Igreja Nossa Senhora das Mercês – Parte I: A Oredem das Mercês em Tiradentes

A Igreja de Nossa Senhora das Mercês dos pretos crioulos está localizada no Largo das Mercês, perto do Largo das Forras, no Centro Histórico de Tiradentes.

A Irmandade das Mercês, durante a época colonial, era reservada aos pretos nascidos no Brasil e aos mulatos principalmente. Em Minas Gerais tornou-se extremamente popular. Em praticamente todas as vilas mineiras existiram irmandades de Nossa Senhora das Mercês.

A igreja do final do século XVIII, construída em estilo rococó, esconde detras de sua fachada simples um interior com belas pinturas atribuídas a Manoel Victor de Jesus, das quais Kellen Cristina Silva fez um estudo iconológico muito detalhado em sua tese de graduação citada na fonte deste post.

A construção da capela primitiva

A pequena capela dos pretos crioulos de Nossa Senhora das Mercês foi erguida em meados do século XVIII e contou com os anuais e com as doações dos irmãos da mesa administrativa e os de devoção. Para tal finalidade, era preciso que a irmandade reunisse em seus cofres as somas necessárias para a realização do projeto: da compra do terreno à ornamentação final de seus templos. Muitas vezes, as irmandades não conseguiam arrecadar as somas e deixavam as construções inacabadas.

Capela-mor da Igreja Nossa Senhora das Mercês, Tiradentes

A data precisa de sua construção é desconhecida. Em 14 de dezembro de 1756 foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos, e em 1789 já se fazia referência ao seu consistório, que provavelmente estava instalado em uma capela própria. Embora não exista documento anterior a 1800 sobre a construção do templo, é certo que no ano de 1807 a capela já devia estar parcialmente construída, uma vez que naquele ano decidiu-se transferir a Procissão dos Passos para a capela de Nossa Senhora das Mercês.

Foi nesse contexto que proliferaram os artistas dentro do que era o canteiro de obras das igrejas mineiras. A partir do momento em que a Irmandade conseguia a licença para a construção de sua igreja, era posta em praça pública a “arrematação”, quando aparecia a figura do mestre-de-obras, ou seja, a pessoa que ficava oficialmente responsável pela construção. Eram realizadas “arrematações separadas” para cada etapa da edificação. As obras se iniciavam primeiramente pela alvenaria e cantaria, seguida das obras dos pedreiros, canteiros, marcenaria, serralheria, talha, pintura e escultura. Dessa forma, podemos afirmar que os canteiros de obras das igrejas integravam inúmeras pessoas, desde os renomados mestres-de-obras aos mais simples aprendizes e obreiros (serventes).

Existia, desde 1572, em Portugal, um regimento dos ofícios que dividia as categorias profissionais entre mecânicas e liberais. Na colônia, não vamos encontrar essa diferenciação tão nítida. Muitas vezes, um pintor era também realizador de riscos de frontispícios e encarnador, como acontece com Manoel Victor de Jesus, que trabalhou para a irmandade, recebendo parcelas de pagamento durante 20 anos.

Devemos lembrar que as construções dos pomposos templos ao estilo Barroco/Rococó não surgiram nos primeiros anos das vilas e povoados de Minas Gerais. O território passou por etapas na construção da sua riqueza arquitetônica de ajuste com os estágios do assentamento dos novos homens que chegavam procurando começar uma nova vida. Dessa forma, o ambiente religioso de Minas Gerais, durante os séculos XVIII e XIX, tinha como meio social o núcleo religioso formado, primeiramente, pelas capelas primitivas e, posteriormente, pelas ermidas erguidas por meio das irmandades formadas na capitania.

As irmandades buscavam se diferenciar umas das outras, e uma dessas maneiras era a construção material de seus templos. A arte que chegou até as Minas Geraes era cheia de influências, mesclada ainda em solo europeu. Aqui, na colônia, essa arte foi novamente reinventada e reaprendida.

Em 1824 já há notícias dela quando D. Frei José da SSmª Trindade, em seu relatório de visita pastoral, refere-se ao altar de talha moderna pintado e dourado da capela de Nossa Senhora das Mercês, como também à pintura do forro. Sobre os trabalhos da talha, a única documentação existente é um pagamento feito ao entalhador José Morais Pereira no ano de 1808, sem, entretanto, especificar a obra.

Tampouco se sabe o que foi feito nas obras levadas a cabo entre 1807 e 1820, somente é conhecido que incluíram trabalhos de carpintaria e intervenções do teto. Manoel Victor de Jesus responsabilizou-se pela pinturas do teto, aparentemente concluindo-as em 1821, além da pintura de um azulejo na capela-mor, credências e uma bandeira da Irmandade.

A fachada

A fachada apresenta o corpo central com porta larga, duas janelas à altura do coro e óculo interrompendo a cimalha. Possui frontão recortado em curvas com duas volutas e acrotério curvo com pináculos ladeando a cruz e sobre os cunhais.

Igreja Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos, Tiradentes (MG)

A fachada é larga e simétrica, com o corpo da capela ladeado por duas extensões cobertas por telhado em uma água. O bloco central tem uma porta única com verga em arco abatido, sem ornamentos.

Sobre ela se abrem dois janelões com balaustradas, também com verga em arco abatido. Uma cimalha estreita separa o bloco do frontão sinuoso com laterais em volutas, encimado por uma cruz e duas pinhas. Duas outras pinhas coroam as volutas.

No centro há um óculo redondo, e sobre ele um brasão da Ordem coroado e florões e dois querubins nas laterais. Jerônimo José de Vasconcelos realizou a pintura do óculo entre 1829 e 1830. O assoalho primitivo foi instalado entre 1821 e 1823, mas em 1969 foi substituído.

No centro do frontão encontram-se as armas da Ordem, em massa

A base do edifício tem uma faixa em pedra aparelhada aparente em toda a sua extensão, onde nascem os alicerces que sustentam a estrutura.

Os volumes laterais da capela apresentam um janelão cada um, idênticos aos do bloco central. Nesses corpos laterais o telhado aparece com as telhas de topo e o beiral de beira-seveira. Os dois corpos laterais ao corpo central possuem duas aberturas semelhantes às janelas do coro, sendo que a do lado esquerdo é uma sineira.

Uma seteira no bloco da direita situa-se debaixo do janelão, que é vazado e serve como campanário.  A sineira só vem a ser construída entre 1850 e 1860.

Ao lado da igreja, há também um cemitério, onde ainda hoje acontecem sepultamentos.

O adro só foi terminado no século XX. Um restauro amplo foi realizado pelo IPHAN entre 1960 e 1961, reconstruindo o frontão que havia desabado e realizando a recuperação do teto, e uma outra grande restauração foi feita em anos recentes.

Como indica a documentação existente, a construção da igreja de Nossa Senhora das Mercês ocorreu de forma bastante lenta, em função dos escassos recursos, tendo suas obras se arrastado até o século XX, quando foram concluídos o aterro, arrimos e calçamentos do adro.

Em 1960/61, o IPHAN realizou obras de restauração na igreja que compreenderam a reconstituição do frontão que havia ruído e a restauração do forro da nave. Mais recentemente, o IPHAN empreendeu ampla restauração na igreja.

Os Mercedários na América Latina e no Brasil

Altar-mor da Igreja N S das Mercês, Tiradentes

O culto a Nossa Senhora das Mercês não foi escolhido ao acaso pelos “pretos crioulos”, pois a Virgem de las Mercedes é uma invocação “espanhola” que data de aproximadamente 1218, período em que os Mouros dominavam parte da península ibérica e transformavam os cristãos em seus cativos.  Quando um fiel caía em mãos inimigas, era justificável a busca pela liberdade, pagando em dinheiro pela liberdade do correligionário religioso. Nesse contexto, a Ordem Mercedária resgatou diversos cristãos de mãos mulçumanas e chegou à colônia brasileira com o intuito de continuar seu processo de liberdade. Mas o que é ainda muito interessante é que seus membros, na grande maioria, não eram cativos de origem africana pois os escravos africanos choravam suas mágoas e dores para a Virgem do Rosário, enquanto escravos crioulos e libertos pobres, pediam a proteção das Mercês.

Com a descoberta da América em 1492, os Mercedários logo quiseram expandir suas ações, nesse caso, atuando no campo da evangelização. Os primeiros mercedários que chegaram ao Brasil vieram de Quito, no Peru, no ano de 1639, com Pedro Teixeira, e se estabeleceram em Belém do Pará.

Por sua vez, Nossa Senhora das Mercês é padroeira de várias localidades, tanto na Espanha quanto na América, sendo elas Barcelona, Jerez de La Fronteira, São Francisco de Quito, Tucumán, São João de Pasto e Puebla de Soto. Alguns países da América do Sul a têm como padroeira, como é o caso da Argentina, República Dominicana, Bolívia, Chile, Equador, Peru, Panamá, entre outros. É denominada de “Virgem Generala” por ser protetora do exército argentino e das forças armadas do Peru e do Equador. Além disso, também é protetora das prisões na Espanha. A veneração a Nossa Senhora das Mercês é muito popular na parte hispânica da América.

No Brasil, o culto a Nossa Senhora das Mercês acabou se estabelecendo por intermédio dos Frades da Congregação da Santíssima Trindade e Redenção dos Cativos trouxeram o culto à Virgem guerreira para o litoral, onde foi muito prestigiado por militares e negros cativos.

De acordo com Augusto de Lima Júnior, foi na capitania de Minas Gerais que mais floresceram as confrarias de Nossa Senhora das Mercês. As primeiras associações em Minas surgiram no século XVIII na Paróquia de Antônio Dias de Ouro Preto (1740). No final do século, quase todas as vilas possuíam ou uma igreja com um retábulo dedicado à Senhora das Mercês, ou uma pequena capela para congregar os devotos.

Capela-mor da Igreja N S das Mercês, Tiradentes

Servos, escravos, crioulos forros, pretos e pardos. Todas essas “cores étnicas” eram bem recebidas pela Virgem Generala das Mercês. Porém, o predomínio delas ficava a cargo dos crioulos forros, sendo que o termo crioulo distinguia o indivíduo nascido no Brasil, cujo pai ou mãe fossem africanos.

Entretanto, quando o curso da vida mudava, por exemplo, quando um escravo ganhava sua alforria, logo precisava mudar também seu meio de sociabilidade para tentar alcançar um novo lugar social. Era assim que muitos alforriados deixavam as Irmandades do Rosário e rumavam para a das Mercês.

Muitas são as instituições de saúde ligadas às irmandades. Em São João del Rei, cidade vizinha à antiga Vila de São José, encontramos dois hospitais, de certa forma, ligados a esse caráter, como o Hospital de Nossa Senhora das Mercês e a Santa Casa de Misericórdia.

Irmandades na Vila de São José del-Rei

Durante o século XVIII as irmandades mineiras apresentavam o seguinte quadro socioeconômico: os homens brancos de poder aquisitivo, no começo da colonização, se assentavam nas irmandades do Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora da Conceição, São Miguel e Almas, Bom Jesus dos Passos e Almas Santas. Com o passar do tempo e com a mudança nos quadros econômicos, os brancos, que passaram a comerciantes ricos, donos de lavras e funcionários da coroa portuguesa, se assentavam nas Ordens Terceiras de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo. Já os negros, escravos de maioria africana, desde o início, se associavam à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e às dos santos negros, como São Benedito e Santa Efigênia. Os crioulos e mulatos, que podiam ser forros ou escravos já nascidos no Brasil, se associavam à Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, enquanto os pardos se reuniam sob a proteção de São Gonçalo Garcia.

A Vila de São José del-Rei, encontrava-se inserida em um espaço economicamente ativo na primeira metade dos Oitocentos. Nos Setecentos, essa região, denominada Comarca do Rio das Mortes, era a passagem que ligava São Paulo às terras mineiras, pelo conhecido “Caminho Velho” da Estrada Real.

A Vila de São José del-Rei contava com 11 irmandades, sendo elas: Irmandade de Santíssimo Sacramento (1710), Senhor dos Passos (1721), São Miguel e Almas (1724), Senhor Bom Jesus do Descendimento da Cruz (1730), Caridade dos Escravos de Nossa Senhora da Piedade (1747), São João Evangelista (1760), Nossa Senhora do Rosário (1773), Nossa Senhora das Mercês (1757), Nossa Senhora da Conceição (1787), São Francisco de Paula (1798), Nossa Senhora das Dores (1802) e São Francisco de Assis (1812).

Em um primeiro momento, as Irmandades se dividiam entre Santíssimo Sacramento, congregando brancos, e Nossa Senhora do Rosário, congregando negros. Com o passar dos anos e com as mudanças sociais que iam ocorrendo, como as alforrias e as miscigenações, outras irmandades surgiram para demarcar critérios de distinção social e sociabilidade entre semelhantes. Podemos afirmar que as Irmandades acabaram por utilizar critérios como cor e condição social vigente para se organizarem.

As Irmandades de brancos deixavam explícito em seu compromisso quais as pessoas poderiam se assentar como irmãos. Já nas destinadas aos negros cativos e aos livres de cor, não havia nenhuma barreira referente à etnia ou estrato social. No compromisso da Irmandade das Mercês de São José fica clara a posição da Irmandade:

“[…] a mesa aceitará todas as pessoas de qualquer estado e condição, assim homens como mulheres, que por devoção o quiserem ser, os quais darão de entrada meia oitava de ouro e outro tanto de anual […]”

Os Compromissos de uma irmandade resultaram fundamentais para compreender sua dinâmica de funcionamento, pois traz a estrutura administrativa, os cargos, as taxas para pagamento e as regras para as eleições do juiz, tesoureiro, procurador, escrivão, além dos outros irmãos de mesa, que ficavam a cargo da realização das festas dos santos padroeiros.

Cabe lembrar que os Compromissos eram encaminhados para serem aprovados pelo Tribunal da Mesa de Consciência e Ordens. Dessa forma, a irmandade só passava a ter oficialidade após a aprovação de seu estatuto.

No caso da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos, o compromisso data de 1796 e não foi aprovado pela Mesa de Consciência e Ordens. O documento não se encontra no arquivo paroquial de São João del-Rei, mas faz parte de uma coleção particular e foi digitalizado pelo projeto Brasiliana da USP.

No referido estatuto, encontram-se as regras que regiam a irmandade

Nossa Senhora das Mercês. Desenho a bico de pena. Capa do Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos da Vila de São José. 1796. Coleção Brasiliana USP.

A irmandade das Mercês tinha como foco agregar a população “preta crioula”, a do Rosário focava-se nos “homens pretos” e a dos Passos de São João del-Rei deixava claras suas demarcações, restringindo o número de irmãos, sem mencionar nos mecanismos de aceite, que levava em consideração, a ascendência branca de seus confrades.

Porém, as irmandades de negros necessitavam possuir homens letrados e com posses. Para tal, aceitavam para os cargos de tesoureiro e escrivão homens brancos. Foi assim que muitos brancos de fortuna acabaram se associando às irmandades de pretos e crioulos, seja por devoção, status social ou apenas para controle de seus escravos e servos.

Se bem durante a época colonial a Irmandade das Mercês era reservada aos pretos nascidos no Brasil e aos mulatos principalmente, no século XIX tornou-se uma importante agremiação. No fim do século XIX o Bispo de Mariana, Dom Antônio de Sá e Benevides conseguiu a elevação da Irmandade a Arquiconfraria, título que até hoje ostenta, sendo a única irmandade do século XVIII sobrevivente em Tiradentes.

 

fonte:

  • A Mercês Crioula – Kellen Cristina Silva (1)
  • No silêncio do olhar, a compreensão da palavra – O discurso imagético da religiosidade na irmandade de Nossa Senhora das Mercês de Tiradentes, MG – Kellen Cristina Silva (2)
  • http://tiradentesvirtual.com
  • http://portal.iphan.gov.br/

 

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