LA BUENA MEDIDA: Encontro de Marinheiros no Bar Notável mais famoso do bairro de La Boca

“La Buena Medida” é um dos verdadeiros refúgios do antigo porto da Buenos Aires. Está localizado no coração de La Boca, na esquina Suárez e Caboto, em frente à Plaza Solís, onde o clube Boca Juniors nasceu.

Fundado em 1905, é cuidado desde os anos 70 pela família Schiavone: antes de Angel ou “El Bebe” e hoje seu filho Antônio ou “Tony”. Nas suas origens foi armazém e loja de bebidas, para mais tarde se tornar o “bodegón” referente do bairro, sendo atualmente reconhecido como integrante da lista dos Bares Notáveis ​​de Buenos Aires.

O bairro La Boca: História


Este bairro emblemático deve o seu nome ao fato de ser precisamente nesta zona onde se situa a foz (la boca) do Riachuelo, onde as suas águas deságuam no Río da Plata. Muitos historiadores concordam que La Boca é o lugar onde Pedro de Mendoza fundou a cidade de Santa María dos Buenos Aires, em 1536 (primeira fundação).

A área onde o bairro de La Boca está localizado hoje era muito hostil, pantanosa e desolada com enchentes periódicas. Mas, no final do século XIX, uma vigorosa e crescente comunidade italiana com preponderância de origem genovesa começou a se instalar ali, o que, aos poucos, deu vida e personalidade ao bairro.

La Boca caracterizou-se por ser um bairro de habitantes divertidos, barulhentos e melancólicos que falavam direto o dialeto “xeneixe” (dos genoveses), como se eles estivessem na sua própria terra . Em 1870, La Boca já tinha grande parte de sua aparência atual. De uma população de 38.000 habitantes, 17.000 eram argentinos, 14.000 italianos e 2.500 espanhóis.

Sempre invadido por enchentes, houve um tempo em que as ruas do bairro foram elevadas, isso pode ser visto em muitas casas daquela época onde para entrar nos pátios é preciso descer vários degraus.

Durante vários anos, a foz do Riachuelo foi o porto natural de Buenos Aires, mas devido a problemas como as águas rasas, os bancos de areia e as consideráveis ​​subidas e descidas que provocavam constantes alagamentos, entre outras causas, o porto deslocou-se mais para o norte da cidade.

Na diagonal com La Buena Medida, a Lechería de Don Castro, nos anos 1950, Praça Solis

Em 1876, o engenheiro Luis A. Huergo venceu o concurso para as obras de canalização do Riachuelo que incluía obras de alargamento e aprofundamento que permitiam o acesso normal de navios de ultramar, ampliando as possibilidades oferecidas pelo Riachuelo como porto natural da cidade.

Em 1882, Eduardo Madero apresentou um projeto para o novo porto de Buenos Aires, (atual Puerto Madero). Por sua vez, Huergo apresenta uma proposta alternativa adotando um projeto de cais aberto, localizado desde o Riachuelo até a Plaza de Mayo, com um único acesso ao porto pelo canal sul, ou seja, mantendo La Boca como o epicentro do desenvolvimento portuário e industrial da cidade.

Porém, o Congresso Nacional aprovou o projeto de Eduardo Madero, no atual Puerto Madero, e sua construção acentuou a perda do papel estratégico que o porto de Riachuelo tinha até então, que em pouco tempo se tornou um mero porto de cabotagem, apêndice do novo porto de Madero.

O bairro de La Boca se tornou independente do vizinho bairro de Barracas em 1870. Devido ao movimento comercial e portuário, o bairro cresceu rapidamente, por isso os moradores pediram ao prefeito de plantão que criasse uma praça. Em 8 de julho de 1894, um dia antes da fastuosa inauguração da Avenida de Mayo, o bairro de La Boca teve sua própria festa: foi inaugurada a Praça Solís, a primeira do bairro. A sua construção foi feita pelo famoso arquiteto e paisagista Carlos Tahys, quem fez grande parte dos parques e praças de Bs. As. A praça deve o seu nome a Juan Díaz de Solís, conquistador espanhol que percorreu o Río da Plata pela primeira vez em 1515.

O Mercado Solís, infelizmente hoje não funciona mais

No ano seguinte, na esquina da Olavarría com o Ministro Brin, começou a funcionar o magnífico Mercado Solís e a praça passou a ser um dos pontos fundamentais do bairro.

O Club Boca Juniors nasceu nesta praça em 3 de abril de 1905, fundado por um grupo de amigos: Santiago Sana, Alfredo Scarpatti, Esteban Baglietto e os irmãos Juan e Teodoro Farenga. Em comemoração há uma placa e um pequeno monumento.

La Buena Medida

Suarez 101, La Boca


Localizado na parte não turística do bairro, o bar preserva sua autenticidade de bodegón

Na esquina noroeste da Praça Solis, e entre Suárez e Caboto, encontra-se o café e restaurante La Buena Medida, que inicialmente funcionou como armazém com uma loja de bebidas e foi gerido desde os anos 1930 por Manuel Pazios, dona María e Servando. Em 1972 assumiram o lugar de Ángel Schiavoni, conhecido como “Bebe”, e seu filho Antônio, conhecido como “Tony”, ele é quem continua a administrar o café.

Este negócio no início era uma pulpería, e o seu nome surgiu do lema dos seus fundadores: “Para beber, beba da boa; para beber a boa… a boa medida”, evoca Antônio Schiavone, enquanto apontava para um velho pôster colocado claramente visível no restaurante mais famoso de La Boca, o primeiro bar do bairro a ser declarado “Notável” pela Prefeitura.

Encontro de Marinheiros


La Buena Medida abriu como ponto de encontro de marinheiros, trabalhadores e vizinhos. No final do século XIX, as ruas dos boquenses estavam cheias de “tanos” que iam e vinham do porto para a sua casa e da sua casa para o porto, sempre sedentos de uma bebida forte e famintos dos pratos da sua terra de origem. O armazém (pulpería urbana) tinha um grande balcão onde as bebidas eram distribuídas, “as pessoas chegavam às sete da manhã na procura de um copo de ginebra, antes de começar a jornada do trabalho”, diz Tony Schiavone.

Tony, o dono de “La Buena Medida”

“Naqueles tempos havia pequenos barcos de pesca que saíam todos os dias, o porto estava cheio de gente, rebocadores, estivadores, até barcos de pesca japoneses vindos de Mar del Plata para baixar o pescado, que era levado ao antigo Mercado de Barracas. E todas essas pessoas, antes e depois do trabalho, iam para o bar”, disse Schiavone.

Com o passar do tempo, as mesas e o vermute foram ganhando o espaço perdido pelo antigo armazém. Aos “laborantes” juntaram-se artistas e intelectuais da mais alta boémia, também “taitas”, “chorros” e “cafishos”. Uma sábia mistura de histórias e memórias que transformou a esquina em uma referência geográfica para os personagens mais conhecidos do bairro e da cidade. Todos iam ao balcão em busca de um aperitivo ou sentavam-se à mesa para saborear receitas “tanas” (italianas) ou jogar baralho enquanto bebiam ginebra.

Edmundo Rivero, dono do “Velho Almacem” em San Telmo

O grande cantor de tango Edmundo Rivero era frequentador assíduo da La Buena Medida, com tanta admiração pelo local que certa vez, sentado junto à janela, decidiu comprar o balcão para levá-lo ao Viejo Almacén, a lendária casa de tango que ele tinha no bairro de San Telmo. Hoje em día, mesmo sem o balcão original o espaço mantém o seu valor patrimonial.

Hoje o bar persiste com os seus tons cinzentos, as suas grandes janelas, as típicas construções em chapa dos cortiços na parte superior e os pavimentos com ladrilhos amarelados e pretos como um tabuleiro de xadrez.

Em suas paredes há pinturas de autores boquenses, entre elas uma aquarela do pintor e historiador Horácio Spinetto. Na parte de trás ainda se conserva o forro de madeira original. Uma coluna com espelhos chanfrados marca a fronteira entre o piso onde ficava o armazém e onde ficava o despacho de bebidas.

Carlos Gardel, José Razzano, César Tito Lusiardo, Aníbal Pichuco Troilo, Juan D’Arienzo, Francisco Canaro, Julio Sosa, Roberto Polaco Goyeneche, os pintores Pedro Figari, Quinquela Martín, Luis Seoane, Miguel Diomede, os jogadores de futebol Antonio Roma, Silvio Marzolini, Ubaldo Rattin, Diego Maradona, frequentavam a gloriosa cantina.

O local também já foi palco do cinema argentino. As pessoas aqui lembram como Palito Ortega junto com Juan Carlos Altavista e Javier Portales gravaram cenas de “Los Muchachos de mi barrio”. Muitos anos depois, seria o ator Julio Chávez no filme “Um Oso Rojo” (Um Urso Vermelho) do diretor Israel Adrián Caetano, quem teria várias cenas no café.

O bar tem portas de folha dupla na esquina, janelas de guilhotina, painéis de madeira com espelhos biselados e piso em mosaico calcário. Há anos e anos que “La Mesa de los Navales” está ali, pertencente aos membros do Sindicato, que mantêm o mesmo e saudável hábito de se reunir para almoçar.

“Vêm muita gente da cultura, pintores, escultores, escritores. Eles se reúnem com os amigos para almoçar, tomar um drink, conversar e coisas assim. Às vezes eu não entendo que exista tanta gente identificada com o bar, com nossa trajetória. Eles me dizem que aqui são felizes, que se divertem. Isso é importante”, disse Tony Schiavone, filho do fundador.

No entanto, manter o bar em funcionamento não é fácil. “É um bar histórico que passa por um momento difícil. Sem trabalho e a suba dos impostos tornou a situação muito complicada”, explica Tony, que divide as tarefas com um garçom e uma cozinheira. “O bairro é muito legal, mas está muito abandonado. Ele está passando por um momento ruim, como olvidado no tempo. A prefeitura não cuida de nós como deveria”, descreveu.

“A zona aqui está bastante abandonada, há muitas casas tomadas, muita insegurança. Por isso o horário de atenção foi reduzido. Antes eu trabalhava das 7 da manhã às 10 da noite, agora está tudo diferente, mudou. Estamos das 9h às 18h, agora parece um escritório, não parece um bar”, acrescentou ele com tristeza.

Na semana de 2 de maio de 2018 o local ficou fechado, mas depois de superar alguns problemas, o bar La Buena Medida conseguiu reabrir suas portas e deu uma grande festa de boas-vindas a seus clientes e convidados. Artistas, escritores, jornalistas, médicos, agentes do patrimônio, educadores e vizinhos festejaram o reencontro neste canto mítico da Boca, onde degustaram pratos magníficos e brindaram à recuperação de um bar que é a essência da mais nobre tradição de La Boca.

Na hora do almoço, o aroma de lula com arroz, ou do pesto de um strascinatti, (a tradicional massa Boquense), convida todo mundo a ficar. O Strascinati é o macarrão mais típico de La Boca, marca registrada do bairro, foi trazido a Buenos Aires por imigrantes de Gênova (xeneises), mas sua procedência é de Basilicata e Puglia, regiões do sul da Itália.

Strascinati com rucula

O nome Strascinati foi imposto em La Buena Medida, no início do século XX, desde então é reconhecida como a massa mais típica de La Boca. O prato é feito com farinha de trigo duro, água e sal, é uma especialidade de massa fresca sem ovos (embora algumas especialidades incluam banha), com uma forma oval quase circular. De um lado é liso, do outro lado é geralmente irregular, parece áspero, ajudando assim os molhos a aderirem.

O Strascinati pode ser combinado com todos os tipos de alimentos e preparações como frutos do mar, fungos ou vegetais. É a receita mais pedida em La Buena Medida acompanhado de molho de tomate suave, manjericão, rúcula, azeitonas pretas e mussarela.

 

fonte:

  • https://www.buenosaires.gob.ar/noticias/reabrio-el-bar-la-buena-medida
  • https://la.network/la-buena-medida-de-la-boca/
  • http://armandolveira.blogspot.com/2015/09/la-buena-medida-cantina-historica-de-la.html
  • https://estampasdebsas.wordpress.com/2018/02/23/riesgo-de-cierre-del-bar-notable-la-buena-medida/

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