ESTRADA REAL: IGREJA NOSSA SENHORA DO CARMO, Ouro Preto (MG), Brasil – PARTE II

A Igreja foi construída sob a antiga capela de Santa Quitéria, que era de pau a pique e foi erguida nos primeiros anos de ocupação da cidade de Vila Rica. Construída entre 1766 e 1772, possui projeto arquitetônico de Manuel Francisco de Lisboa, o pai do Mestre Aleijadinho. Sua ornamentação possui obras do pintor Manoel da Costa Athaíde e também de Aleijadinho.

Continuamos percorrendo o interior da Igreja do Carmo para avistar os altares laterais, consistório e sacristia, onde as pinturas do forro são maravilhosas. As amplas janelas oferecem uma visual diferente a cada passo.

Altares laterais

Foram riscados por João Nepomuceno Correia e Castro, e posteriormente modificados. Juntos ao arco-cruzeiro, estão os dedicados a Santa Quitéria e Santa Luzia. Foram terminados em 1795 e a autoria é desconhecida. Depois,  tem-se os de São João e Nossa Senhora da Piedade, executados de 1807 a 1809, por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Os dois últimos altares laterais foram concluídos por Justino Ferreira de Andrade em 1814.

Os seis altares laterais, incluindo os púlpitos, foram arrematados por quatro mil cruzados e 350$000 por Manuel Francisco Araújo, e este deveria fornecer todo o material. O risco dos altares seguiu o aprovado pela Mesa em 1779, com modificações realizadas por João Nepomuceno Correia e Castro, cujo projeto também foi modificado posteriormente por hesitações da Mesa em relação ao desenho desses altares.

A fatura desses retábulos levou muito tempo e Manuel Francisco de Araújo encontrava-se doente. Dos seis altares sob o contrato de Araújo, foram executados por ele apenas os dois primeiros, os consagrados a Cristo no Horto e Santa Luzia, e o de Cristo com a Cruz às Costas e São José. Estes estão de frente um para o outro e são os mais próximos ao arco-cruzeiro e capela-mor.

Posteriormente, em 1799, foi contratado José de Camponeses para a fatura dos altares seguintes, os quais deveriam seguir os anteriores, de acordo com o preceito da simetria; porém, poderiam apresentar certas modificações “mais modernas”. Todavia, esses altares, consagrados ao Cristo da Prisão e São João e ao Ecce Homo e Nossa Senhora da Piedade só foram finalizados mais tarde, pelo Mestre Aleijadinho, em 1808. Com a conclusão desses altares por Aleijadinho, a Mesa também o contratou para modificar os primeiros, de forma que imitassem os feitos por ele e também para acrescentar guarda-pós e camarins.

    • Lista dos Altares Laterais:
  • 1º altar à direita – É o Senhor da Coluna.
  • 1º altar à esquerda – É o Senhor da Pedra Fria.
  • 2º altar à direita – É o Senhor da Acusação e a tarja de Jeremias.
  • 2º altar à esquerda – É o Senhor na varanda de Pilatos e a tarja da Tentação.
  • 3º altar à direita – É o Senhor no Horto das Oliveiras com o Anjo da Amargura.
  • 3º altar à esquerda – É o Senhor dos Passos

Os dois últimos altares foram feitos pelo discípulo de Aleijadinho, Justino Ferreira de Andrade e, de acordo com Lopes (1942), a fatura desses retábulos foi inspecionada pelo próprio Aleijadinho. Em 1812, Justino Ferreira de Andrade assinou um contrato de 670$000 para execução dos púlpitos e dos altares consagrados ao Cristo da Flagelação e São Manuel e ao Cristo Coroado de Espinhos e São Sebastião, os quais, também por questões de simetria, seguiram os desenhos dos primeiros feitos por Manuel Francisco de Araújo, já reformado.

O mestre Manuel da Costa Ataíde

O douramento dos retábulos e altares foi executado pelo pintor Manoel da Costa Ataíde, que realizou várias obras para a Ordem Terceira Carmo, da qual era irmão: douramento de todos os altares, do arco-cruzeiro, dos dois púlpitos e altar da sacristia. Este mestre trabalhou juntamente com seus auxiliares, Marcelino da Costa Pereira e Francisco d’ Assis Ataíde, este último era seu filho. O contrato de Ataíde para o douramento dos altares é verificado por recibos em documentos avulsos que datam do ano de 1826.

Internamente, a igreja surpreende logo à entrada com os dois pilares torneados de cantaria e os dois meios-pilares embutidos, que servem de apoio aos arcos do coro. José Pereira Arouca foi consultado durante a obra, opinou sobre diversos pontos e deve-se a ele a solução dos arcos de apoio do coro, sendo o central em forma de asa de cesto.

Destaque especial para o lustre central da nave.

Sacristia e o consistório

Do corpo principal, junto ao Arco Cruzeiro, abrem-se para os corredores laterais da Capela-mor, duas portas em jacarandá, portais em cantaria, trabalhadas, muito bem entalhadas que conduzem para a Sacristia. A sacristia e o consistório normalmente são espaços reservados para a preparação das missas e albergam acervos muito importantes das irmandades.

Na monumental Igreja do Carmo estos espaços são tão amplos que permitem exibir mobiliário, esculturas, pinturas nos forros, etc. Fiquei muito impressionado … duas verdadeiras salas de museu. O risco original dos altares, datado de 1779 e de autoria desconhecida, foi alterado posteriormente por João Nepomuceno Correia e Castro.

A pintura do forro da sacristia executada no início do século XIX, erroneamente atribuída a Manoel da Costa Ataíde, apresenta todas as características peculiares a um outro importante artista da época, responsável entre outras obras pelas pinturas dos forros da nave e capela-mor da Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Santa Bárbara e da decoração pictórica da sacristia e dos retábulos laterais da igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Ouro Preto. Trata-se de Manoel Ribeiro Rosa.

A pintura da sacristia coube a Manuel Ribeiro Rosa.

Um belo lavabo com a Virgem do Carmo, executado em pedra sabão, é a principal peça da sacristia. Não se tem a documentação da autoria da obra, mas, por análise de estilo, muitos historiadores da arte acreditam que seja do mestre Antônio Francisco Lisboa.

 

 

Na parede o risco atribuído a Correia e Castro (João Nepomuceno). Os 4 quadros  são de Ataíde.

O retábulo do consistório foi o último a ser faturado, já no início do século XIX. O douramento, por sua vez, foi realizado depois, por Marcelino da Costa Pereira. Segundo Neves (2011), há um recibo de 1829 com o valor de doze mil, assinado pelo mesmo, que contabiliza gastos com diversos tipos de materiais e mão de obra para a construção de tal móvel. Todavia, conforme a autora, só aparece recibo da pintura e douramento desse retábulo em 1847, assinado por Marcelino da Costa Pereira.

O conjunto de dez painéis historiados da capela da Ordem Terceira do Carmo de Ouro Preto

Na capela-mor, uma raridade: a única igreja mineira que utilizou azulejos na sua decoração e os quais trazem a representação de diversos santos da Ordem.

Desde o século XV, importado de manufaturas andaluzas, o azulejo figura no cenário artístico português. Dessa data em diante, sobretudo com a instalação de manufaturas no próprio país, o azulejo passou a ser identitário da arte portuguesa no cenário mundial.

Mais que a arte portuguesa por excelência, o azulejo é símbolo da mundialização da qual Portugal fez parte: sua técnica foi apreendida pelos portugueses dos espanhóis e flamengos, e, a partir da forte influência chinesa que se fez presente no país, ganhou a aracterística monocromática em azul que o referencia, vindo em seguida ornamentar os edifícios religiosos e laicos da colônia lusa.

Lista dos Panéis:

  • S. João da Cruz
  • São Pedro Thomas Arcebispo
  • Santa Ângela Terceira
  • Santa Maria Madalena de Pazes
  • Santo Elias no Deserto
  • S. Simão Stock
  • Santa Tereza de Jesus
  • Santo Alberto Patriarca de Jerusalém
  • Santo Elias Arrebatado

Painel de São Pedro Thomas, Arcebispo

À esquerda do observador, em primeiro plano, um homem, imberbe, aureolado, de joelhos, mãos voltadas aos céus, em posição de prece, volve o olhar a uma senhora, entronada e coroada, que, emanando raios de luz em meio a nuvens e querubins, tendo uma criança em seu braço esquerdo, e volvendo o braço direito ao dito homem, lhe dirige a palavra. Da boca da senhora, sai a seguinte frase, espelhada: “RELIGIOTUA PERSEUERA TURA/US PUE INFINEMSECULI”, que poderia ser traduzido como “persevera na tua religião pela infinitude dos séculos”.

 

fonte:

  • Iphan
  • A Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto (MG): aspectos históricos, artísticos, iconográficos e devocionais das esculturas da Paixão de Cristo – Lia BRUSADIN, Regina QUITES
  • LOPES, Francisco Antônio. História da construção da igreja do Carmo de Ouro Preto. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1942.
  • http://www.descubraminas.com.br/
  • http://historicosop.blogspot.com/p/igrejas.html

 

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