IGREJA de SAN CRISTOBAL – PARTE I: A grande imigração europeia e a criação de novos bairros na cidade de Buenos Aires

Historicamente o bairro de San Cristóbal caracterizou-se por ser um local onde muitas famílias tradicionais da sociedade portenha tinham suas fazendas. Havia também grandes terras para o cultivo de vegetais e alfafa, algumas delas com extensas hortas.

A chegada massiva de imigrantes ampliou os antigos limites da colônia, transformando a região metropolitana em residência das classes trabalhadoras. Por sua vez, a expansão dos meios de transporte, como ferrovias e tranvias, permitiu que as classes trabalhadoras acessassem os subúrbios e ali adquirissem terrenos ou casas a preços mais baratos do que no centro da cidade.

O bairro surgiu a partir da construção da Igreja de San Cristóbal e do Mercado de San Cristóbal, sendo este o primeiro mercado da cidade de Buenos Aires, ainda hoje em funcionamento.

A origem do Bairro de San Cristóbal


Quando foi criado o bairro de San Cristóbal, em 1869, eram os tempos em que os municípios se dividiam em relaçao aos terrenos ao redor das igrejas e paroquias, chamados “limites paroquiais”. A primeira divisão eclesiástica na cidade de Buenos Aires foi organizada em 8 de julho de 1769 e estabeleceu a criação das paróquias de Catedral, Concepción, La Piedad, Socorro, San Nicolás e Monserrat.

Um século depois, o Legislativo de Buenos Aires aprovou um acordo firmado em 28 de junho de 1869 entre o Poder Executivo e a Igreja, pelo qual em virtude da expansão do território da cidade, uma segunda divisão paroquial era necessária. Então foram adicionados a aquelas seis paróquias existentes, as seguintes igrejas: San Telmo, Santa Lucía, del Pilar, San Miguel, Balvanera, Catedral al Sur e San Cristóbal.

Nessa época, essa área de quintais viu sua população aumentar rapidamente, enquanto suas ruas começaram a se delinear e suas primeiras casas foram construídas.

Igreja de San Cristóbal, Av. Jujuy

Para cumprir esta diretriz da nova divisão paroquial, foi necessário construir a Igreja de San Cristóbal na atual Av. Jujuy entre San Juan e Cochabamba, que só foi abençoada em 10 de fevereiro de 1884. Nessa data, com a presença do Presidente Julio A. Roca, foi inaugurada parte da atual igreja.

Os terrenos desta freguesia eram imensos, uma vez que abrangia toda a metade sul da freguesia de Balvanera, cuja sede era a Igreja Nossa Senhora de Balvanera.

A dinâmica do bairro começa a mudar a partir da construção de templos religiosos como; a capela de Nossa Senhora del Carmen em 1870 (entre San Juan e Matheu), a Paróquia de San Cristóbal em 1884 (Av. Jujuy 1229) e paróquia de Santa Cruz em 1894 (Estados Unidos 3150).

Na década de 1880 o bairro já possuía algumas ruas de paralelepípedos como as atuais avenidas Entre Ríos, San Juan e principalmente La Rioja, que chegou a ser conhecida pelo nome de Florida del sur.

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No ano de 1882, ao mesmo tempo que se fundava a estação ferroviária “11 de Setembro” (atual “Estação Once” do Trem Sarmiento), no bairro vizinho de Balvanera, surgia o Mercado de San Cristobal, considerado o primeiro mercado da cidade de Buenos Aires, ainda em funcionamento até hoje. Ainda mais velho do que os mercados de Abasto (1889) e San Telmo (1897).

O bairro de San Cristobal, desta forma, teve primeiro seu mercado e depois seu templo, inaugurado em fevereiro de 1884, embora a primeira grande estrutura do Mercado tenha sido construída em 1887. Era de ferro e vidros amplos, com telhado de duas águas.

Os imigrantes európios


A Argentina foi o segundo país do continente americano a receber a grande onda da imigração europeia, depois dos Estados Unidos. A Constituição de 1853 incentivou abertamente a imigração, mas se tornou massiva na década de 1880. A maior parte dela se estabeleceu em Buenos Aires e no interior do país (na região central da Pampa).

A oferta de terras públicas serviu de isca para atrair os camponeses europeus. Uma lei de outubro de 1862 concedeu a cada família de imigrantes um lote de 40 ha. para trabalhar. O governo autorizou a entrada sem franquia de ferramentas, sementes, maquinários, etc. Durante a presidência de Avellaneda, por meio da Lei de 1876 foi criado um Escritório de Terras e Colônias encarregado de distribuir lotes de 25 a 50 ha. Na chegada, os imigrantes eram alojados gratuitamente no Hotel dos Imigrantes por 5 dias.

De acordo com os diferentes períodos de imigração, os locais de origem dos imigrantes foram mudando: entre 1860 e 1890, tratava-se de mão-de-obra qualificada, formada por pequenos agricultores e artesãos que deixaram a periferia da Europa industrializada; entre 1890 e 1930, eram camponeses sem terra e desempregados das aldeias da Andaluzia, Balcanes, Líbano, Polónia, Ucrânia, Itália, com mão-de-obra menos qualificada e menos instruída.

Uma multidão no comedor de imigrantes a começos do século XX

O primeiro censo nacional argentino foi realizado em 1869, e posteriormente foram realizados em 1895 e 1914.

Em 1869 a cidade tinha 19.309 casas. Dezoito anos depois, em 1887, foi realizado o primeiro censo municipal de Buenos Aires com 33.804 casas construídas. Quanto ao censo de 1895 informava 54.795 casas e que a população total de Buenos Aires (CABA) era de 663.854 habitantes, dos quais 318.361 eram argentinos e 345.493 estrangeiros. Este censo também mostra a expansão da população em direção à área metropolitana da Grande Buenos Aires, com a população total do país de 4.044.911 habitantes.

Em 1887, a população do bairro de San Cristóbal passou de 3.171 habitantes para 37.765, o que a tornou a área da cidade com o maior aumento populacional em dezoito anos, um terço dos quais eram estrangeiros.

Em junho de 1914 foi realizado outro censo nacional, onde se observa que a população da cidade de Buenos Aires mais que dobrou em 19 anos, com 1.575.814 habitantes registrados. O número de argentinos (797.869) e estrangeiros (777.845) agora era quase o mesmo. No que diz respeito à nacionalidade, os espanhóis passaram a igualar aos italianos, que sempre foram muito superiores. Nesse período, contamos com 312.267 italianos e 306.850 espanhóis.

A expansão da cidade


A zona sul sempre foi o bairro mais importante de Buenos Aires. A proximidade do porto de La Boca e a atividade comercial tornaram esta área a mais densamente povoada da cidade.

A febre amarela atingiu o sul da cidade entre 1870 e 1871, deixando inúmeras vítimas. Assim, os ricos moradores do bairro de San Telmo decidiram se mudar para o norte, onde havia maior quantidade de áreas verdes, onde os terrenos eram mais elevados, as casas eram amplas e ventiladas, sem superlotação, o que resultou em melhores condições higiênico-sanitárias.

A partir daí, os grandes sobrados abandonados de San Telmo foram subdivididos em vários cômodos e tornaram-se cortiços, acomodando os imigrantes recém-chegados à cidade. Este fato aprofundou ainda mais a divisão da cidade em estratos sociais muito definidos: a aristocracia foi agrupada ao norte da cidade, enquanto o sul foi ocupado pelo proletariado.

Mais ao sul, em 1870, La Boca já tinha grande parte de sua aparência atual e em 1895 tinha uma população de 38.000 habitantes, 17.000 argentinos, 14.000 italianos, 2.500 espanhóis e o resto de outras nacionalidades.

Desde a década de 1880 os comerciantes e proprietários da zona sul reclamavam ao presidente Roca e ao prefeito Torcuato de Alvear a falta de atenção aos problemas municipais como as condições insalubres em que viviam, a falta de calçamento, iluminação, ausência de parques e praças, etc., enquanto a zona norte foi embelezada e beneficiada, incluindo os grandes Parques Três de Febrero, Jardim Botânico e o Zoo. O poder político no Conselho Deliberativo era administrado por aqueles homens que também detinham o poder econômico da cidade, beneficiando abertamente apenas um fragmento da cidade e um setor social específico.

Os ocupantes dos conventillos na primeira década do século XX foram os habitantes da periferia das décadas subsequentes

Em decorrência da migração provocada pela febre amarela, o bairro norte se formou na área de antigas fazendas e pomares além dos limites do Retiro e Recoleta, assumindo as características sociais que ainda hoje preserva.

Por volta de 1880 os subúrbios da cidade, ao norte, ficavam no extremo norte da Rua Florida, na atual Plaza San Martín (onde havia uma Praça de Touros) e na estação terminal ferroviária do Retiro (onde originalmente havia um reduto de escravos), e que mais tarde recebeu quartéis e foi finalmente a sede de uma das primeiras indústrias (Fabrica de Gás) e do Hotel de Imigrantes.

Em direção ao Oeste


Em 1820, os limites urbanos de Buenos Aires ao oeste estendiam-se até a Av. Entre Rios (e sua continuação a Av. Callao), onde atualmente está localizado o Congresso Nacional.

Em direção ao oeste, a cidade continuaria a se expandir seguindo a primeira linha ferroviária do país, que chegou a Flores em 1857, e a atual Avenida Rivadavia, a mais importante artéria que atravessa a cidade de leste a oeste (hoje a maior avenida do mundo). Os bairros Flores e Devoto tornaram-se as áreas de residência de verão e fim de semana dos setores ricos, como foram Palermo ou Belgrano no norte.

O valor do terreno aumentou em Flores no verão de 1871 devido ao aumento da procura de novos terrenos durante a epidemia de febre amarela, por tanto foram criadas atividades de lazer e recreação já que a área tinha alcançado uma sólida reputação como um local de verão para as mais importantes famílias de Buenos Aires. Mas o bairro de Flores aos poucos se tornou num bairro de trabalhadores (classe média) devido à frequência dos trens e à quantidade de tranvías que cruzavam a área.

A linha de edifícios que acompanhava a avenida Rivadavia desde a Praça Once até o bairro de Flores tinha água encanada, esgoto, iluminação pública, ruas de paralelepípedo, mas no resto do percurso quase não havia serviços. A parte sul do bairro não contava com serviços.

Outro elemento importante na expansão da cidade, são os leiloeiros, que se tornaram os verdadeiros promotores dos espaços intermediários entre as estações de trem, oferecendo terrenos a baixo custo e parcelado o pagamento. Isso possibilitou que um grande número de operários, artesãos, empregados ou pequenos comerciantes se tornassem proprietários nas “periferias” onde a terra era mais barata, obtendo assim, empréstimos por parte de leiloeiros ou das construtoras.

Uma ambulância cruza a porta de entrada do Hospital de Infectologia “Dr. Francisco J. Muñiz”, 1890

A presença de hospitais, quartéis militares, cemitérios e lixões cresceram na periferia da cidade. Foram instalados o Hospital Geral de Homens, Hospital Británico, o Hospital Italiano e os hospitais psiquiátricos masculinos (hoje Borda) e femininos (hoje Moyano).

Já o primeiro hospital do bairro de San Cristobal surgiu em 15 de maio de 1887, quando o Hospital Francês foi inaugurado. Atualmente, o bairro vizinho; Parque Patricios, forma uma importante área hospitalar, existem também os hospitais de Tisiologia, o Hospital de Gastroenterologia, o Churruca, o Penna, a maternidade Sardá, o Malbrán (hoje Instituto de Microbiologia), o Hospital Muñiz (especializado em infectologia) e o Hospital Nacional de Pediatría (fundado em 1779 como casa de Expósitos).

Rede de Transporte


A área metropolitana de Buenos Aires emergiu de três satélites: Flores, Belgrano e Barracas. O grande crescimento da população de toda a Grande Buenos Aires deveu-se, por um lado, à entrada de grandes contingentes de imigrantes e, por outro, à expansão dos meios de transporte como ferrovias e tranvías que permitiram o acesso das classes trabalhadoras para os subúrbios e comprar terrenos ou casas lá a preços mais baratos do que no centro da cidade.

Assim, a construção da rede ferroviária, que se espalhou rapidamente por todo o país, teve um grande impacto local e nacional. Assim, as áreas mais distantes do centro foram incorporadas à planta urbana e novos bairros foram formados em torno das estações, que com o tempo virariam bairros populosos.

Primeiros tranvías a cavalo de Buenos Aires

Outra modalidade que aparece quase em conjunto com a ferrovia são os tranvías a cavalo.

Em 1863 foi inaugurada a primeira via como complemento do Ferrocarril do Norte, desde Plaza de Mayo até Retiro. Em 1870, já contava com uma rede compacta de transporte urbano.

O tranvía elétrico foi o promotor de muitos bairros da cidade e das áreas intermediárias entre as estações ferroviárias

O tranvía elétrico circulou pelas ruas de Buenos Aires em 1897, percorrendo a Avenida Las Heras desde Canning à Plaza Italia a 30 km/hora, uma velocidade altíssima para a época. Esse sistema se expandiu rapidamente pela cidade, aumentando o serviço e diminuindo o preço da passagem, até parar de funcionar em 1962.

Com o intuito de para provar que Buenos Aires era uma cidade moderna se comparada a outras cidades latino-americanas, em 1913 foi inaugurado o metrô, o primeiro de toda a América Latina, destinado a solucionar problemas de circulação na cidade.

O primeiro a fazer uma rota fixa foi em 1928, data da posse do presidente Hipólito Yrigoyen

No final desse período, um novo meio de transporte urbano começou a circular pela cidade: os colectivos , nome dado aos ônibus urbanos na Argentina. Em 1931 o Município regulamentou este serviço, passando a ser o mais usado e mais rápido em relação ao seu custo.

 

Fonte:

  • http://www.historiaparroquias.com.ar/basespub/iglesia.php?numero=3
  • http://www.revisionistas.com.ar/?p=9648
  • https://buenosaireshistoria.org/juntas/junta-san-cristobal/
  • Nuevos lugares en la Ciudad Autónoma de Buenos Aires: los centros comerciales – Silvana Sassano Luiz (1)

 

 

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