Igreja San de Ignacio de Loyola – Parte I: Manzana de las Luces

A “Manzana de las Luces”, é uma área do centro de Buenos Aires conhecida como o berço da intelectualidade da cidade.

“Manzana” em português é maçã, mas na Argentina pode significar também uma quadra ou quarteirão.  Todo o conjunto de construções da Manzana é considerado Monumento Histórico da Argentina.  É um local-chave durante os diferentes períodos históricos do país, pois foi sede de instituições ligadas ao seu desenvolvimento cultural, educacional e religioso.

Para entender um pouco mais da história desse centro arquitetônico histórico, vale a pena descrever cada um dos edifícios e instituições que compõem-na, entre elas a Igreja San Ignacio de Loyola, a primeira igreja fundada na cidade de Buenos Aires.

Complexo Histórico Cultural “Manzana de las Luces”

O Complexo Histórico  conhecido pelo nome de Manzana de las Luces, entre as ruas Alsina, Moreno, Bolívar e Peru, fica no Centro Histórico da cidade de Buenos Aires, onde no final do século XVII os jesuítas construíram sua Igreja o Colégio de San Ignacio e a Residência. O terreno foi doado aos jesuítas no século XVII, quando se iniciou a construção da Igreja de San Ignácio de Loyola, que ficou pronta em 1722.

Vista dos fundos da igreja e o Patio da Procuraduría das missões Jesuítas

Em setembro de 1821, o jornal El Argos o nomeou pela primeira vez “Manzana de las Luces”, devido às instituições intelectuais que ele abrigava.

Manzana_Luces_Luzes_Companhia de Jesus_Jesuitas_America_Colégio_Expulsão_Francisco_Papa_Basilica_Centro HistoricoEste conjunto arquitetônico continua sendo um testemunho da diversidade cultural e educacional que forjou a Argentina pois conseguiu sobreviver quase inteiramente, exceto um pedaço da esquina de Alsina e Peru demolido em 1931 para abrir a Avenida Julio Roca.

A Universidade de Buenos Aires foi fundada na Manzana de las Luces (1821); a Academia de Medicina (1822); o Departamento de Ciências Exatas (1865), que deu origem às atuais Faculdades de Arquitetura, Engenharia e Ciências Exatas; a primeira sociedade caritativa do país (1823). Também abrigou a Biblioteca Nacional, o primeiro teatro (no que era a ranchería do Colegio), o primeiro museu (Museu de História Natural) e o primeiro banco da cidade (Banco Provincia de Buenos Aires). Ao longo dos anos, o número total de instituições alojadas no bloco alcançaria 44.

Com mais de 400 anos de história, sua arquitetura é um testemunho da Buenos Aires colonial, da influência jesuíta e da organização nacional

Em várias ocasiões, funcionou provisoriamente como a catedral da cidade e em 1821 foi realizado o ato inaugural da Universidade de Buenos Aires. Em 1863, La Manzana tornou-se patrimônio do estado.

Quando em 1972 virou museu, as autoridades decidiram demolir qualquer construção que não fosse jesuíta “autêntica”. As extensões foram destruídas e os pátios internos foram limpos, deixando apenas as construções do período virreinal.

Colégio Nacional de Buenos Aires

Ao lado da igreja, de 1710 a 1729, na rua Bolivar, os pais construíram o Colégio San Ignacio ou Colégio Grande, no qual estudaram personalidades como Belgrano, Saavedra, Moreno, Rivadavia, Dorrego, Monteagudo e Juan Martín de Pueyrredón. Em 1863, este se tornaria o Colegio Nacional Buenos Aires, Seu edifício atual é um projeto do arquiteto francês Norberto Maillart, foi reconstruído entre 1910 e 1938, no mesmo local que a anterior construção, só que desta vez o novo edifico tirou parte do convento da igreja.

A antiga horta dos padres jesuitas cedeu  terreno para a fundacao do colegio chamado “Colégio Maior”e que depois adotaria o nome de Real Colégio San Carlos. Em 1863, o então presidente Bartolomé Mitre assinou um decreto através do qual o Estado argentino se encarregava da instituição, que passou a se chamar Colégio Nacional de Buenos Aires. Finalmente, no início do século XX, foi transferido para a Universidade de Buenos Aires, da qual depende até hoje. O Nacional de Buenos Aires, como é conhecido, é um dos estabelecimentos de educação secundária mais prestigiosos da cidade.

Patio de la Procuraduría das Missões Jesuítas: Os misteriosos tuneis

Os túneis da Manzana das Luzes foram descobertos aleatoriamente em 1980 por meio de escavações. A linha de metrô A corta um túnel. Acredita-se que eles possam ter sido projetados pelos jesuítas. Ainda há muitas dúvidas sobre seu uso; supõe-se que eles foram construídos para a defesa da cidade, embora também estejam ligados ao contrabando, defesa ou fuga de piratas e índios; confinamento e tráfico de negros e escravos, também foi depósitos de armas durante a era de Rosas.

A origem e suas funções na Buenos Aires colonial ainda são objeto de debate entre os historiadores. Como muitos dos edifícios da Manzana de las Luces, o subsolo da igreja (e os do Colégio) são atravessado pelos famosos túneis de Buenos Aires. Sob o Patio de la Procuraduría podemos ver trechos de túneis coloniais construídos durante o século XVIII que iam até o Cabildo, o Forte e o Rio da Prata.

Atualmente, os túneis coloniais não podem ser visitados por trabalhos de restauração e aprimoramento
Acima dos túneis está o Patio de la Procuraduría de las Misiones, um prédio construído em 1730 que está em ótimas condições

O Patio de la Procuraduría é uma construção de tijolos de dois andares, com abóbadas de cañón corrido e forro de cal, localizada na esquina das ruas Peru e Alsina. Era a sede administrativa do comércio gerado pelas Missões Jesuítas, sendo ao mesmo tempo um local de hospedagem para os indígenas das reduções que vieram a Buenos Aires para cumprir diferentes tarefas.

Aqui os frades jesuítas depositaram todo aquilo que chegava do exterior; papel, obras de arte, ferramentas, livros, etc. Daqui eles distribuíram esses objetos para os estados de Córdoba e Misiones. Também foi o depósito da erva-mate missionária que chegou em jangadas pelo Rio Paraná.. Os índios traziam e ficavam para dormir. Então a erva-mate viajava de Buenos Aires em mulas para o Chile e também para o Peru. A madeira dos barcos também era vendida, porque eles não eram usados para navegar rio acima. Os índios então retornavam a Misiones a cavalo ou em carroças.

Salão dos Representantes: Funcionou de 1822 até o final do século XIX, com funções equivalentes às do atual Congresso Nacional. Nele foram vividos momentos importantes, como o juramento do presidente Bernardino Rivadavia e a assunção de Manuel Dorrego e Juan Manuel de Rosas como governadores de Buenos Aires. Posteriormente, atuou como Conselho Deliberativo da Cidade de Buenos Aires e, posteriormente, como Aula Magna da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Buenos Aires, até 1972.

A Livraria de Ávila

A Livraria de Ávila é o único comércio de Buenos Aires que desde 1785 permanece no mesmo local e dedicado ao mesmo item. Na esquina das ruas Alsina e Bolívar, ela nasceu em 1785 em Buenos Aires, no vice-reinado do Rio da Prata, sob o comando de Carlos III na Espanha. Foi fundada como um pequeno “rancho” com paredes de adobe e telhado de colmo. Tempo depois sería construída aqui a primeira casa da cidade a ter dois andares.

A antiga Livraria de Ávila está em fronte à Igreja de San Ignacio de Loyola

No final da década de 1820, passou a ser conhecida como “Livraria do Colégio”, devido à sua proximidade com o Colégio Nacional de Buenos Aires, instituição de ensino mais antiga do país, fundada pelos jesuítas. O farmacêutico Francisco Salvio Marull ocupava o andar superior e, no térreo, abriu-se depois a livraria da escola onde chegaram os primeiros livros que chegaram à antiga vila de Buenos Aires.

A livraria conta com uma importante oferta de livros antigos e fora de circulação

Em 1785, o farmacêutico Francisco Salvio Marull abriu ali um estabelecimento conhecido como La Botica, onde era possível comprar de tudo um pouco, de remédios a tabaco. “Eles o chamavam de La Botica porque ele vendia ervas medicinais. Depois ele começou a ter objetos para os gaúchos: de botas e facones”, diz Miguel Ávila, atual dono da livraria há 30 anos.

Em 1926, as antigas instalações da livraria foram demolidas e uma nova projetada pelo arquiteto Ángel Pascual e pelo engenheiro Luis Migone foi construída em seu lugar, onde permanece até hoje. Ali, funcionou a sede da editora Sudamericana entre 1929 e 1967, quando o imóvel foi vendido para uma cooperativa de ex-funcionários da Librería del Colégio. Só que os negócios não foram nada bem e, na década de 1980, aquelas portas fecharam de vez.

Miguel Ávila, vendedor de livros desde os 13 anos de idade e sendo ate então proprietário da livraria Fray Mocho, adquiriu a Biblioteca do Colégio em 1994 e deu o seu nome, mantendo o estilo tradicional das instalações e transformando-se em especialista em livros e revistas antigos, edições de colecionadores e curiosidades históricas. Ávila ficou interessado no local abandonado quando soube que um fast-food seria instalado, lá e prometeu reeditar o que havia sido a antiga livraria.

“Hoje é declarado de interesse cultural na cidade, um monumento histórico nacional por decreto presidencial. Na Europa, foi mencionado como o mais antigo do mundo”, diz ele.

No andar de cima ficam as novidades, mas seu maior tesouro está no subsolo, onde estão os livros raros, curiosos e/ou esgotados. O acervo é imenso e especializado em assuntos humanísticos, com destaque para temas argentinos e da América Latina como; indigenismo, botânica, antropologia, história, linguística ou arqueologia, etc.

Há cerca de cem mil exemplares entre os dois andares e os armazéns. Os títulos mais antigos são do padre Pedro Lozano, com edições da década de 1700 e que tratam da origem da língua. Qual é o livro mais caro?, Segundo Ávila o de maior valor é a primeira edição de “Jorge de Borres” (1920), de Jorge Luis Borges.

Livraria de Ávila foi declarada patrimônio histórico cultural pelo governo portenho em 2000.  Em 2006, uma revista internacional classificou a Livraria de Ávila como uma das seis melhores do mundo, devido à variedade e idade de seus volumes. Ainda que existam 467 livrarias na capital, esta sem dúvidas merece uma visita.

Visitas guiadas e eventos

A única organização que continua presente no lugar é o Instituto de Investigaciones Históricas de la Manzana, que organiza visitas guiadas e variados tipos de eventos.

 

 

fonte:

  • Las misiones de los padres jesuitas en Latinoamérica (1606-1767). Autor: BENEDICTO CUERVO ÁLVAREZ. Licenciado en Historia y Geografía por la Universidad de Oviedo. Pr. de Historia en la FESDO.
  • O retorno dos jesuítas ao Brasil: O caso Ituano entre 1856-1918. Autora: LAIS DA SILVA LOURENÇO. Programa de pós-graduação em ciências da religião PUC, Campinas.
  • www.manzanadelasluces.cultura.gob.ar
  • http://www.arcondebuenosaires.com.ar
  •  www.sjcuria.global/en/

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