Igreja e Mosteiro Santa Catalina de Siena – Parte III: O primeiro convento de freiras de Buenos Aires

A cidade de Buenos Aires teve dois mosteiros de freiras durante o período colonial, ambos fundados em meados do século XVIII. O Mosteiro de Santa Catalina de Siena (bairro San Nicolas), de freiras dominicanas e o Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar (bairro Monserrat), de freiras capuchinhas.

Durante o ano de 2001 foram realizadas obras de arqueologia no convento e igreja, a fim de instalar o grande evento de design Casa FOA. Durante os trabalhos, foi encontrado um poço com um objeto metálico que representava um Macho Cabrío, com chifres e asas. Isso foi queimado e enterrado no pátio do convento transformando-o em um evento de difícil explicação, instalando-se por sua vez, o mito dum evento de exorcismo feito pelas freiras do convento … será verdade?

Os conventos femininos na cidade de Buenos Aires

Os conventos femininos a partir do Concílio de Trento começaram a funcionar como um claustro, uma condição que ao princípio foi resistida, mas depois se tornou geral e foi muito apreciada pelos religiosos e pela sociedade como um todo.

O recolhimento místico em um ambiente fechado era o caminho mais valorizado para uma vida consagrada à religião. Isso foi muito mais incentivado em congregações femininas, pois na “conquista espiritual americana” as ordens masculinas eram aquelas dedicadas à evangelização. O clero secular, mas também a maioria dos regulares, estava em franco contato com a sociedade em que estavam imersos.

Por outro lado, nas congregações femininas a partir do século XVI, a vida religiosa implicava reclusão: na América, as religiosas tinham a missão de pregar de Deus, enquanto as religiosas tinham a missão de interceder com Deus.

A cidade de Buenos Aires teve dois mosteiros de freiras durante o período colonial, ambos fundados em meados do século XVIII.

Igreja e Mosteiro Santa Catalina de Siena, Buenos Aires
  • Mosteiro de Santa Catalina de Siena (bairro San Nicolas), de freiras dominicanas
  • Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar (bairro Monserrat), de freiras capuchinhas

Os dois conventos foram inaugurados quase ao mesmo tempo, embora constituam duas realidades diferentes. Os mosteiros das freiras, de acordo com as regras e constituições pelas quais são governadas e o estilo de vida das freiras, formam dois grupos com características próprias:

  • os grandes conventos ou freiras calçadas
  • os conventos recoletos ou freiras descalças

As freiras do primeiro grupo, as freiras calçadas eram concepcionistas, clarisas urbanistas e dominicanas, de concessões papais e episcopais e, em alguns casos, por suas próprias regras, poderiam levar uma vida privada ou individual. Embora fossem obrigados a se reunir em comunidade para assistir diariamente à missa e para certas orações, podiam viver em celas privadas que compartilhavam com seus parentes e serventes.

As freiras descalças ou recoletas, pertencentes às ordens das carmelitas, capuchinas, clarisas de la Primera Regla, agustinas y brígidas, construíram sua existência em uma atmosfera de austeridade e renúncia pessoal. Comiam frugalmente em um refeitório comum, dormiam sobre tabuas em dormitórios compartilhados, frequentavam em forma de comunidade todos os oficios religiosos e, para sua manutenção, dependiam do dinheiro dos vizinhos, sempre escassos e obtidos por meio de esmolas. Elas formaram pequenas comunidades, que variavam de 21 a 33 freiras.

Juan de Narbona_Juan Andrés Bianchi_mosteiro_templo_Convento_Juan Buschiazzo_¬freiras_dominicas_recoletas_descalçasO Mosteiro de Santa Catalina de Sena, de freiras dominicanas, pertence ao grupo de conventos de calzadas; fundado por um grupo de freiras do Mosteiro de Santa Catalina de Sena, que vinheram desde a cidade de Córdoba del Tucumán, interior do país.

 

Bairrro_Monserrat_Buenos_Aires_Argentina_Iglesia_Patrimonio_Cultural_Religioso_ San_Telmo_Historico_Clarisas_Capuchinas_Clarissas_Capuchinhas_Betharram_Assis_Bayoneses_ConventoO Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar, de freiras capuchinhas, pertence à categoria dos conventos de Recoletos ou freiras descalças; fundado por um grupo de freiras capuchinhas de Santiago do Chile, no bairro Monserrat, junto com a Igreja San Juan Bautista.

As mulheres que entraram nos mosteiros de Buenos Aires o fizeram com uma idade média de 26,4 anos entre as Catalinas e 25,4 anos entre as Capuchinhas. Uma idade muito alta quando comparada aos dezoito anos em que as filhas dos comerciantes de Buenos Aires tinham que se casar pela mesma época. Dentro deste grupo de mulheres, aquelas que não se casavam entre 24 e 29 anos eram consideradas “aquelas que estavam a caminho de se tornar solteirõas”.

Uma das estratégias usadas pelos membros dos setores altos para manter, fortalecer ou, eventualmente, elevar a posição social de suas famílias era fazer com que suas filhas se casassem com vantagem ou “entre iguais”. A dote foi um dos instrumentos que eles usaram para isso. Mas na área dos conventos havia também o conceito de dote. O dote era uma quantia em dinheiro que a aspirante a freira dominicana tinha que dar ao mosteiro durante o noviciado, dois meses antes de professar.

As freiras de Santa Catalina eram caracterizadas por sua austeridade. Elas deviam usar o rosto coberto com um véu; um guarda-roupa e calçados completamente modestos. As Catalinas poderiam usar chapines mas foram proibidas de usar jóias, relógios, leques, e qualquer outro elemento que prejudicasse a pobreza sagrada e o desapego ao material.

O hábito era de saya branco, o escapular da mesma cor, o manto e o véu pretos, sendo o último branco nas irmãs convertidas e nas noviças do coro. A cor branca é o símbolo da pureza do coração com a qual devem vestir-se, e o preto é um aviso da penitência que devem fazer pelas falhas da vida. Os panos para a preparação da vestimenta eram trazidos da Espanha, conforme registrado nos recibos que estão guardados no arquivo do mosteiro: anascote (tecido de sarja de lã fina, de ambos os lados, usando em várias ordens religiosas para seus hábitos) e tela de algodão. Suas roupas interiores também deviam ser brancas.

Como parte de seu cotidiano, além de se dedicarem à oração, as freiras realizaram diversas obras, como encadernação, restauração de obras de arte, elaboração de ornamentos religiosos. Elas também se dedicaram à literatura, poesia e música e, sobretudo, bordado e costura.

Convento de Santa Catalina de Siena

Durante o século XVII o convento é apresentado como um novo espaço para “mulheres de qualidade” ou “pobres nobres” que, não encontrando um lugar no mundo ou fugindo dele por sua própria determinação ou enfrentando um “chamado de Deus”, decidem entrar na religião.

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Em 1745, o Convento de Santa Catalina de Siena foi fundado em Buenos Aires, de Freiras Catalinas (dominicanas), com freiras de Córdoba del Tucumán; e quatro anos depois em 1749, o Convento de Nuestra Señora del Pilar de Freiras Capuchinhas, com freiras de Santiago do Chile, ambas de clausura. Dessa forma, um novo espaço foi aberto sobretudo para as mulheres de Buenos Aires, em primeiro lugar, mas também para outra que vinham de outras cidades.

O Convento das Catalinas estava preparado para abrigar mulheres de alta posição social que pudessem contribuir com um dote. A intenção deste convento de abrigar mulheres e meninas órfãs para serem educadas nunca foi cumprida. Aquele com as capuchinhas seria destinado a filhas de pais “pobres nobres”, que não poderiam contribuir com nenhum dote.

As Capuchinhas eram freiras de uma ordem mais austera, austeridade que se manifestava por não ter propriedades, alimentos e roupas.

Para entrar no convento das freiras dominicanas, as candidatas tinham que pertencer a famílias de boa posição e contribuir com um “dote”. Menos rígida e mais austera, as capuchinhas era para filhas de “pobres nobres” e até acomodava algumas filhas ilegítimas.

Desde o momento da sua fundação até 1810, 98 freiras entraram no Convento das Catalinas e 57 no das Capuchinhas, a maioria delas nascidas em Buenos Aires.

Freiras Catalinas e Capuchinhas. Diferenças

No caso das freiras Catalinas, havia um requisito de natureza econômica, a aspirante de freira tinha que contribuir com um dote que, de acordo com as necessidades do convento, variava entre 1.500 e 2.000 pesos, mais 300 para a cela (quarto) e roupas no caso das freiras de véu preto, e para as de véu branco os montantes eram de 500 e 30 pesos, respectivamente. Aquele dinheiro era usado para cobrir os custos de alimentos de toda a comunidade do convento, que incluía freiras, algumas doadas e escravas. No convento das Catalinas, a quantidade do dote foi reduzida para três afortunadas novatas que sabiam tocar instrumentos musicais como o cravo ou órgão.

As Capuchinhas não forneciam dote ao entrar (na solicitação da sua fundação, esse era um dos argumentos mais importantes apresentados: seria um convento para as filhas dos “pobres nobres”), portanto, não eram obrigados a contribuir com um dote; apenas para comprar alguns utensílios, cama, ajoelhados para rezar e roupas.

Quanto à origem familiar das freiras, as Catalinas estavam, sem dúvida, mais próximas da elite. A ocupação dos pais corresponde ao status considerado de maior prestígio na época. A presença de apenas poucos comerciantes é marcante. É que estes, ao programar suas estratégias familiares, casaram suas filhas com outros comerciantes para a continuação de suas empresas, pois muitas vezes seus filhos homens optaram por carreiras de maior prestígio no exército, na Igreja ou na burocracia.

A diferença mais notável é que as Catalinas tinham um grupo de freiras responsáveis ​​pela contabilidade do convento, o que deve ter sido bastante complicado se considerar que os dotes das freiras foram colocados em um censo (taxações) cuja renda tinha que ser coletada e mantida, alias também de algumas fazendas alugadas.

No convento das Capuchinhas, a contabilidade deve ter sido mais fácil, pois viviam principalmente de esmolas que um mendigo especialmente designado colecionava diariamente para elas.

Entre as Catalinas, asumiam seus escritórios para cuidar dos assuntos econômicos do mosteiro, dos salários dos pedreiros e das contas de lenha, trigo,  banha para cozinhar e muitas outras coisas que tinham que ser pagas, além de lidar com devedores inadimplentes, dinheiro sem o qual a vida no convento se tornava muito difícil.

As Capuchinhas não tinham renda nem devedores. Eles viviam de esmolas. As freiras tinham mendigos, que saíam pela cidade e pelo interior, em diferentes províncias no Paraguai e Chile, e voltaram trazendo pouco dinheiro, mas muitas mercadorias, comida, lenha, peixe seco e gado vivo que eram vendidos para pagar pelo trabalhos  da construção do convento, que durou cinquenta anos.

As freiras se comunicavam a traves de dois tornos existentes, o da sacristia e o da entrada. Por esse tipo de janela giratória, as freiras, sem serem vistas, funcionavam como intermediárias entre o claustro e o mundo, recebendo ou entregando o que era necessário, principalmente comida. Todas as cartas ou obituários, que também passavam por esses tornos, eram controlados pela prioresa ou abadessa.

Outra forma de contato com o século foram as festividades dos santos padroeiros, celebradas com todo o esplendor que as constituições e a situação econômica permitiam, conforme registrado nos recibos dos conventos.

As Catalinas comemoraram o dia de Santa Catalina de Siena e as Capuchinhas de Santa Clara e San Juan Bautista, sob cuja dedicação foi a igreja que tinham recebido para iniciar a fundação.

Essas festividades foram realizadas com uma dupla intenção: aumentar a solenidade do culto e para a alegria da vizinhança. Durante as celebrações fogos de artifício, foguetes e mesmo pólvora eram utilizados.

Hierarquias no convento. Freiras com véu branco e Freiras de véu preto

Nos dois conventos existam:

  • freiras com véu preto ou freiras coristas
  • freiras de véu branco, também chamadas de conversas, de obediência ou de serviço

Nenhuma dessas divisões é mencionada em nenhuma das regras primitivas dessas ordens. É nas constituições das freiras de Santo Domingo (Catalinas) e no domínio do Urbano IV (Capuchinhas) que encontramos as diferenças bem estabelecidas. Em ambos existe a autorização para receber algumas freiras, uma em cada sete com véu preto, para “cuidar dos ofícios corporais”, além dos espirituais.

Para qualquer cargo que uma freira fosse nomeada, ela tinha que dar sua aceitação e ver nela a vontade de Deus. As eleições seriam realizadas a cada três anos por cédulas secretas, onde as freiras que tinham o poder de votar colocavam o voto dentro de uma urna. As votações eram presididas pelo bispo, que, na companhia de dois cânones examinadores e capelão das freiras, situava-se na igreja do outro lado de uma cerca que os separava das freiras instaladas no coro.

Quem teve direito a voto? – Entre as Catalinas, as freiras de véu preto com mais de doze anos de profissão. Entre as Capuchinhas, foram necessários três anos de profissão. As Catalinas elegeram a prioresa por voto. O restante dos escritórios era designado pelas prioresas e mães do conselho. As Capuchinhas escolheram a abadessa e aquelas que ocupariam os escritórios. O restante dos cargos era designado pela abadessa juntamente com o bispo. Nas atas dos capítulos para a eleição das Capuchinhas, foi possível rastrear os cargos que ocupavam: despenseiras, enfermeiras, cozinheiras, veleiras, guarda-roupas e beleneras (encarregadas de preservar e montar o presépio de Natal).

Freiras com véu branco: durante todo o período colonial, 13 freiras com véu branco (de um total de 98) entraram no Convento de Las Catalinas e 7 (de um total de 57 ao Convento das Capuchinhas). A maioria delas o fez em uma data próxima à fundação, certamente para cobrir as necessidades do convento.

Freiras de véu preto: constituem a maioria nos dois conventos. No convento das Capuchinhas as freiras de véu preto realizavam absolutamente todos os ofícios, mesmo os mais humildes, revezando-se com as freiras de véu branco nos ofícios inferiores.

As freiras Catalinas foram divididas em freiras de véus pretos ou coristas, que deviam fornecer um dote de 1.500 pesos e freiras de véus brancos ou legas, que contribuíram com um dote de 500 pesos. Ou seja, desde o o início a dote serviu como elemento de hierarquia dentro do convento. A contribuição era utilizada para a manutenção das freiras, das criadas, dos escravos e da conservação geral do edifício.

Casa FOA 2001: Arqueología e Exorcismo

Durante o ano de 2001, foram realizadas obras de arqueologia no convento e igreja de Santa Catalina de Siena, a fim de instalar um grande evento chamado Casa FOA, a exposição de design, decoração e paisagismo mais relevante na Argentina, realizados todos os anos desde 1985. Mais de 50 designers ambientaram os espaços do convento naquela época, e assim como todos os anos, a Casa FOA continua recuperando valores arquitetônicos e culturais, em uma contribuição muito importante para o patrimônio histórico da cidade.

O trabalho de escavação foi realizado sob a direção de Daniel Schávelzon e supervisão arqueológica da Direção Geral de Patrimônio da Prefeitura.

Estudio Alvarez Morales & Levy, Casa FOA 2001

Os trabalhos realizados no pátio do claustro permitiram encontrar, além de um poço, várias evidências construtivas do edifício e vários objetos relacionados à vida doméstica do convento. A partir dos estudos realizados, aprendeu-se que naquele momento inicial o construtor colocava uma camada de pó de tijolo com dois cm de espessura. Esta, que nos perfis se parece com um piso antigo, é uma técnica de construção muito hábil e habitual na Buenos Aires colonial, usada para nivelar o chão, afirmar e isolá-lo da umidade. Acima dessa camada foram colocados outros 30 cm de espessura de tosca, usado como material de recheio, fundamental para a operação de nivelamento de terra. Além disso, foi colocada uma nova camada de pó de tijolo de dois centímetros e, a partir daí, temos os recheios e evidências de uso desde o século XVIII inicial até o presente.

Durante os trabalhos, foi encontrado um poço com um objeto metálico que representava um Macho Cabrío, com chifres e asas. Isso foi queimado e enterrado em um evento de difícil explicação, pode ser interpretado como uma imagem diabólica e que foi o resultado de um evento de exorcismo entre as freiras do convento.

Pelo contexto em que o objeto se achou, enterrado apenas com carvão, queimado e enterrado no pátio de um convento, despertou o mito de um possível evento de exorcismo realizado pelas freiras.

No entanto, devido à curvatura e ao ferro ligado à figura, deduziu-se que sua função original era servir como alça lateral de um grande macetero (vaso para plantas) de ferro, tipicamente francesa e do século XIX. Era uma moda no mundo iniciada por volta de 1830, espalhada pelas grandes exposições internacionais européias na década de 1850 e que chegaram ate à Primeira Guerra Mundial.

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Esse tipo de enfeite em ferro ou bronze era amplamente utilizado como decoração, sem simbolismo, e por sua força expressiva serviu no século XIX, mesmo para jarras e maceteros. A maioria veio da fábrica de Val D´ Osne, na França, onde eran feitos desde a década de 1830. Em meados do século e aproveitando a enorme divulgação mundial das grandes exposições do Crystal Palace e de Paris a partir de 1851, a fábrica tinha uma estratégia de vendas muito ativas, vendendo sobretudo esculturas e fontes.

Suas formas peculiares e suas dimensões colossais combinavam com os grandes edifícios que os estados nacionais estavam erguendo em todo o mundo. Buenos Aires não foi exceção e ainda existem dezenas dessas obras espalhadas por todo o país.

 

fonte:

  • Las monjas de Buenos Aires en tiempos de la monarquía católica, 1745-1810: Alicia Fraschina (1)
  • Los trabajos de ser monja: ¿un exorcismo no reglado en el convento de Santa Catalina durante el siglo XIX: Daniel SCHÁVELZON (2)
  • www.cienciayfe.com.ar/buenosaires/
  • www.santacatalina.org.ar
  • El espacio de los conventos femeninos en Buenos Aires: Clausura y conformación arquitectónica. El convento de Nuestra Señora del Pilar de Zaragoza – Marta Mirás, Pablo Willemsen, arquitectos.

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