Biblioteca Nacional – Parte II: A obra maestra de Clorindo Testa que demorou 30 anos em ser construída

A Biblioteca Nacional é uma obra emblemática da arquitetura moderna argentina. A obra teve início em 1971 e levou 30 anos para ser concluída. Neste post vamos conhecer detalhes da obra maestra do arquiteto Clorindo Testa, onde a sala de exposições, o auditório e a confeitaria funcionam como elementos escultóricos que estão pendurados na estrutura.

O edifício foi declarado Monumento Histórico Nacional em 2017.

Biblioteca Nacional Mariano Moreno


A Biblioteca Nacional permaneceu na “Manzana de las luces” durante noventa anos, sendo transferida em 27 de dezembro de1901 para um novo prédio, originalmente construído para a Loteria Nacional, pelo arquiteto italiano Carlos Morra, na Rua México 564.

Destaca-se que todas as edificações, onde foram dispostas as dependências da Biblioteca Nacional, não haviam sido projetadas para tal fim. Deste modo, no início da década de 40, se insiste na proposição de uma sede efetivamente elaborada para tal fim. Porém, somente a partir do golpe de 1955, o processo adquire um novo impulso e no ano do 1960 e propõe um concurso de anteprojetos para a solução arquitetônica do edifício. O edifício projetado por Clorindo Testa foi edificado na propriedade que originalmente era ocupada pela Quinta Unzué, onde exerceu na época da sua residência presidencial e onde Eva Duarte de Perón faleceu em 1952.

Em 12 de abril de 1962, são recebidos vinte e oito projetos para a análise dos jurados e, em 30 de julho de 1962, é premiado o anteprojeto que viria a ter sua obra concluída três décadas depois.

Os jurados consideraram que o anteprojeto dos arquitetos Clorindo Testa, Francisco Bullrich e Alicia D. Cazzaniga não somente resolvía os aspectos funcionais e tectônicos, como também era o que melhor se adéquava ao terreno. Os três arquitetos já haviam trabalhado em equipe, mas foi a primeira vez que trabalharam em um projeto tão grande.

Recebe segundo lugar a proposta de Javier Sanchez Gomez e Justo Jorge Solsona, tendo como colaborador Carlos Libedinsky e Flora Manteola. O terceiro prêmio, é o proposto pelos arquitetos Raul Rodolfo Rivarola e Mario Francisco Soto. A proposta do arquiteto Mario Roberto Alvarez, juntamente com seus colaboradores, Eduardo T. Santoro, Leonardo S. Kopiloff e o engenheiro Atílio D. Gallo, recebe o quarto prêmio do Concurso.

A forma do terreno se apresenta como um trapézio, com base maior de 274,45 metros sobre a Rua Agüero, e a menor, de 176 metros, sobre a Rua Áustria e altura de 96,34 metros sobre a Avenida Las Heras. Sobre a Avenida del Libertador, em sua face não ortogonal, possui 120 metros e apresenta um elevado talude gramado.

No que concerne à implantação, os arquitetos propõem a elevação do corpo principal da edificação, liberando o solo para a passagem das pessoas e para que as mesmas possam capturar todas as imagens e sensações presentes nesse local naturalmente arborizado, assim como de seu entorno urbano, sem que houvesse a presença de grandes barreiras visuais.

Plasticamente, o projeto se desenvolve mediante uma esplanada semi-enterrada, onde se localiza a hemeroteca, de onde quatro robustos pilares emergem e que, por sua vez, elevam um corpo prismático retangular. Este abriga quatro pavimentos, sendo dois para salas de uso geral e outros dois para o grande salão principal de leitura e suas dependências. Sob esse corpo elevado, um volume – composto de três formas prismáticas – é suspenso mediante tensores metálicos. Nele, se encontram a administração, a direção, o auditório e a sala de exposições.

Segundo os arquitetos, a configuração volumétrica da obra deveria constituir numa expressão clara das funções que cada uma das partes desempenhasse dentro do conjunto, de modo que a leitura da forma, a partir do exterior, fosse clara para compreensão da organização interna da edificação.

Sendo assim, em 26 de maio de 1966, os arquitetos Clorindo Testa, Alicia Cazzaniga y Francisco Bullrich remetem ao engenheiro Luis Antonio Bonet, diretor da Direção Geral de Arquitetura e Trabalhos Públicos do Ministério da Educação, a documentação correspondente ao Projeto Executivo do novo edifício da Biblioteca Nacional, acrescido dos ajustes propostos sobre o anteprojeto premiado.

A imagem atual da Biblioteca Nacional refere-se basicamente a esse projeto executivo, contudo, algumas modificações foram feitas no seu interior para adequar-se às necessidades atuais. Afinal, o projeto desenvolvido entre 1961 e 1962, ajustado em 1966, somente teria seu uso corrente nos anos 90.

Cabe ressaltar o esforço do então diretor da Biblioteca Nacional, Jorge Luis Borges, que assumiu o cargo em 21 de outubro de 1955, onde permanece até final de março de 1973.

Descripçao do edifício: Arquitetura brutalista


A arquitetura brutalista foi uma tendência que se manifestou na arquitetura de diferentes partes do mundo nas décadas de 50 a 70 do século XX e teve grande relevância nas manifestações da arquitetura pública e privada em nosso país.

O acesso principal ao interior da Biblioteca está localizado de modo centralizado ao terreno e com relação à esplanada. No entanto, em relação à edificação propriamente dita, é posicionado no seu eixo longitudinal, entre os dois grandes apoios traseiros. Entende-se que Testa prioriza essa localização para que o usuário, ao ingressar a esplanada coberta, possa obter um domínio visual do espaço e, assim, facilitar a identificação do volume de acesso, localizado no plano de fundo. Além disso, ao sair da biblioteca o usuário contempla uma paisagem franca e ampla do espaço coberto e do entorno urbano.

Na Biblioteca, os quatro grandes pilares sustentam dois entremeados de vigas. O primeiro suspende, mediante tensores metálicos, um volume – que comporta, basicamente, o auditório, administração, bar e sala de exposições – localizado sob o corpo prismático elevado, que também é sustentado pelo primeiro conjunto de vigas. Este volume principal comporta os 3°, 4°, 5° e 6° pavimentos. No entanto, a última laje fica suspensa por tensores metálicos ao segundo entremeado de vigas, localizado na cobertura da edificação. Os 3° e 4° andares correspondem às salas de uso múltiplo, enquanto o 5° e 6°, ao grande salão de leitura.

Os volumes que tocam a grande esplanada se restringem aos quatro grandes apoios e ao paralelepípedo regular solto que configura o hall. Ao adentrar esse prisma, lateralmente se encontram as escadas e elevadores, tanto dos usuários da Biblioteca, quanto dos funcionários, localizados no interior das “patas traseiras”. Já nas “patas dianteiras”, se dispõe os dutos de ar condicionado, rede elétrica, entre outras atribuições técnicas.

Internamente, a edificação é projetada com quatro subsolos, atingindo uma profundidade um pouco abaixo do nível da Avenida del Libertador, sendo os três inferiores para depósito; 25.000 m² de depósitos, com uma capacidade de 3.000.000 volumes, e o outro para a hemeroteca, semi-enterrado, com capacidade para 500.000 exemplares de revistas e jornais. Tal distribuição funcional enterrada é bem recebida pelos jurados do concurso, dada a facilidade de uma possível ampliação no sentido longitudinal do terreno.

Nos níveis – 3° e 4° pavimentos – se encontram salas especiais, entre elas a Sala do Tesouro, cuja atribuição é guardar o acervo de livros raros e obras especiais. Nos dois níveis superiores – 5° e 6° pavimentos – estão a Sala de Leitura, para 400 leitores, o hall de acesso e a sala de referência. Uma rampa suspensa por tensores metálicos conecta os dois níveis superiores, cujo pé-direito é duplo na parte central da sala de leitura.

Suspenso sob corpo elevado, vê-se um volume composto de três formas prismáticas. No primeiro, de frente a Avenida del Libertador, encontra-se um auditório para 300 pessoas. No centro, encontra-se uma cafeteria, um terraço aberto e um espaço de exposições. Por fim, na extremidade traseira, o terceiro volume aloja a direção da biblioteca e o setor administrativo.

A uma altura de 32.40 metros sobre o nível do terraço, os quatro apoios sustentam outro plano estrutural, a partir do qual ficam suspensas, por meio de tensores metálicos, as lajes do 6° pavimento. Desta maneira, no 5° pavimento – 1° pavimento da sala de leitura -, não se encontram outros apoios além dos quatro principais, definindo, assim, um grande espaço unificado.

Um elemento construtivo que chama atenção são as rampas presentes no projeto. Sendo elas externas ou internas, promovem um passeio pela edificação, explorando ao máximo as características técnicas do material que as compõem, o concreto.

No interior, destaca-se a rampa que liga os pavimentos da sala de leitura. Totalmente suspensa por tensores metálicos, possui um patamar – que serve mais para um mirante da bela paisagem natural visualizada através das amplas esquadrias de fechamento da sala de leitura – iluminado por uma abertura zenital.

O uso de elementos zenitais para captação da iluminação está presente também nos corredores da Escola de Bibliotecários. Todos os desenhos dos “domus” são variações de círculos e elipses, cujos corpos de concreto se prolongam nas coberturas e são cobertos por uma superfície acrílica curva.

Para captação da luz, Testa vale-se, também, de diferentes tipos de esquadrias, sejam elas circulares, elípticas, em fita ou, até mesmo, retangulares, e as dispõem ordenadamente em cada ambiente da biblioteca, embora algumas, presentes no terceiro e quarto andar, gerem certos desconfortos por ofuscamento, dada a intensidade de luz que adentra o recinto. Para sanar esse inconveniente, foi necessário aplicar uma película adesiva que refletisse parte da luz incidente, deixando permear uma iluminação menos intensa.

Inicio das obras


Os arquitetos Clorindo Testa, Alicia Cazzaniga y Francisco Bullrich entregaram o projeto em 12 de abril de 1962. O júri foi emitido em 30 de julho. Clorindo Testa tinha ido para a Índia com a esposa, aproveitando o Prêmio Di Tella de Pintura conquistado no ano anterior e Francisco Bullrich, professor de História da Arquitetura da Escola de Arquitetura e Planejamento da Universidade do Litoral, estava lá naquele dia em Rosário.

O recebimento das licitações para execução da estrutura de concreto armado, escavação, submuração, empilhamento e drenagem ocorreu em 10 de dezembro de 1970. Após um longo processo, a empresa COMARCO S.A. foi escolhida empreiteiro vencedor para iniciar a construção. O início das obras e a colocação da pedra fundamental ocorreram em 10 de agosto de 1971, em cerimônia presidida pelo presidente ditador General Lanusse.

A gigantesca escavação constituía um poço de 125 metros de comprimento por 60 e em alguns pontos de 80 metros de largura e vários metros de profundidade, que, incluso ultrapassava o lençol freático. O ritmo de escavação era lento. Foi a primeira vez no país que foram utilizadas estacas de grande diâmetro. Posteriormente, foram utilizadas para a construção de grandes pontes, como Corrientes-Resistencia, Zárate-Brazo Largo e outras semelhantes. Para o resto da fundação, a empresa queria apresentar outra alternativa e era necessário avaliar se o custo era maior, menor ou igual ao que havia sido licitado. Como consequência, o trabalho foi interrompido até setembro de 1972.

As obras continuaram a bom ritmo desde o início de 73 até meados de 1975. As lajes de subpressão e fundação foram concluídas em outubro de 1973. Em junho e dezembro do ano seguinte, as estruturas do segundo e terceiro subsolo foram concluídas. Em junho de 1975, a estrutura do primeiro subsolo foi concluída. A obra começou a perder ritmo devido ao atraso no pagamento à empresa e só a recuperou a partir de junho do ano seguinte.

Em março de 1976 chega o Golpe Militar. Ao final de 1976, as obras consumiam um total de 14.000 metros cúbicos de concreto, montante equivalente à construção de 70.000 metros quadrados de superfície coberta em obras arquitetônicas convencionais, ou seja, 22 edifícios residenciais. O volume total de concreto, calculado para a conclusão da obra, foi de 18,9 mil metros cúbicos.

Construção do ultimo andar

No final de 1979, a parte estrutural do edifício estava quase concluída. Na época, o Ministério da Aeronáutica exigia a devolução dos dois depósitos de Ezeiza que haviam emprestado à Biblioteca para depositar os materiais que não entravam mais na Rua México. A não devolução dos galpões acarretava o risco de confisco dos materiais existentes. Por esta razão, o contrato COMARCO foi prorrogado e cerca de 4.000 metros quadrados de armazém foram habilitados.

Durante as três décadas em que a construção durou até a inauguração em abril de 1992, a construção foi iniciada e interrompida várias vezes. A imprensa noticiava constantemente as más condições em que se encontrava a casa da Rua México e o risco que se corria na preservação do acervo bibliográfico.

Etapa IV de construção


Com a estrutura concluída, 4.000 metros quadrados de armazém em uso, ocorreu a segunda licitação para a Etapa IV de construção. O recebimento de ofertas foi inaugurado em 26 de maio de 1982, em plena Guerra das Malvinas. O estágio IV incluiu todas as instalações e acabamentos necessários até a conclusão da construção.

Um dos inimigos mais importantes da Biblioteca Nacional em toda a sua história tem sido o “grande emaranhado da administração pública”, segundo o engenheiro Servente, executivo de uma das duas empresas responsáveis ​​pela última etapa do projeto. Quando a empresa Servente tinha assumido a obra em março de 1983, eles haviam calculado que poderiam fazer a obra em 3 anos, mas cinco anos depois não tinham como saber quando poderiam terminá-la.

A chegada da democracia do presidente Alfonsín em 1983 provocou uma nova mudança de autoridade e os consequentes e inevitáveis ​​trâmites burocráticos para obter os fundos necessários para continuar a construção. Mais uma vez as obras começaram a sofrer atrasos devido aos inconvenientes causados ​​pela aplicação do Plano Austral, até que em novembro ficaram praticamente paralisadas.

Auditório Jorge Luis Borges
Clorindo Testa

As obras foram reiniciadas em 22 de junho de 1987 e foram novamente paralisadas em setembro de 1988 por falta de pagamento às empresas. O contrato dos arquitetos havia expirado em julho e o governo devia uma quantia considerável, mas eles concordaram em continuar com a gestão da obra, na esperança de cobrar a dívida e assinar um novo contrato. Por fim, foi feita uma nova prorrogação que incluiu uma cláusula que previa a negociação entre as partes com vistas à assinatura de um novo contrato.

Francisco Bullrich,1954

Bullrich e Testa solicitaram entrevistas para esse efeito que não foram concedidas. Nessas circunstâncias, em 29 de maio de 1989, quando expirou a última prorrogação do contrato de gestão da construção, enviaram ofício informando que o prazo havia expirado e não haviam recebido resposta.

Mesmo quando foram entrevistados por técnicos e assessores do novo governo de Carlos Menem, nada mudou e eles foram excluídos da fase de conclusão da obra.  Concluiu-se assim a participação dos arquitecos nessa obra.

Alicia Cazzaniga faleceu em 28 de fevereiro de 1968 antes de completar 40 anos devido a uma doença repentina

A posse, expressão de vontade política, permitiu-lhe a Carlos Menem obter uma importante conquista política ao presidente. Na verdade, “o que faltava para inaugurar o prédio era mínimo”.

A gestão da construção, que até 1989 esteve a cargo do Atelier Clorindo Testa-Francisco Bullrich, foi assumida pela Direcção de Arquitectura Escolar do Ministério da Cultura e Educação da Nação. Era de se esperar que o Estado tivesse demonstrado uma maior respeito pelos referidos arquitetos, e não dispensando eles, precisamente na última e importante fase de acabamento das obras.

O termino da construção


Ao assumir a presidência da Nação Argentina, o Dr. Carlos Saul Menem, em 1989, coloca a frente da Direção de Arquitetura – antiga Direção Geral de Arquitetura e Trabalhos Públicos – o arquiteto Zenón Molina, com o objetivo prioritário de concluir as obras da Biblioteca Nacional. O Ministro da Educação e Justiça, Antonio Salonia, cria uma comissão de obra e projeto para a Biblioteca, presidida por Julio Bárbaro, entre outros funcionários do Ministério e da própria Biblioteca Nacional. Neste período, também são reiniciadas as tramitações pelo crédito quisto pelo governo anterior, junto ao Governo Espanhol, que se encontrava paralisado. Foi obtido um crédito de cinco milhões de dólares, com facilidades para o pagamento do mesmo.

Jorge Luis Borges, assumiu o cargo de diretor da Biblioteca Nacional em 21 de outubro de 1955, onde permanece até final de março de 1973.

A pedido da presidência da Nação, a Fundação “Antorchas” é encarregada de organizar uma equipe de arquitetos e especialistas com o intuito de promover um plano de trabalho que abarca desde a atualização do programa do projeto arquitetônico e sua funcionalidade, além de uma estimativa de custos para a conclusão do edifício, cuja obra iniciou em 1971. Sendo assim, além da equipe responsável pelo acervo bibliotecnológico, é formada uma equipe de quatro arquitetos que trabalham conjuntamente em busca das adequações necessárias. Ressalta-se que, com o passar dos anos, foram agregados ao programa de uma biblioteca outras necessidades, tais como: espaço para um centro de conservação, instalações contra incêndio, instalações de informática, instalações de ar condicionado e para controle de umidade, principalmente para os depósitos. A equipe de arquitetos redistribui algumas funções da biblioteca e agregam outras, mas sem exceder os 44 mil m² de superfície previstos pelo projeto executivo.

O plano de trabalho é entregue pelos profissionais responsáveis pelo estudo: arquitetos Federico Sleboz, Adriana Ten Hoeve, Cláudia Gola e Rodolfo Hasse. Para adequação do mobiliário, a Associação Civil Protetores da Biblioteca Nacional contrata o grupo UBATEC, uma empresa vinculada à Universidade de Buenos Aires, cuja atribuição principal é de prestar consultoria e gestão de projetos de investigação e desenvolvimento tecnológico.

Para a inauguração da edificação, foi proposto um “Plano de Habilitação” dividido em duas etapas. Na primeira, habilita-se a Escola Nacional de Bibliotecários, contando com três salas de aula, totalizando 110 lugares; duas salas de trabalhos práticos; uma sala de leitura; sala da direção e gerência; sala de professores; sala de reprografia; sala de informática; e sala multimídia. Na segunda etapa, finalizada em 10 de abril de 1992, é habilitada a área da hemeroteca; área de processos técnicos; área de depósitos gerais; espaços destinados ao “Tesouro da Biblioteca Nacional”, “UNESCO”, “Auditório Jorge Luis Borges”; área de “Exposições Bibliográficas Leopoldo Marechal”; Praça de acesso; bar; área da direção e administração da Biblioteca Nacional, assim como área de serviços técnicos, instalações telefônicas e áreas verdes de uso público.

A Sala de Leitura da Biblioteca Nacional estava pronta para uso, mas para somar uma nova polemica a esta conflitiva obra publica, o espaço é destinado como sede da “Asamblea de representantes del electorado de la Ciudad de Buenos Aires”. Neste momento, já haviam sido instaladas as mesas de leitura, os sistemas internos de busca de livros, o cabeamento dos equipamentos de informática, etc. Foi preciso utilizar o depósito do 4° pavimento para armazenar todos os móveis anteriormente dispostos no Salão. Além disso, as adaptações da sala de leitura para receber a assembleia implicariam em um gasto de aproximadamente 2.000.000 de pesos. Somente em 16 de dezembro de 1996, o espaço é destinado para seu verdadeiro proposito: Sala de Leitura. A utilização do Salão Principal de Leitura da Biblioteca para outro fim, nas vésperas de sua inauguração é apenas um fato que exemplifica as adversidades que a construção da edificação atravessou.

Para os equipamentos, teve a contribuição da empresa Compañía Internacional de Eventos S.A. que por decreto do Poder Executivo obteve à autorização de venda de automóveis importados para a Feira Internacional do Automóvel, e que posteriormente entregaria à Associação dos Protetores da Biblioteca Nacional o valor correspondente ao produto dessa venda.

Em 15 de novembro de 1990, em uma área de 120 mil metros quadrados, na Costanera Sur entre as ruas de Belgrano e Perón, quase na orla do Río de la Plata, foi inaugurada a exposição na qual logo caíram as suspeitas e depois abriram acusações de corrupção. O mentor da exposição era Rubén Kaplán, presidente da Compañía Internacional de Eventos S.A. e irmão do ex-cabeleireiro do presidente e então Chefe de Cerimonial da Casa de Governo, Enrique Kaplán.

Segundo Kaplan, o evento acabou sendo um péssimo negócio para a empresa e eles mal recuperaram as despesas. Os 132 automóveis, modernos e antigos, entraram no país livres de qualquer gravame pelo decreto presidencial; o Banco Municipal financiou as compras em Miami. Curiosamente, sabia-se que um governador argentino havia aumentado seu capital exportando carros da Argentina para Miami. Como todos os processos de privatizações ocorridos durante os dois governos de Carlos Menem nos anos 90, este processo também foi acusado da prática habitual de corrupção.

Finalmente, em 5 de fevereiro, Saturnino Montero Ruiz, presidente do Banco Ciudad, entregou ao Ministro da Educação Antonio Salonia, e o diretor da Biblioteca um cheque de US $ 1.810.000. A soma era o saldo para cobrir o faltante da Compañía Eventos Internacionales S.A.

A exposição foi declarada de interesse nacional pela Subsecretaria de Cultura da Nação, mas também contou com a presença, como estrela convidada, de uma conflituosa Ferrari Testarossa que foi entregue ao presidente Carlos Menem por um grupo empresarial italiano. Foi presenteado pelo investidor italiano Massimo del Lago em 1990, que estava prestes a obter a concessão para a construção de uma rodovia de 80 milhões de dólares em Morón.

Dias depois, Carlos Menem esqueceria sua postura institucional: “A Ferrari é minha, por que vou vender? É minha, minha!”. Naquela época, a atitude do presidente era sustentada pela falta de regulamentação quanto aos brindes recebidos por funcionários públicos. Assim nasceu um debate na boca de todos os argentinos: a “Ferrari” era propriedade do presidente ou devia tornara-se patrimônio nacional? … Por causa de discussões políticas, Menem acabou entregando sua amada Ferrari ao Estado e, posteriormente, a Lei 25.188 foi promulgada para regulamentar os presentes aos funcionários.

Foi leiloada por US $ 135.000 e anos mais tarde esteve nas mãos do corretor da bolsa Juan Napoli. Em 2014 foi adquirida pelo ex-presidente da UIA, Héctor Méndez. No dia 7 de agosto de 2015, o carro passou para as mãos de Aldo e Dahian Rocchini, que o compraram por meio de sua empresa El Legado (também eram diretores da distribuidora de gás Extragas). A partir desse momento, a polemica Ferrari está em sua posse.

 

fonte:

  • A arquitetura da Biblioteca Nacional – Cassandra Salton Coradin (1)
  • La Biblioteca Nacional Argentina, 1901-1993 – Ricardo Rodriguez Pereyra (2)
  • https://www.bn.gov.ar/
  • https://www.lanacion.com.ar/

 

 

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