Caminito: A criação de Benito Quinquela Martín no bairro La Boca

A paisagem mais colorida da cidade de Buenos Aires foi oficialmente inaugurada em 18 de outubro de 1959. Originalmente correspondia a uma trilha de um trem de carga que abastecia o Puerto de la Boca.

Abandonado pelos serviços da empresa ferroviaria, esse beco virou um terreno baldio cheio de lixo que, em 1959, e graças aos vizinhos e Quinquela Martín, foi reaberto com o nome de um dos mais famosos tangos: Caminito.

Dessa forma, Quinquela Martín transforma o local em um museu ao ar livre criando uma galeria de esculturas e comissiona relevos feitos especialmente para localizá-los lá. Com o tempo, tornou-se um ícone turístico que identifica Buenos Aires.

O Bairro de La Boca


La Boca era o porto natural de Buenos Aires e, em meados do século XIX, no Riachuelo ao sul da cidade, iniciou-se intensa atividade portuária. Em torno dos estaleiros, serrarias, armazéns navais e um grande número de operações relacionadas a essa atividade, desenvolveu-se a vida de seus habitantes.

A maioria chegou da Itália, principalmente de Gênova, esses trabalhadores imigrantes que vieram em busca de melhorias em suas condições de vida e se estabeleceram nessas terras bem longe do resto da cidade. Esse isolamento e, por sua vez, a relativa homogeneidade étnica estavam moldando uma identidade particular na vizinhança.

La Boca, ao contrário de outros bairros de Buenos Aires, nasceu e cresceu com sua própria fisionomia e identidade, em grande parte devido a dois fatores: seu isolamento e sua relativa homogeneidade étnica devido à predominância da imigração italiana e, principalmente, da Ligúria.

Os imigrantes se reuniram com seus compatriotas e residentes tentando reconstruir os laços sociais de origem através do idioma, costumes ou proveniência deste ou daquele povo. Isso deu origem a inúmeras associações, algumas ainda existentes – como Unione e Benevolenza, fundada em 1858, e a Nazionale Italiana, em 1861 -, que se reproduziram e, de certa forma, criaram uma identidade que dava ao imigrante rico apoio.

Benito Quinquela Martín


Nasceu em Buenos Aires em 1º de março de 1890. Abandonado pelos pais, passou seus primeiros seis anos no Patronato de la Infancia. Em 1896, aos 6 anos de idade, o menino Benito Juan Martín foi adotado pelo imigrante italiano Manuel Chinchella e sua esposa, a argentina Justina Molina.

O casal não podia ter filhos.  A criança passou a adotar o sobrenome paterno. Posteriormente, com a ajuda de um advogado, o artista mudou a grafia do nome para manter a fonética italiana e suprimiu Juan, passando a chamar-se Benito Quinquela Martín.

Benito Quinquela Martín com seus pais adotivos, Abril de 1940

A família tinha uma carvoaria no bairro de La Boca, onde desde cedo Quinquela Martín começou a ajudar, abandonando a escola por volta dos 9 anos. Seu pai reforçava o orçamento doméstico carregando mercadoria no porto.

Já adolescente, Quinquela Martín passou a trabalhar também no porto de La Boca, subindo aos barcos para encher sacos de carvão e levá-los aos diques onde ficavam os compradores, num local chamado de Vuelta de Rocha, hoje uma praça que leva o mesmo nome.

Nessa época, Quinquela Martín dividia suas horas entre o trabalho no porto e uma ativa participação napolítica do bairro, pregando cartazes e distribuindo panfletos de um candidato a deputado socialista que terminou sendo eleito, Alfredo Palacios.

O porto, as cenas cotidianas de La Boca, seus vizinhos e trabalhadores, as cores marcantes foram servindo de inspiração para o então adolescente

Aos 17 anos, entrou para o Conservatório Pezzini-Stiattes, onde permaneceu até os 21. Aí absorveu os primeiros conhecimentos técnicos sobre a arte. Também fez amizades que durariam para a vida inteira, como a de Juan de Dios Filiberto, célebre compositor e diretor de orquestra argentino, cujo papel foi fundamental para a consolidação do tango como um gênero musical.

Quinquela Martín: O Artista


É ao conhecer Eduardo Taladrid, secretário do diretor da Academia Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, que a carreira de Quinquela Martín tem impulso. Taladrid se encanta com o trabalho do artista e decide financiá-lo, comprando-lhe telas, tintas, molduras e até alugando um espaço para realizar sua primeira individual. Nesse período, passa a pintar exclusivamente com a espátula, o que se tornaria uma marca pessoal, usando o pincel só para assinar.

Vista da Vuelta de Rocha desde 0 estudo de Benito Quinquela Martín, que será instalado no terceiro andar do edifico de la Escuela Museo Pedro de Mendoza. Fotografía obtenida pelo jornal LA NACIÓN

O Salão Nacional de 1918 aceitou sua apresentação pela primeira vez e, no mesmo ano, realizou sua primeira exposição na Galeria Witcomb. Em 1921, e depois de ter conquistado o Terceiro Prêmio no Salão Nacional, ele expôs no Rio de Janeiro.

Em sua primeira exposição no Brasil, na Escola Nacional de Belas Artes, Benito Quinquela Martin expôs 30 quadros. Segundo nota publicada na imprensa, sua predileção eram marinhas realizadas com grande realismo e “seus melhores trabalhos representam os pontos da grande Republica do sul, executados em contínuo contacto do artista com o próprio scenario, representado nas suas telas.” A exposição teve o objetivo de divulgar a produção artística argentina no Brasil e foi acompanhada de conferências pronunciadas na Escola Nacional de Belas Artes.

Em 1929, ele expôs seus trabalhos no Pallazzo delle Esposizioni, em Roma. Eles são assistidos pelo rei Vittorio Emanuele III e Benito Mussolini. Este último oferece a ele um cheque em branco para comprar uma de suas obras e o artista a rejeita porque considera que é uma obra que deve permanecer em La Boca. O trabalho atualmente esta em exibição no MBQM.

Foto 1929; Quinquela Martín viaja para a Itália a bordo do “Conte Rosso”. No Palazzo Delle Esposizioni (Roma), ele realizará uma de suas exposições mais lembradas.

A partir de então, e ao longo da década, Quinquela mostra seus trabalhos com um sucesso marcante em Madri (1923), Paris (1926), Nova York e Havana (1928), Roma (1929) e Londres (1930). Ao mesmo tempo, suas pinturas ganham grande popularidade em Buenos Aires.

Em 1938, ele inaugurou o Museu de Belas Artes de La Boca no mesmo prédio onde ele tem sua oficina e sua casa. Benito Quinquela Martín, sem dúvida o mais popular dos pintores argentinos, faleceu em 28 de janeiro de 1977.

Caminito: O Cartão Postal


O famoso Cartão Postal: Caminito

O Caminito é um dos passeios mais emblemáticos e um dos atrativos imperdíveis para todos aqueles que visitam a cidade de Buenos Aires.

Na década de 50, um grupo de moradores decidiu restaurar os cortiços feitos com chapas de aço e suas fachadas pintados as fachadas nos mais diversos tons, transformando esta parte do bairro em um circuito cultural e turístico, transformando a região em sede de vários ateliês de arte.

Em 1954, um vizinho de sobrenome Cárrega, proprietário de um armazém naval (localizado ao lado do atual Museu Proa), preocupou-se com o fato de o local estar começando a se transformar em um depósito de lixo, então foi ate Quinquela pedir-lhe que transformara esse espaço. É aqui que o pintor decide aproveitar a ocasião para homenagear seu amigo, o compositor nascido em La Boca – Juan de Dios Filiberto com a música de seu tango Caminito. Desse modo, transforma o local em um museu ao ar livre: carrega esculturas e comissiona relevos feitos especialmente para localizá-los lá, e deu começo ao que com o passar do tempo, tornou-se um ícone turístico que identifica Buenos Aires.

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Em 18 de outubro de 1959, foi inaugurado o Caminito, projetado como um museu ao ar livre

“O Caminito” é obra de Quinquela. Houve tempo atrás uma ferrovia lá, chamada “La Curva”, que acabou sendo abandonada. Tornou-se uma estrada suja, esburacada e intransitável. Quinquela concebeu a ideia de reforma-o. Eles acabaram dando o nome: “Caminito”, em homenagem a um dos meus tangos. Você sabe por quê? Porque, ali, praticamente, foi onde eu compus a musica aquele tango “, diz Filiberto.

Por outra parte vale mencionar que a letra corresponde a Gabino Coria Peñaloza e é inspirada em outro lugar: Caminito de Olta, localizado no estado de La Rioja.

Pela antiga Rambla “La Perla”, em Mar del Plata, transportando o harmônio portátil de Filiberto, para fazer um encontro musical gratuito junto o mar. Filiberto, Riganelli, Arato, Ortiga Ankerman e eu [Quinquela]. Ano 1927

Desde o momento inicial, Quinquela participou de diferentes associações: lecionou desenho na escola Fray Justo Santamaría de Oro e na Universidade Popular de La Boca, foi membro do Ateneu Popular de La Boca, fundado em 1926 e da Agrupación de Gente de Arte y Letras Impulso, criado em 1940. Mas sobretudo foi sua criação pessoal a “Peña del Tortoni”, onde artistas de destaque da época reuniam-se para promover as artes e as letras sem aderir a nenhuma tendência estética em particular.

Qinquela Martin ao extremo dereito junto a Marcelo T Alvear

A Ordem do Parafuso


Ordem do Parafuso

Embora La Peña tenha sido criada em 1926 e fora extinta em 1943, sua continuidade foi a Ordem do Parafuso, cujos membros foram muito apreciados e procurados, trasladando parte daquela turma para o próprio barrio, La Boca.

Todo mundo sabe que quem tem um parafuso a menos na cabeça fica meio doido. Baseada nessa verdade popular, foi criada, em 1948, a Orden del Tornillo, ou Ordem do Parafuso, na casa de Quinquela Martín.
O objetivo era homenagear os loucos, aqueles que tinham um parafuso a menos. Quinquela Martín foi escolhido grão-mestre da ordem.

Na foto a filha de Charlie Chaplin, geralne recebe o premio

Ao todo, mais de três centenas de pessoas tiveram a honra de pertencer a tão distinta ordem. Diversas personalidades foram premiadas como artistas, embaixadores, filantropos, músicos, jornalistas e poetas.

As Pinturas de Quinquela Martin


Suas pinturas e murais são historias do porto de La Boca, resolvida com uma linguagem clara de leitura e através do uso generoso da cor. Essa mesma cor que finalmente transborda a estrutura necessariamente limitada de suas obras e revira todo o bairro de La Boca.

O cinza do nevoeiro e o preto da fumaça e carvão que até então dominavam cromaticamente o porto da Boca são representados pela inspiração de Quinquela, quem mobiliza o bairro todo em sua busca pela cor.

A última exposição de Quinquela Martín, que deixou de viajar ao exterior para estar perto da mãe já idosa, aconteceu em outubro de 1959, na cidade de La Plata. Mais tarde, foi Presidente Honorário do Museu de Belas Artes General Urquiza.

Em 1972, foi nomeado Professor Honorário da Universidade de Buenos Aires.

 

fonte:

  • Quinquela y La Boca: una relación de ida y vuelta, Lic. Diego Ruiz. Historiador MHN y MBQM
  • https://www.buenosaires.gob.ar/museoquinquelamartin
  • http://fundacionquinquela.org.ar/

 

 

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