Fortalezas em Santa Catarina: Os sistemas de defesa marítima do Brasil

A Ilha de Santa Catarina era um ponto de defesa estratégico, localizada exatamente na rota entre a Espanha e suas principais colônias na América do sul, Buenos Aires Assunção. Nesse cenário, o conjunto de fortes da Ilha de Santa Catarina compôs à época um sistema defensivo para impedir uma provável invasão espanhola, que mais cedo ou mais tarde haveria de acontecer, como aconteceu de fato.

Construídas pela Coroa Portuguesa a partir de 1739, com a função de guarnecer a entrada da Barra Norte da Ilha, as fortalezas de Santa Cruz de Anhatomirim, Santo Antônio de Ratones e São José da Ponta Grossa foram projetadas por José da Silva Paes, brigadeiro, engenheiro militar e primeiro governador da capitania de Santa Catarina. As obras deram início ao sistema defensivo da Ilha, que posteriormente foi ampliado com outras dezenas de fortificações, como fortes, baterias e trincheiras.

O sistema de fortificações na Ilha de Santa Catarina garantia a posse do território defendendo-a contra qualquer nação inimiga, em especial, a Espanha e o apoio logístico entre o Rio de Janeiro (onde Portugal tinha o seu vice-reinado) e a parte sul do continente. Quatro fortalezas foram construídas inicialmente, entre 1739 e 1744, incluindo também a edificação da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba, na Barra Sul.

Santa Catarina chegou a somar cerca de 40 fortificações até o início do século XIX. Porém, ainda na primeira metade daquele século, a maioria das construções já havia desaparecido, por arruinamento, abandono ou demolição. Mesmo o tombamento como patrimônio histórico brasileiro, em 1938, pelo Sphan, (atual IPHAN), não foi suficiente para assegurar a preservação ou a recuperação dessas construções.

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) completou, em 21 de novembro de 2019, quatro décadas à frente da gestão das fortalezas da Ilha de Santa Catarina. Os canhões, as guaritas, a casa de pólvora e tantos outros elementos que compõem as fortalezas atraem milhares de turistas brasileiros e estrangeiros todos os anos. Em 2018, a Universidade registrou 196 mil visitantes nas três unidades sob sua responsabilidade.

Na década de 1970, o Iphan começou as obras de restauro na Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim e, ao fim da década, a UFSC assumiu a tutela do monumento por meio de um convênio assinado entre a Universidade, o Iphan e a Marinha do Brasil. Em 1979, num antecedente que não tem precedentes, dentro e fora de Brasil, uma Universidade perante todas as dificuldades financeiras e logísticas conseguiu assumir um patrimônio dessa magnitude.

A fortaleza foi aberta à visitação pública em 1984. Sete anos mais tarde, as fortalezas de Santo Antônio de Ratones e São José da Ponta Grossa passaram à guarda da UFSC, tendo sido abertas ao público em 1992.

A maioria das visitações se dá por meio de passeios de escunas, que partem do trapiche no centro, sob a ponte Hercílio Luz, da Praia do Sambaqui ou da Praia de Canasvieiras. As construções mais significativas deste período são as fortalezas de Santa Cruz de Anhatomirim, de São José da Ponta Grossa e de Santo Antônio de Ratones, que formavam o triângulo defensivo da Baía Norte da Ilha de Santa Catarina. Posteriormente, foram construídos os fortes de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba, de Santa Bárbara da Vila, São João, Lagoa, São Francisco Xavier e São Luiz (estes quatro últimos já desaparecidos), além da Bateria de São Caetano  da Ponta Grossa  e do Forte Marechal Moura de Naufragados.

Fortaleza de Santo Antônio de Ratones

Na baía norte de Florianópolis existem duas ilhas irmãs chamadas de Ilha do Ratones Grande, sendo a maior das duas, e a chamada Ratones Pequeno. A Ratones Grande é mais ampla e elevada que a Ratones Pequeno e possui 600 metros de extensão, enquanto a Ratones Pequena possui 400 metros de extensão. Essas ilhas sempre foram visitadas por sua boa água, pela madeira de qualidade e por suas terras férteis. A ilha maior é recoberta de vegetação e tem na sua parte norte um pequeno porto. Na encosta deste porto, foi construída no século XVIII, a Fortaleza de Santo Antônio. Esta Fortaleza tinha por finalidade guardar a entrada da Barra Norte da Ilha de Santa Catarina. Tombada pela União em 1938 e restaurada em 1991, recebe muitos visitantes do Brasil e de outros países.

A Fortaleza de Santo Antônio de Ratones é o terceiro vértice no triângulo defensivo projetado pelo brigadeiro José da Silva Paes para defender a entrada norte da Ilha de Santa Catarina. A construção da fortaleza começou em 1740 e foi concluída quatro anos mais tarde na ilha de Raton Grande, nome dado pelo explorador espanhol Cabeza de Vaca por a ilha se assemelhar ao formato de um rato.

Contam os rumores que durante a invasão espanhola de 1777, quatro tiros foram disparados pela fortaleza contra a esquadra inimiga. Mas foi em vão, já que a ilha foi tomada sem grandes resistências. Quando os espanhóis devolveram a ilha à Coroa Portuguesa por meio do Tratado de Idelfonso, as fortalezas caíram em descrédito e foram praticamente abandonadas. Ratones volta a ser utilizada somente em 1893 durante a Revolução Federalista, quando os rebeldes contrários ao governo de Floriano Peixoto usavam as instalações como abrigo. O Governo tomou posse novamente da fortaleza e, depois de expulsar os revoltosos, entregou a fortaleza à Marinha Brasileira. Esta usou a fortaleza de Santo Antônio de Ratones como Lazareto, local onde se abrigava pessoas com doenças contagiosas, e permaneceu em tal função até o século XX.

Quando a campanha para a restauração da fortaleza começou, foram encontradas duas ossadas humanas atrás dos Quartéis de Oficiais. Assustados, os trabalhadores se recusaram a continuar a restauração. Por meio de investigações arqueológicas, descobriu-se que as ossadas pertenciam a dois de doze sepultamentos que ocorrem enquanto a fortaleza era utilizada como lazarento para portadores de cólera. Em 1938, a Fortaleza de Santo Antônio de Ratones foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Após a UFSC tomar posse da gerência da fortaleza, por meio do Projeto Fortalezas em 1990, Ratones teve seu processo de restauração iniciado e concluído no ano seguinte.

O Laboratório de Fotovoltaica, do Grupo de Pesquisa Estratégica em Energia Solar da UFSC, implantou na Fortaleza de Santo Antônio um sistema de geração de energia utilizando painéis fotovoltaicos que convertem a radiação solar em energia elétrica. A ilha de Ratones Grande, onde está edificada a fortaleza, é uma reserva de mata nativa. Para preservar este ecossistema, a Universidade passou – após dez anos de uso de geradores a óleo diesel – a ter energia elétrica totalmente limpa e renovável, empregada em serviços de manutenção, bombeamento de água, iluminação de segurança e iluminação de valorização do monumento histórico.

Fortaleza de Santa Cruz  de Anhatomirim

Nesta ilha rochosa foi construída, no século XVIII  uma das mais imponentes fortalezas do sul do Brasil: a de Santa Cruz de Anhatomirim, hoje restaurada constitui-se como uma das mais expressivas atrações turísticas de Florianópolis.

A fauna marinha é rica, com ouriços, estrelas-do-mar e peixes variados. Uma das grandes atrações são os muitos golfinhos que nadam em suas águas. Três pequenas praias arenosas completam o seu litoral. Seu relevo é bastante modesto: a altitude máxima é de 31 metros acima do nível do mar e a vertente norte apresenta o mais forte declive. Entre a ilha e o continente a profundidade é inferior a 5 metros, sendo intenso o processo de sedimentação.

A Fortaleza está localizada na Ilha de Anhatomirim, na entrada da Baía Norte, Município de Governador Celso Ramos, Santa Catarina, foi a principal fortificação do antigo sistema defensivo da Ilha de Santa Catarina, projetada e construída pelo brigadeiro português José da Silva Paes a partir de 1739.

Em 1938, a Fortaleza de Anhatomirim foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, permanecendo anos em total abandono até ser redescoberta e restaurada nas décadas de 70 e 80, quando passou à guarda e manutenção da Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente, as fortalezas catarinenses, gerenciadas pela Universidade Federal, constituem-se num dos maiores e mais bem conservados conjuntos de arquitetura militar do Brasil, e um dos principais pontos de atração turística de Santa Catarina.

A Fortaleza de Anhatomirim foi sede do primeiro governo da Capitania de Santa Catarina, a primeira a ser adotada pela UFSC, em 1979, e também a primeira a ser restaurada. Além disso, recebe hoje aproximadamente 65% do contingente de mais de 200 mil pessoas de todo o mundo que visitam as fortalezas anualmente.

Fortaleza de São José da Ponta Grossa

Depois de ter sido abandonada no final do século 19, quando moradores da região norte da Ilha chegaram a usar pedaços da antiga estrutura na construção de suas residências, a Fortaleza de São José da Ponta Grossa foi finalmente tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1938. Mas somente em 1976 as ruínas começaram a ser limpas da vegetação, e algumas estruturas como as imponentes muralhas, a Casa do Comandante e a Capela precisaram ser consolidadas antes dos trabalhos de restauração.

Desde 1992, a UFSC é responsável pela restauração, conservação e administração do conjunto arquitetônico colonial construído entre 1740 e 1744.

A fortaleza está localizada na Ilha de Santa Catarina, na direção norte, aproximadamente a 25 quilômetros do centro da cidade. Estrategicamente situada no alto do morro da Ponta Grossa, emoldurada pela beleza dos costões e a areia da Praia do Forte. Esta fortaleza configurava o segundo vértice do triângulo de fogo idealizado pelo Brigadeiro Silva Paes. Teve o início de sua construção em 1740 e foi concluída em quatro anos. Em 1765, para completar a sua defesa no flanco leste, foi construída a Bateria São Caetano projetada pelo Sargento-mor Francisco José da Rocha durante o governo de Francisco de Souza e Menezes, localizada junto à Praia de Jurerê, a 200 metros da fortaleza.

Após a invasão espanhola de 1777, a Fortaleza de São José da Ponta Grossa foi praticamente abandonada e somente quando foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1938, que começou a receber pequenas obras de restauração.

A Fortaleza de São José da Ponta Grossa é um harmonioso conjunto arquitetônico circulado por espessas muralhas. A edificação mais significativa é a Casa do Comandante, construção de dois pavimentos que, curiosamente abriga também o paiol da pólvora.

A Capela é a única fortificação do sistema defensivo da Ilha de Santa Catarina que foi reconstruída.  Em 1987, a área foi cadastrada como sítio arqueológico e em 1990 a UFSC conclui o processo de prospecção arqueológica. Hoje temos uma exposição permanente montada com alguns dos artefatos encontrados nas escavações.

Em 1992, o Projeto Fortaleza conseguiu restaurar a maioria de seus edifícios. No processo de restauração buscou reconstruir a volumetria dos edifícios, seus vão originais e coberturas, preservando elementos remanescentes e as intervenções ocorridas ao logo de sua história. Ficam evidentes as técnicas e materiais utilizados na reconstrução, e o visitante pode discernir entre o original e o restaurado.

Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba

A Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba foi a quarta e última das fortalezas idealizadas pelo brigadeiro português José da Silva Paes. Construída na Ilhota de Araçatuba, entre os anos 1742 e 1744, a Fortaleza foi a única destinada a proteger a entrada da Baía Sul da Ilha de Santa Catarina.

Serviu também de prisão em várias oportunidades, inclusive no período republicano. Em 1894, por determinação ministerial de 28 de agosto, esta fortificação, que também era chamada de Fortaleza da Barra do Sul, passou a denominar-se Forte de Araçatuba.

Em seu projeto original, destaca-se a bateria principal de canhões de formato circular, situada na posição mais elevada do conjunto. Apesar dos reparos que esta Fortaleza sofreu em 1780 e 1850, encontrava-se bastante arruinada, conforme relatório de 1899. A Fortaleza de Araçatuba foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1980, recebeu escoramentos e consolidações emergenciais em 1991 e encontra-se atualmente em processo de restauração.

A Fortaleza está localizada na Ilha de Araçatuba, na entrada da Barra Sul da Ilha de Santa Catarina, Município de Palhoça. Pode-se chegar a essa Fortaleza por meio da BR-101, acesso à Praia do Sonho, ou indo até o final do acesso à Caieira da Barra do Sul, na Ilha de Santa Catarina. Nos dois casos, há barcos particulares disponíveis por pescadores da região para a travessia até Araçatuba. A ilha não possui trapiche ou praia, sendo que o desembarque só é possível com tempo bom.  Entretanto, não é um passeio oficial já que o forte pertence ao Exército Brasileiro e é considerada uma área de preservação. Além disso, não está em um bom estado de conservação e não tem estrutura para receber visitantes. Não é aconselhável ir nadando, apesar de ficar a 1 km da Praia de Naufragados, pois o mar é aberto e as correntes são muito fortes.

Forte de Santana do Estreito

O Forte de Santana foi construído no estreito entre as baías Norte e Sul, em 1761. Integrava o conjunto de defesa da Vila de Nossa Senhora do Desterro, completado em 1793, com a construção do Forte de São João na margem oposta, no Continente. Durante a Revolta da Armada e a Revolução Federalista, entre 1893 e 1894, o forte chegou a trocar tiros com a esquadra rebelde que tomou a capital, sendo bombardeado pelo cruzador República. Os estragos foram consideráveis.

Depois de 1907, serviu como estação meteorológica e, mais tarde, foi abandonado e utilizado como residência por pessoas de baixa renda, até ser tombado e restaurado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1938 e repassado à Polícia Militar de Santa Catarina.

Desde 1975, abriga o Museu de Armas da PM Major Lara Ribas, que exibe armas históricas, peças centenárias recolhidas pelo major entre 1938 e 1945, réplicas de fardamentos, fotografias e insígnias, entre outros objetos. A visitação ao forte e ao museu é gratuita, mas é necessário agendamento com antecedência para visitas guiadas.

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É um forte simples, com apenas uma plataforma com uma guarita e uns sete canhões. Uma pequena construção abrigava o Quartel da Tropa, a Casa do Comandante, a cozinha e o paiol. Em um prédio anexo, funciona desde 1975, o Museu de Armas Major Antônio de Lara Ribas, da Polícia Militar de Santa Catarina, que tem um acervo de 250 armas brancas e de fogo, desde as antiquíssimas até as mais recentes.

Um relato até hoje não confirmado dá conta de que o alferes Joaquim José da Silva Xavier, posteriormente conhecido como Tiradentes, o mártir da Inconfidência, teria servido no Forte de Santana no período entre 1777 e 1779. Foi como oficial mandado pela corte portuguesa para o reforço do contingente de defesa da Ilha de Santa Catarina contra novas invasões espanholas.

 

fonte:

  • https://www.vitruvius.com.br
  • http://www.vivendofloripa.com.br
  • https://www.guiafloripa.com.br
  • http://www.ipatrimonio.org
  • http://www.formarte.com.br
  • https://fortalezas.ufsc.br
  • https://www.mineirosnaestrada.com.br

 

 

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