacionados à fotografia que anos depois dariam origem a um museu.

No início, eu só dava aulas introdutórias gratuitas no bar e hoje ampliei as atividades para exposições fotográficas mensais e palestras abertas. “O Museu começou a funcionar em fevereiro de 2002 em um bar local. Evolução didática, visual e técnica da fotografia e câmeras desde sua criação”, diz Alexander Simik.

A estátua, na porta do Bar do Palacio, na esquina da Av. Federico Lacroze com a rua Fraga, e se tornou o símbolo que identifica do Museu Fotográfico Simik.

Do lado de fora da porta de entrada principal, uma estátua personifica um antigo fotógrafo, com sua antiga câmera, convidando você a entrar

No interior deste bar-museu encontram-se diversos objetos relacionados com a história da fotografia, de grande valor histórico e emocional. O acervo é composto por mais de 4.000 fotografias e por questões de espaço, as peças são alternadas e exibidas em momentos diferentes, por época ou por tema.

Ao entrar, tem-se a sensação de entrar num caleidoscópio. Dezenas de reflexos ricocheteiam nos espelhos dos armários que revestem as paredes e que também ficam entre as mesas das instalações. Luzes e reflexos se multiplicam, criando um efeito hipnótico.

São câmeras, lentes, flashes, filtros, todos protagonistas estelares da fotografia do século passado. Tem todas as marcas: Agfa, Zeiss, Kodak, Leica, SunPack, Speed ​​Graphic, Rollei, Canon, Durst, Mamiya, Voigtländer, Nikon, Sigma, Meopta, Pentax. Do vidro ao filme 35mm. e do magnésio ao flash eletrônico, o desenvolvimento técnico da fotografia bate aí. As antigas câmeras de fotojornalismo parecem marcar o ponto mais distante da coleção, mas a surpresa vem das enormes câmeras de chão, feitas de madeira brilhante, que foram construídas e usadas em 1870.

O Bar Palacio é um dos bares históricos da cidade, um típico bar de esquina. No entanto, à medida que nos aproximamos descobrimos que à porta somos recebidos por uma estátua de um fotógrafo dos anos 1930 e uma vez no interior do bar, somos surpreendidos por uma amostra que traça o percurso na história da fotografia, onde é possível rever parte da história da arte fotográfica.

Entrevista a Alexander Simik


Para conhecer a incrível historia de Alexander Simik vou traduzir e trazer para vocês uma excelente entrevista concedida ao jornalista Julio Lagos do Jornal Infobae.

 

– Como começou sua paixão pela fotografia?

– Até os 30 anos não tinha nada a ver com fotografia. Depois do colégio comecei a estudar economia, mas parei porque não gostava … Tentei advocacia, mas também deu não. Até eu entrar na Escola de Policiais Federais para ser bombeiro. E lá, eu me recebi.

Depois de trabalhar com sinistros, fui para a seção Preventiva. É onde são feitas palestras e conferências sobre o que fazer em um incêndio, como sair de um local afetado. Essa é a parte preventiva. E mais tarde eles me transferiram para a seção de investigação. Esta é uma atividade muito importante, pois serve para tirar conclusões sobre os motivos das tragédias.

Para determinar o início do incêndio, a fotografia é usada. Naquela época, eu era assistente de um fotógrafo bombeiro, que era um cara muito experiente, muito conhecedor da profissão. Ele era um especialista em fotografia pericial. Eu perguntava para ele como era usada a câmera, o que é uma lente angular, em quais casos era usada uma teleobjetiva. Porque macrofotografia, fui aprendendo passo a passo, com pessoas com enorme experiência, maiores do que eu, que tinha 30 anos. E foi assim que me tornei um bombeiro especialista na parte pericial, com grande domínio da fotografia. Aprendi muito lá, porque havia um grande laboratório preto e branco onde muito trabalho era feito.

Quando saí do Corpo de Bombeiros, me tornei fã da fotografia. Já estava ganhando alguns pesos em batismos, eventos escolares, reuniões de bairro. Comecei como uma câmera simples que usava um rolo de 35mm analógico Canon Eos e um flash Metz 45 cl-4. Comecei então a estudar na Associação de Fotógrafos e depois fiz um curso com o fotógrafo italiano Aldo Bressi.

Naquela época eu já tinha um bar aqui, era hora da sinuca, tinha um par de mesas. Um homem chamado José María, que consertava flashes em Pantof, um negócio na Avenida Corrientes perto da rua Medrano, me deu uma câmera de fole. E comecei a me aprofundar em como ela era usada.

Mas o clique foi após a queda do presidente De la Rúa (crise econômica do ano 2001). Nada estava acontecendo, não havia trabalho. Os negócios mal eram abertos por medo de saques. Em vez de ficar deprimido, decidi treinar. Vendi as pequenas câmeras que tinha e comprei uma Mamiya 645 1,000S. Com essa Mamiya fui me inscrever no curso de fotografia documental ministrado por Gustavo Demaría Molinari, que morou vários anos em Barcelona. Foi muito bom, muito exigente.

No exame final, para passar no workshop, era necessário apresentar um trabalho especial. E eu escolhi os cartoneros (aqueles que coletam papelão nas ruas para vender ou reciclar).

Então, eu os acompanhava. Pegava o “trem branco” com eles para José León Suárez (o trem branco é aquele destinado exclusivamente para os cartoneros transportar suas colheitas), compartilhei as panelas populares que eles faziam para comer e outras atividades. Fiz amizade com muitos cartoneros e dei meu número de telefone a muitos deles. Ali, eles trouxeram para mim um monte de câmeras que eles achavam no meio do lixo. Naquela época não havia consciência de conservação, as pessoas jogavam no lixo e eles traziam para mim e eu comprava na mão deles.

Mais tarde, já havendo várias vitrines no bar, foi como se tivesse ocorrido uma explosão. Aumentou o número de pessoas que iam para o bar, viam as câmeras e me falavam “tenho uma câmera em casa” e eles traziam para mim. Também teve muito a ver com o fato de termos colocado a escultura da porta que comprei a na feira de Niceto Vega. Ela atuou como chamariz.

Assim que você entra no Bar Palacio, um dos 86 bares notáveis ​​da cidade de Buenos Aires, uma enorme câmera está em um pedestal de madeira.

– Esta é uma máquina fotográfica alemã de 1870. Fui procurá-la num estúdio fotográfico do bairro de Avellaneda. Um dia veio um cartonero e trouxe-me algumas peças. Eu digo: de onde você tirou isso? “E de Avellaneda”, responde. E as outras partes? “Não, eu não tenho”. Vamos para o lugar, falei. E fomos até o local com aquele cartonero. Era uma casa cujo teto abobadado estava caindo devido à umidade. No chão, entre os escombros, comecei a remexer. Era o trabalho que eu fazia quando era bombeiro, como quando fazia especialização. Era preciso mexer com uma pá larga e remover tudo o que havia caído para encontrar a direção do fogo. Eu já estava acostumado com isso … então comecei a vasculhar lá e encontrar os pedaços da câmera. Nós reconstruímos essa câmera que vocês veem aqui peça por peça. E a parte de baixo, que estava toda cheia de cupim, foi salva por um carpinteiro ebanista… E funciona!!!

O sistema fotográfico é simplesmente uma caixa escura. Trabalha com uma placa de vidro emulsionada com uma geleia de sal de prata. Nós reconstruímos o fole, foi um ótimo trabalho de um homem de Ramos Mejía. Uma família de artesãos.

– Aqui no bar estão todas as câmeras e aparelhos da sua coleção?

-Não!!! … Isso é menos da metade de tudo que eu tenho, só fotografia. Porque também tenho muito material cinematográfico, para fazer outro museu especificamente cinematográfico. Fica em um galpão, a um quarteirão daqui. Mas da parte fotográfica tenho centenas e centenas de objetos em lugares diferentes. No terraço tenho muitas peças, quase que para abrir passo é preciso entrar como na selva, com um facão. Com o Museu Fotográfico pedimos a colaboração do Governo da Cidade, do Poder Legislativo que o nomeou de Interesse Cultural. Além de ser um Café Notável da Cidade. Muitas vezes pensei em ir a um local muito maior para construir um Museu com características diferentes. E o bar não perderia o encanto porque são muitos objetos, há muito material para montar algo em outro lugar sem tocar nisto. Tenho elementos para montar um antigo estúdio fotográfico, com cenários fotográficos únicos no país, cenários de 1900 … e anteriores pintados à mão. Cada tecido tem 3 metros de altura e igual largura. Não tenho espaço aqui no bar. Com Rodríguez Larreta (prefeito de Buenos Aires) conversamos sobre o assunto uma vez que alguém trouxe ele para tomar um café aqui. A ponte foi construída, tomara que um dia o projeto seja feito.

-Mas as coisas que você espalhou em tantos lugares não estão arruinadas?

-Não, tudo é armazenado e protegido, a salvo de umidade e destruição. E também classificado. Tenho o dobro do que você vê nos armários do bar, além de tudo de cinema. Mesmo todas as caixas de câmeras, são duas mil caixas em perfeito estado, em outro galpão. Porque as câmeras são exibidas sem caixas, mas as caixas fazem parte da câmera e têm valor histórico. E são maravilhosos, são de couro, de pele.

Muitas delas com o acessório para telêmetro e fotômetro, enganchado na alça. De cores diferentes, de texturas diferentes. Brilhante por fora e luxuoso por dentro. Se eu tivesse um lugar grande colocaria todos na mesma parede, imagine … uma parede inteira coberta com os estojos das câmeras, com sua anotação correspondente. Também tenho filme fotográfico em rolo! Eu tenho uma geladeira cheia de filmes! Tenho 35 mm, tenho placas… e tenho 120 rolos… 35 preto e branco e 35 de cores… Há cerca de 10 anos comecei a armazenar pensando em algum dia usar, mas o tempo passou tão rápido que nem percebi. Hoje em dia, tudo é digital.

-E qual poderia ser uma das peças mais significativas?

-Tudo tem valor, porque tudo tem uma história. Por exemplo, a primeira câmera do jornal La Prensa que foi feita para a fotografia aérea. Parece uma arma e é uma caixa de madeira com uma lente na frente e um chassi na parte traseira e tem um punho com um gatilho para o obturador. Tem uma inscrição que diz jornal La Prensa 1900… As imagens que essa câmera terá obtido!!! … Fico arrepiado só de pensar na história que se passou diante daquelas lentes.

Alexander Simik e sua coleção de projetores cinematográficos

Não podíamos deixar de ver o galpão “a um quarteirão daqui”, com acervo de objetos cinematográficos. Nós fomos. E a surpresa foi enorme. Em um gigantesco galpão, com luzes, segurança, alarmes e proteção ambiental, onde é exibida a mais incrível variedade de elementos relacionados à sétima arte.

Alejandro fica animado e faz a revisão:

-8 ou 10 anos atrás eu me deparei com algumas caixas cheias de câmeras de vídeo, que não me importava, eram 8 mm ou super 8 … eram coisas quase muito recentes … eram quase anos setenta para mim … E eu pensei que elas não eram velhos o suficiente e então eu os mantive em caixas e eles ficaram lá. Até que um dia comecei a acomodar o galpão e percebi que tinha umas 40 câmeras de vídeo. É uma loucura, e falei: vou começar a juntar as coisas do cinema. E foi aí que comecei. Agora estou com esse depósito cheio, com peças extraordinárias. Lanternas mágicas, do que se chama de pré-cinema, desde 1750 quando foram criadas por Atanasio Kircher e suas variantes a partir das quais ele criou. É um isqueiro com um combustível oleoso, porque naquela época não havia combustível refinado, é um isqueiro como se fosse uma lanterna de sol de noite dentro de uma lata … a luz disso através de uma lente é potencializada e dá amplitude, dá mais potência, dá mais luz à lente e depois tem uma objetiva de bronze na frente dela, que é o que dá direção, sentido e mais clareza à imagem, e no meio, um vidro pintado se interpõe. A fotografia não existia, por isso é um vidro pintado.

Lanterna mágica

-A fotografia foi criada em 1839 e as lanternas mágicas datam de cerca de 1650. Aqueles vidros pintados, com contos infantis e milhares de historias, eram usados ​​por mágicos. É por isso que é chamado de mágica. E eles produziram o que chamaram de imagens fantasmagóricas, que eram até assustadoras. Tenho diferentes tipos, de diferentes origens, alemão, inglês, francês. Também temos projetores da época dos irmãos Lumière. Temos coisas notáveis, o primeiro projetor de cinema da cidade de Tilcara (estado de Jujuy, na fronteira com Bolívia). Ou projetores de cinema itinerantes que percorreram o interior do país. O material de cinema é muito difícil de obter.

Tenho muitas câmeras de madeira, mas poucos projetores de cinema. Eles são difícil de achar. Como eram feitos de fundições, venderam o material. E os poucos que existem tentamos conservar porque são extremamente valiosos. Tenho vários moviolas, incluindo uma marca Moviola original, que mais tarde se tornou um nome genérico para todas as outras.

-Então você também quer fazer o Museu da Cinematografia?

-Olha … Minha expectativa hoje é que a economia do país melhore para construir o Museu do Cinema ou que alguma entidade ou algum estado ou órgão governamental misto colabore ou possamos fazer juntos um museu do cinema com todos os dispositivos que montei durante todos esses últimos anos. Que seja gratuito para o público, que haja oficinas gratuitas, que haja muitas atividades relacionadas ao cinema e que seja um lugar dedicado exclusivamente para isso. Também tenho 70 poltronas de cinema, além de todos os projetores e câmeras de vídeo. Tenho a história do cinema representada através de aparatos. Tenho câmeras de 16, de 35, Arriflex, filmadoras de madeira, filmadoras de avião.

-Como seria o novo Museu, como você imagina?

-O ambiente tem que ser cercado por pôsteres de filmes. Eu os tenho emoldurados e com uma película no topo para que não estraguem, eles medem um metro por um metro e cinquenta de altura. Tenho um monte. Tenho também programas de filmes, muito antigos, impressos a partir daqueles que se distribuíam nos cinemas, eu colocaria eles nas mesas, debaixo de uma placa de vidro como aqui no bar, como fiz com as câmaras. Eu poderia colocar lanternas mágicas nas paredes, as menores em vitrines, intercaladas entre os projetores das mesas, aquelas grandes que pesam 200 quilos. Imagina … tomar um café ou lanchar e do lado você tem um projetor antigo exibindo um filme. Três ou quatro projetores focados em uma tela central, para que todos possam ver. A música de fundo deve ser toda música de filme.

Com as poltronas de cinema … eu faria um pequeno pulmão para as pessoas se sentarem para ver a exposição. Uma sala contígua para palestras e conferências … Será aberto a todos os alunos para que eles tenham a oportunidade de apresentar o seu trabalho, em formato tradicional ou digital. Se encontrarmos um lugar, colocamos o Museu da Cinematografia, absolutamente decidido. E a primeira coisa que eu faria seria trazer o projetor ICA de 35 mm. É de 1914. Estou com ele na sala da minha casa e minha família já me disse que esse aparelho está indo embora, do contrário … eu sou quem está indo embora.

Jazz


Os cursos de fotografia são realizados no piso inferior do café e às sextas-feiras à noite há um espetáculo musical, com jazz ao vivo.

O “Palacio Bar” tem serviço de cafetaria e um cardápio simples, acesso gratuito à Internet e computadores com acesso gratuito.

O Museu e o Bar localizam-se na Avenida Federico Lacroze 3901 esquina da Fraga e funcionam de segunda a sábado das 8 às 24 horas.

 

fonte:

  • https://www.infobae.com/sociedad/2020/03/15/la-fantastica-historia-del-bombero-que-se-transformo-en-el-mayor-coleccionista-de-maquinas-fotograficas-y-de-cine-del-pais/
  • https://www.caminandobaires.com.ar/index.php/2017/05/29/de-visita-en-el-museo-fotografico-simik/
  • https://turismo.buenosaires.gob.ar/es/article/bares-notables

 

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