ESTRADA REAL: Igreja São Francisco de Assis, Diamantina Brasil

O início da construção da Igreja de São Francisco de Assis data de 1762. Com apenas uma torre lateral e detalhes em cores fortes, a igreja chama a atenção pelo belo interior, onde é possível ver pinturas de José Soares de Araújo e Silvestre de Almeida Lopes, dois grandes nomes da arte sacra mineira. A igreja se destaca também por ser o local onde descansam os restos mortais de Chica da Silva.

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A Ordem permaneceu instalada na capela do Rosário até o início da década de 1770

Fundada em 1762, vinculada à província franciscana da Imaculada Conceição, sediada no convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, a Ordem dedicou seus primeiros anos à criação das bases administrativa e financeira. É interessante que os terceiros tenham se instalado, inicialmente, não na igreja do padroeiro da povoação, mas na capela da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Em 1772, já tinham ordem para a celebração dos cultos religiosos. Mas as obras continuaram  pelo século 18  e 19, pois existem referências a diversos  serviços, como o douramento de dois altares laterais, em 1874, e que parece ter sido estendido até 1880.

Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Diamantina

A Ordem Franciscana, fundada por Francisco de Assis no início do século XIII e difundiu-se extraordinariamente nos séculos posteriores. Seu fundador tornou-se uma das personalidades mais prestigiadas da história religiosa ocidental.

No Brasil, embora tenham vindo com Cabral oito frades e o superior frei Henrique de Coimbra, que aqui celebrou a primeira missa, a Ordem só foi instalada permanentemente em 1585, no convento de Nossa Senhora das Neves, em Olinda. Em seguida, muitos estabelecimentos conventuais foram fundados no Nordeste e em várias partes do território brasileiro, entre outros, os de Cairu, Igaraçu, Ipojuca, Marechal Deodoro, Penedo, João Pessoa, Salvador, Recife, Cabo Frio, Rio de Janeiro e Santos. Quanto às ordens terceiras, disseminaram-se, também, logo a partir da primeira metade do século XVII nos principais núcleos urbanos.

Em Minas Gerais, as associações de terceiros instalaram-se nas principais vilas nos anos 1740, geralmente abrigadas nas igrejas matrizes e, mais tarde, em capelas próprias, a exemplo de Ouro Preto (1746), Mariana (1748) e São João del-Rei (1749). Nas duas décadas seguintes, seguiram-se novas fundações, entre outras, as de Conceição do Mato Dentro (1757), de Diamantina (1762) e, mais tarde, as de Caeté (1783) e Vila do Príncipe (1782).

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A grande maioria dos irmãos era de origem portuguesa (1763). Entre 53 deles, 41 vinham de Portugal e cinco dos Açores

A irmandade era muito seletiva e composta principalmente por homens brancos, ricos e influentes. Em geral, agregavam pessoas ligadas às elites política, econômica e social e não admitiam negros, mulatos, judeus e hereges. O termo “terciário” não significa que eles são um sub-ramo da Primeira Ordem, mas se referem à ordem cronológica de sua aparição.

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A Ordem Terceira encontrava-se, portanto, em plena atividade no final do século XVIII

Não era para menos, pois estava concluindo sua bela capela, ornada e paramentada mediante concurso artístico dos melhores mestres artistas e oficiais do distrito Diamantino, após mais de 30 anos de perseverança e determinação. A grandiosidade desse templo e seu destaque arquitetônico e paisagístico expressavam e legitimavam a consolidação e poderio da Ordem e de seus membros na hierarquia política e social do antigo Tijuco.

Largo de São Francisco

O templo de Nossa Senhora da Conceição e São Francisco de Assis construído pelos irmãos terceiros franciscanos de Diamantina é um belo exemplar da arquitetura religiosa setecentista mineira de madeira e barro.

O fato de a Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Diamantina ter sido instalada em um arraial constitui uma exceção, mais uma entre tantas quando se trata do Tijuco, a antiga sede do distrito Diamantino.

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Com localização privilegiada, no alto do morro e com boa vista para a cidade

Localiza-se a noroeste, pouco distante da antiga matriz, em posição oposta à da igreja dos brancos carmelitas, com os quais concorriam pelo privilégio espacial nos centros urbanos.

A implantação em largo aberto, sobre plataforma elevada constituída por aterro, mostra a intenção dos terceiros em dar destaque paisagístico a sua capela, considerando que o sítio se situa na parte baixa em relação ao centro da antiga povoação.

A colocação do edifício no ângulo de duas ruas, isolado de outras edificações, e a escadaria monumental em dois lances que ocupa toda a largura frontal foram outros dispositivos empregados para sua valorização espacial na cena urbana.

Quanto ao arranjo volumétrico, adotou-se solução típica da arquitetura luso-brasileira, com diferenciação de volumes em sentido descendente a partir da frontaria, e a particularidade da torre única na lateral direita.

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O sistema construtivo empregado foi o predominante em toda a região, seja para a arquitetura religiosa seja para a civil: esqueleto estrutural em madeira, vedações em adobe emboçadas, rebocadas e caiadas de branco, e cobertura diferenciada dos volumes – quatro águas na torre, duas águas na nave e na capela-mor, e meia-água na sacristia e no consistório. Por meio dos volumes quadrangulares, portanto, pode-se ler claramente a disposição dos espaços internos.

A planta é composta pela organização sequencial de espaços retangulares em T, conforme a tradição da capela luso-brasileira dos séculos XVII e XVIII, com nave, capela-mor, ladeada por sacristia e consistório, e coro alto à entrada do átrio. Elemento excepcional, presente também nas igrejas do Rosário e do Bonfim, é a disposição da torre afastada do corpo da nave, no caso, ficando um vão entre os dois volumes, conforme as prescrições de Carlos Borromeu para a arquitetura eclesiástica.

Interior: as obras de ornamentação

Nas igrejas mineiras dentro do campo da talha prevaleceu o programa de três retábulos – o altar-mor e dois colaterais no arco cruzeiro – geralmente filiados à estética rococó, diferentemente do acervo diamantinense, no qual predominam as composições apegadas ao estilo joanino.

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O conjunto ornamental da capela é formado pelos retábulos, arco cruzeiro e tarja, púlpito, cimalhas e pinturas de tetos e painéis.

Os espaços principais têm acabamentos muito bem requintados, bombeados pelas abóbadas de berço das forrações da capela-mor e da nave. Ambas possuíam pinturas ornamentais em perspectiva, mas a da nave perdeu-se em data que não foi possível identificar.

No interior, essas passagens são marcadas sobretudo pela decoração pictórica dos tetos, altares e arco cruzeiro, e pela alternação da luminosidade na sequência de espaços – o átrio, mais sombrio; a nave, mais clara; e novamente a redução de luz na capela-mor.

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Ao fundo branco das alvenarias se contrapõem, ainda, o colorido e o brilho do douramento e da policromia dos retábulos, púlpito, arco cruzeiro e tarja

Na capela-mor,  estão as únicas obras integralmente  do século 18. De excelente talha e ao gosto joanino (apesar das colunas de fuste reto), o retábulo-mor  é  o ponto  alto dessa igreja franciscana. Os santos  de roca, tão populares em Minas na segunda metade do século, estão presentes. Ao centro, São Francisco de  Assis; nos nichos laterais,  Santa Maria Margarida de Cortona e São Domingo.

A movimentação do retábulo é acentuada pela disposição dos pares de colunas e modilhões em planos diferenciados e pelo tratamento monumental do trono e da base, coroado por dossel com sanefa ondulada e cortinados. Ali se abriga a imagem da Senhora da Conceição, também padroeira da Ordem.

O par de retábulos laterais da nave apresenta estrutura baseada na do retábulo do altar-mor.

O corpo é composto por quatro colunas compósitas dispostas em plano diferenciado, apoiadas sobre modilhões que ladeiam o sacrário alteado. No coroamento, o arco fechado do camarim é encimado por dossel sustentado por elemento contracurvado e inserido em arco superior arrematado por entablamento retilíneo. Nas extremidades, fragmentos sinuosos de cornija assinalam a prumada das colunas externas. Ao lado da estruturação joanina, a talha, no entanto, não tem o vigor do estilo. Ao contrário, é acanhada e tende para a simplificação do desenho e do volume.

No forro, a pintura do guarda-mor José Soares de Araújo não tem equivalente em  suas obras anteriores, “inaugurando uma nova fase estilística do artista, que Carlos Del Negro considera influenciada pelo rococó”, mostra a Virgem rodeada de anjos dentro de um medalhão cercado por motivos conchóides e guirlandas.

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Pintura da abóbada da capelamor ajustada com José Soares de Araújo: medalhão de N. Sra. da Conceição rodeada por anjos. Foto de Nelson Kon, 2008.

Com relação ao arco cruzeiro, os fustes e bases das pilastras receberam tratamento apainelado, em ordenamento compósito. A chave é assinalada por tarja dourada em versão mais leve do modelo joanino do Carmo, elaborado em 1766 por Manoel Pinto.

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O púlpito se localiza à direita, e o cancelo, ou grade, como se encontra nos documentos antigos, define a área dos altares laterais e divide informalmente o espaço da nave em duas seções diferenciadas por desnível no piso. Apresenta elegante perfil e bacia moldurada em desenho baseado no modelo adotado no púlpito da igreja carmelita.

Digno de nota é, também, o arranjo do coro, onde a arcada de sustentação, composta em modulação “a-b-a”, e o grande arco intermediário rebaixado – ornado no fecho por par de volutas contracurvadas e, nas bases laterais, por modilhões que amparam as pias de água benta – formam belo e elegante conjunto com a cimalha e a balaustrada torneada.

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Vista de ornatos em volutas da arcada do coro e lustres da nave da igreja

A história das intervenções

 As obras de construção da igreja, iniciadas em 1766, podem ser dadas como definitivamente concluídas no final da década de 1830, quando foram policromados e dourados os altares colaterais, embora a obra estivesse quase toda pronta por volta de 1800. Mas, foi a partir daquela década que os serviços de conservação passaram a se destacar na receita dos irmãos terceiros, incluindo intervenções que modificaram a configuração original do conjunto construído. No período imediatamente posterior à conclusão do templo, compreendido entre os anos de 1840 e 1865, a realização de serviços de conservação praticamente não foi necessária.

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Tarefas de restauração no telhado da igreja

O período entre 1840 e 1990 pode ser dividido em duas etapas marcadas pela execução de obras e ações de proteção da igreja. A primeira abrange da segunda metade do século XIX até 16 de maio de 1938, ano em que se deu o tombamento da cidade pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan. A segunda etapa, que se inicia nesse ano de 1938 e alcança a década de 1980, foi assinalada pela presença oficial da ação preservacionista, manifestada na execução de importante obra de restauração e pelo tombamento individual da capela de São Francisco de Assis.

A obra do Programa Monumenta, promovida entre 2005 e 2008, marca novo período da história da igreja, em especial pelo fato de o escopo das obras ter incluído os bens artísticos integrados, cuja restauração não foi contemplada no século XX.

No que diz respeito à função da igreja, não houve alteração desde a fundação, a não ser em alguns períodos especiais, como na época da demolição da antiga matriz em 1932 e da inauguração da catedral em 1940, quando a Ordem adquiriu o sino antigo e foi instalado o relógio da torre.

Perda irreparável, que prejudicou sensivelmente o arranjo ornamental e o valor artístico da igreja, foi a da pintura do teto da nave elaborada por José Soares de Araújo. A data precisa da ocorrência e as circunstâncias que a motivaram e caracterizaram não pôde ser desvendada a partir das fontes disponíveis.

fonte: IPHAN

Fotos: Nelson Kon / Ignacio

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