OURO PRETO (MG): Igreja do Bom Jesus de Matozinhos e São Miguel e Almas – Parte II: Quanto tempo mais passará?

Afastada do circuito turístico do casco histórico em torno a Praça Tiradentes, a portada desta igreja traz uma representação singular do purgatório. Essa grande obra do mestre Aleijadinho materializa e documenta, em pedra-sabão, o culto às almas.

A igreja foi fechada em 2014 e ainda aguarda pela sua restauração. Muitas tem sido as manifestações dos fieis do bairro de Cabeças reclamando pelo inicio das obras. Na lateral do adro o terreno esta seriamente comprometido e precisa de trabalhos para a contenção da encosta.

O Escritório Técnico do IPHAN conta desde de 2009 com um projeto, que  se bem não contemplava o restauro de elementos artísticos, já estava pronto. Me pergunto … Quanto tempo mais passará?

Igreja do Bom Jesus de Matozinhos e São Miguel e Almas


Nos primórdios da história a atual localização da Igreja conformava a principal via de entrada à antiga Vila Rica. Entrando pelo arraial de Passadez de Cima (Cabeças), descendo até o Caquende (Rosário), entrava-se pela Ponte Seca, seguindo até o largo da Matriz do Pilar e subindo a ladeira do Pilar, pegava-se a antiga Rua Direita do Ouro Preto. Subia-se esta ladeira íngreme até o alto do Morro de Santa Quitéria, onde está hoje a Praça Tiradentes. 

Antigamente, no local onde hoje está situada a atual igreja no Alto das Cabeças, existia uma primitiva capela dedicada aos Três Sagrados Corações (Jesus, Maria e José) e São Miguel e Almas, duas invocações em um só templo.

Em 1771, os moradores de Passa Dez obtiveram licença da Mesa Capitular do Bispado de Mariana para erigir uma igreja. As obras foram iniciadas no mesmo ano de 1771 sendo que em 1793 a igreja estava praticamente concluída.

Em 1867, devotos da irmandade do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, anexaram uma terceira invocação, o Bom Jesus de Matosinhos, possivelmente por influência do Santuário de Congonhas, em construção naquele momento virando assim para seu nome atual: Igreja do Bom Jesus de Matozinhos das Cabeças e São Miguel e Almas.

O interior do templo


A planta segue o partido tradicional das igrejas da segunda metade do século, com divisão em nave, capela-mor e sacristia, colocada transversalmente no fundo do edifício, com acesso franqueado por corredores ao longo das paredes da nave.

Durante o século XIX, a edificação foi contemplada com sucessivos auxílios para obras, como indicam os Relatórios do Presidente da Província relativos aos anos de 1855, 1874 e 1879. Já no século XX, sabe-se somente que a igreja estava incluída no Plano de Obras do IPHAN para o ano de 1954.

Quanto ao seu interior, a decoração é extremamente simples, nada apresentando de particular interesse no que diz respeito à talha 

Desde 1779, o Altar-mor atravessou 242 anos, mas a devoção à Paixão de Cristo “derrotou” as almas, tal vez pela importância que o Santuário de Congonhas, tão próximo de Vila Rica, passou a desempenhar na cultura religiosa de Minas. 

Em finais do século XVIII, a imagem de S. Miguel foi deslocada para o cimo do sacrário e colocaram-se as do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, de S. João Evangelista, de Nossa Senhora das Dores tendo o Senhor Morto sido depositado no sepulcro do altar-mor. Coube ao Glorioso Arcanjo se resignar: virou inquilino de seu próprio templo, hoje mais conhecido como Igreja de Bom Jesus do Matosinhos.

O Mestre Ataide


Manoel da Costa Ataide destaca-se como um dos principais nomes da pintura rococó mineira do início do século XIX. Sua atividade como pintor abarca o exercício de douramento e encarnação de imagens e elementos decorativos em talha, pinturas parietais e sobre painel, mas fundamentalmente pintura decorativa de forros e tetos de igrejas.

As mais antigas notícias sobre seu trabalho como artista datam de 1781 e referem-se a obras de pintura e douramento de retábulos. Suas composições e seu colorido inconfundível deram ao seu trabalho uma qualidade excepcional e o transformaram no grande expoente da pintura colonial brasileira.

O mestre era um devoto fervoroso. Foi irmão de nove irmandades e deixou em seu testamento encomenda para diversas missas: corpo presente, sétimo, quatorze e trinta dias, e as de aniversário de falecimento.  Apesar de não ser casado, teve quatro filhos que nomeou como seus legítimos e verdadeiros herdeiros.

Existem duas pinturas de Manuel da Costa Ataíde nos corredores laterais e uma pintura no forro do camarim do retábulo do altar-mor

Crucificação de Cristo (painel)
Última Ceia (painel)
Anjos (forro do altar-mor)

A Restauração que nunca acaba porque nunca começa


A comunidade ouro-pretana se mobilizou, mais uma vez, em manifestação pelo início das obras de restauro da Igreja de Senhor Bom Jesus de Matosinhos, na histórica Ouro Preto. Faixas e cartazes foram expostos, pedindo às autoridades, respeito com o patrimônio e história da cidade.

A igreja foi fechada em 2014 e ainda aguarda pela sua restauração

O sinal mais evidente desse clamor está na fachada barroca, na qual uma placa mostra que a comunidade, em especial do Bairro Cabeças, está unida pela restauração, embora aguardando há anos pelas obras e recursos federais. O lugar para pôr o cartaz não poderia ser mais emblemático: na portada de pedra-sabão, sob a imagem de São Miguel, esculpida por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814).

Outras manifestações já aconteceram em outras ocasiões e a comunidade espera que algo seja feito para que o templo receba novamente missas e turistas.

Ouro Preto foi a primeira cidade brasileira (1980) reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “O título é muito importante, aumenta o turismo. Mas se não tivermos os bens conservados, o que os visitantes vão ver?”, pergunta com preocupação o juiz da Irmandade do Senhor Bom Jesus, e zelador do templo, José de Paiva Gonzaga. Ele atuava como sacristão, quando a igreja estava em atividade. “Foi fechada em 2 de novembro de 2014”, lembrando que era Dia de Finados e a poucos dias das homenagens ao Barroco mineiro e à passagem dos 200 anos da morte de Aleijadinho.

O interior da igreja, datada de 1763 (primitiva capela) teve previsão de receber recursos do Programa de Aceleração do Crescimento das Cidades Históricas (PAC-CH), mas está interditado por medida de segurança. O zelador informa que todo o forro foi retirado, deixando à mostra as vigas de madeira. “Está tudo podre, com alto risco de causar acidente”, diz olhando para o alto. Já do lado de fora, José de Paiva Gonzaga mostra a estrutura que parece pender para o lado esquerdo.

Fechada desde novembro de 2014, por decisão da paróquia, por prevenção contra acidentes, devido a movimentação da estrutura do telhado, a Igreja teve o forro retirado em 2008.  No dia 27/01/2015, ocorreu uma ação em relação ao caso, quando o projeto de restauro dos elementos artísticos, foi entregue pela Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, ao IPHAN. Mais nada aconteceu.

O chefe do Escritório Técnico do IPHAN em Ouro Preto, João Carlos de Oliveira, conta que desde de 2009, um projeto que não contemplava o restauro de elementos artísticos estava pronto, mas, havia inviabilidades para execução somente em partes do templo.

Segundo o Secretário Municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni, ao assumir a Secretaria em 2017, sua equipe se deparou com quase 100% dos projetos do PAC praticamente paralisados.

Deise Lustosa, nomeada em junho de 2020 para assumir a Secretaria de Cultura e Patrimônio, fala neste vídeo as previsões das obras em relação à contenção da encosta existente detrás ao Chafariz localizado no adro da Igreja e que hoje se encontra protegido com um tapume,  “Não adiantaria se fazer o restauro da igreja, sem a devida contenção da encosta. Um arquiteto pernambucano especializado veio até Ouro Preto e definiu qual é a melhor técnica a ser usada para a contenção do terreno”.

Deise foi diretora administrativa do Museu do Oratório, por 10 anos. Também participou da criação e implantação do Sistema de Museus de Ouro Preto e foi presidente e diretora da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP) e diretora de Conservação e Restauração do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). Em 19/09/2017, Deise Lustosa assumiu o cargo de diretora do Museu da Inconfidência.

Esperamos que sua ampla experiência conduza a bons resultados para esta igreja que há 6 anos esta fechada, sendo que há 12 anos foi presentado o primeiro projeto e nenhum trabalho de restauração ainda começou.

A previsão das obras para a construção do muro de contenção é para meados de 2021. Vamos ver, até aqui, nesta igreja, nenhuma previsão de data foi cumprida.

 

fonte:

  • Inventário dos sistemas construtivos dos forros das edificações históricas religiosas de Ouro Preto – Luana Lara Safar Redini (1)
  •  http://portal.iphan.gov.br/
  • https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/07/24/interna_gerais,786830/beleza-e-descaso-convivem-em-ouro-preto-patrimonio-da-humanidade.shtml
  • https://jornalvozativa.com/geral/comunidade-manifesta-mais-uma-vez-pela-restauracao-da-igreja-de-bom-jesus-de-matosinhos-em-ouro-preto-mg/

 

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