GALERÍA GÜEMES – Parte I: Na Rua Florida se encontra o primeiro arranha-céu de Buenos Aires

A Galeria Güemes destaca-se por ser um edifício multifuncional, à maneira de um microcosmo urbano. Lojas, apartamentos, restaurantes, escritórios, dois teatros no subsolo, sistema de distribuição pneumática de correio, um café notável e um mirante com mais de 80 metros de altura.

O edifício da Galeria Guemes ostenta dois títulos impressionantes. É o primeiro arranha-céu de concreto da América Latina. É também o primeiro no mundo a ser um arranha-céu em conjunto com uma galeria comercial.

O aparecimento desta obra no cenário da construção de Buenos Aires de 1915 causou grande impacto na imprensa e opinião pública, tornando-se o passeio preferido dos portenhos na famosa Rua Florida.

Rua Florida


A Rua Florida foi a primeira rua de paralelepípedos de Buenos Aires, fruto de uma iniciativa do Vice-rei Vértiz no final do século XVIII. A rua, no sentido norte-sul no tabuleiro de xadrez da cidade, foi ocupada em seus trechos mais centrais por famílias abastadas que construíram importantes casarões e assim continuou até boa parte do século XX, quando a moda urbana mudou a rua Florida e perdeu seu caráter residencial para se tornar em uma importante artéria comercial.

A rua Florida lotadíssima, à direita pode-se apreciar as placas da Galería Guemes e seu Teatro Florida (gênero alegre)

Cheia de história e tradição, o calçadão da Flórida é um dos lugares mais representativos da essência de Buenos Aires. Sua evolução foi tal que em 1911 foi decidido proibir o tráfego de veículos entre as 11 hs e 21 hs. Finalmente, em 30 de junho de 1971, foi transformada em área de pedestres.

As origens da Galeria Güemes


A história dos arranha-céus de Buenos Aires começa com a construção das Galeria Güemes, na rua Flórida 165. Inaugurado em dezembro de 1915, foi considerado o primeiro arranha-céu construído em Buenos Aires, com 14 andares e 87 metros de altura.

O edifício da Galeria Güemes é considerado um dos primeiros arranha-céus de Buenos Aires com seus 87 metros de altura

Os proprietários do Banco Supervielle emigraram da França na segunda metade do século XIX e fundaram o que mais tarde se chamou Banco de Montevideo S.A., na cidade de Montevidéu, Uruguai. Em 1887, eles fundaram o Banco Supervielle y Cía. Banqueros (subsidiária de L.B. Supervielle y Cía Banque Française) em Buenos Aires. Este banco ofereceu depósitos à vista, depósitos a prazo, caixas de poupança, negociação de títulos, compra e venda de moeda estrangeira e ordens de pagamento e cartas de crédito em centros financeiros europeus.

Para instalar a sede na Argentina, eles escolheram um terreno localizado na Rua Catedral nº 74 (atual San Martín, a rua imediatamente paralela ao leste da Flórida). Esta rua se caracterizou por concentrar a atividade bancária e financeira de Buenos Aires até hoje, com grande concentração de bancos e casas de câmbio. O banco obteve um terreno que pertenceu ao General Angel Pacheco. A primeira intenção era construir um edifício de escritórios conjuntamente a uma galeria comercial que se seria chamada “Galeria Pacheco”.

Por sua vez, do outro lado no terreno que da para rua Florida 150, havia uma casa de altos (como eram chamados os prédios antigos que tinham além do térreo, um primeiro andar). Essa velha casona de 1830 pertencia a Emilio San Miguel e David Ovejero donos de grande fortuna (este último tinha sido governador do estado de Salta entre os anos 1904 – 1906 e posteriormente, senador nacional). Nesse terreno eles planejaram a construção de um arranha-céu.

Emilio San Miguel e David Ovejero
Francesco Gianotti (1881-1967)

O arquiteto italiano Francesco Gianotti  formou-se arquiteto em Torino (sua cidade natal) em 1904. Cinco anos depois, chega a Buenos Aires como designer do Pavilhão Italiano para a exposição que aconteceu na cidade por ocasião das comemorações do Centenário da Revolução de Maio. Embora tenha voltado à Itália após o término das comemorações, no ano seguinte voltou a Buenos Aires, instalando seu estudio na rua Paraná 900.

Imediatamente Francisco Gianotti tornou-se o arquiteto preferido de David Ovejero e Emilio San Miguel, encomendando várias obras no estado de Salta: Hostería “Parque de los Lagos” (atual Museu de Ciências Naturais); Mercado Central de Salta, (propriedade de Emilio San Miguel – 1914); Chalet Usandivaras (Boulevard Belgrano na esquina da Passagem de Castro); Decoração interior do Clube 3 de Febrero da cidade de Salta (1917); Pavilhão do Parque 3 de Febrero, (demolido em 1920).

Tendo feito vários trabalhos na cidade de Bs As, decidiu participar no concurso convocado por Ovejero e San Miguel para a construção do seu arranha-céu. O projeto de Gianotti foi aprovado em setembro de 1912, após vários exames técnicos e econômicos. Seu estudo foi então encomendado para preparar os planos para apresentação ao Município e iniciar a licitação das obras.

Joaquín S. de Anchorena, prefeito de Buenos Aires entre 1910 e 1914

Como o edifício  ultrapassava a altura permitida na época(14 andares e quase 80 metros do nível da calçada) e conjuntamente havia sido projetada uma sala de espetáculos públicos no porão, o que também era proibido, o prefeito Joaquín S. de Anchorena teve que recomendar ao Conselho Deliberativo a autorização da construção “porque a magnitude da obra constituiria um expoente do avanço arquitetônico do município e facilitaria o desenvolvimento do tráfego de pedestres naquela área de alta densidade”.

A pasta original apresentada à prefeitura apenas presentava um design preliminar de uma possível galeria de pedestres que pudesse ligar a rua Flórida a San Martín. Há quem diz que foi o próprio prefeito Anchorena, promotor da abertura das Diagonais Norte e Sul, quem fez com que fosse construída uma galeria-passagem no andar térreo do prédio. Por outro lado, o arquiteto Gianotti tinha uma profunda admiração pelas galerias “Vittorio Emmanuele” e “Humberto 1 °” em Milão e pelas galerias “Nacional” e “Subalpina” em Torino. A galeria “Vittorio Emmanuele”, construída entre 1865 e 1867, foi um símbolo de Milão e recebeu muitos elogios, valorizando as qualidades ambientais e urbanas. A ideia de Gianotti era fazer algo semelhante em Buenos Aires, uma cidade onde quase nenhuma história de espaços comerciais para o tráfego de pedestres era conhecida.

Martin Miguel Guemes, herói da independência e primeiro governador de Salta

Com a decisão tomada, o arquiteto italiano começou a negociar um acordo com o Banco Supervielle y Cía, proprietário de grande parte do terreno na rua San Martín 150/5261, necessário para a construção da passagem. Por fim, o Banco aderiu ao projeto ao qual foi incorporado o terreno necessário (58 m de profundidade por 11,4 m de largura). Ficou também estabelecida a obrigação das partes de construir os dois edifícios correspondentes, até juntá-los aos fundos, no mesmo estilo, utilizando os mesmos materiais decorativos e a mesma unidade de projeto. No início, a galeria foi batizada de “Pasaje Florida”. Posteriormente esse nome seria modificado a pedido de Ovejero e San Miguel pelo da “Galería General Güemes”, uma homenagem ao caudillo, herói do estado do qual ambos eram nativos.

A construção da Galeria Güemes começou em 10 de março de 1913 e foi concluída em 32 meses. A construtora foi a Compañía General de Obras Públicas (GEOPE), fundada em 14 de maio de 1913 em uma Assembleia Geral composta por prestigiosos representantes da indústria, da banca e do comércio. Destaca-se que os seus fundadores já trabalharam desde 1906 e que entre as suas principais obras figuram a Central Eléctrica Dock Sud (1907) e o metro da Linha A (1911-13), que localizado ao longo da nova Av. de Mayo, foi o primeiro metro de Sud América.

É justo registrar também que o Sr. Gianotti foi efetivamente coadjuvado em suas tarefas pelo engenheiro Manuel F. Pereyra Ramírez e pelo Sr. Nicolás Spallone, seu representante permanente na obra, que teve diariamente, desde o seu início, 300 a 600 trabalhadores ativos.

O mirante tem uma panorama privilegiada das cinco cúpulas na intersecção da Diagonal Norte e da Flórida: a do edifício “Miguel Bencich”, as duas do “Bencich Rent Building”, a do telhado colonial do antigo Banco de Boston, a cúpula da Equitativa del Plata e a fina cúpula da Assembleia Legislativa de Buenos Aires

Segundo relatos, o valor da Galeria Güemes ascendeu a dez milhões de pesos, tendo custado pouco mais da metade desse valor o terreno adquirido e os edifícios que tiveram que ser demolidos para erguer a nova construção, ao custo de que, por sua vez, finalmente subiu para cerca de quatro milhões e meio de pesos a mais.

A construção também foi marcada por vários contratempos, desde a falência que as custas da obra produziram aos seus proprietários (orçados dez milhões de pesos que enfim foram quinze) ao naufrágio do navio que trouxe os mármores italianos para a fachada sobre a Flórida, causado por um submarino alemão durante a Primeira Guerra Mundial.

De qualquer forma, em 15 de dezembro de 1915, foi inaugurado o primeiro prédio do país totalmente construído em concreto armado e fez a sensação dos transeuntes da rua Flórida.

Inauguração da Galeria Guemes


A inauguração foi organizada pelo Círculo de Imprensa e contou com a presença do Presidente da Nação, Victorino de la Plaza e descendentes do herói de Salta, o caudillo Martin Guemes. O teatro foi inaugurado com uma palestra do escritor Ricardo Rojas e naquela noite atuaram comediantes, dançarinos e acrobatas espanhóis.

Quando a galeria foi inaugurada, as dependências do andar térreo estavam ocupadas por importantes empresas da época: Cía. Argentina de Tabacos, Kalisay J. Greciet y Cía. (móveis), Luis Tirasso (vinho de Mendoza), Biblioteca Argentina, Grimaldi Subirana y Cía. (óptica e precisão), A. F. Belahunde y Cía. (pianos), Martín Marcó y Cía. (Charutos cubanos feitos com matéria-prima do país), Van Riel (mostra de fotografia artística), Agua Mineral Salta e La Vascongada (laticínios).

Em uma das instalações da rua San Martín, foi mantido o Banco Supervielle, enquanto em outra foi instalada a casa de câmbio Exprinter.

Na Rua Florida, por sua vez, um dos locais seria ocupado a partir de 1917 pela alfaiataria “Casa Tow”, propriedade do comerciante norte-americano Martin Tow, dono de uma das principais lojas de roupa masculina de Buenos Aires, em 1928, ele ficou fascinado pelo edifício e adquiriria a maior parte das ações do mesmo. Muito tempo depois, as instalações do alfaiate seriam ocupadas pela primeira filial portenha dos alfajores Havanna de Mar del Plata.

Fachada sobrea rua Florida, no fundo a cúpula do Banco Boston

Em 1917, a Bonafide (empresa de café ainda existente) abriu uma loja na galeria onde se vendia café e instalou a primeira torrefadora de grãos, um facto inédito para a época, onde o público podia ir ver torrar o café ao vivo. A Bonafide é hoje líder na produção e comercialização de café, bombons e chocolates. Desde 2003, possui um grande número de lojas / franquias, estendendo sua rede em mais de 240 lojas na Argentina, Chile e Uruguai.

Em 1932 se instala a loja Sellos Policella, fabricante de carimbos de borracha. É a empresa que há mais tempo habita na galeria. Hoje a loja se chama Casa Policella localizada no meio da galeria no local 6 e continua a vender carimbos de borracha.

Em 1950, aconteceu a inauguração da perfumaria “Ruiz y Roca”, herdeira do cabeleireiro frequentado por Bartolomé Mitre. É uma das melhores perfumarias da cidade. Assim, outras lojas do mesmo rubro foram estabelecidas, sendo que a Galeria Guëmes passou a chama-se “A Galeria dos perfumes”.

Em 1966 foi a vez da loja Cigarerria Ko ‘E’ Yu, ainda de pé ate hoje (local 10), que comercializa os melhores charutos da cidade.

A Rádio Libertad foi transmitida desde o subsolo do prédio da Galeria Güemes, dirigida pelo diretor e “zar” da televisão, Alejandro Romay. Durante alguns anos, a Galeria também hospedou a redação das revistas Nativa, Tía Vicenta e El Correo de la Tarde. O 14º andar foi totalmente remodelado por volta de 1930, formando compartimentos que deformaram o espaço original do restaurante. Naquela época, a lanterna-farol que coroava a torre do edifício também desapareceu.

Arquitetura Galeria Güemes


A arquitetura desta galeria do início do século XX é inspirada nos grandes armazéns europeus da época. A grande escala da construção não impediu o empenho no acabamento, expresso na qualidade e riqueza da sua ornamentação.

A Galeria Güemes foi concebida como um local de encontro e lazer, onde além das compras, aconteciam eventos sociais

Os visitantes daqueles anos ficaram surpresos com a variedade de usos e funções que abrigava em seu interior. No subsolo existia um teatro e uma importante sala de eventos e restaurante. No piso térreo encontrava-se a Galeria com espaço comercial e gastronomia variada. Desde o primeiro andar tinha escritórios e do 6º andar para cima ficavam os apartamentos totalmente mobiliados que eram alugados temporariamente. Ao chegar ao 14º andar, encontrava-se um grande restaurante que tinha belíssimas vistas para a cidade e onde soavam os acordes de uma orquestra que tocava desde uma varanda interna da sala. No nível superior fica o mirante, o ponto mais alto da cidade na época com uma vista única de 360 ​​graus.

Tudo isso acompanhado de inovações tecnológicas, como elevadores capazes de percorrer 140 metros em 60 segundos, sistemas de combate a incêndio que bombeavam até 24 mil litros por hora e eram acionados por alarmes elétricos localizados no térreo e no subsolo. Os diferentes setores tinham refrigeração, aquecimento e ventilação forçada, até um quadro luminoso que informava sobre a ocupação dos escritórios.

A galeria tinha dois halls de 20 metros de altura por 12 de diâmetro, cada um deles coroados com uma belíssima cúpula circular

Com o passar dos anos a galeria foi maltratada pela modernidade. No início do século XX, além dois problemas de filtração e umidade, a técnica do vidro que hoje é usada nem existia e os cristais se rompiam facilmente, tornando-se um perigo para quem visitava a passagem. Assim, por volta da década de 1940, decidiu-se cobri-los. As cúpulas foram cobertas com concreto, usando suas ferragens como ferros de cofragem. Os vitrais, as molduras, esculturas, claraboias e murais desapareceram sob uma imensa laje de cimento no teto da galeria toda.

Entre 2005 e 2008, foram realizadas as obras de restauro da nave da Galeria. O projeto destacou-se pela recuperação das cúpulas originalmente vidradas, bem como pela reparação dos mármores italianos trazidos para a sua construção original em 1914, o recondicionamento das inúmeras peças artesanais em bronze e a recuperação dos frescos que foram encontrados escondidos sob camadas de tinta.

O abandono


É importante notar que tanto o material quanto a técnica construtiva eram absolutamente raros para uma construção daquela altura naquela época. Dentro da paisagem urbana de Buenos Aires em 1915, o conjunto edificado deve ter tido um aspecto verdadeiramente monumental, favorecido pela ausência dos edifícios que posteriormente o ocultaram.

O primeiro corpo do edifício era constituído por um bloco uniforme de seis pisos, enquanto a galeria comercial corre ao longo do piso térreo com acesso às duas ruas. A torre residencial de oito andares ergue-se na ala que dá para a Rua Florida, mas o recuo significativo que apresenta a fachada em relação à linha municipal da frente do edifício, hoje torna impossível vê-la desde a rua.

Por isso, não só os turistas, mas os próprios argentinos desconheciam a história deste edifício histórico, passando completamente despercebidos durante seus passeios pela famosa rua Flórida.

Fachada original sobre a Rua Florida, antes do incêndio

No dia 10 de setembro de 1971, ocorreu um incêndio na loja de camisetas “El Cisne” sobre a rua Flórida que se espalhou por toda a fachada, destruindo toda a sua decoração original. A reconstrução não foi a mais bem-sucedida, com ares de modernidade a entrada foi recortada em altura para instalação de um mezanino ainda mais feio.

A única fachada original é aquela voltada para a rua San Martin.

Teatro indecente


A alta sociedade portenha reunia-se no seu teatro, batizado como Teatro Privado Emelco e na sua sala de chá adjacente: o Verona. O programa consistia em assistir à projeção de um filme (já que a princípio a sala funcionava como um cinema) e depois festejar com os amigos na sala adjacente, enquanto uma Orquestra de Moças ou uma Vitrola animavam a tarde.

Porém, ao longo dos anos, o espaço do teatro empezou a cobrar mala fama, já que as duas salas do subsolo se converteram em “antros” da mala vida: o teatro (agora chamado “Teatro Florida”), tornou-se em um Teatro da Revista, gênero teatral que combinava a participação de comediantes com vedetes. No teatro de revistas da Flórida, Pepe Biondi estreou em 1932 como palhaço e malabarista. José Marrone também passou como ator cômico e Juan Carlos Thorry se atreveu a cantar seus primeiros tangos. Enquanto a casa de chá virou um cabaré, o Abdullah Club (mais tarde Florida Dancing). Em meio dessas transformações, os dois espaços passaram a exibir espetáculos de streap-tease e filmes “realistas”, hoje chamados de pornôs.

Em 1963 fechou suas portas ao público e reabriu recém em 2004

Inacreditavelmente, este espaço ficou fechado por 45 anos, ate que em 2004 foram encarados os trabalhos de restauração que acabaram em 2008 devolvendo toda sua magia e esplendor do novo espaço batizado “Teatro Astor Piazzolla”.

 

fonte:

  • http://galeriaguemes.com.ar/galeria/
  • http://www.acciontv.com.ar/soca/bsas/fotos6/guemes.htm
  • http://www.petitherge.com/article-galeria-guemes-calle-florida-buenos-aires-104061345.html
  • http://www.acciontv.com.ar/soca/bsas/fotos6/guemes2.htm
  • https://www.buenosairesantiguo.com/pasaje-guemes/

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