Basílica Menor do Santíssimo Sacramento – Parte I: A igreja mais luxuosa de Buenos Aires

A Basílica do Santísimo Sacramento é uma das igrejas mais bonitas de Buenos Aires. O templo luxuosamente decorado apresenta uma grande custódia de ouro e prata, vitrais importantes e ornamentos de mármore, granito azul, bronze e mosaico veneziano.

Mercedes Castellanos de Anchorena, uma das mulheres mais ricas de Argentina, destacaou-se pelas suas doações para a construção de inúmeras igrejas, asilos e conventos.

Esta igreja é considerada uma das mais luxuosas da cidade de Buenos Aires, escolhida para celebrar casamentos pela alta sociedade portenha.

Basílica do Santíssimo Sacramento


Construída no desnível que desce até ao rio, a igreja foi concebida com o intuito de favorecer a adoração permanente do Santíssimo. Para isso, trazidos pela senhora Anchorena, vieram os padres da Congregação do Santíssimo (congregação dos Padres Sacramentinos) em 1903, ordem fundada em Paris por Pedro Julián Eymard.

Durante sua residência em Paris, Mercedes de Anchorena assistia à missa na capela de Corpus Christi, na rua Moulin Joly, onde se adorava o Santíssimo Sacramento, ela falou com os padres sacramentais comentando seu desejo de construir em Buenos Aires uma igreja para adorar ao Jesus Sacramentado.

A primeira ideia para a construção partiu do padre francês Antonio Seignon, da Congregação do Santíssimo Sacramento. Convocado pela benfeitora, chegou a Buenos Aires em 1903, junto com outros membros dessa ordem. Seignon sugeriu que os planos fossem desenhados por dois arquitetos franceses: Alfred Coulomb e Louis Pierre Léopard Chauvet. À sua obra, acrescentou-se a contribuição do arquiteto salesiano Ernesto Vespignani, que dirigiu a majestosa obra. Essa tarefa durou oito anos.

Dona Maria teve a ideia de que toda a sua família repousasse na cripta desta Basílica, mas hoje apenas os seus restos mortais estão no local, pois o resto da sua família está no Cemitério da Recoleta.

Ela disse que se ela morava em um palácio, seu Deus tinha que ter um também. Teve sucesso porque é considerada uma das igrejas mais luxuosas da cidade de Buenos Aires e a escolhida para celebrar casamentos pela alta sociedade portenha.

 A Fachada


Este belo e pouco conhecido templo possui cinco torres encimadas por delgadas cúpulas e um conjunto escultórico em mármore branco que representa o beato Pedro Julián Eymard, fundador da Ordem do Santíssimo Sacramento, levantando a Custódia do Sacramento.

A fachada apresenta elementos neo-românicos, com arcos semicirculares no nártex e biferas (aberturas geminadas) de altura. Destacam-se as cinco torres (três na fachada central e duas na abside do edifício; a torre central tem cinquenta metros de altura).

O acesso é feito por uma ampla escadaria ladeada por duas entradas monumentais á cripta do subsolo e portais de bronze.

A presença única do conjunto escultórico dedicado ao beato Pedro Julián Eymard, é o destaque principal da fachada. Tanto esta imagem como a dos anjos ajoelhados aos seus pés é de mármore de Carrara.

A pedra fundamental foi lançada em 1908, sendo consagrada em 1916 pelo Arcebispo de Buenos Aires, Mariano Antônio Espinosa e no mesmo ano foi nomeada Basílica Menor pelo Papa Bento XV.

Mas a grande curiosidade da igreja se dá na cripta do porão, uma construção tão luxuosa e das mesmas dimensões do templo que está acima. O chão da cripta fica quatro metros abaixo do nível da rua e suas colunas, inteiras, são muito robustas porque servem de apoio para sustentar a grande Basílica. O chão de granito foi trazido da Alemanha, os bancos de madeira também foram feitos em Bruges e os mármores e luzes vieram da Itália. A cripta (também é uma cruz latina e tem três naves) foi inaugurada em 1911.

Ernesto Vespignani também participou da construção da cripta. Recorde-se que, do projeto original, este arquiteto salesiano retirou duas fiadas de colunas que ficaram como sobras. Mas como as colunas já estavam em Buenos Aires, Mercedes Castellanos decidiu aproveitá-las e decidiu doar elas para a construção de outra igreja: a de Nossa Senhora das Mercedes (o nome de sua benfeitora) e fica na rua Echeverría 1371, no bairro de Belgrano. Foi inaugurado em 24 de setembro de 1914.

Mercedes Castellanos de Anchorena


Dona Mercedes Castellanos de Anchorena foi uma das mulheres mais proeminentes da Argentina no final do século XIX e início do século XX, devido ao importantíssimo trabalho realizado em favor da Igreja e de suas instituições.

Ela nasceu em Salta, sendo batizada em 24 de setembro de 1840. Era filha de Aarón Castellanos e de Dona Secundina de la Iglesia y Castro. Seu pai foi um homem proeminente do comércio de Salta, um dos pioneiros da colonização agrária de Santa Fé e da promoção da imigração europeia na Argentina.

Ela recebeu a melhor educação da época, adequada para as moças de sua classe. Concluiu sua formação em Paris nas Irmãs Canônicas de Santo Agostinho. Dotada de grande beleza, brilhou nos melhores salões de Buenos Aires no final do século. Em 1864, aos 24 anos, casou-se com Nicolás Hugo de Anchorena Arana, de 36 anos, próspero comerciante e fazendeiro de Buenos Aires, um dos homens mais ricos do país, de cuja união nasceram ao longo dos anos, onze filhos.

A origem da fortuna


A fortuna familiar origina-se, como outras, na época colonial, com as “mercedes de estancia” títulos de propriedade concedidas pelo rei. Explicar a origem de tal fortuna não é uma tarefa fácil. O complexo enredo que liga esta família opulenta e todo-poderosa ao poder político ao longo da história argentina é às vezes intrincado e quase sempre objeto de controvérsia entre os historiadores.

A saga dos Anchorena nestas terras começou em 1751, com a chegada a Buenos Aires de um menino de 17 anos chamado Juan Esteban de Anchorena, do Vale do Baztán, de família com brasão de armas existente desde o século XII. Dedicou-se ao comércio, forjando uma grande fortuna, posteriormente incrementada por seus filhos. Casou-se em 1773 com a portenha Romana López de Anaya e tiveram nove filhos, mas apenas três meninos (Juan José, Tomás Manuel e Mariano Nicolás) quem multiplicaram os seus descendentes. Mariano Nicolás de Anchorena, ou simplesmente Nicolás (Buenos Aires, 1785-1856), casou-se com Estanislada Arana em 1822. Eles eram pais de Mercedes, casada com Fabián Gómez; Nicolás, casado com Mercedes Castellanos; e Juan Nepomuceno, casado com Josefa Aguirre.

Os privilégios baseados na distribuição de terras públicas teriam se acentuado após a Revolução de Libertação de 1810 a partir da “Reforma Eclesiástica de 1822”.

Grande parte do patrimônio da Igreja Argentina tem sua gênese na época colonial. Nos séculos 16 e 17, a coroa espanhola cedeu centenas de milhares de hectares aos bispados e conventos que foram estabelecidos no novo mundo. A Igreja possuía 35.000 hectares de campos onde se estabeleceram posteriormente os municípios de Luján, Merlo, Avellaneda, San Pedro, Arrecifes, Moreno, Quilmes, Magdalena e Três de Febrero; na zona metropolitana de Buenos Aires. A Igreja também possuía 300 blocos na atual capital de Buenos Aires.

Em 1822, Bernardino Rivadavia, ministro do Governador Rodríguez da Província de Buenos Aires, promoveu uma lei de claro viés liberal denominada “Reforma geral da Ordem Eclesiástica”, limitando o poder da Igreja e causando a extinção de todas as ordens religiosos existentes em Buenos Aires. Ao contrário do que acontece na maioria das desapropriações, o Estado não deu à Igreja pagamento ou compensação em troca.

Essas grandes extensões de terra nas mãos das ordens implicavam para a burguesia agrária (os chamados latifundiários ou fazendeiros) a impossibilidade de exercer o controle total sobre a propriedade da terra, o que significava um freio ao seu desenvolvimento como classe.

Em 03 de junho de 1903, o Padre Antonio Seignon viajou para Buenos Aires

A intervenção do Estado estabeleceu uma base importante para o desenvolvimento das relações capitalistas e da própria burguesia agrária como classe social dominante. Essa expropriação implicou um passo vital no desenvolvimento capitalista nacional, já que a forma de reprodução dos bens nas fazendas rurais pertencentes a igreja funcionavam como freio para el desenvolvimento de fazendas de perfil privado. Na ausência de um proprietário individual, os bens não eram divididos em partes com a morte do proprietário para serem distribuídos entre seus herdeiros. Isso permitiu uma maior estabilidade das estadias eclesiais no tempo, o que implicava e assegurava a permanência das ordens no mercado de terras, enquanto as propriedades de caráter privado viam sua integridade territorial ameaçada com o advento de cada nova geração. Nesse sentido, é claro que a propriedade das ordens era de grande interesse para a burguesia agrária.

A fortuna dos Anchorena foi consolidada sob o governo de Juan Manuel de Rosas, governador do estado em dois mandatos (1829-1832) e (1835-1839). Rosas teve uma relação estreita com os Anchorenas desde muito jovem, a traves de casamentos de seus membros mas também teve relações de trabalho, pois Rosas primeiro atuo como capataz, depois como mordomo e, a partir de 1821, como administrador de três imensas fazendas pertencentes a Juan José e Nicolás Anchorena: Las Dos Islas, Los Camarones y El Tala.

Em 1930, apenas dezenove membros da família Anchorena reuniam 378.094 hectares somente no estado de Buenos Aires.

Antigo Palácio Anchorena


O fato de construir grandes residências de descanso aproveitando as vistas do Río da Plata, foi uma costume das classes abastadas desde os tempos coloniais. Restam algumas, como as vilas Pueyrredón, hoje Museu Pueyrredón, e as vilas Mariquita Sánchez de Thompson, hoje Vila-Museu Los Ombúes, ambas em San Isidro, para citar apenas algumas.

O Palácio Anchorena foi projetado para Mercedes Castellanos de Anchorena, pelo arquiteto Alejandro Christophersen em 1905. Construído a partir de 1909, foi inaugurado pela família Anchorena para comemorar o Centenário da Declaração de Independência da Argentina, onde se fez o Baile Oficial. Assim, desde a sua construção e durante os vinte anos em que foi propriedade da família Anchorena, foi popularmente conhecido como Palácio Anchorena.

Localizada na rua Arenales 761, no bairro Retiro, em frente à Praça San Martín, é uma das residências mais bonitas da cidade, graças ao declínio do terreno por estar localizada em uma barranca original localizada em frente ao Río da Plata.

Embora pareça um complexo único, é composto por três residências: a que dá para a rua Esmeralda que era habitada por Mercedes Castellanos de Anchorena com seu filho Aaron, a central que era habitada por Enrique Anchorena e sua família, e a que dá para Rua Basavilbaso, que era habitada por Leonor Uriburu, viúva de Emilio Anchorena.

O Palácio Anchorena foi construído entre 1905 e 1909, pelo arquiteto Alejandro Christophersen

A mansão, luxuosamente decorada pela casa Jansen em Paris, passou a ser propriedade do Estado na década de 1930, passando a ser a sede do Ministério das Relações Exteriores, e foi rebatizada de Palacio San Martín. Atualmente é a Sede Cerimonial da Chancelaria, já que seus escritórios foram transferidos para o novo edifício vizinho nas ruas Arenales e Esmeralda, construído pelos arquitetos Aizenstat e Rajlin, cuja arquitetura parece dialogar com a obra monumental de Christophersen.

A mulher mais rica de Buenos Aires


Após a morte de seu pai em 1880 e depois a de seu marido, Mercedes Castellanos se tornou uma das mulheres mais ricas de Buenos Aires. Por volta de 1884, quando Don Nicolás Hugo de Anchorena y Arana morreu aos 56 anos, deixou uma fortuna de quatro milhões de libras esterlinas em campos, gado, propriedades urbanas e dinheiro.

A inteligência clara de Mercedes a fez cuidar pessoalmente da imensa fortuna que havia recebido de seu marido. Entre eles, dos mais de vinte fazendas, que ela não só se limitou a manter, mas aumentar significativamente. Apesar dos grandes privilégios que sua posição lhe impôs, desde muito jovem ela teve um caráter solidário e generoso.

Destacam-se suas doações para a construção de inúmeras igrejas, asilos e conventos. Entre eles, merece destaque a Basílica do Santísimo Sacramento. Desenhado pelos arquitetos Coulomb e Chauvet, o projeto recebeu o prêmio Hors Concours na Feira Mundial de Paris.

A isso se somam, entre outras numerosas obras, o Mosteiro das Madres Carmelitas Descalzas “Santa Teresa de Jesús”, no bairro de Almagro, em Buenos Aires; o noviciado das Irmãs do Bom Pastor no bairro de Caballito; o Convento e Igreja dos Franciscanos em Castellanos (estado de Santa Fé). Também nesse mesmo estado, o das Irmãs Franciscanas Missionárias, a renovação do Convento Franciscano de Santiago del Estero e a Igreja do Seminário Arquidiocesano de Buenos Aires.

Tampouco esquecia as necessidades dos mais humildes, construindo a Casa dos Trabalhadores do Asilo do Pino em Buenos Aires. Ela também colaborou com as Conferências Vicentinas, maternidades, escolas e mecenatos em todo o país.

Na localidade de Azul, onde possuiu imensas propriedades rurais, como a fazenda San Ramón, construiu a casa paroquial, o altar da atual Catedral e todas as obras das Irmãs do Bom Pastor, consistindo em uma igreja e asilo para meninas e oficinas gratuitas. Em Hinojales ela construiu a capela dedicada a San Nicolás de Bari e em San Ramón uma magnífica capela dedicada à Virgen de las Mercedes em memória de sua filha Mercedes, que morreu solteira em 1890 em Paris.

Em 1920, na Fazenda la Azucena, ela construiu outra capela em memória de seu filho Emilio, consagrada ao Sagrado Coração de Jesus. Nunca esqueceu sua cidade natal, doando o Altar do Senhor do Milagre na Catedral de Salta em 1899.

Pelo importantíssimo trabalho realizado em favor da Igreja, obra inédita até aquele momento na Argentina, Sua Santidade o Papa Pio IX a nomeou Pontifícia Condessa e Senhora da Rosa de Ouro, uma das distinções mais importantes que a Igreja Católica dá às mulheres que deram um testemunho claro de sua adesão e serviço à Igreja. A antiga tradição tem uma longa e rica história em que a maioria das nomeadas eram rainhas.

Mercedes Castellanos de Anchorena faleceu na madrugada de 9 de julho de 1920, estando envolta no hábito de São Francisco. Seus funerais foram presididos por quatro bispos e mais de setenta seminaristas cantaram a Missa de Requiem.

Seus restos mortais foram enterrados na cripta da Basílica do Santíssimo Sacramento.

 

fonte:

  • https://www.lanacion.com.ar/cultura/cumple-100-anos-la-cripta-del-santisimo-sacramento-nid1383130/
  • https://baiglesias.com/santisimo-sacramento-2/
  • http://sacramentinos.com/fundador
  • http://metropolis.com.ar/conoce-la-basilica-del-del-santisimo-sacramento-la-joya-de-retiro/

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *