BAR NOTÁVEL “LA CORUÑA”: O autêntico bodegón de bairro que partiu para nunca mais voltar

Me causa muita tristeza os lugares que já não estão, em especial este Bar Notável que frequentei muitas vezes durante meus passeios pelo mítico bairro de San Telmo. O mesmo boom turístico que impulsionou e revitalizou o Casco Histórico de Buenos Aires foi quem trousse novas tendências para satisfazer a demanda do novo publico alvo: os estrangeiros. Assim, um local de comida vietnamita veio a substituir um velho bar de imigrantes espanhóis que por décadas e décadas soube conservar a tradição da comida caseira argentina.

Mercado de San Telmo


No bairro de San Telmo, dois mercados foram inaugurados em 1897: o San Telmo e o Argentino, este último infelizmente já desaparecido. O designer do Mercado de San Telmo foi o arquiteto italiano Juan Antonio Buschiazzo (1846-1917), um profissional que deixou um importante legado de obras em Buenos Aires. Entre outros, lembramos o traçado da Avenida de Mayo, o Mercado Modelo, a prefeitura de Belgrano (atual Museu Sarmiento) e a Bolsa de Comercio original.

O Mercado de San Telmo ocupa pouco mais de um quarto do quarteirão formado pelas ruas Defensa, Carlos Calvo, Bolívar e Estados Unidos

A magnífica estrutura metálica é composta por arcos, vigas treliçadas e colunas mistas. A boa iluminação natural é obtida por meio de seu telhado de chapa ondulada e de vidro. O belo espaço central é coberto por uma cúpula de oito lados.

As instalações da rua eram originalmente ocupadas por bares e bilhares

Além do valor do prédio, o mercado, devido ao seu uso, é uma referência valiosa para o bairro, que merece ser protegido. Foi ampliado em 1930 ganhando  corredores secundários que têm saída pelas ruas Defensa e Estados Unidos. No ano 2000, o Mercado foi declarado Monumento Histórico Nacional pela secretaria de Cultura da cidade.

Bar “La Coruña” – (1961)


Fora do mercado, numa das instalações que dão para a rua, a de Bolívar 982/86/94, desenvolve a sua atividade o bar e restaurante La Coruña, cujo nome evoca uma das quatro províncias da região espanhola da Galicia (as outras são Lugo, Orense e Pontevedra).

Os primeiros tempos do Bar Notável “La Coruña”

José Moreira e sua esposa Manuela López eram os proprietários desde 1961. O lugar já havia funcionado como bar e restaurante por muitos anos, mas foi renomeado para La Coruña em agradecimento à terra onde eles nasceram. De manhã é café e bar. Por volta do meio-dia, os aromas que emergem da cozinha a transformam em restaurante.

O magazine Humor de outubro de 1998 comentou a respeito de La Coruña: “Atende ao paladar e ao orçamento dos trabalhadores de San Telmo e é um dos últimos botecos da cidade com comida caseira à moda antiga; seja um guiso, um bife de fígado com cebola e até um verdadeiro ossobuco com batata ou macarrão”.

Com a partida de seus pais, primeiro de seu pai e depois de sua mãe, Carmen Margarita Moreira López se encarregou do bodegón La Coruña. Mistura de cozinheira e garçonete, ela é a única herdeira daquele café notável de San Telmo.

A história de seus pais é a mesma de milhes de imigrantes, quando os homens vinham primeiro a tentar sorte e uma vez estabelecidos e com trabalho assegurado, mandavam o restante da família vir para Argentina. Quando Carmiña embarcou junto a sua mãe, Manuela, lá no município de La Coruña, famoso pelo mais belo farol romano em funcionamento até hoje, a Torre de Hércules, ela tinha 6 anos.

Ao chegar ao porto de Buenos Aires ela viu dois homens esperando por eles. Manuela perguntou-lhe se conhecia aquele homem que os esperava. “Sim, o tio Manolo”, respondeu a menina. Mas o outro, próximo a ele, não o reconheceu. Era o pai dela. E assim, eles se apresentaram naquele recontro em terras sulamericanas.

O tio Manolo convidou a Don José, o irmão, para Buenos Aires e começaram a procurar um local para estabelecer um bar. O bar “El Británico” e o velho “Bar Dorrego” passaram por seus olhares; mas finalmente decidiram-se por um local do Mercado de San Telmo. Como o tio Manolo era torcedor fanático do teme Deportivo La Coruña, lá na sua terra natal de Galicia, chamavam-no de “La Coruña”.

Os tempos em que Manuela ainda gerenciava o local

Em 2008, em entrevista conferida ao jornal do bairro, “El Sol de San Telmo”, Carmen, contava as origens do bar, que é a propia historia de sua família: “Há 47 anos, funcionava neste mesmo local um armazém. Talvez tenha sido chamado de ‘Progresso’ ou ‘Futuro’, primeiro atendido por uns imigrantes asturianos e depois por outros galegos”.

“Quando eu tinha oito anos, descascava um saco de batatas todas as noites e lavava a louça”, diz ela hoje, de 55 anos. “Mas isso foi feito graças à minha mãe, ela foi quem mais trabalhou”, resgata Carmen com os olhos cheios de lagrimas.

O lugar está cheio de recantos e passagens secretas. Carmen revela o segredo que marca o amor de sua mãe pelo bar, aos poucos ela foi construindo no sótão do bar sua própria moradia, mesmo tendo casa própria no bairro vizinho de Barracas, Manuela ficava quase a semana toda ali.

Carmen traz também lembranças de outros tempos: “Este era um bar masculino até 40 anos atrás. As poucas mulheres que compareceram aqui, o faziam acompanhadas”, afirma.

“Lembro-me de quando aqui se reuniam os estivadores (trabalhadores do porto) … alí chegavam os capatazes para contratar eles. Outros dos clientes habituais eram os curas da Igreja San Pedro Telmo e a torcida organizada do clube de futebol do bairro, do clube San Telmo (apelidados Os Candomberos), se misturavam naquele encontro sagrado para beber o Vermout das 5 da tarde. Por aqueles tempos os bares El Caracol e El Aconcagua (já desaparecidos) junto a “El Federal” e “La Coruña” eram os pontos de encontro no bairro de San Telmo.

– ¿Você acha que este tipo de bodegón (boteco) sobreviverá?

– Não sei … Porque os velhos estão indo embora, e daí? … Eu continuo, mas não tenho filhos. Se alguma coisa acontecer comigo, tudo acaba … Não tenho irmãos.

– Se fosse apenas pelos consumidores atuais, você acha que conseguiria continuar?

– Muitas pessoas gostam do autêntico. Este tipo de empresa familiar é um pouco como uma casa, você se interessa pela vida do próximo, os clientes vêm aqui para contar seus assuntos. Não é um local com perfil puramente comercial … dá para ver que tem gente que gosta, que se sente bem … Tem outros lugares onde você só vai comer ou beber: aqui tem contato entre as pessoas.

– Por que tantos jovens em um bar antigo?

– Porque é autêntico. As prateleiras, tudo a decoração está aqui desde a primeira época. Algumas mesas foram renovadas, mas o balcão é o mesmo de sempre, e é isso que o povo sente, sensações acontecem quando eles percebem que é assim.

– Você mudaria o mobiliário?

– Não, tem coisas que jamais trocaria porque tem gente que adora este tipo de bar, se sente diferente, eles não procuram só um bar quando vão para um bar.

Em sua sala foram filmadas cenas de três filmes, como “O Sonho dos Heróis”, de Sergio Renán, baseado no romance homônimo de Adolfo Bioy Casares, “Buenos Aires vice-versa” dirigido por Alejandro Agresti e “A sorte está lançada”.

A Nova Coruña – (2015)


Em março de 2013, Carmen, filha dos fundadores, não tinha como sustentar o trabalho diário, muito menos pagar os últimos reajustes de aluguel exigidos pelos proprietários do imóvel, que são os mesmos que administram o vizinho Mercado de San Telmo.

“Como o vizinho Mercado tinha problemas de vazamento no teto, tiveram que consertar o telhado. Eles me pediram para esvaziar o sótão. Ainda tenha o baú que trouxemos da Espanha lá. Aí me falaram que eu também tinha que tirar o balcão do bar, porque queriam reformar o piso. Foi aí que desisti”, declarou Carmen.

Ela fechou o bar e entregou as chaves à administração do mercado. Meses depois ela faleceu.

O local permaneceu fechado desde então até que “La Nueva Coruña” foi inaugurada em 28 de março de 2015, um empreendimento da uruguaia Andrea Gallero que também possui uma loja dentro no Mercado de San Telmo. As reformas foram realizadas sob a supervisão do artista Darío Glodier Biedma, que também foi o promotor do retorno de outro clássico em San Telmo: o Bar Britânico.

Saigon Bar – (2017)


O destino de “La Nueva Coruña” duraria apenas 2 anos. Em 2017, foi instalado o Saigon Bar, um reduto de comida vietnamita. Desde o início do boom turístico quase metade do público de San Telmo é estrangeiro e essa nova proposta veio para atender a essa demanda. É um pouco chocante que a identidade de um Bar Notável com mais de 50 anos de história tenha sido invadida pela cultura de uma gastronomia estrangeira, que poderia ficar mais afim em outros bairros de Buenos Aires como Palermo Hollywood ou Las Cañitas.

Alguns dos elementos decorativos da antiga Coruña foram integrados às novas instalações, enquanto outros desapareceram. Os novos proprietários abriram uma porta que dá para o mercado e mantiveram o nome do seu antecessor pintado nas janelas de guilhotina. O mezanino onde Manuela dormia desapareceu. Mesmo que conservaram a sua imponente escada em caracol de ferro, hoje: paradoxalmente, não leva a lugar nenhum.

A cortina pintada numa temática oriental pouco tem a ver com um Bar Notável da cidade de Buenos Aires

A Lei dos Bares Notáveis aprovada pelo Legislativo Municipal diz: “Será considerado notável, aquele bar, bilhar ou confeitaria relacionados a eventos ou atividades culturais de relevância; aquele cuja antiguidade, projeto arquitetônico ou a relevância local, confiram pra ele seu próprio valor. ”

Junto com o Tortoni, El Banderín, El Federal e La Giralda, entre tantos outros, La Coruña fazia parte da seleta lista de Bares Notáveis de Buenos Aires; a partir desses dias, ao igual que os extintos: Bar Richmond, o Argos, o Izmir e a Queen Bess, passará a fazer parte daqueles que deixaram de brilhar na vida e tradição de Buenos Aires.

Na antiga “La Coruña” nunca houve reformas ou restaurações e, de fato, a proprietária Manuela falava que mudaria alguma coisa, só quando quebrar ou parar de funcionar. Os vizinhos lembram Manuela de ir de mesa em mesa com a lentidão típica dos astronautas que flutuam além da lei da gravidade. Mas os clientes em vez de reclamar do tempo perdido, ficavam gratos por ela ter sido sempre tão gentil.

 

fonte:

  • https://elsoldesantelmo.wordpress.com/2008/04/14/la-coruna-el-autentico-bodegon-de-barrio/
  • https://www.lanacion.com.ar/buenos-aires/bar-la-coruna-un-pedazo-de-historia-que-baja-su-persiana-nid1561729/
  • https://turismo.buenosaires.gob.ar/es/article/bares-notables

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