Igreja Nossa Senhora da Merced – Parte I: A chegada da Ordem dos Mercedarios a Buenos Aires

Localizada na esquina das ruas Reconquista e Perón, a igreja de Nossa Senhora da Merced, é uma esquina diferente, virada para a Praça de Maio, típica das igrejas coloniais de Buenos Aires.

A sua planta apresenta características particulares, pois apesar de possuir uma nave única, é mais elevada do que outras do mesmo tipo. O frontão da fachada se destaca um conjunto escultórico que alude a um acontecimento histórico e fundamental na luta pela libertação do império espanhol. Nesta obra, Manuel Belgrano é visto oferecendo à Virgem da Merced o bastão de comando do Exército do Norte.

Fundação de Buenos Aires por Juan de Garay


A falida primeira fundação de Buenos Aires venho desde Espanha com a finalidade de segurar o extremo sul do continente e marcar território ante a expansão dos territórios conquistados pela Coroa Portuguesa no sentido também sul do novo mundo.

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A segunda fundação da cidade de Buenos Aires por Don Juan de Garay em 1580 não chegou de barco. Esta vez chegou pelo interior do continente, depois de fundar a cidade de Santa Fe em 15 de novembro de 1573.

O documento fundacional da nova cidade chama esta de “Cidade de Trinidad”, em memória de sua chegada que aconteceu no Domingo da Santíssima Trindade. O porto da mesma recebeu o nome de “Santa María de los Buenos Aires”.

Túneles_Aliviadores_Arquitectura_Infraestructura_Urbanismo_ Zanjón_GranadosEm virtude das disposições das leis ditadas por Carlos V e Felipe II, no mesmo dia da fundação, Garay em um pergaminho de couro, fez o traço original. Ele dividiu a cidade em duzentos e cinquenta blocos, formando um retângulo de 15 x 9 blocos. Dos quarenta quarteirões próximos à Plaza Mayor, destinados a construções ou lotes, quarenta eram destinados aos habitantes, seis ao Forte e a Plaza Mayor, um hospital chamado “San Martín” (em homenagem ao santo padroeiro de a cidade) e três conventos para as irmandades então presentes: Franciscanos e Dominicanos.

Devido aos fracassos das primeiras fundações no Rio da Prata, a ocupação e penetração hispânicas no atual território argentino foram lentas. Isso ocorreu muitos anos depois, quando outras regiões, em particular os Virreinatos do Peru e México, já tinha uma organização política, cultural e missionária avançada.

Em Argentina a organização religiosa e missionária também foi realizada a partir das ordens religiosas que vieram do Chile. As duas primeiras ordens religiosas a chegar ao estado de Mendoza foram Mercedários e Dominicanos.

Ao oeste, a região de Cuyo *que inclui os atuais estadosde Mendoza, San Juan e San Luis(, foi conquistada pelos espanhóis que vieram do Chile, e aquelas Ordens dos Pregadores instalados na região de Cuyo dependiam no início, do vicariato do Chile e do Peru, pois o Virreinato do Río de la Plata so veria a se conformar só em 1776.

Ordem dos Mercedarios


De Cuzco em viagem à Espanha, irmão leigo da Ordem da Merced: fr. Francisco Martel havia parado em Córdoba em 1599 com a missão de reconhecer o terreno cedido no traçado urbano para sua comunidade. A sua localização e despovoamento levaram o frade a optar por comprar, com seu dinheiro, outro melhor situado que doou à Ordem em 1601. O terreno primitivo, entretanto, foi adquirido pelos dominicanos.

Quando ele chegou a Buenos Aires em 1600, o cenário era diferente. Na distribuição das terras feitas por Garay, nenhuma terra jamais havia sido atribuída aos Redentores Mercedários por motivos que eles indicam como malevolência à ordem mercedária, por parte das esferas oficiais. Isso pode ter sido devido às rivalidades desencadeadas entre essa ordem religiosa e Garay em Assunção, onde os mercedários tinham uma longa história desde 1540.

Os caminhos da antiga Estrada Real

A chegada do Padre Provincial fr. Antonio Marchena (1601), ordenou a situação patrimonial da ordem em Buenos Aires, pois reunido com outros sacerdotes que o acompanhavam, aceitou oficialmente, em nome da congregação, a doação que Martel fez do terreno adquirido, não sem antes consentir em trocar ele  com os dominicanos.

Com certeza  o fr. Marchena fez um estudo do terreno, chegando à mesma conclusão que os dominicanos iriam chegar posteriormente a respeito da localização do terreno adquirido: longe do centro cívico e comercial, não favorecia a aproximação de vizinhos para a celebração da missa e obtenção de esmolas. Mas por outro lado, deve-se ter em mente que aceitar o negócio do troque de terra era uma forma de reivindicar sua presença na cidade e uma forma de reverter o que Garay havia ordenado vinte anos atrás.

Em 1602, os dominicanos se estabeleceram no local localizado entre as ruas Balcarce, Venezuela, Defensa e Av. Belgrano, onde construíram a Capela de Nossa Senhora do Rosário e em 1605 o Convento de San Pedro González Telmo.

Para os mercedários, a posse concreta da terra localizava-se entre as atuais ruas Reconquista, Perón, Sarmiento e a Avenida Alem (que naquela época estava no litoral do Rio de la Plata). O procedimento seguiu as etapas já conhecidas: a delimitação por paredes do lote e a construção das celas e a Capela de Nossa Senhora de la Merced. A igrejinha era de barro e palha, muito baixa, com chão de terra, com um único altar. O responsável por esta etapa foi fr. Pedro López Valero, que em 1603 colocou $ 500 fortes para a compra das imagens que identificavam a casa de Deus e o convento. O cemitério interior encerrou o processo de domínio do lote, já que o descanso final dos fiéis e do clero deu ao local um sinal de permanência.

Praça de Maio e Catedral de Buenos Aires

Por outro lado, tornaram-se, neste novo lar o ponto de referencia da população ao “Norte da Catedral”, uma área que estava abandonada e que constituía os fundos da Catedral, da Plaza Mayor e do Cabildo e Forte Real, desde que a cidade começava a se estender e desenvolver no sentido o sul, em direção ao porto.

O bairro de San Nicolás foi conhecido no primeiros tempos como: “Catedral ao Norte”, “Bairro de La Merced”, “Bairro Inglês”, “Bairro Recio” ou “Taco Verde”.  A rua importante ao norte da praça era a Reconquista até a Igreja da Merced, devido ao fato de ali entrarem os vagões de transporte e abastecimento.

Desse modo, os mercedários abriram um novo espaço em que não teriam concorrentes religiosos até o século XVIII com a chegada das freiras Catalinas. O tempo os recompensaria daquele afastamento inicial tornando-se o Convento Grande de San Ramón de Buenos Aires: casa destinada à formação integral do pessoal de toda a província Mercedaria de Santa Bárbara, além de residência.

Igreja Nossa Senhora das Mercedes


Todo começou com uma pequena igreja de adobe com telhados de madeira e palha, que foi dedicada à Virgen de las Mercedes e um convento adjacente. Mas a precariedade do primitivo templo levou à decisão de construir um edifício definitivo em uma escala mais adequada.

No início do seguinte século, chegaram a Buenos Aires os renomados irmãos jesuítas Giovanni Andrea Blanqui (ou Bianchi) e Juan Bautista Prímoli. Esses jesuitas participaram da realização das varias igrejas de Buenos Aires, bem como de outras no estado de Córdoba e nas reduções jesuíticas do Nordeste, no território Guaraní.

Foi encomendado a eles o projeto para a construção da igreja que conhecemos atualmente. A pedra fundamental foi lançada nas festividades do santo padroeiro de 1721. Em 1733, grande parte do templo foi habilitada, foram inaugurados a nave, a cúpula, a capela-mor e o transepto, mas as obras prosseguiram lentamente nas décadas seguintes, até que o templo definitivo só foi concluído por volta de 1779.

A fachada, com traços italianos, possui uma única torre

Em 1894 iniciou-se uma remodelação total do edifício, cuja fachada foi modificada pelo arquiteto Juan Antonio Buschiazzo, famoso arquiteto nascido em 1846, na Itália.

Na fachada os nichos originais de ordem inferior foram cegados e colocados esculturas no andar superior mas a proposta mais inovadora do projeto de Buschiazzo era um frontão representando um conjunto escultórico que alude a um acontecimento histórico e fundamental na luta pela libertação do império espanhol.

Nesta obra, Manuel Belgrano é visto oferecendo à Virgem de la Merced o bastão de comando do Exército do Norte, antes da vitória na Batalha de Tucumán. Ante condiciones adversas, o resultado do combate transformou o triunfo em um milagre, e desde então Virgem de la Merced e é a patrona e general do Exército Argentino.

Visto do claustro do convento, avista-se parte da fachada norte, quase intacta, apesar das alterações introduzidas no início do século, quando foram acrescentadas grades, circundando o átrio; a velha janela do coro foi substituída por um rosetón com vitral e estátuas foram colocadas nos nichos. A obra de remodelação da Basílica de la Merced durou seis anos e foi inaugurada em 24 de Abril de 1900.

Em 1917 , o Papa Bento XV conferiu-lhe a hierarquia de Basílica Menor, sendo declarada Monumento Histórico por decreto de maio de 1942 .

Em 1954 o arquiteto Andrés Millé (também restaurador da igreja do Pilar), conduziu a restauração do nártex para seu estado original, resgatando assim uma linguagem mais próxima á original. Os interiores também foram trabalhados por diversos artistas, que realizaram pinturas murais e estuques que deram mais esplendor aos interiores sóbrios da época colonial.

Em 1823, a reforma religiosa promovida por Bernardino Rivadavia instou a emigrar a todas as irmandades. O edifício foi sucessivamente quartel e hospital até que em 1830 recebeu o “Asilo de Órfãos” da Sociedade de Caridade de Buenos Aires. Desde 1947 foi ocupado pela Direção Nacional de Assistência Social do Governo: Fundacao Eva Peron.

Em 1965 o convento foi devolvido à Ordem da Misericórdia e durante trinta anos funcionou ali uma das faculdades da Pontifícia Universidade Católica Argentina.

O templo foi restaurado pela Secretaria de Obras Públicas da Nação entre 2001 e 2007 com uma equipe da Direção Nacional de Arquitetura e a empreiteira Interobras SRL. Atualmente é a sede da Cúria Provincial da Província Argentina Mercedaria, onde desenvolve diversas obras espirituais e culturais.

Convento de San Ramón Nonato


No final do século XVIII, a estrutura do claustro consolidou-se no convento, fechando o largo do pátio principal que ainda subsiste. Durante os séculos XIX e XX, a área ocupada pelo complexo colonial foi reduzida, pois foram subdivididos alguns setores onde se localizavam as edificações mais precárias. À estrutura claustral do período colonial, foi acrescentado um segundo andar na rua Reconquista e na ala norte.

O convento San Ramón Nonato é o mais antigo da cidade, data de 1601, e tem uma longa e ativa história. Era a sede da Ordem da Misericórdia, então uma Sociedade Benevolente. Posteriormente, chegou María Eva Duarte de Perón e transformou-o em escritório de Ação Social. Abrigou uma parte da Universidade Católica e foi posteriormente devolvido aos Mercedários.

Sendo que a as obras de construção começaram em 1721, para 1733 grande parte do templo foi habilitada, estima-se que a construção do Convento tenha sido contemporânea à da igreja. Isto parece ser indicado pela criação por parte do Cabildo, em 1722, de duas escolas primárias, uma das quais tinha sede no Convento de La Merced.  Depois, em 1728, prossegue a construção de três salas de aula para o ensino de estudos superiores (gramática, filosofia e teologia).  O Convento foi um centro de divulgação da cultura. Lá os guaranis, mulatos e negros também aprendiam música e composição. A escola continuou a funcionar depois de 1810. Em 1816 tinha 105 alunos, sendo a maior de todas as escolas primárias da cidade.

Patio central do Grande Convento de San Ramón Nonato. A Basílica fica ao lado do Convento, mas é totalmente independente dele

O Convento San Ramón Nonato é um lugar charmoso e único ao mesmo tempo, ideal para quem procura um pouco de tranquilidade na hora do almoço. Pela entrada do edifício na rua Reconquista, chega-se a um pátio central onde se encontra um belo jardim florido que passa completamente despercebido desde o exterior.

Os bancos que circundam o jardim convidam-nos a sentar e desfrutar ao ar livre. Nas galerias podemos achar artesanatos, uma biblioteca aberta ao público e um belo teatro. Três restaurantes estão localizados sob as arcadas da galeria que servem pratos típicos da culinária argentina: empanadas, milanesas, massas, frango e rosbife.

Entorno


Ate 1890 esta área do bairro de San Nicolas estaria relacionada ao comércio de gado. Em 1903, a área era povoada por estabelecimentos veterinários, clínicas, enfermarias e ferreiros que ofereciam produtos para carrapatos ou sarna, serviços de castração de vacas e uma biblioteca veterinária multilíngue.

A sede do Banco Francês do Río de la Plata é um edifício de estilo acadêmico francês localizado na esquina das ruas Reconquista e Perón. A partir do século 1900 esta área virou a parte financeira da cidade, no coração do bairro San Nicolás, cheia de bancos, financeiras, casas de cambio, etc.

O Banco Francês do Río de la Plata (fundado em 1886), para 1922 ele abriu um concurso para o projeto de sua nova sede. O vencedor do concurso foi o arquiteto Jorge Bunge, presidente da Sociedade Central de Arquitectos. O arquiteto francês Eugenio Gantner foi nomeado gerente geral das obras, a cargo da construtora Piquet y Arano. A obra finalizou em 1926.

Segundo Jorge Bunge, a ideia que inspirou este projeto foi erguer a “Casa da França”, dentro dos elementos mais clássicos dos estilos franceses do século XVIII.

Em 2017 o BBVA Francés inaugurou sua nova sede corporativa em Buenos Aires. A torre está localizada na Av. Alem e Av. Córdoba, Catalinas Norte, no bairro do Retiro, em uma das melhores áreas da capital, próximo ao centro financeiro da cidade e de Puerto Madero.

O Grupo BBVA investiu cerca de 250 milhões de dólares na nova sede do banco na Argentina. É uma torre de 33 andares, dos quais 23 são do BBVA Francés, onde trabalham mais de 1.900 funcionários da instituição financeira.

A construção começou no início de 2012 e foi inaugurada em abril de 2017. A torre que atingiu sua altura final tornou-se um dos 10 edifícios mais altos da Cidade de Buenos Aires.

 

fonte:

  • https://www.periodicovas.com/historias-de-la-ciudad/
  • https://www.sobrebue.com
  • https://historiaybiografias.com/historia_basilica_merced/
  • Los Monumentos y Lugares Históricos de Argentina Carlos Vigil – Edit. Atlántida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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