EL FARO: O Tango volta ao bairro

Se você deseja visitar um local onde o tango é tocado para os próprios vizinhos, fora do circuito turístico, El Faro é uma boa opção. Fundado em 1931, este Bar Notável orgulha-se em ser um espaço para os portenhos apreciarem um bom e tradicional tango, cantado por nomes importantes na cena cultural.

O bar fica no bairro de Villa Urquiza. Chegar lá não é fácil, mas hoje em dia o Uber chegou para resolver isso, na ida e na volta também.

4 esquinas 4 bairros


O cruzamento da rua La Pampa e Av. dos Constituyentes compõe quatro esquinas e em cada uma delas, um bairro: Parque Chas, Villa Urquiza, Villa Pueyrredon y Agronomía. Se nos ajustarmos à divisão limítrofe dos bairros, aquele canto pertence ao Parque Chas, mas para todos os amantes de botecos, tangos e madrugadas com os amigos, o Farol é de Villa Urquiza. Foi assim que se tornou famoso.

Villa Urquiza também é famosa por duas grandes milongas que, por outro lado, têm seu próprio estilo e códigos de dança: La Sunderland, Lugones 3161; e Sin Rumbo, José Pascual Tamborini 6157).

A Lei 35 de 1998 criou a Comissão para a Proteção e Promoção de Cafés, Bares, Bilhares e Confeitarias Notáveis ​​da Cidade de Buenos Aires. Esta norma estabelece que aqueles relacionados a eventos ou atividades culturais significativas são considerados notáveis, aqueles cuja antiguidade, projeto arquitetônico ou relevância local lhes dão valor patrimonial.

El Faro é um dos 86 bares notáveis ​​que existem na cidade de Buenos Aires. Fundado em 1931, já possui 90 anos de história. Foi declarado Bar Notável no ano 2000.

El Faro

Av.de los Constituyentes 4099 (esquina com La Pampa)


El Faro, fica na periferia do bairro Villa Urquiza, bem longe do centro do bairro onde fica a parte mais comercial. Nesta área do bairro não há muitos negócios gastronômicos, é uma área de casas de classe média baixa, sem muitas lojas por perto, tem oficinas de reparações de automóveis, algumas concessionárias e predomina a venda de maquinárias. Não é uma avenida onde passa muita gente, mas passam sim muitos caminhões cujos choferes param aqui para comer.

O exterior é pintado de amarelo com aberturas verdes. As portas são feitas de madeira e, ao igual que as janelas de guilhotina, são pintadas de verde inglês. Os vidros têm uma borda pintada ao estilo portenho: arte fileteada. Existem duas portas, uma na Av. Constituyentes e a outra na esquina mais próxima da rua La Pampa.

Por muito tempo este bar teve um perfil diferente, mais voltado para a venda de bebidas, e ficou de capa caída até chegar os novos donos, os quais quando assumiram, tiveram que fazer vários consertos (banheiro e cozinha). Como sucede em outros bairros, onde os bares são o próprio reflexo de seus donos, aqui decidiu-se não só manter o “estilo tradicional” e “apostar mais no café”, mas também incentivar o tango e a vida tanguera de El Faro com shows/peñas de tango e comida bem portenha.

Para recuperar a memória, você pode apelar para documentos, mas também para testemunhas. É por isso que o dono Marcelo nos apresenta Alfredo Corazza, historiador do lugar, que vem todos os dias para tomar um café e conversar com os mesmos amigos que estão com ele há décadas.

“Estou aqui há mais de quarenta anos. Na época, esse bar nunca fechava, exceto no dia primeiro de maio, na véspera de Natal e ano novo. Ele sabia ter um setor mais reservado onde os casais gostavam de enfiar, ninguém via nada. Em 1976, época da ditadura militar, eles tiveram que ser removidos”.

Aqui nunca houve timba (jogo clandestino), nem falopa (droga) ou coisas estranhas: sempre foi muito tranquilo. A turma do Farol tinha seu próprio time de futebol, um grande time: daqui surgiram jogadores de primeira divisão. Do quem mais me lembro é do Miguel Angel Laino, que defendeu as cores Almagro, Atlanta e Rosario Central. Os torneios costumavam ser disputados no verão em Villa Lynch. El Faro saiu vice-campeão em uma ocasião”.

Alfredo afirma com um véu de nostalgia e seriedade: “Somos um bar histórico. Nós nos conhecemos de meninos, da vizinhança. Parávamos aqui na volta, na esquina Ceretti e Echeverría, e começávamos a vir para o bar. Hoje venho todos os dias ao meio-dia e aí, por volta das sete da tarde, a gente encontra os meninos para um café antes de cada um voltar para casa”. A obsessão por este lugar é tão grande que pode até se confundir com toda uma escolha de vida: “Tenho amigos que casaram com mulheres que moravam em Barracas ou Valentín Alsina e vieram morar no bairro, entre outros motivos, para estar perto de El Faro”, acrescenta Alfredo.

É disso que se trata o bar El Faro: o código do bairro, o tango, o café com os amigos, o bar da esquina, o balcão, o futebol, o jornal de manhã e as decepções amorosas. Este tipo de condimentos faz deste café um espaço de tradições portenhas marcadas pelo tempo.

A decoração do local


A decoração do local merece um capítulo à parte. A prateleira, como era de se esperar, está repleta de bebidas espirituosas de todos os tipos, mas tem também um conjunto de elementos decorativos que delatam a idade do bar.

Suas prateleiras incluem uma coleção de faróis em miniatura que os clientes foram presenteando para o atual proprietário. O assunto tornou-se internacional: tem um de Nova York e outro do Brasil. Também há fotos de Marcelo ao lado de um farol na cidade de Claromecó e ao lado do famoso farol patagónico de San Juan de Salvamento, conhecido mundialmente como Farol do Fim do Mundo, que deu nome ao romance homônimo de Júlio Verne. Por fim, em suas paredes estão penduradas fotos de antigas glórias do esporte e personagens típicos do imaginário popular argentino, como Carlos Monzón, Minguito, Sandro, Carlos Gardel e Alberto Olmedo, entre outros.

As paredes têm madeira envernizada da metade para baixo, depois espelhos. Essas paredes estão pintadas de cor verde água que condiz com as tampas das mesas, pois tanto na fachada como no interior, o verde água é a cor predominante.

“Há uma turma com cerca de 30 homens que se encontram no café às 19 horas, já se conhecem há muito tempo, são amigos do café. Ao meio-dia chega uma outra turma que almoça no bar e fica até cerca das 15 hs”, conta Marcelo, quem no final do ano organiza uma festa para os clientes amigos do bar.

O tango volta ao bairro


No ano 2007, com a chegada dos novos donos, o bar entrou em processo de revitalização, em parte graças ao projeto “O Tango Volta ao Bairro”, iniciativa do cantor e vizinho Hernán Cucuza Castiello.

Castiello começou a cantar aos seis anos e dividiu os palcos dos clubes de bairro com outros cantores que foram sua referências: Roberto Goyeneche, Floreal Ruiz, Rubén Juárez, Alberto Marino e Luis Cardei.

Ao longo de sua carreira, ganhou dois prêmios no Concurso Hugo del Carril, um como compositor do tango “Tibieza” e outro como cantor em 2007, e cantou com a Orquestra del Tango de la Ciudad, Orquestra Juan de Dios Filiberto, com Amores Tangos, Orquesta de Julián e o Sexteto Mayor, entre outras tantas agrupações.

Fiel ao seu espírito entusiasta e empreendedor, criou em 2007 o ciclo “O tango volta ao bairro”, no mítico bar El Faro, onde são convidados músicos e cantores já consagrados junto as referências do tango contemporâneo.

“O retorno do tango ao bairro foi uma iniciativa de Hernán Cucuza Castiello”, diz Marcelo. Eu o conheço do âmbito do futebol porque eu tenho um campo de futebol por aqui perto, a gente se conhecia de lá. Nós o acompanhamos neste projeto e foi um sucesso total. Depois de cada show, há um “terceiro tempo”, a famosa recalada onde as pessoas conversam em um ambiente mais intimista e os aficionados também cantam.

“A ideia sempre foi fazer isto para os vizinhos”, diz Cucuza sobre o ciclo que se tornou um marco na cena do tango de Buenos Aires. “Aqui em Urquiza tem tango, mas principalmente milongas, e naquela época não tinha um movimento assim, mas dá para ver que era preciso porque vinha muita gente já desde o começo”, lembra.

A tendência de Cucuza em incorporar toques roqueiros ao seu tango tem origem em La Menesunda Tangolencia Rockera, um projeto conceitual que apresenta ao vivo desde 2013, cujo repertório recria peças do rock nacional de: Luis Alberto Spinetta, Siu Generis, Andrés Calamaro, Fito Paez, Gustavo Cerati, Sumô e Los Redondos, entre outros.

“La Menesunda” enfatiza a proximidade entre o tango e o rock. Acho que as letras são o ponto de contato que acho mais visível e vital quando tento trazer um tema rock para o tango, em geral, tenho que começar a sentir nas letras essa proximidade entre os dois gêneros”, comenta Castiello.

“Há também algo lúdico neste exercício, além da responsabilidade musical e interpretativa de aproximar os dois movimentos musicais, há também tangos clássicos que se convertem em ska (‘El ciruja’), al funk (‘Acquaforte’) y al rock (‘La abandoné y no sabía’)”. Castiello destaca que o aspecto diferencial do álbum “são os momentos em que juntamos as temáticas e harmonias do rock e tango na mesma música como: “Rubias de New York” com “La rubia tarada” ou ‘Yendo de la cama al living’ com ‘La Yumba”.

Cucuza Castiello e seu filho Mateo

Em 2021 apresentou “Castiellos”, obviamente aqui, no bar El Faro, o seu primeiro álbum em duo com seu filho Mateo, guitarrista e tanguero de profissão. Há músicas de tradicionais de compositores como Discépolo e Gardel/Le Pera mas também tem “Tomo lo que Encuentro”, de Virus e para fechar uma musica muito especial; a marcha do clube de futebol Atlanta.

“Este é um álbum que, pelo nome (sobrenome na realidade), tem uma raiz, uma ideia de família. A família de meu pai nasceu toda em Villa Crespo e era muito fã de Atlanta”, argumenta o cantor. Foi meu pai quem nos passou o gene do tango e quem me transmitiu a paixão pelo futebol, e acho que também fui eu quem deu a Mateo aquela doença. Então, a título de simbolismo, sempre encerramos nossas apresentações ao vivo com aquela marchinha. É lógico, o álbum não poderia fechar de outra forma”, diz Cucuza.

Show de Tango


A primeira parte do show é com Cucuza acompanhado do “Trío Inestable”: Sebastian Zasali no bandoneón, Noelia Sinkunas no piano e Mateo Castiello no violão. E a segunda parte segue com convidados, cada noite é diferente.

É melhor ir você preparado. O espetáculo começa pelas 22h e só termina às 3h da manhã

Depois, para os mais resistentes e os que acham que escutaram “pouco” tango, começa a recalada, quando o “palco inexistente” fica aberto para quem quiser tocar e cantar.

A carta é pequena, mas da gostosa cozinha portenha; pratos feitos, empanadas, pizzas e picadas, acompanhados de vinhos simples (que você pode tomar à moda antiga, no pinguim de louça).

El Faro mantém intacto o espírito da autêntica cafeteria dos anos ’30 e suas paredes narram a história de Buenos Aires, estão expostas as fotos de Gardel, Enrique Santos Discépolo, Amadeo Carrizo, Niní Marshall, Minguito e Sandro.

Você também pode ver uma foto de Rubén Juárez, tocando bandoneon e cantando em El Faro, rodeado por vários clientes surpresos.

O lance do Júarez foi algo fora do comum: ele cantou às 12:30 hs do meiodia, despediu-se e foi tocar no Centro Cultural Torquato Tasso (localizado no outro extremo da cidade) e às três e meia da manhã reapareceu dizendo que voltava porque havia encontrado aqui um ambiente muito acolhedor. Ele ficou até as dez da manhã.

 

fonte:

  • https://barelfaro.com/https://turismo.buenosaires.gob.ar/es/otros-establecimientos/el-faro?page=11
  • https://www.parquechasweb.com.ar/parquechas/notas/Nota_elfaro80_130511.htm
  • https://www.pagina12.com.ar/55766-no-concibo-algo-que-sea-todo-tradicional-o-todo-nuevo
  • https://buenosaireshistoria.org/juntas/el-faro-de-villa-urquiza/

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