BAR NOTABLE “GATO NEGRO”: Uma verdadeira festa para os sentidos e a imaginação

Aquela esquina que sempre cheira bem, exoticamente boa, localizada no meio da Avenida Corrientes 1600, em meio a brilhantes marquises de teatros, livrarias, lojas de discos, pizzarias e restaurantes. Sua boiserie refugiada nas paredes, balcões e prateleiras que, estando tão bem conservados, parecem novos; mas carregam a azáfama de 90 anos de história.

O Gato Negro faz parte da identidade da cidade, a ponto de ser declarado Sítio de Interesse Cultural pela Legislatura da Cidade Autônoma de Buenos Aires. Além disso, é considerado Bar Notável, categorização concedida pela Comissão de Proteção aos Cafés Notáveis, Bares, Bilhar e Confeitaria da Cidade.

O Gato Negro

Av. Corrientes 1669


Era outubro de 1928 quando o espanhol Victoriano López Robredo resolveu levantar, pela primeira vez, as venezianas do armazém que, naquela época, ficava no mesmo quarteirão, mas a poucos metros do atual lote localizado a 1669 da rua Corrientes; como os portenhos gostam falar: a rua que nunca dorme. Chamava-se La Martinica e só vendia especiarias. Corrientes era uma rua estreita que já sonhava com envergadura estelar. A primeira expansão, ocorrida em 1936, estendeu-se esparsamente desde a rua Uruguai ate Paraná, concluindo bem perto da porta de entrada envidraçada do famoso lugar onde era possível comprar especiarias tão pouco convencionais como se fosse no próprio Grande Bazar de Istambul. O Gato Preto foi salvo da demolição, a rua foi ampliada sacrificando as construções da margem oposta.

A vitrine atua como um verdadeiro ímã

“Para mim é uma responsabilidade maior ter El Gato Negro. Por isso decidimos mantê-lo como era nas suas origens. Ter 90 anos e manter as instalações nas mesmas condições de quando foi inaugurado é um grande compromisso”, reconhece o proprietário que se orgulha de continuar usando o mesmo torrador de café que é parte inseparável do negócio há nove décadas.

Jorge Crespo é a terceira geração responsável pelo negócio: “Sou irmão, por parte de mãe, do único neto de Victoriano, o fundador. Victoriano teve um filho chamado Benigno Andrés López Robredo. Por sua vez, Benigno teve um filho com minha mãe, cujo nome era Diego. Todos os três morreram. É por isso que sou a terceira geração desta casa. A quarta é formada por meus filhos que já estão trabalhando aqui”.

Cada história tem um porquê. As paixões também. “Victoriano viveu por quarenta anos no Ceilão, em Cingapura e nas Filipinas. Ele era empregado de uma empresa britânica e viajava pela Malásia e pela Manchúria. Ele era um passageiro frequente nessas travessias de onze dias no Expresso Transiberiano. Em uma dessas viagens, levou em consideração o desenho de um gato sentado com laço estampado no cardápio da sala de jantar, onde nasceu o símbolo do nosso negócio. Quase por acaso, como costumam ser as grandes descobertas.

Se Buenos Aires teve duas fundações sob a tutela de Pedro de Mendoza e Juan de Garay; para Jorge Crespo, El Gato Negro tinha três, um a mais que a cidade onde nasceu: “O primeiro é o de Victoriano, há 90 anos, quando conheceu uma argentina com quem se casou, veio morar aqui, e abriu o negócio para sobreviver, a segunda foi quando Benigno Andrés, seu filho, assumiu o cargo, Benigno era um engenheiro, um homem muito inteligente que decidiu deixar a profissão para colocar todas as suas energias na empresa.

Benigno López Robledo criando as misturas de especiarias cujas receitas continuam-se mantendo até hoje

A grande mudança que moderniza a empresa vem das ideias trazidas por Benigno Andrés: “Produziu uma mudança substancial no final dos anos 60. Ele criou as misturas de temperos que até hoje são oferecidas. Além disso, ele era o responsável pelo livro de receitas”. Nas páginas desse livro de receitas, você encontrará uma descrição de todas as especiarias, seu potencial na cozinha e até mesmo seus poderes de cura. “O livro de receitas está com 30 anos e as pessoas continuam comprando, embora também possa ser baixado do site. Além disso, inclui uma tabela de usos e espécies que Benigno Andrés também fez. Com ela, o local deixa de ser uma loja de bairro para ser transformada em uma casa de especiarias de alto nível”.

A terceira fundação da casa aconteceu há vinte anos quando se decidiu implementar a modalidade de cafetaria na espaçosa sala de estar rodeada de potes de especiarias e dar aos clientes a possibilidade de degustar doces e salgados.

Segredos e sabores


De domingo a domingo, tudo é vendido a granel, a peso, e em estritas condições de qualidade superior. “Estamos na memória coletiva por causa das especiarias, essa é a nossa força”, explica o proprietário. 100 variedades de especiarias e 20 tipos de chás constituem um leque de opções muito sedutor que, juntamente com os cafés, fazem deste local um local imprescindível para os apreciadores de paladares rigorosos.

Entre as estrelas está o seu famoso açafrão: “Quem realmente quiser o açafrão tem de vir aqui. O açafrão é muito caro e muito fácil de adulterar, como todas as especiarias. Por exemplo, se 250 gramas forem misturados com pimenta de semolina, ninguém percebe. O sabor da pimenta é tão marcante que pode ser camuflado assim”. De qualquer forma, um comensal exigente sabe apreciar a autenticidade dos sabores que aqui se oferece sem trapaças ou adulterações.

As bancadas são de carvalho, assim como as prateleiras onde estão os potes com as especiarias preciosas; o chão tem bons e sóbrios mosaicos calcários.

Uma elegante escada de madeira leva ao primeiro andar, onde são ministradas aulas sobre o uso adequado de especiarias; ali funciona a oficina. Enquanto no porão, aquela alquimia mágica e inebriante da moagem acontece.

Corrientes se hierarquiza com a presença desta casa, que com sua qualidade foi a primeira a apresentar ao país os produtos da parisiense Fauchon.

O Gato Negro: Um clássico com 90 anos de edade


Além dos sabores requintados, El Gato Negro possui mixers para gerar combinações de especiarias. O pau de canela do Ceilão é exposto em uma grande jarra. O tamanho e o aroma são surpreendentes. “São sete padrões de qualidade, este é mais alto. Muita gente se espanta com a clareza. E sim, porque é o melhor.

Quando você vê uma canela muito escura, a de sempre, não é de qualidade. Os curry são outras das nossas joias. Temos sete variedades, além de outras que não estão catalogadas como tal, mas que também são curry, como a marinada de churrasco, que é uma mistura de especiarias. Na verdade, na Índia, o curry é considerada uma mistura de especiarias”, explica este apaixonado empresário de quase 70 anos. Os cafés e chás são imperdíveis. O chá verde com laranja e gengibre é um dos blends da nossa própria fábrica e, talvez, o mais solicitado pelos frequentadores. Tudo é exposto e conservado em potes. Adquirir as latas para guardar em casa faz parte do ritual.

Bebidas como “Paulina Singerman com Martini Branco”, “Pedro Cuartucci com Gancia Americano” e “Alfredo Palacios com Gancia Red Bitter” são obrigatórios na hora do vermute. El Gato Negro apresenta seus famosos chás picantes, chá verde e mate cozido como opção. As medialunas, brownies, quadrados (maçã e coco), bolos ou strudel de maçã satisfazem os paladares mais exigentes. Bons sanduíches, refrigerantes e bebidas alcoólicas clássicas completam o cardápio.

Uma esquina boêmia


De acordo com a sua localização perto dos teatros, boa parte da clientela e amigos da casa, são artistas. “Mora Godoy e Cecilia Rosseto vêm com frequência. E Menchi Sabat doou um de seus desenhos dedicado ao Centro Astor Piazzolla que costumava se reunir aqui.”

Uma vez por semana El Gato Negro oferece um show musical, na privacidade de sua bela sala de estar

O Gato Negro não tem clientes, mas fãs. Tanto que quando correu o risco de ser fechada, porque os proprietários queriam vender o imóvel, se organizaram de tal forma que a comoção impediu a mudança. “Alugamos e não temos condição para comprar este prédio. Quando a família Bengolea quis vender, o movimento da mídia e dos clientes fez com que a operação fosse paralisada. Até montaram grupos nas redes sociais exigindo que não nos expulsassem. Por fim, foi vendido para um grupo empresarial conosco lá dentro. Essas pessoas já me disseram que seus netos vão alugar para nossos netos. Isso me deu muita tranquilidade”.

Os turistas são atraídos pela fama deste lugar único no mundo. “Eles tiram fotos de cada um dos detalhes do local”. Apresentações de livros e discos, shows e uma galeria de artes visuais que se renova mensalmente compõem o cardápio adicional de um espaço que também lida com divulgação cultural. “Muitos escritores apresentam aqui os seus livros, simplesmente porque os escreveram numa das nossas mesas”, orgulha-se o proprietário.

Quem é essa estátua que está na frente do Gato Negro?


A estátua é de “Minguito Tinguitella”, personagem de cinema e televisão estrelado por Juan Carlos Altavista, que foi um dos comediantes mais queridos da cultura popular. O personagem “Minguito” adquiriu grande fama nas décadas de 70 e 80, embora sua origem tenha sido no final dos anos 50 no rádio.

Desta forma, “Minguito” já tem o seu merecido reconhecimento na Av. Corrientes da cidade de Buenos Aires, como já tiveram outras grandes figuras populares, entre elas, o “Contra” de Juan Carlos Calabró, Don Mateo, Tato Bores, Alberto Olmedo, Javier Portales e Sandro.

 

fonte:

  • https://www.donvictoriano.com.ar/
  • https://turismo.buenosaires.gob.ar/es/article/bares-notables
  • https://www.lanacion.com.ar/lifestyle/el-gato-negro-90-anos-cafes-especias-nid2182193 \ Crédito: Pablo Mascareño – Hernán Zenteno

 

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