Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia de Ouro Preto (MG) – Part II: A Mercês de Cima

A devoção de Nossa Senhora da Mercês em Ouro Preto tem duas igrejas onde ela é a padroeira: a “Mercês de baixo” (cujo nome correto é Nossa Senhora das Mercês e Perdões e a outra é a “Mercês de cima” (situada acima da cidade e bem próxima do Hospital da Irmandade da Misericórdia).

A irmandade de Nossa Senhora das Mercês, oriunda a partir da Arquiconfraria da Igreja São José, era uma associação de pardos e crioulos, representante de segmentos que buscaram afirmação social na antiga Vila Rica, sobretudo, a partir da década de 1740, quando os pardos começaram a adquirir presença na estrutura social da época.

Conhecida popularmente como a “Mercês de Cima”, foi construída entre 1771 e 1793.

Praça Tiradentes: Mirante no adro da Igreja


A igreja forma parte do conjunto arquitetônico da Praça Tiradentes, polarizada de um lado pelo Museu da Inconfidência (antiga Casa de Câmara e Cadeia), e de outro pelas dependências do antigo Palácio dos Governadores (atual Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas).

O frontispício da Igreja das Mercês e Misericórdia, que se mostra plenamente visível na cidade, especialmente para quem sai da Praça Tiradentes e vai em direção à Rodoviaria de Ouro Preto, esta localizada na proximidade dessa igreja, na atual rua Padre Rolim.

Quem vem a pé da rodoviária, a caminho da Praça Tiradentes é um dos primeiros templos que o visitante vê ao chegar em Ouro Preto.

O seu adro conforma um mirante com uma vista impressionante da cidade de Ouro Preto

Irmandade das Mercês


A Irmandade de Nossa Senhora das Mercês foi instituída em Vila Rica entre os anos de 1740 e 1754 e funcionou primeiramente na Capela de São José, onde permaneceu por cerca de 20 anos.

Igreja São José, Ouro Preto (MG)

A irmandade de Nossa Senhora das Mercês em Ouro Preto, oriunda a partir da Arquiconfraria da Igreja São José, era uma associação de pardos e crioulos, representante de segmentos que buscaram afirmação social na antiga Vila Rica, sobretudo, a partir da década de 1740, quando os pardos começaram a adquirir presença na estrutura social da época.  A Arquiconfraria de São José de Ouro acolhia outras associações de leigos, dentre elas a do Cordão de São Francisco, a de Santa Cecília, a de Nossa Senhora do Parto, a das Mercês e a de Nossa Senhora de Guadalupe.

Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia em Ouro Preto (MG)

A relação entre o edifício e o citado lugar é ainda explicada pelo fato de Nossa Senhora das Mercês no Brasil ser uma invocação de militares, o que justificava a proximidade da igreja com o quartel de guarnição da antiga vila, posteriomente demolido, em cujo terreno fora construída escola pública.

Outro fato influenciou igualmente a decisão da escolha do sítio, ou seja, uma indicação favorável do senado da câmara para a ocupação de parcela situada na parte alta do quartel, ao contrário do que pretendia a Ordem Terceira das Mercês e Misericórdia. Pleiteava essa, por meio de petição feita ao Governador, Conde de Valadares, a permissão de implantação da igreja em terreno de cota inferior do relevo, ficando explicitada a mesma relação de contiguidade com o referido estabelecimento militar. Tal posicionamento, porém, foi contestado e embargado pela Câmara. Apesar da falta de esclarecimentos sobre o assunto, consideramos que a decisão tomada sobre a implantação da Igreja das Mercês e Misericórdia, em local de topografia alteada, representou a melhor opção possível, na cercania dos órgãos do poder.

Cabe destacar que o espaço escolhido para edificar era decorrente da influência ou do poder de decisão de vários grupos atuantes na sociedade colonial.  Nesse sentido, é inegável o prestígio político dos mercedários leigos em Ouro Preto, identificado no período pós colonial a partir de lideranças pertencentes aos partidos conservador e liberal da região.

A construção da Igreja própria


Conforme a eleição do local, tão logo decidiu-se a construção do seu próprio templo, em função da licença eclesiástica obtida em 8 de outubro de 1771, iniciando-se no ano seguinte as obras de construção.

Arrematadas por Henrique Gomes de Brito e embora tivessem evoluído rapidamente, apenas pequena parte da igreja encontrava-se concluída por ocasião da trasladação da imagem de Nossa Senhora das Mercês da Igreja de São José para a nova capela, em fins de 1773. No início de 1774, Henrique Gomes de Brito arrematava a obra nos telhados da nave e, em 1782, o carpinteiro Inácio Pinto Lima foi contratado para fazer o risco do arco-cruzeiro, pregar o forro e assentar os altares. No ano seguinte, o artista Manuel Francisco de Araújo assume a execução de dois dos seis altares previstos.

Diante das lacunas da documentação arquivística, não há como compor uma cronologia rigorosa de sua construção. Segundo Furtado de Menezes, antes mesmo da conclusão das obras, uma parte da construção ameaçava ruína, determinando a sua reconstrução. Ao que parece, estas obras tiveram início em princípios do século XIX e se estenderam por mais de 60 anos. Nesta fase construtiva, o projeto inicial foi alterado, advindo dessa mudança a substituição por torre única central.

A Fachada


O conjunto construído está estruturado de acordo com padrão clássico observado em muitas edificações religiosas no Brasil

Embora construída na segunda metade do século XVIII, a Igreja de Nossa Senhora das Mercês assemelha-se às construções do início do século, pela rígida marcação de seu volume arquitetônico, dividido em dois blocos quadrangulares compostos pela nave e capela-mor, porém aqui sem a inserção das torres laterais, pois aqui aparece uma única torre central.

As fachadas laterais sóbrias apresentam aberturas em arco abatido, com sobrevergas lisas, que possibilitam a entrada de luz direta na igreja. As aberturas em arco abatido apresentam as sobrevergas lisas, enquadradas em cantaria. Sendo assim, o frontispício simétrico apresenta uma concepção mais sóbria e com linhas retas.

Apesar da situação privilegiada na topografia do lugar, o volume da edificação considerada é bem simples, seguindo partido escalonado, com desníveis nas coberturas dos telhados, que torna evidente as funções desempenhadas em planta baixa. A parte mais alteada da cobertura abrange o átrio, o coro e a nave. A outra parte corresponde à localização da capela-mor, de corredores laterais, da sacristia, espaços esses encimados por tribunas laterais e pelo consistório.

Torre única central


A torre única central, característica das capelas com estrutura de esteios de madeira, a exemplo de Nossa Senhora do Ó, em Sabará, Mercês e Arquiconfraria de São Francisco em Mariana, Santana e Rosário dos Pretos em Conceição do Mato Dentro.

A fachada só foi concluída em princípios do século XIX, ela não comportava torres e que por volta de 1840 ainda se encontrava ainda inacabada. A incorporação da torre única centralizada desorganizou o espaço já construído do coro, como pode ser visto no interior da igreja.

Verificamos também que as duas janelas-balcão possuem guarda-corpos com balaustradas barrocas

Portada


É possível observar na construção, dois estilos, de dois períodos distintos. A Igreja possui elementos do Barroco/Rococó Mineiro (a portada em pedra sabão, parte do desenho da nave e altares) e do Neoclássico com o entablamento em linhas retas e o frontão triangular (a torre central em alvenaria, elemento introduzido posteriormente na composição do templo). 

Externamente, a fachada é marcada pelo frontão triangular, encimado pela torre central, e pelo medalhão trabalhado sob a linguagem Rococó logo acima da portada.

Entretanto, na composição da fachada, a torre é integrada de forma harmoniosa pela interrupção da cimalha, que a liga visualmente à portada ornamental esculpida por Manoel Gonçalves Bragança em 1810.

Durante muitos anos, os estudiosos acreditavam que o frontão dessa igreja era de autoria de Mestre Aleijadinho. Hoje acredita-se que a obra é de Manoel Gonçalves Braga, tendo sido feita em 1810, em pedra sabão, utilizando o estilo de Aleijadinho.

 

A portada do alçado principal contrasta com a composição sóbria, rígida e simétrica do frontispício, verticalizado por meio de torre única situada ao centro dessa elevação.

Frontão


No centro da tarja emoldurada de rocalhas e flores, Nossa Senhora das Mercês abriga sob seu manto dois “cativos” ajoelhados, um dos quais ainda preso a uma corrente. A frase da inscrição Venite ad me omnes qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos (Vulgata, Mateus 11.28]), que significa “Vinde a mim todos os que andais em trabalho, e vos achais carregados, e eu vos aliviarei”, expressa as aspirações dos trabalhadores mulatos e crioulos à melhoria de suas duras condições de vida. 

Nesse medalhão, sobressai a figura da Virgem de braços abertos, ladeada por dois querubins que estendem seu manto de proteção a pobres cativos, posicionados em genuflexão. Figuras essas que simbolizam o sonho do fundador da Ordem Real e Militar de Nossa Senhora das Mercês da Redenção dos Cativos, São Pedro Nolasco (1189-1226), fidalgo dedicado à causa dos cristãos dominados pelo jugo sarraceno na Península Ibérica. Tal representação, segundo Carlos Del Negro, é uma adaptação de estampa exposta na sacristia da igreja.

O cemitério anexo foi construído em 1828

 

 

fonte:

  • Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia em Ouro Preto: religiosidade e rivalidade nas Minas Setecentistas – Marcelo Almeida Oliveira (1)
  •  Fé e Cultura Barroca sob o Manto Mercedário: Hierarquias, devoções e sociabilidade a partir da irmandade de Nossa Senhora das Mercês de Mariana – Vanessa Cerqueira Teixeira (2)
  •  http://portal.iphan.gov.br/

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