MINISTERIO PUBLICO de OURO PRETO: Aquele belo casearão no Largo do Cinema

Devo começar este post dizendo que detesto os organismos judicias implantados em sítios de patrimônio histórico. Eles tem sempre na porta um segurança que fala: “Está proibido tirar fotos” e para mim não existe pior frase para um fotografo compulsivo como eu. Também é certo que muitos edifícios tem conseguido conservar sua estrutura graças á funcionalidade como foi determinada neste caso. No final da rua se encontra o edifício do Fórum de Ouro Preto que já tem pronto seu novo prédio, tendo em vista instalar no local o Museu do Judiciário que sem duvidas bridara mais um atrativo á mais linda cidade colonial de Minas Gerais.

Vamos conhecer a história deste belo casarão torcendo que ele no futuro consiga ter a mesma sorte que seu prédio vizinho.

Largo do Cinema


Partindo da Praça Tiradentes, na esquina onde fica o Palácio dos Governadores e descendo pela Rua Senador Rocha Lagoa (conhecida popularmente como Rua das Flores) chegamos à intersecção onde nasce a rua São Jose e a rua chamada Praça Reinaldo Alves de Brito, que efetivamente trata-se de uma rua e não de uma praça.

Mais conhecido como Largo do Cinema, este local é o segundo local mais movimentado de Ouro Preto depois da Praça Tiradentes. Trata-se do entroncamento desta rua com nome de praça, entre a Rua das Flores e a Rua Conde de Bobadela (conhecida popularmente como Rua Direita).

Possui belas construções de diferentes épocas, que traz um resultado de rara harmonia arquitetônica. No seu entorno temos várias atrações históricas: Museu Casa dos Contos, Chafariz dos Contos, Ponte dos Contos, Grande Hotel de Ouro Preto, Prédio do Fórum, Prédio do Ministério Público e o Cine-Teatro Vila Rica, que dá nome ao largo.

O Ministério Público


O belo casarão situado nesta esquina atualmente é sede do Ministério Público do estado de Minas Gerais, Promotoria de Justiça de Ouro Preto. Vizinho ao Chafariz dos Contos, compõe o belo conjunto arquitetônico que pode ser visto das varandas e jardins do Grande Hotel (projetado por Oscar Niemeyer) ou desde o Museu Casa dos Contos.

O prédio possui uma importante escadaria a sua frente

Local de grande movimento de pedestres e carros e passagem obrigatória por quem estiver passeando pelo Casco Histórico de Ouro Preto. A fachada cor de rosa, as portas e janelas-balcão grenás, as sacadas com guarda-corpos de ferro batido e os detalhes em branco chamam a atenção de quem passa pela rua.

O Ministério Público é uma instituição responsável pela defesa de direitos dos cidadãos e dos interesses da sociedade. Como defensor da ordem jurídica, o Ministério Público é o fiscal da lei, ou seja, trabalha para que ela seja fielmente cumprida. Para tanto, possui autonomia funcional, administrativa e financeira, não fazendo parte nem estando subordinado aos Poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário.

Também o Ministério Público, protetor da democracia, atua para impedir ameaças ou violações à paz, à liberdade, às garantias e aos direitos descritos na Constituição da República, lei brasileira suprema. Nesses termos, tem a função de exigir que os Poderes Públicos respeitem esses direitos e garantias.

Assim, entre atribuições importantes como ajuizar a Ação Penal Pública e exercer o controle externo da atividade policial, compete ao Ministério Público a função maior de ir ao encontro dos interesses da coletividade. Cabe ainda ao Ministério Público defender os direitos individuais indisponíveis, como o direito à vida, ao trabalho, à liberdade, à saúde; os direitos difusos e coletivos nas áreas do Consumidor, do Meio Ambiente e do Patrimônio Público, entre outras; os direitos dos idosos, dos portadores de necessidades especiais, das crianças e adolescentes e dos incapazes.

Enfim, a Instituição, não serve, pois, para amparar direitos meramente individuais que envolvam apenas uma pessoa ou determinado grupo, e sim para defender ações de interesse amplo.

Banco Comércio e Indústria


Originalmente possuía uma belíssima platibanda decorando o seu telhado (segundo fotografia da primeira metade do século XX) que foi retirada por motivos que mencionarei mais na frente, quando ainda funcionava o antigo Banco do Comércio e Indústria de Minas Gerais.

O nascimento dos primeiros grandes bancos privados mineiros só se deu com o crescimento comercial e industrial da capital do Estado, depois da Primeira Guerra Mundial. Belo Horizonte além de ser na época, proporcionalmente, a cidade de maior crescimento demográfico do Brasil, como sede do governo ela reuniu uma população com alto poder aquisitivo.

O Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, o maior banco privado nacional de 1940 a 1946, já nasceu grande. No início de 1923, um grupo de comerciantes e industriais de Belo Horizonte decidiu criar um banco para atender seus interesses.

O principal fundador do Banco Comércio e Indústria foi a família Guimarães que tinha sua fortuna originária de fazenda. Em 1886, fundou a Cia. Cachoeira dos Macacos, uma das mais antigas fábricas de fiação e tecelagem de Minas Gerais, com 80 teares. Outra fábrica têxtil da família, a Cia. Industrial de Belo Horizonte, foi fundada em 1906. Em 1917, fundou, juntamente com 20 acionistas, a Cia Siderúrgica Mineira com fábrica em Sabará. Em 1921, associou-se com um grupo belga do setor de aciaria, transformando-a na Cia. Belgo-Mineira, a primeira unidade integrada de alto forno e laminação do Brasil. Finalmente, em 1923, Cristiano Guimarães fundou o Banco Comércio e Indústria, ao lado de Sebastião Augusto de Lima.

Minas Gerais era o Estado que possuía maior número de praças bancárias e por sua vez os bancos mineiros possuíam o maior número de agências em outros Estados. Só foi superado por São Paulo no final da década dos 60. Raros eram os bancos de outros estados e estrangeiros que atuavam em Minas, nessa época. Portanto, grande parte da rede bancária mineira estava situada no próprio mercado estadual.

O Banco Nacional, criado em 1944, adquiriu o Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais em 1975, e, por sua vez, teve sua “parte boa” incorporada pelo Unibanco, em 1995. Hoje, com o desaparecimento de vários concorrentes nacionais, o Unibanco (fundado em 1924), gaba-se de ser o mais antigo banco privado brasileiro. Em novembro de 2008, ao ser anunciada a fusão entre o Itaú e o Unibanco, o Itaú era o segundo maior banco privado do Brasil e o Unibanco era o quarto maior. A operação criou o primeiro banco brasileiro de porte global, na 16ª posição em valor de mercado, com 108 mil funcionários e patrimônio líquido de R$ 43,7 bilhões.

A restauração do edifico


Através de lei federal, foi concedido um crédito especial para a reforma da cidade em comemoração aos seus 250 anos, um plano de obras especial destinado ao restauro dos principais monumentos, civis e religiosos, de Ouro Preto, assim como do seu casario.

O edifício que tem o carro na frente é o Cinema Teatro Vila Rica que da nome ao Largo do Cinema

A estrutura montada pelo SPHAN na capital federal, então Rio de Janeiro, constituiu um corpo técnico com nomes como Alcides da Rocha Miranda, Carlos Drummond de Andrade, José de Souza Reis, Lucio Costa, Luís Saia, Mário de Andrade, Paulo Thedim Barreto, Renato Soeiro, entre outros. Costa, que manter-se-ia à frente da Divisão de Estudos e Tombamento do Iphan do momento de sua criação até aposentar-se, em 1972, teve função decisiva na definição dos critérios de seleção dos monumentos a serem preservados, bem como em intervenções ou em obras de restauração.

Junto a Lucio Costa, outro personagem configura-se, assim, como peça-chave nessa inter-relação século XVIII-século XX: Sylvio de Vasconcellos. Seus textos, Documentação Necessária (1937) e Construções Coloniais em Minas Gerais (1956), respectivamente, em conjunção às suas atuações individuais, expõem quase que de forma irrefutável a historiografia da arquitetura que visavam consolidar.

Com relação às construções existentes que sofreram modificações nas suas fachadas ou foram construídas, ao longo do século XIX e XX, a atitude do Sphan, buscando a harmonização da cidade com o espírito barroco, foi insistente. Elementos representantes de uma “arquitetura bastarda”, como frontões, platibandas, entre outros, e até mesmo prédios inteiros, que não pertenciam à “boa tradição” da arquitetura foram demolidos parcial ou integralmente, e reconstruídos com base nos elementos tradicionais que pudessem harmonizar o conjunto.

Nesse sentido, os restauros empreendidos pelo Sphan buscaram deixar Ouro Preto com o aspecto de um determinado período histórico. Não sendo possível restaurar a fachada dos prédios segundo esses critérios, algumas vezes a solução encontrada foi a demolição destes exemplares. Dentre os vários casos, o episódio do Banco do Comércio e Industria, prédio situado ao lado do Chafariz dos Contos e próximo da Casa dos Contos, como assim também do cinema de Ouro Preto e do mercado em frente à Igreja São Francisco de Assis e do Fórum, na Praça Tiradentes, são exemplares dessa política de atuação do Sphan.

Este pensamento, apesar de existir desde a criação da instituição e de permear os vários pareceres de Lúcio Costa e dos outros arquitetos, é tratado de forma explícita em 1958, na informação referente ao Plano Especial de Ouro Preto, onde Lúcio Costa expõe as suas opiniões com relação às demolições, recomposições, restauro e transferências de bens para outros locais, exemplificando cada caso:

“sou de parecer que, em seguida à etapa inicial e das indispensáveis providências no sentido de se corrigirem umas tantas deficiências facilmente localizáveis e particularmente chocantes para o turista qualificado, deveriam ser atacadas obras de maior vulto relacionadas com a restauração da cidade propriamente dita. Obras de natureza diversa tais como: 1º demolição; 2º recomposição; 3º restauro; 4º remoção ou transferência”.

Alguns dias depois de emitir o parecer citado, a pedido de Sylvio de Vasconcelos, Lúcio Costa desenhou com mais detalhes a solução proposta por ele para o telhado do Fórum. Solução essa que Sylvio de Vasconcelos, ao enviar as fotos do telhado já terminado, quase um ano depois, enaltece a solução proposta por Lúcio Costa e sugere aplicá-la ao edifício do Banco do Comércio.

“A solução alvitrada pelo arquiteto Lúcio Costa comprovou-se assim notável e, tendo em vista seus resultados, estamos tentando obter do Banco do Comércio que realize modificação idêntica no prédio de sua agência de Ouro Preto, atualmente de aspecto tão chocante”.

No primeiro caso de demolição, cita o Banco situado ao lado do Chafariz dos Contos que segundo ele, “avulta a necessidade de ser desapropriado e demolido” para dar lugar a uma “arborização adequada”. Já como sugestão de recomposição, Lúcio Costa refere-se ao Cinema recém-construído num antigo prédio de feições neoclássicas, situado do lado oposto do Banco e próximo à Casa dos Contos, e a um prédio escolar na Rua das Flores, “por pretender ser de estilo colonial”. Em ambos sugere a eliminação dos elementos neoclássicos, e com relação ao cinema sugere um meio de esconder o volume avantajado da nova construção.

Chafariz dos Contos


Localizado no Largo do Cinema, atual Praça Reinaldo Alves de Brito, foi construído por iniciativa do Senado da Câmara de Mariana, através de concorrência pública, conforme auto de arrematação de 12 de abril de 1745. As obras foram arrematadas por João Domingues da Veiga, sendo seus fiadores Manoel Alves de Azevedo e Manoel Freitas e deveriam obedecer ao desenho e planta, cujo autor não foi identificado. Desta forma, a obra deveria ser feita de pedra do Itacolomi e deveria ser assegurada a resistência deste material. O projeto incluía o desaterro do local, construção de calçadas e lajeamento junto aos pés dos paredões.

A data inscrita de 1760, possivelmente refere-se ao ano de sua conclusão ou de alguma reforma. De acordo com a documentação existente no Arquivo do IPHAN, possivelmente anterior a 1950, o atual Chafariz dos Contos não seria o mesmo arrematado em 1745, por João Domingues da Veiga. Esta hipótese se justifica pela singularidade deste chafariz em relação a outros por ele construídos, fundamentando-se ainda no documento datado de 1786, que fala da mudança de localização do Chafariz do Largo da Ponte de São José, para a entrada da Rua das Flores. No século XX, o monumento passou por obras de restauração, merecendo registrar a de 1911, quando foi feito o nivelamento do calçamento que prejudicou a sua visibilidade original, soterrando parte de seu embasamento. Posteriormente, nos anos de 1935/1936 foram realizadas obras de restauração através da Inspetoria de Monumentos Nacionais, sendo reconstituídas, com pedra do Itacolomi, as suas partes danificadas. Foram ainda realizadas pelo IPHAN obras de recomposição e serviços de reforço nos anos de 1947 e 1954.

Em março de 2018 a Câmara Municipal de Ouro Preto participou da reinauguração do Chafariz dos Contos, que há 20 anos não jorrava água. Foram 8 meses de trabalho para restaurar uma obra de 258 anos.

Construído em 1760 com a finalidade de abastecimento público, no alto do chafariz está inscrito em latim: Is quae potatum cole gens pleno ore Senatum, securi ut sitis nam jacit ille sitis. Que traduzido significa “Povo que vens beber, louva de boca cheia o Senado, porque tens sede e ele faz cessar”.

Durante o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, o então embaixador do Brasil em Washington, Maurício Nabuco, mandou construir uma réplica do chafariz, que até hoje fica num parque da cidade norte-americana de “Brazil”, no estado americano de Indiana.

Casa dos Contos_Minas Gerais_Estada Real_Unesco_Patrimônio_Museu_Vila Rica_barroco mineiro_João Rodrigues de Macedo_escravos _Casa de Fundição

O edifício vizinho me proporciona as ultimas imagens a traves de suas janelas. O Museu dos Contos, considerado por alguns autores o mais belo exemplar da construção civil de Ouro Preto que no final do século XVIII que serviu de residência, depois funcionou como Casa de Contratos e sede da Administração e Contabilidade Pública da Capitania de Minas Gerais, apontada na época como a casa mais luxuosa de Ouro Preto.

 

fonte:

  • Lúcio Costa em Ouro Preto: a invenção de uma “cidade barroca” – Ezequiel Barel Filho (1)
  • Origem do capital bancário no Brasil: o caso RUBI – Fernando Nogueira Costa (UNICAMP, Brasil)  (2)
  • http://www.cmop.mg.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2859:camara-de-ouro-preto-participa-de-reinauguracao-do-chafariz-dos-contos&catid=62:outros

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *