ESTRADA REAL: IGREJA NOSSA SENHORA do ROSÁRIO; Ouro Preto (MG) – Parte II

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos funcionou inicialmente na Matriz de Nossa Senhora do Pilar ate adquirir capela própria perto no Bairro do Caquende. A relação entre elas compreende por ocasião também da procissão conhecida como “Triunfo Eucarístico”, em que se procedeu o retorno da imagem do Santíssimo Sacramento da primitiva capela do Rosário, onde permaneceu durante obras de construção e reforma na Matriz do Pilar no início da década de 1730.

Mas desta vez, minha aproximação a Igreja do Rosario é diferente. Partindo da Matriz do Pilar, atravessando a Ponte Seca, em íngreme pendente acima, lá aparece ela no alto, considerada pelos especialistas como a expressão máxima do barroco colonial mineiro com sua planta composta pela intersecção de duas elispses, rara na história da Arquitetura brasileira.

Igreja Nossa Senhora do Rosário

Já tinha visitado ela em diversas ocasiões, mais sempre tinha achado ela fechada. Para minha surpresa, desta vez era uma terçã de manha, consegui achar ela aberta, no momento prévio e de preparação da missa, conseguindo capturar o momento em que se enfeita com flores o Altar-Mor.

Antes de entrar no templo no paro de pensar que para chegar ate aqui, acabava de andar pela rua que os Irmãos do Rosário construíram e que tomou posteriormente o nome de rua do Sacramento, para a passagem da procissão conhecida como “Triunfo Eucarístico”, realizada em Vila Rica no ano de 1733.

O Interior

Toda a ostentação e complexidade estrutural externa contrasta com tamanha simplicidade e sobriedade interna. A predominância clara das paredes destaca os elementos arquitetônicos, conferindo monumentalidade para as pilastras toscanas que delimitam o espaço.

Completando a composição interna da nave observa-se dois púlpitos e seis altares laterais tipicamente rococó. Os altares são bastante simples mas eficientes, construídos de pranchas de madeira quase despojados de entalhes, com ornamentos providos através de pinturas ilusionísticas realizadas por Manuel Ribeiro Rosa e José Gervásio de Sousa.

Os nichos são ocupados em sua maioria por santos associados à devoção negra, sendo estes: Santa Helena, São Benedito, Nossa Senhora Mãe dos Homens, Santo Antônio de Categeró (ou do Noto), Santo Elesbão e Santa Efigênia.

A Nave

Sua volumetria esta baseada em uma planta composta pela intersecção de duas elispses, com uma elipse maior que comporta a nave, coro e altares laterais; enquanto na elipse  menor se localiza a capela-mor. que recebe a abóboda, presbitério, altar-mor e corredores laterais, sacristia rectangular.  

O forramento do teto acompanha a decoração geral do ambiente e mantem-se simples, ao contrário das demais Igrejas que encontramos na cidade de Ouro Preto, sem chamar tanta atenção, a não ser pelo seu formato que traz para dentro o grande detalhe da forma elíptica externa.

Altar-mor

O altar-mor acompanha a simplicidade geral da igreja, seguindo a mesma construção dos altares laterais, é constituído por pranchas de madeira quase despojados de entalhes, ressaltando ainda mais o belo trabalho de pintura.

O trabalhado frontal do altar-mor pertencia à primitiva capela, e os dois arcos, em cantaria, sendo um (o maior) no Arco Cruzeiro e o menor no Coro. Tem arcos sustentando todo o entravamento dos tetos da Capela mor.

De talha extremamente simples, é valorizado pela pintura de José Gervásio de Souza Lobo. O tema da pintura chama atenção por apresentar a Arca do Triunfo, citada no antigo testamento, o que é incomum para a época.

No alto do trono, a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Nos nichos laterais, Santa Catarina de Siena e São Domingos Gusmão.

A abóboda por sua vez possui pintura chamativa, com detalhes em dourado.

O Arco Cruzeiro marca a divisão entre a Nave e a Capela.

Altares laterais

A Irmandade de pretos presenta na Igreja do Rosário, em quase todos os seus altares, santos pretos, seus protetores, devendo ressaltar que Santo Antônio de Cartagerona e São Benedito, imagens que ali se veneram nos primeiros altares laterais, junto ao Arco Cruzeiro, são da autoria do Pe. Félix, irmão do Mestre Aleijadinho.

O douramento e as pinturas foram executados por Manuel Ribeiro Rosa e José Gervásio de Souza Lobo. José Gervásio, desconhecido do grande público, tem uma obra de excepcional qualidade, não só nos altares laterais, mas também no altar-mor. Os anjos são extremamente bem feitos e graciosos, as flores delicadas e de leve colorido. A decoração é de uma simplicidade emocionante.

A decoração interna do templo iniciou-se por volta de 1784, cabendo a Manuel José Velasco a execução de dois altares.  O entalhador José Rodrigues da Silva realizou entre 1790 e 1792, cinco altares colaterais, os quais receberam pintura e douramento dos artistas Manuel Ribeiro Rosa e José Gervásio de Sousa. Este último, além da pintura da capela-mor em 1798/99 e dos altares de Santo Antônio, São Benedito e Santa Efigênia, executou também os painéis da sacristia, entre 1792 e 1794.

  • Nos dois primeiros altares: junto ao arco-cruzeiro, têm-se invocações a Santo Antônio do Noto, à esquerda, e a São Benedito, à direita.
  • Nos dois altares centrais: Santa Efigênia, à esquerda, e São Elesbão, à direita.
  • Nos dois últimos, tem-se: Santa Helena, à esquerda, e Nossa Senhora Mãe dos Homens, à direita.

Com exceção de Santa Helena e Nossa Senhora Mãe dos Homens, os outros são negros. As devoções a estes santos negros foram extremamente populares entre a população negra e mulata da Colônia.

As obras do Coro, tapa vento e portas almofadadas foram concluídas entre 1822 e 1823.

A Sacristia possui móveis centenários e belas obras de arte como o oratório esculpido em madeira e o chafariz em pedra-sabão, mas, a grande obra disponível aos olhos  atentos está no forramento do teto. São quatro painéis com pinturas, cada uma representando um evangelista junto a sua iconografia recorrente, todos de autoria do já citado pintor Manoel Ribeiro Rosa.

Quanto à imaginária, as imagens de Santo Antônio da Núbia e São Benedito são atribuídas ao Padre Antônio Félix Lisboa, meio-irmão do Aleijadinho, mas sem prova documental.  Por outro lado, os Livros de Receita e Despesa da Irmandade apontam um pagamento a Manuel Dias da Silva e Sousa pela fatura de cinco imagens de madeira em 1800-1801.

Restaurações foram realizadas nos anos de 1869 e 1882, graças a verbas concedidas pelo Governo da Província. Outras obras foram realizadas nos anos de 1935 e 1936, sob a coordenação da antiga Inspetoria de Monumentos Nacionais. As obras mais significativas foram as grades de ferro para a galilé desenhadas pelo pintor paulista, J. Wasth Rodrigues. O sistema de fechamento do galilé era feito, até então, por portões feitos em madeira.

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

As capelas serviam tanto à devoção como à demarcação dos territórios. No primeiro quartel do setecentos Vila Rica dividia-se em duas matrizes, a de Nossa Senhora do Pilar e a de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, cada qual dotada de vasta jurisdição e situadas em ladeiras opostas do Morro de Santa Quitéria.

Dentro da Matriz del Pilar a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi formalmente constituída em 1715. Em 1761 a Irmandade obteve do Senado da Câmara, concessão de um amplo terreno, próximo à capela primitiva, onde foi construída a atual Igreja do Rosário.

No arraial de Antônio Dias, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário foi constituída legalmente em 1719, na matriz, mas logo se dirigiu para a Capela do Padre Faria. Inicialmente na Capela de Padre Faria, a Irmandade do Rosário congregava brancos e negros, mas em virtude de desentendimentos, os negros construíram a capela de Nossa Senhora do Rosário do Alto da Cruz, depois intitulada Santa Efigênia onde ficou a Irmandade do Rosário dos Pretos e na de Padre Faria, o Rosário dos Brancos.

 

fonte:

  • Os pretos devotos do Rosário no espaço público da paróquia, Vila Rica, nas Minas Gerais – Francisco Eduardo de Andrade, Departamento de História, Universidade Federal de Ouro Preto (1)
  • AS IRMANDADES DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E OS AFRICANOS NO BRASIL DO SÉCULO XVIII – Maristela dos Santos Simão. Mestrado em História da África, Universidade de Lisboa (2)
  • https://www.ouropreto.com.br (3)
  • http://www.descubraminas.com.br (4)
  • https://www.tourouropreto.com.br (5)
  • IPHAN

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