Igreja de São João Evangelista, Tiradentes (MG) – Parte I: O encanto da simplicidade

Seguida da Matriz, a igreja de São João Evangelista é a maior igreja de Tiradentes. Ela está entre as mais simples igrejas da cidade e pode até passar despercebida com sua fachada sem torres, sendo o sino disposto em uma das janelas.

A Irmandade de São João Evangelista dos Homens Pardos foi fundada por volta de 1740 na igreja Matriz de Santo Antônio. A imagem de São João surgiu no retábulo lateral do Descendimento de Cristo da Cruz, onde atualmente ainda existe uma imagem dele na matriz, ao pé da cruz. 

Igreja de São João Evangelista


Construída em meados do século XVIII, a Capela de São João Evangelista está localizada do lado do Museu Padre Toledo. Conta a tradição que os inconfidentes se encontravam na Casa Paroquial (hoje Museu Casa Padre Toledo), ligada a esta Igreja por um túnel, de modo a evitar os Dragões (força militar portuguesa na colônia).

A imagem do glorioso apóstolo São João Evangelista foi fundada na igreja da Matriz de Santo Antônio por volta de 1740 e lá funcionou até fins do século XVIII, no altar de Bom Jesus do Descendimento.

Ao longo da segunda metade do século XVIII foi sendo construída a capela própria na rua do Sol. Não há documentação de sua construção porque perderam-se os livros contábeis da época.

É toda construída em taipa de pilão, com grossas paredes, embasadas em socos de cantaria, com todos os vãos de verga curva, a exceção das quatro janelas abertas nos fundos da igreja, em 1962.

A Fachada


A fachada principal é bastante simples, apresenta frontão triangular com beirais de beira seveira, sendo o corpo central delimitado por quatro cunhais largos, duas janelas a altura do coro, porta central e óculo no frontão. Dois puxados laterais apresentam seteiras e duas janelas, de vergas curvas e almofadadas.

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A porta de verga curva encimada por duas janelas à altura do coro e óculo na empena, que é triangular, sem decoração, com arremates em beira-seveira.

Dois corpos laterais completam a fachada, sendo que à esquerda se instalou o sino. Duas seteiras iluminam o acesso ao coro e sineira.

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A ausência de torres faz com que a sineira seja alojada em uma das janelas laterais e o telhado se prolongue, enfatizando a horizontalidade do partido arquitetônico. O sino da igreja foi fundido em 1786 com o relevo de uma águia com uma pena presa na pata sobre um livro, símbolo do apóstolo João e a inscrição “S Ioannes Evang. A. DNI MDCCLXXXVI” (São João Evangelista – Ano do Senhor 1786).

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Localizada na Rua Padre Toledo a fachada sem torres incorpora o sino

Igreja São João Evangelista – Historia


Devido a inexistência de documentação, quase nada há sobre a construção da capela. Parece que a Irmandade funcionou na matriz de Santo António até o final do século XVIII, tendo a construção da capela própria se iniciado por volta de 1750/60, com recursos provenientes da Irmandade de São João Evangelista dos Homens Pardos.

Igreja da Irmandade de São João Evangelista dos Homens Pardos, Tiradentes (MG)

Além da Irmandade de S. João, a capela abrigou a confraria de São Francisco de Assis dos pardos em 1812, que segundo parece, teve breve duração, e a confraria de Nossa Senhora das Dores, fundada por volta de 1816 ou 1817, que teria construído o altar colateral de Nossa Senhora das Dores e o oratório da sacristia.

Não há mais registros documentais sobre a igreja, a não ser referências de pequenas compras de objetos no início do século XX e pedidos de esmolas para reformas na igreja, em 1923. Parece que nesta época a Irmandade promoveu reformas no telhado, paredes e pintura. O assoalho da capela-mor deve ter sido reformado no mesmo período, com o desmonte das campas e colocação de tábuas estreitas formando losango em duas cores.

Restauração artística e arquitetônica da Igreja de São João Evangelista

A igreja passou por obra por volta de 1920/25, com a colaboração de Policarpo Rocha e possivelmente nessa época foi refeito o assoalho da capela-mor, eliminando os campas. Houve obras ainda em 1957 e 1962 quando se adaptou igreja para capela do Seminário em 1977/78.

Em 1961/62, a igreja passou por ampla restauração efetuada pelo IPHAN, para a instalação da capela do Seminário Diocesano São Tiago que funcionou na casa Padre Toledo, ao lado. Nesta época, as laterais foram transformadas em salas de aula, com substituição dos forros e assoalhos e a adaptação do antigo depósito de materiais de construção, ao fundo, para auditório, ocupado pelo Instituto Histórico e Geográfico desde 1979.

Data deste período a dispersão do acervo da igreja. As velhas palmas e ornamentos tradicionais foram substituídos por objetos decorativos modernos, assim como móveis, alfaias e paramentos. Cabe também mencionar o desaparecimento das imagens de Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora dos Remédios, três castiçais e uma cruz, ocorrido em dezembro de 1994, ainda não recuperados.

Em 2004, foi feita obra de conservação dos telhados com o apoio do Fundo Nacional de Cultura e do IPHAN.

Em 2016, com apoio financeiro do BNDES, tendo como contratante o Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, realizou-se a restauração arquitetônico, a restauração de telhados quando foram trocados madeiras e beirais, os forros, os assoalhos de todos os cômodos laterais e coro foram substituídos, assim como o da capela-mor que voltou com paginação de campas.

O assoalho da nave foi meticulosamente restaurado, mantendo-se a madeira original. Todas as esquadrias de portas e janelas foram restauradas e/ou substituídas quando não aproveitáveis. A porta da frente teve as ombreiras substituídas.

Destaques na decoração são as imagens que compõem a cena do calvário que têm mais de 2 metros de altura: Crucifixo, Nossa Senhora e São João Evangelista; as imagens de Santa Cecília e Santa Catarina de Alexandria, nos nichos laterais; Nossa Senhora das Dores, do altar colateral do lado do Evangelho, e Nossa Senhora dos Remédios, no altar do lado da Epístola.

Sobre as peças da Igreja de São João Evangelista, até o momento não foi localizada nenhuma documentação que possa elucidar a autoria e datas exatas.

Esse conjunto de imagens tem certa semelhança com o conjunto de imagens dos Sete Passos da Paixão existente na Igreja Matriz de Santo Antônio, datado de 1793 e de autoria de certo Antônio da Costa Santeiro que também é autor dos anjos trombeteiros do órgão da Matriz ,datados de 1788.

 

fonte:

  • IPHAN, textos Olinto Rodrigues dos Santos Filho
    Pesquisador do IPHAN
  • www.tiradentes.net/igrejas
  • www.revistamuseu.com.br

 

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