OURO PRETO (MG): Igreja de São José – Parte II: A Igreja dos Artistas

Em Vila Rica o ensino de arte não era feito em escolas ou academias, mas praticado durante a execução e dentro das oficinas de obra. Enquanto o artesão trabalhava como aprendiz, sob orientação de seu mestre, adquiria os conhecimentos técnicos e estéticos próprios àquele oficio. Estes grupos de artistas estava conformados em sua grande maioria por “Homens Pardos”, que contavam por sua vez com escravos na conformação de sus equipes de trabalho.

Sendo São José o santo venerado como o protetor dos carpinteiros, marceneiros, escultores, pintores, enfim, daqueles que trabalham com a madeira/pedra, etc., eles constituíam a mão de obra indispensável na construção arquitetônica de edifícios civis e templos, desde os esteios até a sua decoração.

Neste post vamos conhecer o interior desta bela igreja de torre única, a casa religiosa dos artistas da antiga Vila Rica.

A Igreja de São José dos Homens Pardos e Bem Casados


A Irmandade de São José já se encontrava constituída antes de 1726 dentro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Vila Rica, em cujo recinto os confrades veneravam a imagem do seu patriarca. Posteriormente, passou a se reunir administrativamente e a praticar os atos piedosos na Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar até a edificação da capela própria concedido pelo Senado da Câmara de Vila Rica, erguida à base de madeira, doada também pela Câmara.

 

A capela primitiva provavelmente muito rústica, deve ter se deteriorado rapidamente, pois, por volta de 1744 os irmãos de São José cogitavam a reconstrução do templo. As obras de arrematação foram contratadas ao experiente mestre construtor e empreiteiro José Pereira dos Santos, mas parecem ter tido início efetivo em 1753. A nave foi concluída por volta de 1759, iniciando-se no ano seguinte a construção da capela-mor e sacristia, arrematada por Antônio Rodrigues Falcato, cujas obras se estenderiam até 1764.

Finalmente foi contratada a pintura do forro da capela-mor, obra de Manuel Ribeiro Rosa, executada no período 1779-1783.

O interior do Templo


Seu interior é composta por um altar mor, a nave, altares laterais e púlpito localizado junto a área mais central da igreja, com acesso externo à edificação

O forro da nave em abóbada, é composto por tabuas de espessura media em madeira pintado de branco, arrematado por sanca de perfil de cimalha pintada com mármore fingido. Esta técnica é praticamente constituída por seções planas de tábuas de madeira de junta-seca ou saia e camisa.

Altar mor


Em 1772, Aleijadinho foi contratado pela Irmandade para executar o risco do retábulo da capela-mor, cuja obra de talha foi realizada por Lourenço Rodrigues de Sousa entre 1775 e 1778.

O altar mor apresenta alias uma característica peculiar, enquanto nas obras, a figura humana perdia espaço durante essa fase, a de Aleijadinho mantinha as mesmas, principalmente na forma dos anjos e santos presentes no coroamento da composição principal, a talha é mais simples e mais organizada e é possível observar os elementos da composição individualmente.

Os riscos do retábulo da capela- mor são de autoria de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que foi juiz da irmandade

No que se refere ao campo da talha, cabe destacar a participação de Aleijadinho na execução do risco do altar-mor em 1772, registrando sua importância como primeira obra documentada do Mestre nesse campo. A obra é simples, porém bem ordenada, tendo o artista utilizado o risco do tipo “romano” da época de D. Pedro II, ao apresentar de perfil o arco de enquadramento do altar. Ele reforça esse arco com duas chaves salientes diagonais, e realça a sua delimitação através de dois ornamentos concheados e duas figuras de anjos dispostos nas empostas do mesmo. Duas colunas retas externas conferem maior rigidez ao conjunto, que é amenizada, entretanto, pelos quartelões colocados no vão da tribuna.

São José, o Padroeiro


A história de São José é vinculada à antiquíssima tradição da Igreja Católica, todavia os dados históricos de sua vida são escassos e inseguros. José aparece em poucos momentos nos trechos iniciais dos Evangelhos de Mateus e Lucas. Através dessas fontes sabemos que ele era descendente do rei Davi, já estava idoso e tinha um contrato de casamento com Maria; logo, com esse enlace, foi considerado o pai adotivo de Jesus. A narrativa bíblica afirma que residiu em Nazaré, onde exerceu o ofício de carpinteiro.

No camarim do altar-mor temos a imagem de São José em sua habitual representação: homem maduro, de barba, vestindo túnica longa, amarrada na cintura e capa. A túnica é interrompida abaixo do joelho, para mostrar as botas. A imagem dele em alusão da fuga para o Egito foi muito retratada; ele aparece vestido para viagem, com capa, chapéu de abas ou turbante e botas. Nessa representação é conhecido popularmente de São José de Botas. No braço direito traz o Menino Jesus, em atitude de benção. Na mão esquerda tem cajado arrematado com ramo de lírios ou açucenas na parte superior, símbolo de sua vida casta. Festejado no dia 19 de março.

Assim, São José, foi santo venerado como o protetor dos carpinteiros, marceneiros, carapinas, enfim, daqueles que trabalham com a madeira e que constituíam mão de obra indispensável à construção arquitetônica, desde os esteios até a sua decoração.

O forro da capela-mor


Constatou-se que o forro da capela-mor (em abóbada facetada) foi alterado, não quanto à sua tipologia formal, mas quanto à pintura decorativa, que antes simulava frisos de moldura e atualmente, desaparecido ou escondido sobre camada pintura monocromática branca.

O forro da capela-mor de São José também era adornado com pintura relativa à passagem da vida do padroeiro. Trata-se dos Esponsais do Senhor São José com Maria. Manoel Ribeiro Rosa, seu autor, ingressou nessa confraria em 1778 e, em 10 de setembro 1779, a mesa administrativa da irmandade fez um termo com o artista sobre a pintura da capela-mor, incluindo o forro, no qual se representaria “o despozorio do Senhor São José, com sua tarja com seus ornatos e no todo dela sua prospectiva até a cimalha real”. Em cinco recibos consta que o pintor recebeu mais de 75 oitavas de ouro pela pintura, que foi entregue e aprovada em 1783.

Trata-se de uma obra harmoniosa, coerente ao gosto artístico rococó, e de colorido vivaz, principalmente nas rocalhas vermelhas e azuis que emolduram a cena. Aliás, o colorido forte, sobretudo nas cores primárias, tanto no panejamento quanto nas partes decorativas, é característica marcante nesse artista. Vale a pena destacar a falsa arquitetura que compõe o plano de fundo, representado uma base e duas colunas lisas.

Sua iconografia é a tradicional do casamento de Maria e José, sendo ele representado em destaque, de joelhos, com seu cajado florido, a entregar um anel a Maria, sob o olhar atento do sacerdote e das testemunhas. Ambos têm coroas de flores na cabeça e recebem a benção do Espírito Santo, no formato de pomba. Infelizmente, não temos o forro completo dessa capela-mor intacto, pois, conforme observação de Rodrigo Melo Franco de Andrade, a pintura foi retirada quando se reformou o forro da capela-mor, tendo-se recortado então sua parte central, para aproveitá-la, devidamente emoldurada, no arco do coro; mais tarde, presentearam-na ao Arcebispo de Mariana que a fez colocar numa das salas do Seminário Maior de sua Arquidiocese. Atualmente, encontra-se no Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Mariana.

Coroamento do altar-mor


A imagem de Deus Pai arremata o coroamento do altar-mor

Representado com barba e cabelos longos, a imagem de Deus Pai tem nimbo em formato de triângulo, símbolo da Santíssima Trindade, e o globo terrestre, símbolo da criação. Abaixo da figura do Pai temos a tradicional representação do Espírito Santo em formato de pomba. Ambos são cercados por raios dourados, ladeados por anjos adoradores e tríades de querubins.

A tampa do sacrário do altar-mor da Capela de São José é uma obra muito refinada e original. Temos a representação do momento em que Jesus Cristo crucificado foi ferido pela lança do soldado romano como o objetivo de assegurar a morte do condenado. Do seu lado aberto, saiu sangue e água, conforme relato do Evangelho de São João. Esse tema incomum na porta de sacrário é justificado, pois o sangue e a água derramados são símbolos eucarísticos por excelência. A tradição denominou esse personagem de São Longino ou São Longuinho. O santo está representado a cavalo, com roupas de soldado romano, e tem a lança nas mãos a ferir o Cristo Crucificado já morto.

Altares Laterais


Os retábulos da nave formam dois pares com aparência e estilos distintos. Os dois próximos do arco-cruzeiro, que possuem um refinado trabalho de talha no estilo nacional português. Os outros dois retábulos são de tabuado liso. Utilizou-se cedro, por ser a madeira original da confecção dos retábulos.

Para a Igreja Católica, os santos são aqueles que viveram uma vida exemplar, em conformidade com os preceitos cristãos. Por serem mediadores entre os homens e a divindade, os santos são dignos de especial veneração. Da mesma forma, não é incongruente conceber os santos em pinturas e imagens, pois estas representações aproximam o fiel da figura de culto.

Na Capela de São José, por exemplo, por ser um local de sociabilidade de pardos, agregando homens e mulheres do povo, artífices, artistas e músicos, encontraremos, por excelência, devoções relacionadas a estes fiéis, às suas necessidades e àquilo que eles acreditavam ser importante em suas vidas.

Se distinguem as irmandades “de devoção” (ou seja, sem vida administrativa), das “de obrigação” (isto é, com vida administrativa regulamentada em compromisso entre confrades).  Desta forma, a Confraria de São José dos Bem Casados dos Homens Pardos de Vila Rica, tornou-se uma irmandade “de compromisso” apenas a partir de 1727, quando foi reunida a primeira mesa administrativa. Apenas São José consistia em irmandade institucionalizada, enquanto as demais localizadas nos altares laterais (Nossa Senhora do Parto, Guadalupe e Santa Cecília) não passavam de irmandades de devoção, embora até possuíssem documentação, altar e imagem própria.

Nossa Senhora do Parto


A imagem ocupa o altar lateral do arco-cruzeiro, lado do evangelho. Também conhecida por Nossa Senhora da Apresentação, trata-se da Virgem Maria após dar à luz ao Salvador. Na Capela de São José, a imagem de Nossa Senhora do Parto está em pé e veste túnica longa e manto ondulado. Suas mãos estão na altura do peito, segurando uma manta. É uma invocação muito antiga de Maria, clamada pelas parturientes em momentos difíceis. A Irmandade de Nossa Senhora do Parto tinha, além da imagem do altar, mais duas imagens pequenas da mesma Senhora que, provavelmente, eram usadas para visitar mulheres em trabalho de parto, sendo o auxílio espiritual propício. Cabe destacar que essa irmandade congregava significativo número de mulheres que, conforme requerimento encontrado no Arquivo Histórico Ultramarino, denominavam-se matronas de Nossa Senhora do Parto. A irmandade, que era de devoção, realizava sua festa no dia da Purificação de Maria, ou seja, no dia 2 de fevereiro. Segundo o documento, em 1743, a devoção já estava instituída e operava milagres na região. Interessante notar que a imagem é ricamente adornada, na peanha há muitas cabeças de anjos. É comum a variante dessa iconografia, conhecida como Nossa Senhora da Expectação do Parto ou Nossa Senhora do Ó. Todavia, nesse caso, a Virgem ainda está grávida.

Nossa Senhora da Boa Morte


A imagem de Nossa Senhora da Boa Morte ocupa o nicho do altar lateral da nave, lado do evangelho. Na Capela de São José, é uma imagem de vestir, ou seja, ela tem a cabeça, mãos e pés esculpidos e policromados, enquanto o resto do corpo é coberto pela roupa. Possui peruca com cabelos naturais. Trata-se de uma devoção muito querida no período colonial, no qual ter uma boa morte era claro sinal de salvação. A boa morte consistia em morte biológica, todavia, acompanhada pelo sacerdote e pela comunidade onde o fim não chegaria de surpresa para o indivíduo. Assim, o bem morrer consistia na preparação para aquele momento incerto. Era dever dos irmãos acompanhar os falecidos no funeral, sepultamento e nos sufrágios. Cabe destacar que na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, freguesia na qual a Irmandade de São José primeiramente constitui-se, há irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte que, com altar próprio, congregava crioulos e homens pardos também.

Segundo a tradição, Maria, a mãe do Salvador, não morreu, mas, sim, ao acabar sua jornada terrestre, teria dormido. Esse episódio, conhecido como “Dormição de Maria”, é festejado no dia 15 de agosto, data que ela foi assunta aos céus. É representada deitada em uma cama ou esquife, com vestes brancas, mãos sobre o peito e olhos fechados.

Nossa Senhora de Guadalupe


A imagem ocupa o nicho do altar lateral da nave, lado da epístola. Trata-se de uma devoção mexicana. A Virgem tem traços mestiços, está vestida com túnica e manto azul estrelado, cobrindo-lhe a cabeça. Da mesma forma que Nossa Senhora da Conceição, ela tem as mãos postas e a lua crescente aos seus pés, todavia tem a face inclinada para a direita. O culto a Nossa Senhora de Guadalupe é muito restrito nas Minas Setecentistas, e provavelmente se deve à influência do bispo D. Frei Antônio de Guadalupe (bispo do Rio de Janeiro), o mesmo que, em 23 de outubro de 1726, passou provisão que permitiu a construção da primitiva capela de São José. De acordo com documentos levantados por Ivo Porto de Menezes, já havia a Irmandade do Nossa Senhora de Guadalupe dos Pardos, em meados do segundo quartel do século XVIII. Sua festa é celebrada em 12 de dezembro.

São Brás


A imagem ocupa o nicho direito do altar-mor. Uma mãe desesperada pediu-lhe que acudisse seu filho que tinha uma espinha de peixe presa na garganta, assim o bispo de Sebaste (século IV) pegou duas velas e, rezando, colocou-as no pescoço da criança, que ficou curada. Assim, é o intercessor contra os males da garganta e responsável por várias curas. Teve sua cabeça decepada em 316. São Brás é representado com roupas episcopais: túnica, sobrepeliz, mitra e báculo. Na imagem presente em São José temos uma sobrepeliz branca, uma estola vermelha com traços dourados, um cordão com cruz latina na altura do peito e um pluvial que lhe cobre as costas. É comum representar o santo com luvas e em atitude de benção. Seus atributos são uma carda de ferro (instrumento de martírio) e velas, alusão à cura da criança. Sua festa é celebrada em 3 de fevereiro.

Santo Amaro


Sua imagem ocupa o nicho esquerdo do altar-mor.  A documentação relativa à Irmandade de São José atesta que, em 1774, ela possuía quatro imagens do padroeiro, bem como uma de São Brás e uma de Santo Amaro, que componham os nichos laterais do altar-mor. Segundo a tradição, Amaro ou Mauro, que viveu no século VI, foi confiado a São Bento desde criança, tornando-se um dos primeiros monges beneditinos e ajudando na construção do Mosteiro de Monte Cassino. É representado jovem, com hábito negro da Ordem Beneditina. Tem tonsura na cabeça e porta o livro de regras da ordem na mão esquerda e o báculo de abade na direita. A devoção a Santo Amaro foi popular no mundo luso-brasileiro, inclusive dando nome a algumas localidades em Minas (Santo Amaro do Bramal e Santo Amaro do Botafogo, por exemplo), todavia atualmente é pouco lembrado na cristandade. Sua festa é celebrada no dia 15 de janeiro.

São João Nepomuceno


Sua imagem ocupa o nicho do altar lateral da nave, lado evangelho. João Nepomuceno nasceu na Boêmia em 1340 e foi cônego na catedral de Praga. Foi um grande pregador e também era confessor da rainha Joana, esposa do Rei Wenceslau IV. O cruel rei tentou burlar o segredo da confissão da esposa, todavia, São João Nepomuceno negou-se a contar-lhe, mesmo sobre tortura. Como vingança, mandou que o jogasse da ponte sobre o rio Maldova, onde morreu. É considerado o mártir do segredo confessional. Tradicionalmente, é representado jovem, com barba e vestes eclesiásticas, próprias de cônegos: túnica talar, alva, capa de arminho, murça e sobrepeliz. Admira um crucifixo que está em suas mãos e, aos pés, tem uma pequena ponte, símbolo do seu martírio, e um anjo fazendo gesto de silêncio (dedo sobre o lábio), símbolo do segredo de confissão. A imagem de São João Nepomuceno é inventariada na documentação da Capela de São José como pertencente à Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe. Sua festa é celebrada em 16 de maio.

Santa Cecília


Santa Cecília foi outra associação devota de mestiços que nasceu em princípios do século XIX no recinto da Matriz do Pilar ali permanecendo até 1823, quando então, transferiu-se para Capela de São José.

Sua imagem ocupa o nicho do altar lateral da nave, lado epístola. Cecília era uma jovem romana do século III. Pertencia a uma nobre família, o que lhe proporcionou uma refinada educação. Segundo a tradição cristã, forçada a casar-se com Valeriano, converte-o e ambos viveram o matrimônio em castidade. Seu marido foi batizado e, posteriormente, martirizado. Cecília depois de enterrar o corpo dele, foi também condenada ao martírio. Foi decapitada, porém os golpes da lança não bastaram para soltar sua cabeça do corpo. Ela só morreu dias depois, quando o Papa Urbano a visitou no cárcere, abençoando-a. Foi adotada tardiamente pelos músicos como padroeira. Não se sabe ao certo se ela tocava algum instrumento. Os dados biográficos de sua hagiografia contam que no dia do seu casamento, enquanto seguia para a casa do noivo, ela ouviu música e instrumentos musicais e pediu a Deus que mantivesse puro seu coração e seu corpo. Provavelmente, um erro de tradução colocou que ela mesma estivesse tocando instrumentos musicais e, a partir desse relato, ela se tornou patrona dos músicos. É representada à moda romana, com túnica, dalmática e manto, cabelos soltos ou em coque e tem por atributo um instrumento musical, geralmente lira, harpa ou órgão e a palma do martírio. A presença do culto a Santa Cecília na Capela de São José é significativa, pois a irmandade agregava muitos músicos da região, num período em que havia grande demanda para a música religiosa. Sua festa é celebrada em 22 de novembro.

Santa Bárbara


Sua imagem ocupa o nicho do altar lateral da nave, lado epístola. Era filha de um pagão rico chamado Dióscoro da região da Nicomédia, Ásia Menor. Seu pai a trancou numa torre para que ninguém a visse, pois era uma jovem muito bela. A torre tinha duas janelas e Bárbara, após o batismo, mandou abrir uma terceira, simbolizando a Santíssima Trindade. Ao recusar o pretendente que seu pai lhe havia arrumado e tornando-se cristã, ele a perseguiu, entregando-a ao tribunal, onde sofreu vários suplícios. Foi decapitada no alto de um monte pelo próprio pai. Ao descer da montanha, um raio matou esse cruel progenitor. A partir dessa lenda, Santa Bárbara passou a ser invocada contra as tempestades, raios e trovões. Veste roupas à moda romana: túnica dalmática e corpete. Tem por atributo a palma do martírio e a torre. Também é a patrona dos mineradores. Sua festa é celebrada em 4 de dezembro.

Sacristia


Cabe destacar as duas passagens da vida de Davi que estão nas paredes laterais do presbitério e que também são de autoria de Manoel Ribeiro Rosa. Davi foi rei de Israel, substituindo Saul. Ainda quando era um jovem pastor em Belém foi ungido pelo profeta Samuel, conforme o relato bíblico. Era um belo rapaz, saudável, de olhos brilhantes, valente e com dom para a música e para a poesia. José era descendente direto de Davi, portanto, a cena lembra o grande feito do mais importante antepassado do padroeiro da capela.

Na Capela de São José temos duas cenas relativas à vitória de Davi sobre Golias. Os filisteus, inimigos dos israelitas, estavam acampados num vale, preparados para o combate. Golias, um filisteu forte, armado e de altura incomum, desafiou os israelitas e foi derrotado pelo jovem Davi que, com a ajuda de Deus, acertou-o, na testa, com uma pedra. Na cena, no lado direito do presbitério, vemos Davi, com roupas simples e uma sacola de pedras amarrada na cintura, levantando a espada em direção ao pescoço de Golias, que, com armadura, lança e escudo, está caído, inerte, após a pedrada que recebeu na testa, o que é alusivo por uma mancha de sangue. Ao fundo, o exército dos filisteus foge apavorado em direção ao acampamento. No lado esquerdo do presbitério, temos a cena em que Davi apresenta a cabeça de Golias ao rei Saul, levando a lança e o escudo do derrotado.

A escolha de uma cena alusiva à vida de Davi para compor a decoração interna da capela-mor em São José não é inusitada, pois Davi é uma prefiguração do Cristo, uma vez que ele, ungido e eleito por Deus, reuniu o povo de Israel.

A Capela dos Artistas


A proibição da instalação de Ordens Religiosas Regulares nas Minas Setecentistas lançou nas mãos das Ordenes terceiras e irmandades a construção e ornamentação dos templos dos arraiais e vilas mineiras, o que possibilitou a criação de um amplo mercado de contratação de artistas e artífices em Vila Rica. Assim, contratadores e arrematadores de obras dos templos mineiros coloniais não seguiam liceus de escolas arquitetônicas de ordens religiosas, tais como a dos beneditinos e dos carmelitas.

Em 1818, Ataíde escreveu a D. João VI pedindo permissão para estabelecer uma escola para o ensino das artes em Mariana, pedido que não foi aprovado. Assim, ensino de arte não era feito em escolas ou academias, mas praticado durante a execução de determinada tarefa nas “oficinas de arte”. Enquanto o artesão trabalhava como aprendiz, sob orientação de seu mestre, adquiria os conhecimentos técnicos e estéticos próprios àquele oficio.

As primeiras escolas de formação só chegariam muito tempo depois na aproximação da extinção da escravidão no Brasil (1888) que levaram as elites políticas, intelectuais e econômicas e outros setores da sociedade a pensar e a engendrar processos de escolarização dos novos trabalhadores livres.

Em Minas Gerais foram criados Liceus de Artes e Ofícios nas cidades de Serro (1879), na então capital Ouro Preto (1886) e em São João Del Rei (1888). Estas escolas tinham por objetivo ensinar as primeiras letras, o desenho e os princípios básicos de um ofício mecânico às crianças pobres, filhas de pais trabalhadores.

Os Mestres de Obras


Os membros da irmandade exerciam profissões diversas, conforme haviam constatado os estudos anteriores sobre a irmandade realizados por Curt Lange e Marília Ribeiro: eram militares (alferes, capitão, quartel-mestre e tenente), oficiais mecânicos, artistas liberais (pintor ou músico), professores de primeiras letras, boticários, mineiros e padres. Destaca-se, porém, a presença dos oficiais mecânicos, que geralmente conjugavam a estas profissões alguma patente militar.

Se em Vila Rica os ofícios eram regidos por certa liberalidade no que respeita à concorrência, apenas um grupo seleto arrematava as obras do poder municipal e dos templos. Este grupo era composto, predominantemente, por oficiais como Manuel Rodrigues Graça, carpinteiro que arrematou diversas obras públicas, que tinham condições de arcar com o ônus das cartas de habilitação ou das licenças com fiador, que variavam de seis meses a um ano. Eram estes os grandes beneficiados com a prática de ofícios, geralmente homens que conjugavam os ofícios à propriedade de escravos neles especializados, terras com matas virgens para extração de madeira e carros de boi para o transporte da matéria-prima. “Mestres de obras”, como a eles se referiam os documentos da irmandade, estes artífices supervisionavam e gerenciavam grandes obras, tendo a si subordinados oficiais auxiliares. Estes últimos é que penosamente viviam de seus ofícios, auferindo magros “jornais”, sendo, às vezes, impelidos (ou mesmo forçados) a empregar sua força de trabalho nas obras da Capela para quitar seus anuais atrasados. Viveriam estes à margem do mercado, dominado por oficiais que, muitas vezes, atuavam com uma equipe formada por escravos especializados.

As atividades manuais parecem ter aberto um horizonte de possibilidades aos escravos, haja vista do número de indivíduos especializados alforriados, como ficou demonstrado na observação das trajetórias apresentadas. O mesmo Rodrigues Rosa, legou sua tenda de ferreiro com todas as ferramentas para seus escravos quartados poderem pagar as parcelas de sua liberdade. Esta forma de libertar escravos apareceu de forma recorrente, sendo os crioulos os mais freqüentemente beneficiados. Estes, pelos bons serviços prestados ao longo da vida do senhor, acabavam alçados ao mundo dos libertos, o que denota a solidariedade dos pardos com seus escravos.

Carpinteiros como Manuel Rodrigues Graça e Manuel da Conceição, ferreiros como Manuel Rodrigues Rosa e Eusébio da Costa Ataíde, pintores como Feliciano Manuel da Costa e Manuel Ribeiro Rosa, e músicos como Bernardo dos Santos e Francisco Leite Esquerdo beneficiaram-se da posição de destaque, haja vista de que todos ocuparam acentos na mesa ou cargos de oficiais durante a segunda metade do século XVIII, além da ostentação dos espadins das opas em dias festivos, beneficiaram-se com a arrematação de obras para a irmandade durante o período de reconstrução do templo, processado a partir de 1746, quando os irmãos do “Glorioso Patriarca” receberam a provisão de autorização para a reconstrução.

Manuel Rodrigues Graça, carpinteiro de grande atividade em Vila Rica, casou-se com Maria Gomes do Espírito Santo, com quem teve oito filhos e possuía quatro escravos. Realizou obras para a Casa de Fundição, Casa da Junta da Fazenda, Palácio dos Governadores, Igreja de S. Francisco de Assis, Igreja das Mercês e Perdões, Casa da Câmara e Cadeia e na construção da Ponte Seca. Os seus filhos também atuaram no campo dos ofícios: José (carpinteiro) foi mesário da irmandade em 1806, e Joaquim (carpinteiro), João (marceneiro) e Antônio (latoeiro) realizaram obras na Capela.

Manuel Rodrigues Graça ingresso na irmandade em 1753, arrematou a vasta obra de emadeiramento da capela (1756 a 1785), ocupou a mesa administrativa da irmandade cinco vezes e foi tesoureiro outras nove. A avaliação de bens do seu testamento demonstra que os aluguéis eram uma fonte suplementar de renda para ele. Ao que parece, o aluguel mencionado referia-se à morada de casas térreas cobertas de telha na Rua Monjahi. Manuel Rodrigues possuía ainda duas moradas de casas assobradadas de telhas na Rua do Rosário. Uma era sua morada e a outra foi dada ao alferes José Pereira Dessa como dote pelo casamento com sua filha Ana. Manuel Rodrigues Graça. Ele faleceu em 1799.

Contemporâneo do último, o capitão Manoel da Conceição (natural da Vila do Sabará) também usou da posição de destaque na direção da Confraria para arrematar obras de seu projeto de reconstrução. Apesar de ter ingressado na Confraria em 1764, somente em 1795 é contratado para trabalhar no projeto construtivo da Capela. Neste ano, os oficiais e irmãos mesários em reunião acordaram que as obras do forro da sacristia e corredores. No ano de 1796, Manoel da Conceição assinou ainda um recibo certificando que havia sido pago pelas obras de conserto de portas e do vigamento, assoalhamento e forração do consistório da capela.

O pintor Manuel Ribeiro Rosa, era natural de Mariana, filho de Rita Ribeiro, preta forra, casou-se na matriz do Pilar de Vila Rica, em 1794, com Sebastiana Arcângela da Assunção. Ingressou na irmandade de S. José em 1778, ocupando os cargos de irmão de mesa em 1788 e de procurador em 1798. Apenas um ano após ingressar na irmandade, em 1779, Manuel Ribeiro arrematou a pintura que compreende o forro da capela-mor, atualmente no Museu Arquidiocesano, em Mariana (Minas Gerais), entre os anos de 1779 e 1783. Em 1783, faz a pintura dos alizares do presbitério da Igreja de São José.

É responsável ainda por encarnações, policromias e douramentos para a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco em 1796, para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar em 1799, alias realiza obras para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário em 1804 e 1805 e trabalhou na Capela de Mercês e Perdões, da qual foi irmão, tendo exercido nesta o cargo de procurador. Faleceu em 1808.

Manoel Rodrigues Rosa, juiz da Confraria em 1795, foi um dos oficiais da irmandade que assinou o termo de fatura da obra do forro da sacristia e corredores contratada por Manuel da Conceição. “Homem pardo”, como se auto-intitulou no cabeçalho de seu testamento, Manoel era natural da Freguesia de Congonhas do Campo, filho de Antônia Angola, escrava do Reverendo Francisco de Moura e Brito, e de pai incógnito. Conservando-se sempre no estado de solteiro, nunca teve filhos.

Morou em Vila Rica, na Rua do Rosário do Ouro Preto, no período de redação do testamento. Era proprietário de outra morada de casas no bairro Cabeças e de quatro escravos de nação Angola: Francisco, Mateus, Manuel e Francisco. Tinha uma tenda de ferreiro com todas as suas ferramentas: bigornas, cepo, fornos de tabuleiro, malhos, martelos de forja. Seu assento como irmão da Confraria de S. José ocorreu em fevereiro de 1769. Faleceu em 1807 e foi sepultado na capela desta igreja.

 

fonte:

  • Saint Joseph Chapel of colored men in Ouro Preto history, art and restoration – Leandro Gonçalves de Rezende – Carolina Maria Proença Nardi – Adalgisa Antes Campos – Daniel Precioso
  • http://portal.iphan.gov.br/
  • https://www.wmf.org/project/church-s%C3%A3o-jos%C3%A9-and-santa-cecilia
  • https://www.ouropreto.com.br/atrativos/religiosos/igrejas/igreja-de-sao-jose-antiga-capela-imperial
  • http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao32/materia03/

 

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