ESTRADA REAL: Igreja São Francisco de Assis, o Cartão Postal de Ouro Preto – Parte I

A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Ouro Preto localizada no Largo do Coimbra, na parte oriental do Morro de Santa Quitéria, é considerada como o melhor exemplar do Barroco Mineiro é uma das primeiras expressões artísticas originalmente brasileiras.

A fachada da igreja é uma das maiores inovações da arquitetura colonial. O Mestre Aleijadinho criou um monumental jogo de esculturas em pedra sabão para o destaque da portada. Vista de frente, com seu desenho arredondado, a igreja apresenta duas torres igualmente arredondadas, uma novidade para a época.

Nesta primeira parte vamos a acompanhar o processo de construção da igreja e seus artistas, para familiarizarmos com os canteiros de obras de Vila Rica que  funcionavam como uma oficina onde ocorriam trocas de experiências, saberes e técnicas construtivas, entre os diversos profissionais que atuavam nas construções  religiosas.

Breve Historia

Em sua chegada ao território mineiro o bandeirante Antônio Dias construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, por volta de 1699. O rápido crescimento da população do arraial de Antônio Dias exigiu a construção de um novo templo. Assim sendo, em 1727 iniciou-se a construção da atual Matriz de Antônio Dias.

Em primeiro plano, podemos ver a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, por trás dela acima, a Igreja de São Francisco de Assis e o Museu da Inconfidência

A Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Assis, primeira ordem criada em Vila Rica, foi fundada em 9 de janeiro de 1746, na Capela de Bom Jesus dos Perdões (hoje Mercês e Perdões) e agrupava os mais importantes membros da sociedade da época. Dez anos mais tarde já contava com muitos adeptos que, desde 1751, passaram a se reunir na Matriz de Antônio Dias.

Dentro das matrizes, os devotos dos diversos santos da mãe pátria erigiam as  Ordens Terceiras, construindo altares laterais junto a outras irmandades. É que, com o correr do tempo, crescidas em número de irmãos ou possibilidades financeiras, resolviam construir sua própria igreja. Convidavam para fazê-lo o melhor arquiteto, os melhores escultores e pintores, numa concorrência de destaque que acabaria produzindo incríveis exemplares de arquitetura religiosa em todo Brasil.

Várias outras Irmandades surgiram dentro da Matriz da Conceição, como a de Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Dores, São José dos Bem Casados e muitas outras, para edificar mais tarde suas próprias igrejas.

Início da Obra

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Aleijadinho foi filho do arquiteto  portugués Manoel  Francisco Lisboa e de uma mulher negra escrava. Nasceu por volta de 1738 e, desde muito jovem,  interessou-se pela arte, pela modelagem e pela escultura.

Aos 28 anos de idade, em 1766, ele projetou a nova Igreja dos Irmáos Terceiros  de São Francisco de Assis de Ouro Preto.

Os trabalhos começaram em 1766, pela capela-mor, que levou cinco anos para sua conclusão

Em 1770, com a construção já adiantada, entra em cena o Aleijadinho, que por mais de vinte anos trabalharia nessa igreja, à qual imprimiu  forte marca pessoal. Nos primeiros anos realiza os púlpitos e a decoração da abóbada da capela-mor.

A partir de 1774, contrata a obra da portada, para a qual forneceu um risco de concepção diferente do projeto anterior do frontispício.

Entre 1777 e 1779, com o lavabo da sacristia, Aleijadinho  encerra  a primeira fase de sua participação no canteiro de obras da igreja, ao qual voltaria dez anos mais tarde para a talha do retábulo da capela-mor, executada entre 1790 e 1794.

Em 1787, as torres sofreram um acréscimo e no ano seguinte foram feitos os telhados do templo. Finalmente, em 1794, Domingos Moreira de Oliveira conclui a obra de alvenaria.

Entretanto, quase toda a parte de douramento e pintura, assim como a execução da talha dos altares da nave ainda estava por fazer. Essa historia a compartilharemos num seguinte post que mostrara o incrível interior da igreja São Francisco de Assis, e a especial intervenção do mestre Manuel  da Costa Athaíde.

Cantaria em Minas Gerais

A técnica de cantaria consiste em lavrar a rocha em formas geométricas ou figurativas para aplicação em construções, com finalidade ornamental e/ou estrutural.

Em Ouro Preto, durante o século XVIII, o uso e a disseminação de rochas nas construções públicas, religiosas e civis permitiram a consolidação do núcleo urbano de Vila Rica. A ocupação seguia o curso do ouro, fato que determina a formação espontânea dos aglomerados na região. As aglomerações, denominadas arraiais, situavam-se na acidentada topografia das áreas ricas em depósitos auríferos e tinham como ponto comum um caminho como eixo demarcador.

É assim que Ouro Preto foi emoldurada nas ladeiras da cidade. O conjunto arquitetônico da cidade – pontes, chafarizes, igrejas, casarões – foi erguido por diversificados métodos de construção. Porém, a região, famosa pelas esculturas em pedra sabão da lavra do mestre Aleijadinho, optará, em definitivo, pelo emprego da pedra lapidar para erguer suas obras arquitetônicas, através da alvenaria e, principalmente, da cantaria.

Dada a adequação dos sistemas construtivos, a técnica da cantaria, introduzida entre os anos de 1735 e 1738, foi largamente empregada nas obras da colonial Vila Rica. O ofício do canteiro consistia em beneficiar, aparelhar e lavrar a pedra em formas geométricas para ser aplicada em construções como parte estrutural ou ornamental e, muitas vezes, as duas funções eram satisfeitas na mesma obra.

A matéria-prima para cantaria para essas construções foram feitas em grande parte através de matérias locais como o quartizito encontrado na Serra do Itacolomi nas proximidades da cidade.

Obras preliminares: A montagem do canteiro

Os canteiros de obras de Vila Rica começaram a funcionar como uma oficina onde ocorriam trocas de experiências, saberes e técnicas construtivas, entre inúmeros profissionais, de ofícios variados para levarem a cabo as construções  religiosas.

Após a irmandade receber a anuência para a construção da igreja por parte da Coroa, passava-se à escolha e compra do local onde a mesma seria construída. Iniciavam-se as obras preliminares e de montagem de tendas e ferramentas.

Devido a que o local se encontra numa pronunciada inclinação do terreno, já em 1765, foram iniciadas as obras de terraplanagem e, em 27 de dezembro de 1766, foi arrematada a obra de alvenaria pelo mestre pedreiro Domingos Moreira de Oliveira, obedecendo ao risco de Antônio Francisco Lisboa o “Aleijadinho”.

A magnífica arquitetura de Ouro Preto só foi possível graças à lapidação prévia do território –feita à base de muros de arrimo, taludes, plataformas artificiais, pontes etc. – que permitiram a instalação de um arruamento que concilia curvas de nível e inclinações radicais, bem ao gosto da tradição urbanística portuguesa. Sobre estas estruturas urbanas artificiais serão posteriormente erigidos os edifícios que séculos depois,se tornarão ícones turísticos da cidade.

Neste momento os mestres comprovavam serem homens de fábrica, ao demonstrarem que possuíam uma estrutura tanto material (como guindastes, andaimes, ferramentas, juntas de bois, escravos, dentre outros elementos). Com a estrutura adquirida e o canteiro de obras montado dava-se então o início das obras.

Ainda no que tange às subcontratações, os arrematantes lançavam mão das  mesmas sempre que necessário, oportunizando a inserção nas oficinas dos aprendizes, ou até mesmo de artífices já profissionalizados no ramo em que estava sendo preciso no período em questão,

Dos alicerces

No momento da fundação, o mestre-pedreiro Domingos Moreira de Oliveira deveria coordenar os trabalhadores para que estes executassem da melhor forma possível o que estava  recomendado no documento de arrematação, já que as obras passariam por louvações e vistorias da Ordem.

Aos ajudantes de pedreiros, chamados serventes, caberia, grosso modo, preparar a argamassa que seria levada até o local que estavam sendo feitos os alicerces pelos pedreiros responsáveis por preenchê-los com pedra e cal que conferiria firmeza às estruturas e que deveriam ser usados principalmente adonde recebe cunhais e encontros de arcos e adonde mais conveniente for para segurança da obra, pois seria nestes onde se assentariam as pedras para se iniciar a edificação da igreja.

A dimensão dos alicerces era desenhada em função dos volumes  que  a  estrutura for suportar, aprofundando-se e alargando-se à medida que as paredes forem ficando mais altas.

Ao se levar em consideração as proporções da obra, as quantidades dos vários materiais necessários e o tempo investido nas construções, assim como a qualidade dos trabalhos fica evidente que o esforço de grande número de trabalhadores foi consumido nos canteiros de   obras.

Dos embasamentos

Encilharia é a técnica construtiva onde são utilizadas pedras cortadas em forma de blocos em superfícies planas paralelas (denominadas pedras aparelhadas). Esta técnica, aplicada pelos profissionais, foi utilizada para construção dos embasamentos que no caso da igreja de São Francisco de Assis foram executados em cantaria. Os embasamentos eram feitos após os alicerces chegarem ao limite do solo. São conhecidos também como baldrame e servem de base para se levantar as paredes estruturais.

Das paredes estruturais

Consideram-se como paredes estruturais aquelas que além de se constituírem em vedação, suportam por toda sua extensão as cargas da construção como sejam, forros, cobertas e pavimentos superiores.

Para a construção de paredes estruturais em Minas Gerais foram utilizadas  técnicas  variadas  e  processos diversos. No caso de Vila Rica, na primeira metade do século XVIII, devido à profusão da madeira, as técnicas construtivas adotadas foram pau a pique e taipa de sebe. Posteriormente adotou-se taipa de pilão, adobe e pedra e barro e finalmente, na década de 1750, foram introduzidas a pedra e a cal, assim como o tijolo e a cal.

Pode-se dizer que a oficina de São Francisco de Assis foi para Aleijadinho o local propício para que ele pudesse colocar em prática os ensinamentos, aprendidos na oficina do Bom Sucesso tendo como provável mestre José Coelho de Noronha.

Aliás, na volumetria geral de sua construcáo, Aleijadinho pretende demarcar com precisáo o posicionamento da nave, criando sobre os corredores laterais uma cobertura abobadada que dava lugar superiormente a um piso revestido de lajotas de pedra, constituindo uma espécie de terraço descoberto guarnecido de balaustrada. Essa providencia provocava uma reentrância na fachada lateral, indicando onde terminava a nave e principiava a capela-mor. Infelizmente, a impermeabilização precária  fez com que, em 1801, aqueles espaços laterais fossem cobertos por telhados prolongados das águas- mestras da cobertura. Não sabemos se Aleijadinho, já idoso, participou dessa operação.

Das torres e sinos

Nas construções religiosas a principal função das torres é a de abrigar os sinos, constituindo a parte saliente e vertical das edificações. Nas igrejas onde inexistiam torres as soluções mais praticadas eram instalá-los no frontão (empena) da igreja internamente, acima do espaço ocupado pelo coro ou colocá-los numa construção independente próxima à igreja.

As torres que mais chamam atenção em Ouro Preto são as da igreja de São Francisco de Assis e as da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, elas sao de forma cilíndrica e recuada que aliada ao frontispício projetado para frente resulta numa visível tridimensionalidade.

Na composição da fachada de São Francisco  de Assis de Ouro Preto, o Aleijadinho realiza  uma sábia localização das pilastras das torres.  Tais faixas verticais de pedra situam-se distribuídas de tal modo que não participam  da organização  frontal, não  são voltadas  para  a frente do templo. Ali, o ângulo reto é escamoteado de maneira  magistral, passagem  somente possível com a torre cilíndrica semi-embutida na volumetria do corpo da nave..

Para a introdução dessas torres na edificação foi necessária uma equipe de profissionais com uma mentalidade mais arrojada. Essa equipe foi liderada por Luís Pinheiro Lobo. A construção das torres teve inicio em março de 1772 e para a confecção das mesmas foram necessárias as subcontratações de profissionais que o auxiliariam na empreitada.

No que respeita os sinos, da mesma forma que ocorreu na construção das torres, um grande número de profissionais foi mobilizado desde a sua fatura até a sua instalação nas torres. Por ser considerada uma peça de extrema relevância, anunciadora de missas e mortes  dos  confrades.

Um deles foi o de Baltazar Gomes de Azevedo. Este ferreiro, quando contratado para executar os trabalhos na oficina de São Francisco de Assis, já era reconhecido e respeitado no meio profissional. Em 1751, Gomes de Azevedo já estava com a sua “Carta de exames e provisões de ofícios” e além de atuar em São Francisco de Assis, trabalhou também na igreja de Nossa Senhora do Carmo, no ano de 1768, e na Casa de Fundição, no ano de 1770.

Ficou a cargo deste ferreiro o “feitio das ferragens do sino”, que compreendia o feitio do badalo, do eixo, das argolas, dos gatos, das cavilhas e dobradiças. Era este profissional que ficaria  responsável  por  dar  o  formato  final  ao  sino.  Todos  os  passos  deveriam  ser observados em seus detalhes, pois isso incidiria tanto na sonoridade quanto na afinação dos sinos. Além de exercer esta atividade, Gomes de Azevedo foi localizado executando também a fatura das grades de ferro  tanto para igreja de São Francisco, quanto para igreja do Carmo.

Além do citado material, a irmandade investia na compra de lenhas para serem utilizadas nos fornos. Jacinto Coelho da Silva era o responsável pelo carregamento  das  bestas  que  levavam  as  lenhas  até  a  fundição.  Este  tipo  de  oficio mobilizava um alto número de fornecedores de materiais.

O primeiro profissional contratado pela irmandade para a fundição dos sinos foi o irmão da Ordem e sargento-mor Manoel Fernandes da Silva. Outro profissional contratado pela Ordem Terceira para a mesma função foi José Valentim Onofre, que o entregou a irmandade em oito de dezembro de 1883. Valentim Onofre, que possuía a fundição em Vila Rica, atendia também as regiões vizinhas como Mariana, conforme consta na inscrição presente no sino da Sé de Mariana.

A documentação datada de 1832 traz informações preciosas acerca da mobilização feita para a colocação do sino nas torres. Um total de vinte cinco trezentos e sessenta réis foi empregado por parte da irmandade, tal soma foi empregada para pagar a pessoa que tirou o sino do seu lugar, para comprar uma arroba de chumbo, caibros  para a fatura dos andaimes necessários para instalação dos sinos nas torres, trabalhadores que estiveram envolvidos na fundição do sino e por fim o responsável por colocar o sino na torre.

Ao fazer a análise desde a fundição dos sinos até a instalação dos mesmos fica evidente que um número considerável de trabalhadores foi contratado para esta etapa da construção. Neste momento é percebida a quantidade de profissionais que circulavam numa oficina, assim como o grande número de empregos gerados pela irmandade em suas contratações.

A Fachada da Igreja

As torres abrigam os campanários e aparecem coroadas por grandes flechas que apontam para o céu. Um medalhão circular esculpido e o portal dominam o centro da fachada, que acolhe ainda duas grandes janelas.

Aleijadinho chega mesmo a dar forma diferente á fachada da igreja, avançando o frontispício para que ficasse de menor largura.

A portada  esculpida  em pedra-sabáo merece um parágrafo a parte. o perfeccionismo do jovem  autor levou a irmandade a permitir a demolição da porta  já executada, em 1774, para ser substituída por outra composição   grandiloqüente, que acabou exigindo que fossem afastadas as janelas  do coro, que acabaram ficando espremidas, quase encostadas nas pilastras laterais.

A portada da igreja considera de São Francisco, a obra-prima do Aleijadinho

À esquerda do espectador, sua ornamentação consiste em um anjo sustentando uma cruz ornada, circundada por uma glória, e à direita, outro anjo, com os braços estendidos, aponta para a composição central. Nessa, dois brasões trazem as armas franciscanas e as do reino de Portugal. Ornando o medalhão superiormente, a Virgem, de mãos postas. Entre os brasões e o medalhão vê-se o braço estigmatizado de São Francisco e o braço do Cristo. O conjunto é encimado pela coroa de espinhos. Os brasões são arrematados por asas de anjos, flores de girassol e rosas, atributos de Maria.

Assim,  Aleijadinho conseguiu uma perfeita harmonização na composição  da fachada com todos os elementos,  parecendo  ser intencional  o posicionamento tão próximo das janelas em relação a ornamentação;  janelas  que, inclusive, poderiam ter suas dimensões diminuídas. A verdade é que ali ficou estabelecido um perfeito equilíbrio entre cheios e vazios, entre superfícies lisas e brancas de cal e a ornamentação maciça de pedra-sabão que sobe pelas paredes até alcançar São Francisco, recebendo os estigmas   no  medalhão central  que ocupa o lugar do óculo tradicional.

O óculo, é sem dúvida a mais original composição do gênero da arquitetura brasileira

Sua magnífica portada, esculpida em pedra sabão, é acrescida daquele magnífico óculo que dá origem a um especial trabalho escultórico, pois outra inovação de Aleijadinho em São Francisco de Assis reside no vedamento do óculo, o qual assume função puramente ornamental, onde está representada a visão de São Francisco no Monte Alverne.

Tradicionalmente o óculo é vazado para iluminar a igreja. Para suprir a falta de luz, há janelas vazadas nas laterais da igreja.

Das portas e janelas

A madeira foi  um dos materiais de uso mais intenso e diversificado nas técnicas construtivas e obras de ornamentação do período colonial mineiro.

As portas e janelas da igreja foram ajustadas pelo mestre de carpintaria Lucas Evangelista de Jesus, no ano de 1823. Além das portas, ficou a cargo do mestre a fatura das janelas do coro.

No que respeita ao material empregado nas portas e janelas foi detectada uma variada gama de madeiras das mais variadas espécies, de acordo com a disponibilidade em cada região. Muitas das madeiras existentes no litoral eram encontradas em Minas Gerais como o jacarandá, cedro, braúna e vinhático.

Do telhado

Conforme Santos (1951) o madeiramento dos telhados posto em prática nas Minas Gerais repetem  soluções  já  observadas  tanto  nas  basílicas  romanas,  quanto  góticas.  Os métodos de madeiramento ganharam o território português e os portugueses levaram consigo, em suas viagens, o conhecimento acerca da construção. Aplicando-os também na América Portuguesa e inclusive nas Minas Gerais.

Antes das madeiras serem entregues desbastadas (falquejadas) para serem trabalhadas pelo  mestre  carpinteiro  e  seus  aprendizes,  na  oficina,  elas  eram  desdobradas  pelos escravos e passadas às mãos dos carapinas, encarregados de retirarem os alburnes, deixando os  cernes quadrados para que fossem  transformados  em vigas  ou  tábuas  e empregadas na construção, neste caso nos telhados. Importante ressaltar que as tábuas deveriam ser entregues secas e limpas nos canteiros de obras.

No que diz respeito à solução para o madeiramento dos telhados, adotada na igreja de São Francisco consiste num sistema de caibros armados, ou seja, uma estrutura sem tesouras, com o caibro recebendo o olivel, formando assim a cruz de Santo André.

Outra técnica executada no telhado e colocada na parte posterior da igreja de São Francisco de Assis com o intuito de aliviar a carga do espigão foi a tesoura de ângulo, que consistia na colocação das pernas emboquilhadas em boca de lobo contra os frechais.

As referidas técnicas adotadas no telhado foram empregadas com muita destreza pela equipe do mestre Domingos Moreira de Oliveira, que as executou ao lado de seu sócio o pedreiro Miguel da Costa Peixoto. Costa Peixoto realizou vários trabalhos em Vila Rica como, por exemplo, no Palácio dos Governadores e encontrou em Domingos Moreira de Oliveira um parceiro para as empreitadas assumidas em Vila Rica. Estes dois estiveram juntos nas oficinas do Carmo, no ano de 1770, em São Francisco de Assis, 1771 a 1784 e na execução das obras de pedra da igreja de Santa Efigênia do Alto da Cruz, em 1777.

Da cobertura dos telhados

Os tipos mais antigos de cobertura de telhados empregados em Minas Gerais foram os de origem vegetal, tais como sapé, capim e palha. A cobertura de sapé foi utilizada em São Paulo  desde  o  século  XVI,  sendo  levada,  posteriormente,  pelos  bandeirantes  para  os arraiais que fundaram em Minas Gerais.

No caso das telhas das igrejas de Vila Rica, dentre elas a de São Francisco de Assis são do tipo canal, ou colonial, medindo aproximadamente três palmos.

A arrematação da cobertura dos telhados da igreja de São Francisco de Assis ficou a cargo de Henrique Gomes de Brito que deveria seguir as condições apontadas no documento de arrematação e ao finalizar a cobertura dos telhados o arrematante deveria rebocá-lo com cal e areia (argamassa do período).

Importante ressaltar que as mesmas recomendações foram feitas para a fatura das abóbadas, tanto da capela mor, quanto dos corredores que, conforme visto foram arrematadas também por Henrique Gomes de Brito e seu sócio Bento Luiz, profissionais que, de acordo com o que foi constatado, possuíam um comprovado conhecimento e vasta experiência no empreendimento arquitetônico.

O registro mais antigo encontrado sobre obras de restauração refere-se ao lajeamento do adro e demolição da antiga escada de acesso, em fins do século XIX. No decorrer do século XX, a edificação passou por sucessivas obras de conservação levadas a efeito inicialmente pela antiga Inspetoria de Monumentos Nacionais e, posteriormente, pelo IPHAN, assinalando-se a construção de um cemitério anexo à capela-mor em 1935 e a reconstrução do mesmo em 1946/47 pelo IPHAN.

O cemitério anexo a lateral direita da igreja foi construído bem mais tarde ao término das obras. Atras no fundo, o Museu da Inconfidencia

Em setembro de 2001 foi concluída a restauração de diversas áreas da construção como do altar-mor, ameaçado por infiltrações, que apresentou as pinturas e ornamentos refixados. Outras obras de restaurações foram realizadas também nos seis altares laterais da igreja que tiveram suas cores originais recuperadas com retirada da sujeira presente na madeira, parte do assoalho que estava apodrecido foi trocado por peças feitas a partir das técnicas originais e foram colocados novos trincos, fechaduras, filtros solares nas janelas, sistema de som e alarme contra incêndio.

 

fonte:

  • UM OLHAR SOBRE O CANTEIRO DE OBRAS: a oficina de São Francisco de Assis, Vila Rica, Minas Gerais – URIAS, Patrícia (1)
  • Barroco e rococó nas Igrejas de  ouro Preto e MarIana; Myriam A. Ribeiro de Oliveira e Adalgisa Arantes Campos  (2)
  • A Igreja de Sao Francisco de Assis de  O uro Preto; Carlos A.C.  Lemas (3)
  • http://portal.iphan.gov.br/

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