BIBLIOTECA NACIONAL – Parte I: Como a residência presidencial “Quinta Unzué” virou biblioteca

A Biblioteca Nacional foi dirigida pelo escritor Jorge Luis Borges durante 18 anos e finalmente construída onde um dia foi a residência do presidente Juan Domingo Perón e de sua esposa Evita.

Depois do golpe militar de 1955 a residência foi demolida, no local foi projetada a Biblioteca Nacional, a obra que demoro 30 anos em concluir, tornou-se uma marca da arquitetura moderna argentina e um exemplo da variante do expressionismo do século 20 chamada “brutalismo”.

Quinta Unzué: A residência presidencial


Sua história remonta a meados do século XIX, quando Mariano Saavedra, filho do presidente do primeiro governo das Províncias Unidas do Río de la Plata, comprou pelo valor de 1.000 onças de ouro este terreno localizado no bairro de Recoleta (então subúrbio da cidade), onde construiu uma casa de repouso. Após sua morte, em 21 de outubro de 1884, a propriedade foi adquirida por Mariano Unzué, rico fazendeiro que presidia o Banco Nación, casado com Mercedes Baudrix. Com o passar dos anos e à medida que o bairro da Recoleta se consolidava como o preferido das famílias mais ricas, Mariano e Mercedes resolveram se instalar definitivamente.

Após o falecimento de Mercedes, e a quinta habitada por alguns de seus dez filhos, em 21 de janeiro de 1937 a propriedade e o restante do quarteirão foram declarados de utilidade pública e foi resolvida sua desapropriação para uso como residência presidencial.

A Lei promulgada pelo Congresso Nacional regulamentou não só a desapropriação da quinta e de seu parque, mas de todo o quarteirão. Um total de 14 propriedades localizadas na Av. Las Heras e a Rua Áustria foram adquiridas pelo estado e utilizadas para várias funções, como por exemplo a atual Embaixada da República do Paraguai.

Desde meados da década de 1930, os presidentes argentinos viviam na antiga casa de Carlos Madariaga e Josefa Anchorena, localizada na rua Suipacha 1032, hoje sede da Conferência Episcopal Argentina, e Roberto Marcelino Ortiz ali se instalou com sua esposa María Luisa Iribarne que provavelmente não achou sentido mudar para uma nova residência oficial na qual era necessário fazer inúmeras adaptações. Presume-se que, por esse motivo, em 21 de dezembro de 1938, Ortiz assinou o Decreto nº 20.016 que destinou a Quinta Unzué à fundação de uma creche que se chamaria “Mitre”.

Peron e Evita


Em outubro de 1951, uma vez que a Quinta Unzué foi habilitada como residência presidencial, o primeiro e único presidente que viveu permanentemente no Palácio de Unzué foi o general Juan Domingo Perón e sua esposa Eva Duarte durante seus dois primeiros governos entre 1946 e 1955.

A casa e seu parque tornaram-se então um dos locais preferidos do casal para receber delegações e receber convidados especiais, entre outras atividades. São famosas as imagens em que se observa a primeira-dama posando nos corredores da casa com vestidos de gala para assistir ao Teatro Colón, e Perón em momentos íntimos.

Mas a casa também foi palco de um acontecimento que emocionou a sociedade argentina, quando no dia 26 de julho de 1952, às 20h25, em uma das salas do primeiro andar especialmente preparadas para ela, Evita morreu aos 33 anos, vítima de câncer.

Evita passou longos meses praticamente confinada na residência presidencial, saindo ocasionalmente, pois recebia frequentes transfusões de sangue e seguia ordens de repousar. Eva Perón trabalhava na residência presidencial porque o câncer que a afetava a impedia de se mudar para seus escritórios no Palácio da Legislatura, onde funcionava a Fundação Evita. Finalmente, tendo esgotado todos os recursos possíveis para curá-la, Evita morreu no Palácio Unzué em 26 de julho de 1952.

Demolição


Depois que o presidente Peron foi derrubado por um golpe militar em setembro de 1955, a casa permaneceu em desuso até sua demolição em 1958.

Em 16 de setembro de 1955, durante os bombardeios aéreos que visavam derrubar Perón, um dos artefatos explosivos foi lançado contra o palácio presidencial, mas caiu nos jardins do prédio sem destruí-lo. Nos dias que se seguiram ao golpe de 1955, a casa sofreu um incêndio e saques por parte dos soldados próximos ao golpe. O poder dos militares permaneceu nas mãos do general Pedro Eugenio Aramburu, ditador (que governou entre 1955 e 1958) e ferrenho inimigo do presidente deposto, que determinou que o Palácio Unzué fosse totalmente demolido em 28 de janeiro de 1958, para ser transformado em passeio público.

Muitos acreditam que o verdadeiro motivo da demolição foi evitar que a casa fosse redefinida como ícone do peronismo, após a morte de Evita

Assim, Aramburu foi o primeiro governante argentino a utilizar a Quinta de Olivos como residência presidencial, função que mantém até hoje.

Por outro lado, o sobrenome Aramburu resultou vinculado a outro episódio infeliz na história argentina relacionado ao desaparecimento do corpo de Evita (que foi levado para a Itália). Na década de 1970, em meio aos acontecimentos políticos conflituosos que marcaram o prelúdio do último Golpe Militar de 1976, o grupo Montoneros formado por uma facção da Juventude Peronista sequestrou o corpo de Aramburu e depois o entregou em troca do que marcaria finalmente a volta e repatriação do corpo de Evita para sua amada Argentina.

Palácio Álzaga Unzué


Palácio Álzaga Unzué, atual Hotel Four Seasons

A “Quinta Unzue” não deve ser confundida com o Palácio Álzaga Unzué, uma das residências mais impressionantes da aristocracia do início do século 20 na cidade de Buenos Aires. Desde 2001, faz parte do Four Seasons Buenos Aires Hotel cinco estrelas e está localizado na Rua Cerrito 1455. Foi declarado Sítio de Interesse Artístico Histórico pela Prefeitura em 1997.
Em 1991, no terreno da residência, iniciou-se a construção de uma torre projetada pelo estúdio Sánchez Elía (SEPRA), encomendada pelo saudita Ghaith Pharaon, inaugurada no ano seguinte como parte do complexo Park Hyatt Hotel Buenos Aires. Com a crise econômica de 2001, os dois edifícios passaram a ser administrados pela rede Four Seasons.

Biblioteca Nacional


A Biblioteca Nacional permaneceu na “Manzana de las Luces” durante noventa anos, sendo transferida, em 1901, para um novo prédio – originalmente construído para a Loteria Nacional, pelo arquiteto italiano Carlos Morra (na Rua México, n° 564). Sendo assim, em 27 de dezembro de 1901, é inaugurada a nova Biblioteca Nacional.

Destaca-se que todas as edificações, onde foram dispostas as dependências da Biblioteca Nacional, não haviam sido projetadas para tal fim. Deste modo, no início da década de 40, se insiste na proposição de uma sede efetivamente elaborada para tal fim. Porém, somente a partir do golpe de 1955, o processo adquire um novo impulso e no ano do 1960, propõe-se um concurso de anteprojetos para a solução arquitetônica do edifício.

Em 12 de abril de 1962, são recebidos vinte e oito projetos para a análise dos jurados e, em 30 de julho de 1962, é premiado o anteprojeto dos arquitetos Clorindo Testa, Francisco Bullrich e Alicia D. Cazzaniga. Os três arquitetos já haviam trabalhado em equipe, mas foi a primeira vez que trabalharam em um projeto tão grande. Entre 1964 e 1965 projetam o Campus da Fundação Bariloche e a reforma da sede do Instituto Torcuato Di Tella, na Rua Florida 936.

Clorindo Manuel José Testa nasceu em 10 de dezembro de 1923 na Itália, e após alguns meses de vida mudou-se para a Argentina. Ele estudou engenharia eletromecânica na Universidade Nacional de La Plata (UNLP), mas mudou de carreira para fazer parte do primeiro grupo de graduados na nova Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em 1948, aos 25 anos.

Suas obras mais importantes incluem o Hospital Naval de Buenos Aires, a Casa Di Tella, o Banco de Londres e América do Sul, o Centro Cultural Recoleta de Buenos Aires, o Spa La Perla em Mar del Plata, a Casa La Tumbona de Ostende, o Museu do Livro e, provavelmente o mais famoso, a Biblioteca Nacional Mariano Moreno. Ele morreu em 11 de abril de 2013, aos 89 anos.

“No caso da Biblioteca Nacional, os quatro grandes pilares em forma de tubos que suportam o corpo do edifício alojam as escadas e elevadores, permitindo configurar um grande espaço coberto aberto como uma espécie de praça pública que constitui o acesso à Biblioteca”, explica Clorindo Testa.

No volume superior se encontram as funções administrativas, as salas de exposições, o foyer do auditório, a cafeteira e as salas de leitura com vista sobre a paisagem. Os livros que são a parte pesada do programa estão no subsolo. Desta forma, a ordem funcional se manifesta na composição do edifício.”

A arquitetura brutalista foi uma tendência que se manifestou na arquitetura de diferentes partes do mundo nas décadas de 50 a 70 do século XX e teve grande relevância nas manifestações da arquitetura pública e privada em nosso país.

Acredita-se, portanto, existirem três pontos de destaque da proposta projetual de Testa e seus colegas: a criação da esplanada coberta de acesso, a qual propicia ao público um espaço de deleite e contemplação das áreas verdes existentes no terreno; a elevação do Salão de Leitura, de onde se pode apreender uma visão privilegiada da paisagem do Rio da Prata e do contexto urbano; e a perspicácia na proposição dos depósitos enterrados, possibilitando a ampliação dos mesmos sem alteração no volume edificado.

Escola Nacional de Bibliotecários: O anteprojeto deveria contemplar também a construção da Escola Nacional de Bibliotecários, que constituía uma unidade de ensino completa e independente dos demais serviços da Biblioteca Nacional. A movimentação de alunos e professores não devia interferir nas atividades gerais do edifício. A Escola de Bibliotecários foi contemplada no mesmo local que finalmente ocupou, mas sua disposição atual em corpo lateral, surgiu de uma modificação que foi feita após o concurso. Foi concluída em 6 de setembro de 1991.

Hemeroteca, a Biblioteca de jornais: Era uma biblioteca completa especializada em jornais, periódicos e revistas com todos os seus elementos técnicos e serviços diferenciados, pois esses materiais exigiam um tratamento diferente dos livros, uma forma diferente de arquivamento e possibilidade de posterior redução a microfilme. Por este motivo, a Biblioteca de Jornais teve que ser funcionalmente concebida como uma unidade separada, repetindo, com as devidas adaptações, os serviços da Biblioteca. Deveria consistir em um depósito de 500.000 exemplares encadernados com estantes especiais para volumes de grande volume; Referência, com arquivos de 10 milhões de cartões de uso público e 10 milhões de uso reservado; Sala de Leitura para 100 leitores, com 10 dispositivos de leitura de microfilmes; Sala de publicações antigas para 20 leitores e 2 dispositivos de leitura de microfilme e um depósito anexo para 50.000 cópias encadernadas e outros serviços de escritórios para funcionários.

A Biblioteca tem mais de 2 milhões de volumes, entre livros, publicações e manuscritos históricos armazenados em seus imensos porões. Entre eles, uma primeira edição de Don Quixote, a coleção literária pessoal do general Belgrano, uma Bíblia de 1445, mais de 300 mil partituras de musica e uma gigante sala de mapas antigos.

Desenvolvida em um período político marcado pela transição de governantes, a obra se estende por mais de 30 anos e se desenvolve sem o rigor que merecia tal projeto. Clorindo Testa confidencia que, nesta obra, não houve um rigor construtivo quando comparada com a obra do Banco de Londres, por exemplo. Ressalta-se que o concurso para o projeto da Biblioteca é proposto em 1962, sua obra teve início em 1971 e, por volta de 1981, apenas um terço da edificação havia sido construída.

Um dos inimigos mais importantes da Biblioteca Nacional em toda a sua história tem sido o “grande emaranhado da administração pública”. Vale relembrar que entre os anos 1976 e 1982, a Argentina passa por uma fase marcada pelo regime militar. Neste período as obras da Biblioteca Nacional ficaram praticamente paradas.

Monumento a memoria de Eva Duarte de Peron

Ao assumir a presidência da Nação Argentina, o Dr. Carlos Saul Menem, em 1989, coloca a frente da Direção de Arquitetura o arquiteto Zenón Molina, com o objetivo prioritário de concluir as obras da Biblioteca Nacional, que depois de 30 anos finalmente foi inaugurado em 10 de abril de 1992.

A Biblioteca Nacional foi renomeada para Evita Perón em vez do nome anterior de Rubén Darío. O monumento dedicado a Evita foi inaugurado pelo presidente Carlos Menem em 3 de dezembro de 1999 antes de ser concluído, devido ao facto de ele deixar o cargo no dia 10 desse mês. É uma estrutura de pedra com quase 20 metros de altura feita pelo artista Ricardo Gianetti.

 

fonte:

  • https://www.bn.gov.ar/
  • https://infoarenales.com/2020/05/07/edificios-que-se-fueron-la-quinta-unzue-donde-murio-eva-peron/
  • https://www.lanacion.com.ar/

 

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